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Gouillard

Jean Gouillard, Petite Philocalie

Diadoco de Photiki — CEM CAPÍTULOS SOBRE A PERFEIÇÃO ESPIRITUAL

3. O mal não está na natureza e ninguém é mau por natureza, pois Deus nada fez de mau. Portanto, quando alguém, por sua concupiscência, conduz ao estado de forma aquilo que não tem substância, isso começa a ser aquilo que sua vontade o faz ser. Importa, pois, por um cuidado constante da lembrança de Deus, negligenciar o hábito do mal, pois a natureza do bem é muito mais forte que o hábito do mal, visto que uma é, ao passo que o outro só existe no ato.

4. O livre-arbítrio consiste na disposição da vontade racional a mover-se para seu objeto. Persuada-se, pois, essa vontade a não ter disposição senão para o bem, a fim de arruinar, a todo momento, pelas boas reflexões, a lembrança do mal.

5. …A ciência é o fruto da oração e de uma grande paz unida a uma completa ausência de inquietação; a sabedoria, o fruto de uma humilde meditação das palavras de Deus e, antes de tudo, da graça do Dispensador, o Cristo.

6. …Reconhecer-se-á, pois, sem risco de erro, a qualidade da palavra divina quando se consagrarem as horas em que não se deve falar a um silêncio livre de cuidados e acompanhado de uma ardente lembrança de Deus.

7. Perscrutai o abismo da fé: ele faz avolumar suas ondas; considerai-o numa disposição de simplicidade: é a calmaria. O abismo da fé, o Lete em que se esquecem os pecados, não tolera ser considerado por pensamentos indiscretos. Naveguemos em suas águas com a simplicidade do espírito, a fim de assim abordar o porto da vontade divina.

8. …Purificando-nos por uma oração mais ardente, entraremos na posse do objeto desejado, graças a Deus, por uma experiência mais plena.

9. O combatente deve conservar em todo tempo sua inteligência serena, para que o espírito possa discernir os pensamentos que a sulcam, guardar aqueles que são bons e enviados por Deus nos tesouros da memória, e rejeitar para fora dos depósitos da natureza os pensamentos funestos e demoníacos…

10. São bem raros aqueles que conhecem exatamente suas próprias quedas e cujo intelecto jamais se deixa arrebatar à lembrança de Deus…

11. …Se sua Divindade, a do Espírito Santo, não ilumina poderosamente os tesouros de nosso coração, torna-se impossível saborear com um sentimento indizível, isto é, com uma disposição inteira.

12. O sentimento é a degustação segura, pelo intelecto, do objeto discernido…

13. Quando nosso intelecto começa a perceber a consolação do Espírito Santo, é então que Satanás, durante o repouso noturno, no momento em que se inclina para uma espécie de sono muito leve, consola a alma por um sentimento de falsa doçura. Se o intelecto se encontra vigorosamente preso, por uma lembrança ardente, ao santo nome do Senhor Jesus, e faz desse santo e glorioso nome uma arma contra a ilusão, o artífice da mentira se retira, mas para empreender uma guerra aberta contra a alma. O intelecto então reconhece a fraude do Maligno, além de progredir na experiência do discernimento.

14. A boa consolação ocorre quer o corpo esteja desperto, quer ainda se prepare para entrar numa espécie de sono, quando alguém adere, por assim dizer, ao amor de Deus por uma lembrança ardente. A consolação mentirosa ocorre sempre, como foi dito, quando o combatente é tomado por um sono leve, tendo apenas uma meia lembrança de Deus. A primeira, sendo de Deus, quer evidentemente, por uma profunda distensão da alma, convidar ao amor a alma do combatente da devoção. A segunda, cuja natureza é arejar a alma por uma brisa de mentira, empreende furtar, em favor do sono do corpo, a experiência sentida daquele que guarda intacta a lembrança de Deus.

Se o intelecto se encontra, como foi dito, numa lembrança atenta do Senhor Jesus, armado da graça e da firmeza que lhe dá sua experiência, dissipa essa brisa da doçura mentirosa do inimigo e, alegre, trava combate contra ele.

