CONHECER E SER
René Guénon: CONHECIMENTO E CONSCIÊNCIA
Assim, quando afirmamos que o “conhecer” e o “ser” são as duas faces de uma mesma realidade, é necessário entender o termo “ser” apenas em seu sentido analógico e simbólico, uma vez que o conhecimento vai além do Ser; ocorre aqui como nos casos em que falamos da realização do ser total, uma vez que essa realização implica essencialmente o conhecimento total e absoluto, e não é de modo algum distinta desse mesmo conhecimento, na medida em que se trate, evidentemente, do conhecimento efetivo, e não de um simples conhecimento teórico e representativo. E é aqui que se deve precisar um pouco, por outro lado, a maneira como é necessário entender a identidade metafísica do possível e do real: uma vez que todo possível se realiza pelo conhecimento, essa identidade, tomada universalmente, constitui propriamente a verdade em si, já que esta pode ser concebida precisamente como a adequação perfeita do conhecimento à Possibilidade total. Percebe-se sem esforço todas as consequências que se podem extrair desta última precisão, cujo alcance é imensamente maior do que o de uma definição meramente lógica da verdade, já que aqui está toda a diferença entre o intelecto universal e incondicional e o entendimento humano com suas condições individuais, e também, por outro lado, toda a diferença que separa o ponto de vista da realização do de uma «teoria do conhecimento». A própria palavra “real”, habitualmente muito vaga, inclusive equívoca, e que o é forçosamente para os filósofos que mantêm a pretensa distinção entre o possível e o real, assume aqui um valor metafísico completamente diferente, ao referir-se a esse ponto de vista da realização, ou, para falar de maneira mais precisa, ao tornar-se uma expressão da permanência absoluta, no Universal, de tudo aquilo cuja posse efetiva um ser alcança pela total realização de si mesmo.
Roberto Pla: Introdução a sua tradução anotada do Viveka-Suda-Mani
O Conhecimento, quando é completo, quando compreende a totalidade de nosso ser e de nosso convencimento, é em si mesmo um princípio transformador, uma caudalosa corrente que inunda todos os nossos falsos componentes de ignorância e deixa a descoberto a Realidade, sumo e compêndio de toda a religiosidade verdadeira. É este encontro com a Realidade ou, melhor ainda, é este descobrir que um É a Realidade mesma, o que povoa a ação religiosa e permite encher de conteúdo os passos da própria vida. É certo que para conseguir uma identidade entre Ser e Conhecer, identidade mediante a qual o Conhecimento comporta uma virtualidade regeneradora, é necessário que o ato discriminativo venha acompanhado do cumprimento de certas prescrições morais, mas ainda sendo importantes em sua função purgativa, não são as que podem conduzir ao regaço da Realidade, senão única e exclusivamente o Conhecimento obtido por conta da prática persistente e total do discernimento. As práticas da generosidade, das virtudes purificadoras, tidas como mandamento de ação decisiva em qualquer outro contexto religioso e incluso a inserção apaixonada do próprio Ser na busca da Realidade, são unicamente chaves indispensáveis mas complementares para que o Conhecimento, em lugar de ser mero saber filosófico da mente, se converta em um fogo devorador e transformante, capaz de proporcionar a necessária e ansiada plenitude interior. Em definitivo, o que Sankara aporta é um grito de íntima alegria, que profetiza e explica que o emprego justo da inteligência — e essa e não outra é a via do Conhecimento que expõe e desenvolve —, é a única tarefa liberadora que cabe ao homem sobre a terra. Uma tarefa que, embora árdua e difícil, enche a vida do homem de um conteúdo espiritual que outorga por si mesmo um sentido pleno ao fato de viver.
Mario Ferreira dos Santos: COMO CONHECER O SER?
Em face dessa meditação, a primeira pergunta que se deve logo colocar a quem a realiza é: como podemos conhecer o Ser? As respostas a esta pergunta já as estudamos na “Gnoseologia”.
Ora, o objeto da Ontologia é o Ser, mas o ser o temos em tudo quanto é, em tudo quanto não é nada. Portanto, o ser o encontramos em tudo, até no fenomênico. Neste caso, a Ontologia encontra bases para realizar suas investigações e essas bases não se afastam de todo o existir.
