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Deus Apofântico

João Crisóstomo — “Da incompreensibilidade da natureza de Deus”

JOHANNES; HARKINS, Paul (ORGS.). On the incomprehensible nature of God. Washington, D.C: Catholic University of America Press, 2010.

INTRODUÇÃO

  • A presente coletânea aborda a cristologia pré-ariana como pano de fundo para os sermões de João Crisóstomo contra os anomeus, complementando volumes anteriores da série que trataram do combate ao arianismo por Hilário de Poitiers e Mário Victorino.
  • O tratado De Trinitate de Hilário de Poitiers, escrito durante seu exílio (por volta de 356 d.C.), demonstra uma doutrina trinitária ortodoxa (um Deus em três Pessoas) com foco em provar a consubstancialidade da natureza divina de Cristo com o Pai, em oposição aos arianos e anomeus.
  • Mário Victorinus, em seus Tratados Teológicos sobre a Trindade, utilizou sua formação em retórica e neoplatonismo para refutar o arianismo, introduzindo neologismos e significados estendidos, sendo precursor dos teólogos medievais, apesar da obscuridade de sua obra.
  • Os sermões de João Crisóstomo, proferidos em grego para congregações orientais em Antioquia e Constantinopla, são apresentados como resposta aos anomeus (novos arianos), um grave problema para a pureza da fé no século IV.

CRISTOLOGIA PRIMITIVA E ANTECEDENTES DO ARIANISMO

  • Os primeiros cristãos baseavam seu conceito de Cristo na revelação divina, conforme a confissão de Pedro (“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”), sem aprofundamento filosófico, contentando-se com hinos, orações e credos litúrgicos.
  • A crescente influência de convertidos de diversas origens gerou conflitos entre a ortodoxia da revelação e a razão filosófica, levando a heresias sobre a divindade e humanidade de Cristo.
  • Os ebionitas, guiados por um forte monoteísmo judaico, sustentavam que Jesus era um homem adotado por Deus como filho por ocasião do batismo, negando que ele pudesse ser consubstancial e igual ao Pai.
  • Os gnósticos, vendo Deus como uma divindade remotíssima, concebiam Cristo como um eão (emanação) de ordem inferior que assumiu apenas a aparência de um homem (heresia do docetismo), para libertar a centelha divina aprisionada na matéria.
  • Justino Mártir desenvolveu o conceito de Cristo como Logos (Palavra e Sabedoria do Pai), numericamente distinto do Pai mas nascido de sua substância, para servir de ponte entre o Deus transcendente e os seres humanos.
  • Irineu de Lyon apresentou o Logos como preexistente e identicamente substancial a Deus, porém como uma Pessoa distinta, que se encarnou verdadeiramente como segundo Adão para recriar a humanidade perdida e reconciliá-la com o Pai.
  • Os monarquianos modalistas (patripassianos ou sabellanos) sustentavam que um só Deus aparece em três modos sucessivos (Pai, Filho e Espírito Santo), de modo que foi o próprio Pai quem nasceu, sofreu e morreu.
  • Tertuliano, em Adversus Praxean, defendeu que uma única substância (substantia) divina é compartilhada por três Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo), embora para ele o Logos não possuísse a mesma quantidade de divindade que o Pai.
  • Orígenes, fortemente influenciado pela interpretação alegórica das Escrituras e pelo neoplatonismo, ensinou que o Logos é subordinado ao Pai transcendente, sendo um deus (mas não o Deus) e mediador de todos os outros seres.
  • Paulo de Samósata, adotando uma cristologia de união moral, negava a divindade de Cristo, afirmando que Jesus era um mero homem unido a Deus através do Logos, que habitava nos profetas periodicamente.

ARIANISMO E O CONCÍLIO DE NICEIA

  • Ário (presbítero em Alexandria por volta de 313 d.C.), influenciado pelo gnosticismo, ensinava que o Filho (Logos) era uma criatura feita do nada, superior a todas as outras, mas não eterna (“houve um tempo em que ele não era”), nem verdadeiramente Deus nem verdadeiramente homem.
  • O bispo Alexandre excomungou Ário, mas este encontrou refúgio com Eusébio de Nicomédia, cujo argumento contra um Filho co-eterno era a ameaça ao monoteísmo.
  • O imperador Constantino, preocupado com a unidade religiosa, convocou o primeiro Concílio Ecumênico em Niceia (325 d.C.), que adotou um credo definindo o Filho como “da mesma substância que o Pai” (homoousios to patri).
  • O credo niceno anatematizou aqueles que dizem “houve um tempo em que Ele não era”, que Ele veio a existir do nada, ou que o Filho é de uma hipóstase ou substância diferente, criada ou sujeita à alteração.
  • “Homoousios” tornou-se a palavra de ordem dos ortodoxos, enquanto os arianos radicais ficaram conhecidos como anomeus (Cristo de substância em nada similar ao Pai) e os semi-arianos como homoiousianos (Cristo de substância similar ou parecida com o Pai).