33. Se a alma, por um movimento seguro e sem imagens, se inflama de amor por Deus e arrasta, por assim dizer, o próprio corpo para as profundezas desse amor indizível — quer o corpo daquele que é movido pela santa graça esteja desperto ou entre em sono, como foi dito — e não tem outro pensamento senão o termo do movimento que a transporta, sabei que se trata da operação do Espírito Santo. Pois, inteiramente alegrada por essa suavidade inexprimível, torna-se-lhe impossível conceber qualquer coisa então, tão elevada está por uma alegria indizível.

Se o intelecto concebe, nessa moção, a menor dúvida ou algum pensamento impuro, ainda que tenha recorrido ao santo nome para repelir o mal e não unicamente por amor a Deus, cumpre concluir que essa consolação, sob sua aparência de alegria, vem do Mentiroso. Essa alegria indecisa e desordenada é a daquele que quer arrastar a alma ao adultério. Quando ele vê o intelecto fortalecido por sua experiência sentida, convida a alma por certas consolações enganosas, a fim de que, relaxada por essa vã e branda doçura, não reconheça a mistura de mentira. É por isso que se discernirá o espírito de verdade daquele da mentira. Pois é impossível saborear intimamente a bondade divina ou experimentar conscientemente a amargura dos demônios se não se tem a certeza absoluta de que a graça estabeleceu sua morada no fundo do intelecto, enquanto os espíritos maus circulam ao redor dos membros do coração. Isso é o que os demônios gostariam a todo custo de ocultar aos homens, a fim de que o intelecto, devidamente informado, não possa munir-se contra eles da lembrança de Deus.

36. Que ninguém, ao ouvir falar do sentimento do intelecto, espere uma visão da glória de Deus. Diz-se que a alma, uma vez purificada, sente numa degustação inexprimível a consolação divina; não se diz que objetos invisíveis lhe apareçam, pois “é a fé que guia nossa marcha, e não a plena visão” (2 Coríntios 5:7). Se, pois, um dos combatentes vê alguma forma ígnea ou alguma luz, que não aceite essa visão. Trata-se de um engano do inimigo. Muitos foram vítimas disso por ignorância e se afastaram do caminho reto.

37. Que o intelecto, quando começa a ser movido frequentemente pela luz divina, se torne inteiro transparente a ponto de ver em alto grau sua própria luz, é impossível duvidar. Isso ocorre quando a potência da alma se tornou senhora das paixões. Mas tudo o que se mostra ao intelecto sob uma forma qualquer, luz ou fogo, provém das maquinações do adversário. O divino Paulo ensina-o claramente quando diz que “ele se disfarça em anjo de luz” (2 Coríntios 11:14). Portanto, que não se abrace a vida ascética movido por uma esperança dessa natureza… mas o objetivo único é chegar a amar Deus em toda intimidade e plenitude de coração…

38. A vista, o gosto e os outros sentidos relaxam a memória do coração quando deles se faz uso sem discrição. Nossa mãe Eva no-lo ensina. Enquanto ela não olhou com complacência a árvore do mandamento, guardou cuidadosamente a lembrança do preceito divino. Por isso, ainda ao abrigo, por assim dizer, das asas do amor divino, ignorava sua nudez. Mas, quando olhou a árvore com complacência, tocou-a com grande concupiscência e, finalmente, provou de seu fruto com vivo prazer, no mesmo instante foi tomada pelo desejo da união carnal, entregando-se à paixão por causa de sua nudez. Abandonou seu desejo ao gozo das coisas presentes, misturando Adão à sua própria queda pela doce aparência do fruto.

Eis por que o intelecto humano tem dificuldade em lembrar-se de Deus e de seus mandamentos. Quanto a nós, não cessemos de fixar nossos olhos no abismo do coração numa lembrança incessante de Deus e percorramos esta vida amiga da mentira como se fôssemos cegos. É próprio da sabedoria verdadeiramente espiritual cortar sem cessar as asas de nosso desejo de ver. Jó, o homem das mil provações, no-lo ensina: “se meu coração seguiu meus olhos” (Jó 31:7). Essa disposição é o índice de uma perfeita temperança.

