Ciência e Tradição
NICOLESCU, Basarab. La science, le sens et l’évolution: essai sur Jacob Boehme suivi d’un choix de textes. Paris: Ed. du Félin, 1988.
V O encontro inesperado: ciência e Tradição
a) Distinções necessárias: as palavras “ciência” e “Tradição”
O debate sobre o encontro contemporâneo entre ciência e Tradição é fértil em múltiplas confusões e recuperações, tendo se tornado “moda”.
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A competência (ou incompetência) da maioria dos participantes é surpreendente, com não cientistas falando sobre física quântica e autores que nada sabem sobre a Tradição opinando com total segurança.
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Tudo já foi afirmado nesse campo, desde a proclamação de uma identidade entre a visão de mundo da Tradição e a ciência até a declaração da ausência de qualquer ponte possível entre elas.
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O debate tem o mérito de evidenciar um problema real, pois a ciência fundamental mergulha suas raízes no solo fértil das interrogações comuns a todos os domínios do conhecimento.
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As inúmeras confusões são em parte inevitáveis, pois ciência moderna e Tradição são domínios de complexidade extraordinária, tornando a busca por seus vínculos um problema por excelência transdisciplinar.
A significação da palavra “tradição” obscurece singularmente o debate.
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A acepção usual (costume, hábito, herança do passado) não é a adotada no debate ciência-Tradição, mas pode se introduzir insidiosamente, gerando associações políticas indesejadas.
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A segunda acepção (conjunto de doutrinas e práticas religiosas ou morais transmitidas de século em século) é a única adaptada ao contexto, escrevendo-se “Tradição” com maiúscula para evitar a primeira acepção.
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Antoine Faivre propõe uma tripla distinção das vias contemporâneas da Tradição: a via severa ou purista (Tradição “primordial” e de “origem não humana”, com René Guénon), a via histórica (ênfase nos modos de emergência através das tradições) e a via humanista ou alquímica (aberta à modernidade, à Natureza, à cultura e à ciência).
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É a terceira via da Tradição, da qual Jakob Boehme é um ilustre precursor, que interessa no contexto do encontro entre ciência moderna e Tradição.
A expressão “ciência moderna” é menos ambígua, mas também presta a múltiplas confusões.
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Confunde-se metodologia científica com teoria científica, teoria científica com interpretação de uma teoria científica, ciência com cientismo e ciência fundamental com tecnologia.
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Fala-se mais propriamente em “ciências” (extraordinária variedade de domínios com autonomia quase absoluta), cujas intersecções (fronteiras férteis) não asseguram a unidade da ciência.
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A hipótese dos “thema ta” de Gerald Holton (pres supostos ontológicos, estáveis, antigos, persistentes e em número restrito) oferece uma justificativa para se falar em unidade da ciência como uma boa hipótese de trabalho.
A metodologia científica é única e invariante desde Galileu, podendo mudar um dia apenas sob a pressão de uma necessidade absoluta dos fatos experimentais.
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A teoria científica, ao contrário, caracteriza-se por sua mudança perpétua, com domínios de validade limitados, sendo a grandeza da ciência residir justamente nessa mudança perpétua.
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Uma teoria científica tem seu próprio formalismo e resultados, mas sua interpretação ontológica escapa à ciência atualmente, sendo a confusão entre teoria e interpretação ontológica capaz de levar às piores confusões.
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A ciência moderna não tem meios de pretender ser o único meio de acesso à verdade (scientismo), que é uma ideologia nascida do fantasma do poder absoluto do homem, hoje obsoleta nas ciências exatas, mas reforçada nas ciências humanas.
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A tecnologia é uma filha bastarda da ciência fundamental, com um pé no conhecimento e outro em alhures, sendo a demarcação entre ambas cada vez mais difícil, mas não inexistente.
b) Ciência e Tradição: distância intransponível ou interação?
Uma distância intransponível parece separar ciência e Tradição à primeira vista.
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A conhecimento tradicional é fundado na revelação, na contemplação, na percepção direta da Realidade, enquanto o conhecimento científico é fundado na compreensão pelo mental, por construções lógicas e matemáticas.
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A pesquisa tradicional valoriza o corpo, a sensação, os sentimentos e a fé, enquanto a pesquisa científica exclui o próprio corpo do pesquisador, suas sensações e sua fé do domínio da observação.
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A pensamento tradicional afirma que a Realidade não está ligada ao espaço-tempo, enquanto o cientista postula uma Realidade “objetiva” separada e definida no espaço e no tempo.
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A pesquisa tradicional reclama o direito à experiência incomunicável e à ineficácia no plano da materialidade espaço-temporal, enquanto a ciência se interessa pelo “corpo exterior” e pela eficácia máxima.
O ensino de Jakob Boehme, com sua teoria da dupla natureza da Natureza, fornece uma possibilidade de abordagem rigorosa da relação entre ciência e Tradição.
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A ciência fundamental, tal como praticada hoje, está concernida apenas pelas três primeiras qualidades do ciclo septenário, situando-se resolutamente na “roda da angústia”.
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A metodologia científica (separação entre sujeito e Natureza) é a condição fundamental do sucesso da ciência, mas também o que limita seu alcance.
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A Tradição está concernida pela totalidade do ciclo septenário e pela interação entre todos os ciclos septenários agindo nos diferentes cosmos.
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O cientismo consiste na absolutização da primeira tríade do ciclo septenário, negando as outras quatro qualidades e reduzindo a Realidade a um único nível horizontal, onde a “roda da angústia” não é mais uma etapa, mas o próprio movimento.
A relação entre ciência e Tradição é evidente: uma não tem sentido sem a outra.
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Reduzir o ciclo septenário à sua primeira tríade leva ao desaparecimento do movimento e a uma realidade autodestrutiva.
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Privar o ciclo septenário do conhecimento da primeira tríade leva à impossibilidade da continuação do movimento e do verdadeiro cumprimento do ciclo.
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Os pontos de contato entre ciência e Tradição só podem ser encontrados nos axiomas fundamentais da ciência ou em seus resultados mais gerais (interpretação das teorias científicas).
A emergência da física quântica, com a descoberta de um nível de Realidade diferente do nível macrofísico, constitui um fato maior.
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Na grade de leitura boehmiana, isso significa a interação entre ciclos septenários situados em níveis diferentes de Realidade, com ruptura e continuidade simultâneas.
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A lógica que rege o mundo quântico (unidade dos contraditórios) revela uma parentela entre a lógica quântica e a pensamento tradicional, onde os themata aparecem como facetas de um símbolo.
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O aproximação entre o pensamento científico contemporâneo e o pensamento simbólico tradicional é uma encontro maior, onde o que a Tradição descobre na vida interior, a ciência descobre, por isomorfismo, na corporeidade dos sistemas naturais.
A unificação das interações físicas e a coerência entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande são signos, por isomorfismo, de uma unificação e coerência ainda mais profundas.
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O valor do diálogo entre ciência moderna e Tradição não está na identificação abusiva entre resultados científicos e afirmações da pensamento tradicional, mas na interação onde a Tradição se nutre da ciência e a ciência toma seu sentido pela interação com a Tradição.