ATANÁSIO E O DECLÍNIO DO ARIANISMO

  • Atanásio, sucessor de Alexandre como bispo de Alexandria, opôs-se firmemente aos arianos, sofrendo cinco exílios devido à influência política de seus inimigos, como Eusébio de Nicomédia, que buscava a restauração de Ário.
  • O imperador Constâncio favoreceu os arianos e, sob a liderança de extremistas como Aécio e Eunômio, os anomeus (novos arianos) surgiram defendendo que o Filho, por ser gerado/produzido, é fisicamente dessemelhante (anomoios) do Pai, sendo este o alvo dos sermões de Crisóstomo.
  • Basílio de Ancira liderou a ala dos homoiousianos (semelhantes em substância), enquanto Acácio de Cesareia liderou a ala central dos homoianos (simplesmente “semelhante”), buscando um meio-termo político e teológico entre anomeus e ortodoxos.
  • O apoio imperial foi decisivo na luta contra o arianismo, com a reação ortodoxa ganhando força sob Juliano, o Apóstata, e Joviano, e triunfando definitivamente sob Teodósio, que convocou o Segundo Concílio Ecumênico em Constantinopla (381).

CRISÓSTOMO E OS ANOMEUS EM ANTIOQUIA (386-387)

  • Em Antioquia, o anomeísmo, revivido por Aécio e Eunômio, prosperava entre os menos instruídos, que eram impressionados pelas sofismas lógicas desses líderes, enquanto a facção eustatiana permanecia firme na ortodoxia.
  • Melécio, eleito bispo de Antioquia em 360 com apoio do ariano Acácio, mostrou-se ortodoxo, mas seu exílio e o reconhecimento de Paulino pelo Papa Dâmaso causaram um cisma entre os antioquenos ortodoxos.
  • João Crisóstomo, após formação retórica com Libânio, vida monástica e serviço como leitor, foi ordenado diácono (381) e depois presbítero (386) por Flávio, que lhe confiou a tarefa de pregar, instruir os fiéis e reconduzir os anomeus à ortodoxia.
  • Os doze sermões Contra os Anomeus dividem-se em duas séries (Antioquia, 386-87; Constantinopla, 398) e dois temas principais: a incompreensibilidade da natureza de Deus (homilias I-V) e a consubstancialidade de Cristo com o Pai (homilias VII-XII).
  • Nos primeiros cinco sermões, Crisóstomo argumenta que os anomeus pretendem ter um conhecimento perfeito de Deus (como Deus se conhece), o que é loucura, pois a natureza divina está além da compreensão de todas as criaturas, incluindo os anjos.
    • O primeiro sermão demonstra o quão medíocre é o conhecimento humano e que Deus é incompreensível tanto para homens quanto para anjos, pedindo gentileza com os inimigos da fé.
    • O segundo sermão acusa os anomeus de serem intrometidos e inquisitivos, incapazes de aceitar o que Deus diz na Escritura por falta de confiança nele, mas pede oração para que retornem à luz do verdadeiro conhecimento.
    • O terceiro sermão afirma que nada pode acrescentar ou tirar da glória intrínseca de Deus, e que ninguém (homem ou anjo) pode conhecer a essência divina, conhecida apenas pelo Filho e pelo Espírito, sendo a visão de Deus uma condescendência acomodada.
    • O quarto sermão explica que João Evangelista (“Ninguém jamais viu a Deus”) e o Êxodo (“Ninguém verá a minha face e viverá”) falam de conhecimento claro e perfeito, que pertence apenas ao Filho (da mesma essência) e ao Espírito.
    • O quinto sermão responde que a objeção anomeia (“se não conheceis a essência de Deus, não sabeis o que adorais”) é inválida, pois basta saber que Deus é, não o que ele é, e que definir Deus como “agenetos” (não gerado) é tolice, já que a essência divina não pode ser nomeada.
  • Na homilia VI (interrupção da série, 20 de dezembro de 386), Crisóstomo fez um panegírico do beato Filogônio, bispo de Antioquia por volta de 320, quando o arianismo começava a florescer, e deixou a maior parte do elogio para o bispo Flávio.
  • Nas homilias VII-X (Antioquia), o argumento de Crisóstomo avança para mostrar que o Filho possui a mesma glória, poder, natureza e essência do Pai, sendo consubstancial (homoousios) com ele.
    • O Filho não é inferior ao Pai quando ora ou age de forma humilde, pois isso é feito como homem, por condescendência e acomodação à fraqueza dos ouvintes.
    • A homilia IX, sobre a ressurreição de Lázaro, responde aos anomeus e judeus (cristãos judaizantes) que argumentavam que Cristo, por precisar orar ao Pai para ressuscitar Lázaro, seria inferior e dessemelhante do Pai.
    • Crisóstomo demonstra que Cristo orou por condescendência e para ensinar a humildade própria da natureza humana, não por necessidade, pois foi sua palavra (“Lázaro, vem para fora!”) e não a oração que ressuscitou o morto.
  • Os anomeus assistiam aos sermões porque os éditos de Teodósio (380, 381) estabeleceram o cristianismo ortodoxo como religião oficial e os privaram do direito de se reunir em suas próprias igrejas.
  • Crisóstomo inicialmente hesitou em refutar os anomeus para não espantar sua presa, mas quando ouviu que eles o desafiavam, tomou coragem e usou suas armas espirituais para demolir sofismas, não para ferir, mas para curar os doentes.

CRISÓSTOMO E OS ANOMEUS EM CONSTANTINOPLA (398)

  • As homilias XI e XII foram proferidas em Constantinopla cerca de onze anos após a série antioquena, logo após Crisóstomo se tornar bispo daquela metrópole imperial.
  • Nesses sermões, o argumento sobre a consubstancialidade do Filho com o Pai continua, mas o principal objetivo parece ser instruir os ortodoxos e aprofundar sua fé na glória do Unigênito, pois não há evidência interna de que os anomeus estivessem presentes na igreja.
  • Contudo, Constantinopla possuía uma grande população anomeia que ameaçava os fiéis, com a própria igreja (antiga sede de culto ariano) situada em uma seção da cidade dominada por hereges (“uma oliveira no meio de uma fornalha”).
  • A homilia XI, a segunda pregada por Crisóstomo em Constantinopla (a primeira perdeu-se), baseia-se na promessa de discutir as armas de Davi e Golias, usando argumentos das Escrituras em vez de raciocínios puramente humanos (2 Coríntios 10.4-5).
  • A homilia XII, que conclui a série, usa a cura do paralítico no sábado para provar que Cristo é divino, igual ao Pai e Senhor da Lei, pois a obra que ele faz no sábado é a mesma providência contínua do Pai sobre o mundo.
    • “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho” demonstra que, se esse cuidado providencial cessasse, toda criatura pereceria.

AVISOS DE MONTFAUCON SOBRE OS SERMÕES

  • As homilias I-V (Sobre a Natureza Incompreensível de Deus) foram entregues em Antioquia no ano 386, com base em referências internas, como a conspiração de Teodoro (374 d.C.) mencionada como ocorrida “dez anos atrás”.
  • A homilia VI (Sobre São Filogônio) foi entregue em 20 de dezembro de 386, cinco dias antes do Natal, interrompendo a série contra os anomeus a pedido da festa do santo bispo.
  • As homilias VII (Sobre a Consubstancialidade) e VIII foram entregues no início de 387, possivelmente em 5 de janeiro (domingo), respondendo à objeção dos anomeus baseada no pedido dos filhos de Zebedeu.
  • As homilias IX (Sobre Lázaro, o de quatro dias) e X (Sobre as Orações de Cristo) foram unidas por Montfaucon à série antianomeia porque ambas tratam das orações de Cristo como prova de condescendência, não de inferioridade.
  • Embora Hales tenha questionado a autenticidade da homilia IX, considerando-a de estilo audacioso e juvenil, Montfaucon a defende como genuína, citando que Crisóstomo a menciona na homilia X, e a considera um trabalho extemporâneo e improvisado.
  • As homilias XI e XII, embora entregues em Constantinopla (398), foram colocadas em sequência com as anteriores por causa da continuidade do argumento sobre a glória do Unigênito e a igualdade do Filho com o Pai.
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