57. Aquele que, em todo tempo, habita em seu coração emigra inteiramente dos agrados desta vida. Caminhando segundo o espírito, não pode conhecer as concupiscências da carne. Faz suas idas e vindas na fortaleza das virtudes, e as virtudes são, dir-se-á, as guardiãs da fortaleza de sua pureza. Por isso também as maquinações dos demônios são impotentes contra ele, ainda que os dardos do amor vil cheguem até as seteiras da natureza.

58. …Escaparemos a essa tibieza e a essa moleza se impusermos ao nosso pensamento limites muito estreitos, fixando unicamente o pensamento de Deus. Somente remontando assim ao seu fervor é que o intelecto poderá desprender-se dessa agitação irracional.

59. O intelecto exige absolutamente, quando tapamos todas as suas saídas pela lembrança de Deus, uma atividade que ocupe sua diligência. Dar-se-lhe-á, pois, o “Senhor Jesus” como ocupação única, inteiramente correspondente ao seu fim. “Ninguém, está escrito, pode dizer Senhor Jesus, senão sob a ação do Espírito Santo” (1 Coríntios 12:3). Mas que ele não cesse de considerar com todo o rigor possível essa palavra em suas moradas interiores, para não desviar-se para imaginações. Pois quem repassar sem repouso esse nome santo e glorioso no mais profundo de seu coração chegará também a ver, um dia, a luz de seu intelecto. Retido com severo cuidado na alma, ele consome toda impureza na superfície da alma, com um sentimento poderoso. “Nosso Deus, diz a Escritura, é um fogo que devora” (Deuteronômio 4:24). Por isso, o Senhor convida a alma a um poderoso amor de sua glória. Esse nome glorioso e todo desejável, fixado no coração ardente pela memória do intelecto, faz nascer uma disposição a amar em todo tempo sua bondade, sem encontrar doravante impedimento. Eis aí a pérola preciosa que se pode adquirir vendendo todos os bens e cuja descoberta proporciona uma alegria inenarrável.

60. Uma é a alegria do principiante, outra a do perfeito. A primeira não está isenta de imaginação; a segunda tem a potência da humildade. A meio caminho encontram-se a tristeza amada por Deus e as lágrimas sem dores… Por isso, a alma deve ser primeiramente chamada ao combate pela alegria inicial, depois retomada e provada pela verdade do Espírito Santo, pelos pecados que cometeu e pelas dissipações de que ainda se torna culpada… Provada, por assim dizer, no crisol da divina repreensão, a alma adquirirá, numa fervorosa lembrança de Deus, a operação da alegria sem fantasmas.

61. Quando a alma é perturbada pela cólera, obscurecida pelos vapores da embriaguez ou atormentada por uma tristeza malsã, o intelecto é incapaz, por mais violência que se lhe faça, de dominar a lembrança do Senhor Jesus. Inteiramente ensombrecido pela violência das paixões, torna-se absolutamente estranho ao seu próprio sentido. O desejo não encontra onde aplicar seu selo, de modo que o intelecto guarde presente a imagem de sua meditação, tão endurecida se encontra a alma pela aspereza das paixões.

Que a alma saia disso: ainda que o objeto de seu desejo lhe tenha sido por pouco tempo roubado pelo esquecimento, de imediato o intelecto retoma, com sua diligência costumeira, a caça do objeto soberanamente desejado e salvador. Pois a alma tem então a graça que a exercita a clamar e clama com ela: “Senhor Jesus”; assim como a mãe ensina e repete com seu lactente a palavra “papai”, até que ele tenha contraído o hábito de chamar o pai, mesmo dormindo, de preferência a qualquer outro balbucio infantil. Como diz o Apóstolo: “Do mesmo modo, também o Espírito vem em auxílio de nossa fraqueza, pois não sabemos o que nos convém pedir em nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Romanos 8:26). Também nós estamos na infância no que concerne à virtude da oração e precisamos sempre de seu auxílio, para que todos os nossos pensamentos sejam contidos e suavizados por sua suavidade inexprimível e para que nos voltemos de todo o coração para a lembrança e o amor de Deus, nosso Pai. É nele que clamamos quando ele nos ensina a chamar sem trégua: “Abba, Pai” (Romanos 8:15).

