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ALEGORIA TOTALITÁRIA

Jacques Cazeaux, “Philon d'Alexandrie” (Cerf, 1984)

Então, a interpretação alegórica atinge um nível de incandescência totalmente novo. Não se trata mais de “salvar” do absurdo ou do escândalo alguma passagem escabrosa, obscura para nós ou trivial, ou talvez em flagrante contradição com a experiência e com a ciência. Trata-se, ao explicar a Bíblia pela Bíblia, de fazer aparecer o motivo coerente de sua trama sem defeitos, única e variada ao mesmo tempo. O princípio fundamental de uma alegoria totalizante é a crença na harmonia universal, numa espécie de gravitação; cada uma das células da Bíblia encerra virtualmente em si a figura completa do discurso bíblico na sua integridade: as leis, a Torá (história e legislação)… Uma leitura que siga as boas regras de intercâmbio entre os textos poderá servir-se habilmente dos procedimentos da alegoria filosófica.

De uma forma mais livre, o ambiente judaico de Alexandria já havia trabalhado nesse sentido. A Carta de Aristeas e, sobretudo, o livro da Sabedoria, admitido mais tarde entre os livros inspirados, mostram esse desejo de explicação global. Os capítulos 10 a 19 do livro da Sabedoria contêm um midras do Êxodo de tipo alegórico. E, por outro lado, como os capítulos 1 a 5 têm como pano de fundo o início do Gênesis, podemos nos perguntar se o autor da Sabedoria não teria querido reunir este díptico da revelação, como Fílon frequentemente tenta fazer. Acrescentemos que os capítulos 6 a 10 da Sabedoria comentam a oração do rei Salomão com um tom de franca inspiração estoica, como o próprio Fílon.

Mas Fílon consegue uma síntese mais específica e mais estranha de todos esses ingredientes, apesar de esse movimento já estar surgindo no judaísmo. Por isso, em vez de calcular abstratamente as dívidas de Fílon, vamos oferecer uma noção dessa alegorização totalizante, a partir de um texto propriamente judaico, muito conhecido, aliás, como é o midras da noite pascal, tal como se lê em um targum. Aqui está o texto; observaremos imediatamente até que ponto ele prefigurar a própria liturgia pascal dos cristãos.

* EXEGESE EX 12,42

* OBRA DA EXEGESE

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