O ser se nos revela em nossas menores experiências. E os primeiros filósofos gregos o procuravam, na observação dó mundo material, buscando com sua simbólica, o que apontasse a arque, ser, principio de todas as coisas, cujos estudos já fizemos, quais do examinamos as filosofias do incondicionado, em “Filosofia e Cosmovisão”. É um erro pensar que existisse aí apenas uma física e não uma metafísica. O não clarear-se do conceito de metafísica levou a muitos a ver nas especulações dos pré-socráticos apenas uma finalidade: a de compreender o mundo físico. E tal se dá por uma deficiente apreciação das estruturas esquemáticas da cultura grega e, sobretudo, da sua simbólica, não compreendendo que o helênico costumava apontar, com conceitos existenciais concretos, o que se refere ao ontológico. A deficiência de um vocabulário filosófico estruturado, levou-os, naturalmente, a usar termos das experiências existenciais-concretas para formular o que as ultrapassava: o mundo transfísico.
Uma análise cuidadosa da obra dos pré-socráticos, como ainda faremos, nos dará uma visão clara do pensamento genuinamente científico e genuinamente metafísico, que vem desde Hesíodo até Platão.
A visão hilozoísta dos gregos, a divinização do existir, como predicado do ser, impelia-os a buscar os referentes que a simbólica do acontecer apontava, e se ela não era suficiente para levá-los mais longe no estudo das leis do espírito, no entanto preparava o advento de Platão, Sócrates e finalmente Aristóteles, a quem, caberia a construção, em linhas sólidas, regulares e monumentais, da Ontologia.
Posteriormente, a Ontologia poderia procurar outras vias, como a captação de nosso ser na presença do ser. Mas é fazendo cooperar as verdades materiais, as lógicas, as formais e as ontológicas, que obteremos um critério capaz de nos guiar na apreciação dos temas ontológicos, que é uma cooperação dialética de vias para o estudo mais cuidadoso e seguro.
Se a Ontologia se coloca: a) na aceitação; como é comum, da identificação das leis do pensar e das leis do ser, como o afirmam os idealistas, que aceitam a identificação do ser com o pensamento (enquanto pensamento aceitamos, enquanto ato de pensar, distinguimos); ou b) pelo menos um parentesco entre essas duas ordens, ou seja, uma analogia, como o aceitam outros, como os realistas, etc., de qualquer forma, as reflexões, o método reflexivo, por seu processo sintético-analítico e analítico-sintético partindo tanto da expediência exterior como da interior, é o método indicado para tal estudo.
Mas a necessidade de distinguir-se o ato de pensar (que é psicológico, como já vimos em nossos livros anteriores) e o pensamento, que é o ser, a penetração no ser, no pensamento, como a captação deste, dependerão do funcionamento do ato de pensar. Há, assim, razão da parte das real-idealistas, quando afirmam que o mundo objetivo é modelado por nós. Neste caso, a nossa capacidade de assimilação, que depende dos nossos esquemas acomodados, nos dará uma captação condicionada do ser. Conhecemos e desconhecemos. Mas, pelo que conhecemos, podemos decadialeticamente construir o que desconhecemos. E se do que desconhecemos não nos é possível uma intuição de ordem puramente intelectual, há outras, fundadas no próprio operatório, mas sem dispensar a profundidade de nossa afetividade, que se podem conquistar, como a decadialética já nos mostrou.
Entretanto, ainda cabe dizer que não se pode, ou melhor ainda, não se deve encarcerar a Ontologia dentro de um método estabelecido a priori. A própria experiência filosófica, no seu processo, revelará sempre novos e bons caminhos (meth odes) segundo os progressos que conheça o pensamento humano.
Se aplicamos a decadialética, como método concrecional das positividades, não consideramos encerradas aí as possibilidades, pensamentais num terreno tão fértil, e tão grande como o do ser, que abarca tudo. Por tomar a decadialética uma atitude de suspicácia obstinada contra todo abstratismo, toda forma viciosa, afigura-se-nos o método mais eficiente, mas, por outro lado, sujeito a novas conquistas, que a postulação futura dos temas ontológicos poderá oferecer.
Fundada como deve estar na nossa experiência, e como essa abrange um campo eminentemente vasto, e como as possibilidades, neste sector, escapam a qualquer prévia delimitação, está sempre aberto o campo para novos caminhos e, nesta obra, teremos ainda oportunidade de examinar muitos oferecidos pela filosofia moderna, que exigem lhes concedamos nossa melhor atenção.