68. Na maioria das vezes, nosso intelecto suporta dificilmente a oração por causa do estreitamento extremo da virtude da oração; em contrapartida, entrega-se com alegria à teologia por causa dos grandes espaços abertos das contemplações divinas. Para impedi-lo de querer falar demais e para não permitir que, em sua alegria, queira voar além de seus meios, apliquemo-nos com maior frequência à oração, à salmodia, à leitura das Santas Escrituras, sem negligenciar as investigações dos sábios cujas palavras são garantias de sua fé. Fazendo isso, não misturaremos nossas próprias palavras à linguagem da graça e não deixaremos que a vanglória arraste nosso espírito na agitação de uma verbosidade excessiva. Ao contrário, no tempo da contemplação, mantê-lo-emos ao abrigo de toda imaginação e acompanharemos assim de lágrimas quase todos os nossos pensamentos. Repousado na hora do recolhimento e penetrado sobretudo pela doçura da oração, o intelecto não apenas escapará às causas supraditas, mas se renovará cada vez mais para entregar-se aos pensamentos divinos pronta e sem dificuldade, ao mesmo tempo que progredirá na contemplação numa disposição de discernimento muito humilde. Cumpre saber, todavia, que há uma oração para além de toda liberdade: ela é a parte daqueles que foram preenchidos pela santa graça num sentimento de certeza absoluta.

69. Quando a alma se encontra na abundância de seus frutos naturais, ela amplifica o registro de sua salmodia e prefere a oração vocal. Quando é movida pelo Espírito Santo, salmodia com toda remissão e doçura, e ora unicamente com seu coração. A primeira disposição acompanha-se de uma alegria misturada de imaginação; a segunda, de lágrimas espirituais e, depois, de uma alegria ávida de silêncio. Pois a lembrança, guardando seu fervor graças à discrição da voz, prepara o coração para produzir pensamentos misturados de lágrimas e doçura. É então, de fato, que se podem ver semeadas com lágrimas na terra do coração as sementes da oração, na esperança das colheitas futuras. Todavia, quando estamos esmagados por uma grande tristeza, é preciso elevar um pouco a voz de nossa salmodia, fazendo vibrar a alma sob o arco alegre da esperança, até que essa pesada nuvem se dissipe aos acentos da melodia.

70. A palavra de ciência ensina que existem, por assim dizer, duas raças de espíritos maus. Uns são como que mais sutis; outros, mais materiais. Os mais sutis atacam a alma; os outros cativam a carne por meio de consolações gordas. Assim, uma hostilidade recíproca e constante opõe os demônios que se ligam ao corpo e aqueles que atacam a alma, embora compartilhem o mesmo desígnio de prejudicar a humanidade. Portanto, quando a graça não habita no homem, eles aninham-se nas profundezas do coração, como serpentes, sem deixar a alma dirigir seu olhar para o lado do desejo do bem. Quando a graça se esconde no intelecto, eles sulcam as partes do coração, semelhantes a nuvens, e tomam a forma de paixões pecaminosas e de distrações multiformes, a fim de arrancar o intelecto de sua familiaridade com a graça, distraindo a memória. Portanto, quando os demônios que perturbam a alma nos inflamam para as paixões da alma, sobretudo o orgulho, pai de todos os pecados, humilhemos o inchaço da vanglória pensando na futura dissolução de nosso corpo. Proceder-se-á do mesmo modo quando os demônios inimigos do corpo se empenham em despertar em nosso coração a fermentação dos desejos maus. Esse único pensamento, unido à lembrança de Deus, basta para anular todas as espécies de espíritos maus…

71. O coração produz de seu fundo os pensamentos bons e aqueles que não o são. Não que ele traga por natureza os pensamentos que não são bons, mas contraiu, em decorrência do primeiro desvio, o hábito da lembrança do mal. Recebe a maioria dos maus pensamentos da malícia dos demônios… Pois aquele que se compraz nos pensamentos que lhe sugere a malícia de Satanás e que grava, por assim dizer, sua lembrança em seu coração, produzirá depois, evidentemente, esses pensamentos maus.

