PATROLOGIA DAVI MARIA
José A. de Aldama — Maria na Patrística dos séculos I e II Contribuição e tradução de Antonio Carneiro
3.4. A ascendência davídica de Maria Este parece ser o momento oportuno para recolher o que se pensava no século II sobre a origem davídica de Maria. Como vimos, tanto São Irineu quanto Justino afirmam sem discussão que Maria procedia da casa de David. Ambos vem precisamente nesse fato o cumprimento das profecias e das promessas que foram feitas aos patriarcas, e em especial ao próprio rei-profeta.
Santo Inácio parece supor obviamente essa mesma ascendência davídica, ainda que expressamente não o digaCf. Ephes. 18,2; Trall. 9,1; Smirn. 1,1. Segundo uns fragmentos de Hegesipo, conservados por Eusébio, os parentes de Jesus passavam correntemente por pertencer à casa de David. Cf. Eusébio, História eclesiástica 3,20,1-2; 3,32,3-5; 2,23,14: “Die Griechischen Christlichen Schriftsteller (GCS)” EUS 2,1 (9,1) 2328, 268,170; PG 20,252s, 281s, 196s. Mas Hegesipo não explica por onde vem a Jesus a descendência davídica.. Mais explícito parece ter sido o “Diatessaron” de TacianoEm Lc 2,4 pode-se ler: “Os dois eram da casa de David” (“Diatessaron Tatiani” , ed. Ortiz de Urbina (Biblia Polyglota Matritensis, ser.VI, Matriti 1967) 210). Vide Santo Efrém, “Commentarium in Diatessaron” 1,25 (edic. Leloir): SC 121, 57-58. Cf. Zahn, “Forschungen” 1, 118 e 88.. Igualmente a carta apócrifa aos Coríntios que copiam as “Acta Pauli” :
O Senhor nosso Jesus Cristo nasceu de Maria, da semente de David…“Epist. Pauli ad Corinthios” 5-6: “Papyrus Bodmer” X-XII,35. Nas “Acta Theclae” volta a aparecer a mesma idéia (L.Vouaux, “Les Actes de Paul” (Paris 1913) p.148).
“A Natividade de Maria” o dá também certamente“Natividade de Maria” 10,1 (De Strycker, p.110; BAC 148 p.153). O livro, fonte única para os nomes dos pais de Maria (Joaquim e Ana), ao falar destes, não diz expressamente que foram da família de David. essa posterior precisão a fez explícita no “Pseudo Mateus” 1,1 (BAC 148 p.184): “Iochin ex tribu Iuda” , e os escritos que dependem dele.. Certo que neste último caso pretendeu Zahn ver uma interpolação posterior. Mas, como o demonstrou Bauer, não se trata de uma frase isolada, mas sim de uma ideia subjacente ao longo de toda a narração, o que faz impossível a interpolação supostaZahn, “Forschungen” 6, 330 nota; W.Bauer, “Das Leben Jesu im Zeitalter der neutestamentlichen Apokryphen” p.13 nota 2. Nota-se aliás que a existência da frase no texto do papiro Bodmer faz a interpolação mais ainda inverossímel..
Entretanto encontramos antes a mesma ascendência davídica em Maria na “Ascensão de Isaías”“Ascencio Isaiae” 11,2: ed. Tisserant, p.203. :
Vi uma mulher da família do profeta David, cujo nome era Maria (…); e estava casada com um varão com nome de José (…), também da linhagem de David
Os “Testamentos dos XII Patriarcas” enunciam idêntica persuasão“Test. Ioseph” 19,8 (“Testamenta XII Patriarcharum” ed. M. de Jonge (Leiden 1964) p.78). sobre o velho problema da dupla procedênciado Messias (Levi-Judá) segundo os Testamentos, vide recentemente F.B.Braun, “Les Testaments des XII Patriarches et le problème de leur origène” : RevBibl 67 (1960) 523-543; no sentido diferente W. Bauer, o.c., p.12-13.:
E vi que de Judá nasceu uma Virgem, que levava um vestido de linho fino; dela nasceu um cordeiro sem mancha
Neste tempo conhecemos a opinião contrária unicamente a da “Carta de Barnabé” , que, em sua paixão anti-judaica, parece negar, não já de Maria, mas sim do próprio Jesus, a descendência davídica:
Como queira, pois, que haveriam de dizer que Cristo é Filho de David, o próprio david, temendo e compreendendo o extravio dos pecadores, profetiza e diz: Disse o senhor a mim Senhor… Olha como david o chama de Senhor e não o chama filho“Epistula Barnabae” 12, 10-11: FlPatr 1,56; BAC 65 p. 797s..
Mas, ainda neste caso, o autor só tem à vista uma filiação davídica que negue a filiação divinaP.Prigent (“L’Epître de Bernabé I-XVI et ses sources” (Paris 1961) p.123-126) acaba de dar outro sentido à passagem.. É o caso da pergunta feita aos Judeus pelo próprio Jesus (Mt 22,42s)Citou-se também como contrária, mas sem razão convincente 1 Clementis 32..
Contrária era também, ao que parece, segundo dissemos, a opinião dos ebionitas. À ela deve referir-se OrígenesCf. “In Mt Commentarium” 16,12: GCS Or 10 (40) 513; PG 13, 1413 A. quando escreve:
“Verum occurrunt nobis quidam quaestiones acerbissimas commoventes, quomodo videatur Christus descendere ex semine David, quem constat non esse ex Ioseph natum; in quem Ioseph series ex David descendentis generationis adducitur ”“Commentarium in epist. ad Romanos” 1,5:PG 14,850..
Orígenes, que prefere dar uma solução a base de interpretação alegórica do texto de São Paulo, que está comentando, nos conserva, no entanto, a solução que se costumava dar então à dificuldade: a descendência de david vem a Jesus por Maria, que tinha que ser da casa de David ao estar em matrimônio com José, quem certamente o era, como o provam as genealogias. Nem se acreditava então que fora uma dificuldade insuperável o parentesco de Maria com Isabel (Lc 1,36), que era da tribo de Levi; pois não todo parentesco arguía necessariamente comunidade de triboIb., 851.
Se realmente os ebionitas arguiam assim contra a concepção virginal, explica-se bem a insistência de São Irineu em afirmar que Maria era da casa de David.
O problema e a solução voltarão a repetir-se não poucas vezes depois. Mas, entretanto, resulta claro que nos dois primeiros séculos se afirmava correntemente a ascendência davídica de Maria.
Notas:
