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Resumo versão em espanhol

Comentário ao Cântico dos Cânticos de Orígenes: Hermenêutica Alegórica e Inovação Mística

  • Consideração de Jerônimo sobre o Comentário ao Cântico como obra-prima de Orígenes
    • Observação de que, com suas outras obras, Orígenes superou a todos, mas com este Comentário, superou a si mesmo.
    • Aplicação de princípios hermenêuticos de modo particularmente acertado a serviço de ímpeto místico profundo e novidade destinada a vida exuberante nas letras cristãs de seu tempo.
  • Necessidade inerente de interpretação alegórica do Cântico dos Cânticos no sentido cristão
    • Observado apenas pela letra, canto de amor entre esposos reais não apresenta justificativa para inclusão entre livros divinamente inspirados.
    • Exegeta antigo Teodoro de Mopsuéstia, ao impugnar exegese alegórica no século V, viu-se forçado a negar também caráter inspirado do livro.
    • Tradição judaica já interpretava Cântico como diálogo amoroso entre esposo Javé e esposa Israel.
    • Cristãos adaptaram e fizeram sua esta interpretação, identificando esposo com Cristo e esposa com Igreja, apoiando-se em imagem paulina de Efésios.
    • Comentário cristão mais antigo, de Hipólito, anterior ao de Orígenes, baseava-se inteiramente nesta tipologia, sem indícios de interpretação literal.
  • Gênese e transmissão da obra origeniana sobre o Cântico
    • Interesse de Orígenes concretizou-se em série de homilias e extensa coleção de dez livros, composta por volta do ano 240.
    • Comentário precedido de prefácio particularmente desenvolvido, examinando problemas preliminares antes da interpretação efetiva.
    • Jerônimo traduziu ao latim as duas primeiras homilias; Rufino de Aquileia traduziu parte preliminar do comentário até Cântico 2,15, distribuída em quatro livros, incluindo prólogo extenso.
    • Filocalia, antologia de Basílio de Cesareia e Gregório de Nazianzo, conservou passagem do comentário original relativa a Cântico 1,5.
    • Procópio de Gaza utilizou amplamente comentario origeniano, aduzindo passagens com muitas soluções de continuidade, embora com abreviações.
  • Características e avaliação da tradução latina de Rufino
    • Rufino exerceu grande liberdade tradutória, podando aparato erudito que Jerônimo admirava, por considerá-lo inútil para leitor latino pouco versado em filologia.
    • Orígenes considerava sistematicamente variantes de outras traduções gregas (Áquila, Símaco, Teodócion) além dos Setenta; Rufino omitiu este trabalho, citando apenas algumas variantes de exemplares latinos.
    • Perda do aparato filológico é considerada muito grave.
    • Em compensação, tradutor acrescentou aclarações próprias, geralmente meramente explicativas, para esclarecer pontos obscuros ou equívocos do texto grego.
    • Liberdade de Rufino não falseou sentido do discurso origeniano, permitindo seguimento satisfatório, se não perfeito.
  • Metodologia exegética de Orígenes no Comentário: atenção à letra como fundamento
    • Interpretação de cada versículo ou grupo inicia-se com breve comentário de caráter literal, aspecto pioneiro cuidado por Orígenes.
    • Destaca caráter dramático do canto, com alternância contínua de personagens: esposa, esposo e, às vezes, companheiros de ambos.
    • Descreve minuciosamente e com pontualidade contínuas mudanças de cena, considerando por vezes amplos trechos do texto sob aspecto literal para estabelecer particularidades.
    • Fundamenta interpretação alegórica em consideração atenta à letra do texto bíblico, considerando indispensável determinar com exatidão base literal para encaminhar justamente alegoria.
    • Aumento de interesse pela verificação da letra do texto paralelamente à interpretação espiritual esmerada.
  • Dupla linha de interpretação espiritual: tipológica e psicológica
    • Interpretação espiritual desenvolvida sistematicamente em duas linhas que se cruzam, mas permanecem bem diferentes.
    • Primeira linha é interpretação tipológica herdada da tradição: esposa e esposo como figura de Igreja e de Cristo, respectivamente.
    • Segunda linha representa grande novidade e teria muito sucesso: interpretação de sentido psicológico, vendo no esposo a Cristo e na esposa alma que tende a Ele.
    • Ambas as linhas propõem interpretação de outros personagens com base nestas identificações.
  • Natureza complementar das duas interpretações e seus temas fundamentais
    • Interpretação de tom comunitário (tipológica) e de caráter individual (psicológica); para Orígenes, salvação e perfeição de cada alma realizam-se na Igreja.
    • Ordem de introdução das duas interpretações não é regular: às vezes tipológica segue literal; outras vezes, mais raramente, psicológica segue literal.
    • Dois fios considerados distintos por serem articulados sobre temas diferentes.
    • Tema fundamental da interpretação tipológica é contraste entre Israel e Igreja cristã, entre Antiga e Nova Aliança.
    • Amigos do esposo simbolizam profetas; filhas de Jerusalém simbolizam povo de Israel que não aceitou mensagem de Cristo.
    • Particularidades do discurso interpretadas para ressaltar superioridade do esposo: seu aroma, seu peito são melhores que perfumes e vinho da lei e profetas.
    • Esposo oferece objetos de ouro à esposa, enquanto profetas ofereceram objetos de material parecido com ouro com bordados de prata.
    • Para Orígenes, Igreja existe desde sempre, desde começo do mundo, sempre em espera de Cristo; chegada de Cristo em carne significou passagem da idade infantil à adulta, da imperfeição da lei à perfeição da graça.
  • Tema fundamental da interpretação psicológica: progresso espiritual e união mística
    • Distinção entre incipientes simples e perfeitos, introduzida para ressaltar como cada cristão deve sentir empenho de progredir para unir-se mais a Cristo.
    • Cada cristão deve tornar-se como Esposa do Cântico.
    • Descrever doçura da união como meta a tender com todo o ser suscita em Orígenes entusiasmo autêntico que se concretiza em aberturas místicas de grande sugestão.
    • Temas como sentidos espirituais, ferida de amor e desposórios místicos são centrais.
    • Esposa vista como expressão de alma perfeita que chegou ao momento de união definitiva com Logos divino.
    • Donzelas que rodeiam esposa representam almas ainda imperfeitas, que correm atrás do aroma do esposo mas ainda não lograram reunir-se com Ele.
    • Donzelas estão na fase de adesão ao Cristo encarnado, enquanto esposa já aderiu à divindade do Logos.
    • Estado de tensão dinâmica caracteriza relação entre Logos e alma: alma que mais progrediu, se não permanecer atenta e não chegar a conhecer-se a si mesma, pode perder estado privilegiado.
    • Advertências à esposa para proteger sua própria condição.
    • Exigência de que alma perfeita esteja sempre disponível para progresso de outras almas: esposa também corre atrás do perfume do esposo, seja por precisar progredir, seja para ajudar donzelas, almas menos perfeitas.
  • Estilo e características literárias do Comentario ao Cântico
    • Comentários escriturísticos de Orígenes, devido à extensão, muitas vezes são dispersos, refletindo intenção de ensino com caráter improvisado e alternativo.
    • Pertencem a gênero literário sui generis, literatura escolástica bíblica, com elocução própria.
    • Apresentam contínuas digressões, ampliações anômalas de temas particulares, repetições que evocam voz viva do mestre em contexto escolar.
    • No Comentario ao Cântico, destacam-se contextos em que exegeta detém-se excessivamente para desenvolver ponto particular.
    • Exemplo: explicação de esposa ser negra e bela (Cântico 1,5), recorrendo a vários passos das Escrituras que falam positivamente de homens e mulheres desta cor.
    • Mesmo procedimento para interpretar raposas pequenas (Cântico 2,15).
    • Amplas compilações sobre gradações do amor (Cântico 2,4) e sobre conhecimento de si mesmo (Cântico 1,8).
  • Unidade estrutural, tom espiritual e legado histórico da obra
    • Estrutura geral do Comentario ao Cântico é fundamentalmente homogênea e orgânica, articulada sistematicamente sobre dois grandes temas (tipológico e psicológico).
    • Esta característica distingue bem este Comentario de outros que chegaram até nós, determinando unidade de tom dificilmente reconhecível em outro lugar.
    • Homogeneidade e manutenção de tom beneficiam desenvolvimento de toda obra, especialmente componente místico, acentuado por reiteração variada dos mesmos motivos.
    • Caráter de altíssima espiritualidade impregna toda obra de Orígenes.
    • Sucesso da obra foi imenso, sendo presença constante para todos comentaristas posteriores do Cântico.
    • Duas interpretações, tipológica e psicológica, geralmente não reaparecem justapostas como Orígenes as colocou.
    • Alguns preferiram tipologia tradicional, mas sem poder subtrair-se à influência da interpretação psicológica, como Teodoreto entre gregos e Gregório de Elvira entre latinos.
    • Interpretação psicológica suscitou maior interesse: Gregório de Nissa fundamentou inteiramente nela seu comentário; Gregório Magno, grande parte do seu.
    • Na Idade Média, destaque para Bernardo de Claraval.
    • Para além do âmbito exegético específico, Comentario ao Cântico de Orígenes marcou ponto fundamental na história da mística ocidental, influenciando até Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz.

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