72. …A graça, no começo, oculta sua presença ao batizado: ela aguarda a resolução da alma. Uma vez que o homem se converteu inteiramente ao Senhor, então, por um sentimento inefável, ela manifesta ao coração sua presença. Depois, novamente, aguarda o movimento da alma: permite que os dardos do demônio penetrem até o íntimo de seu sentido, para fazê-la buscar Deus com resolução mais ardente e numa disposição mais humilde.

Quando o homem começa a progredir na prática dos mandamentos e a invocar incansavelmente o Senhor Jesus, o fogo da santa graça alcança os sentidos mais exteriores do coração; consome o joio da terra dos homens num sentimento de certeza. Doravante, as emboscadas dos demônios só chegam a distância dessas paragens, e pouco ferem, apenas arranhando a parte passional da alma.

Uma vez que o combatente se revestiu de todas as virtudes, e sobretudo da perfeita pobreza, a graça então ilumina de todos os lados sua natureza num sentimento ainda mais profundo e a aquece com um grande amor de Deus. Os dardos dos demônios apagam-se então antes de atingir o sentido corporal. A brisa do Espírito Santo impele o coração para o lado dos ventos pacíficos e apaga os dardos do demônio quando ainda estão no ar.

88. Se vos mantendes numa manhãzinha de inverno, em lugar exposto, e olhais para o oriente, a parte dianteira de vosso corpo será aquecida pelo sol, enquanto vossas costas não receberão nenhum calor, porque o sol não vos atinge de frente. Do mesmo modo, aqueles que ainda estão no começo da operação do Espírito têm o coração apenas parcialmente aquecido pela santa graça.

Por isso, o intelecto começa então a produzir o fruto dos pensamentos espirituais, enquanto as partes visíveis do coração continuam a pensar segundo a carne, porque todos os membros de seu coração ainda não foram iluminados pela luz da santa graça, íntima e sensivelmente. Eis por que acontece à alma conceber ao mesmo tempo pensamentos bons e pensamentos maus: como o indivíduo de minha comparação experimenta ao mesmo tempo o calafrio do frio e a carícia do calor.

Pois, desde o dia em que nosso intelecto deslizou para uma dupla ciência, ele se encontra na necessidade de produzir no mesmo instante pensamentos bons e maus. Sobretudo se chegou à sutileza do discernimento: como se esforça sempre por pensar o bem, de imediato o mal lhe retorna à memória, porque, pela desobediência de Adão, a memória se fendeu em um duplo pensamento.

Se, pois, começamos a exercer com fervor os mandamentos de Deus, a graça em seguida iluminará nossos sentidos com um sentimento muito profundo, consumirá por assim dizer nossos pensamentos e suavizará nosso coração pela paz de uma amizade inexprimível, e nos disporá a pensar coisas espirituais, e não mais carnais. É isso que não cessa de ocorrer naqueles que se aproximam da perfeição e guardam ininterrupta no coração a lembrança de Jesus.

96. …O intelecto deve, em todo tempo, dedicar-se à prática dos divinos mandamentos e à lembrança profunda do Senhor da glória.

97. Quando o coração recebe, com uma espécie de dor ardente, os dardos dos demônios, a ponto de o combatente ter a impressão de senti-los cravados em si, a alma tem dificuldade em detestar as paixões, porque está no começo de sua purificação. Pois, se ela não sofre vivamente com a impudência do pecado, não pode conhecer a alegria transbordante inspirada pela beleza de sua justiça.

Que aquele, portanto, que quer purificar seu coração não cesse de abrasá-lo pela lembrança de Jesus. Que seja esse seu único exercício e seu trabalho ininterrupto. Quando se quer rejeitar sua podridão, não há um momento de orar e um momento de não orar; é preciso entregar-se em todo tempo à oração, guardando seu intelecto, ainda que se esteja fora da casa de oração. Aquele que purifica o minério de ouro só precisa deixar baixar por algum tempo o fogo em sua fornalha para que a matéria que queria purificar recupere sua dureza. Do mesmo modo, aquele que ora se lembra de Deus, ora não, perde pela interrupção aquilo que crê obter pela oração. O homem que ama a virtude é aquele que não cessa de eliminar, pela lembrança de Deus, o elemento terrestre de seu coração, a fim de que, pouco a pouco, o mau se consuma na lembrança do bem e a alma retorne perfeitamente ao seu esplendor natural e glorioso.

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