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JOÃO CLÍMACO — A ESCADA DO CÉU
CAPÍTULO II — Da mortificação das paixões e vitória sobre apetites e afetos
- Quem verdadeiramente ama a Deus, deseja o Reino dos céus, se dói de seus pecados, está ferido pela memória das penas do inferno e do juízo futuro e entrou no temor da morte, esse nada amará desordenadamente neste mundo, mas seguirá a Cristo nu, seguro e leve, levantando sempre os olhos ao céu.
- Tal pessoa abomina e sacude de si os cuidados do dinheiro, da fazenda, dos pais, dos irmãos e de toda coisa mortal e terrena
- O Profeta exprime essa atitude com as palavras: Eu não me turbei seguindo-te a ti, Pastor meu, nunca desejei o dia do homem — isto é, a prosperidade e felicidade que os homens costumam desejar
- É grandíssima confusão a daqueles que, após sua vocação — chamados não por homens mas por Deus —, esquecidos de tudo isso, se aplicam a outros cuidados que na hora da última necessidade não lhes podem valer, pois isso é o que o Senhor disse ser voltar atrás e não ser apto para o Reino dos céus.
- O Senhor sabia muito bem quão deslizantes são os primeiros princípios da profissão religiosa e quão facilmente se volta ao século quem mantém conversação familiar com pessoas do mundo
- A um jovem que pediu licença para ir enterrar o pai, o Senhor respondeu: Deixa os mortos enterrar seus mortos
- Os demônios costumam, depois que se deixou o mundo, apresentar diante da alma alguns homens misericordiosos e esmoleiros que vivem no século, fazendo crer que esses são bem-aventurados e os religiosos miseráveis por carecerem das virtudes que aqueles possuem.
- Esse artifício visa, sob a aparência de uma falsa e adúltera humildade, fazer o religioso voltar ao mundo, ou fazê-lo viver na religião em desconfiança e desconsolação
- Há religiosos que com soberba e presunção desprezam, como aquele Fariseu do Evangelho, os homens que vivem no mundo, sem se lembrarem do que está escrito: O que está de pé veja por si para não cair
- Há outros que, não por soberba mas para fugir do precipício da desconfiança e conceber maior ânimo, estimam em pouco os costumes dos que vivem no século
- Os que têm em pouco sua profissão devem ouvir o que o Senhor disse ao jovem que havia guardado quase todos os mandamentos: Uma coisa te falta — vai, vende todos os teus bens, dá-os aos pobres e faze-te por amor de Deus pobre e necessitado da misericórdia alheia.
- Isso é próprio da profissão religiosa, que tanto excede a dos que virtuosamente vivem no mundo quanto era virtuosa a vida daquele jovem
- O Senhor chamou de mortos os homens que vivem no mundo, dizendo a um deles: Deixa os mortos enterrar seus mortos
- Não foram as riquezas a causa por que o jovem rico deixou de receber o batismo, e claramente se enganam os que pensam ser essa a razão pela qual o Senhor lhe mandava vender a fazenda — o que se queria era elevá-lo à altura do estado da vida religiosa.
- Os que vivendo no mundo se exercitam em jejuns, vigílias, trabalhos e outras aflições semelhantes, quando chegam à vida monástica — como a uma oficina e escola de virtude — não fazem caso daqueles primeiros exercícios, presumindo serem muitas vezes adúlteros e fingidos, e começam com novos fundamentos
- Muitas e diversas plantas de virtudes de homens que viviam no mundo se regavam com a água lodosa da vanaglória, se alimentavam da ostentação e aparência mundana e se adubavam com o estrume dos louvores humanos — transplantadas para terra deserta e afastada da vista e companhia dos homens, logo se secaram.
- As árvores criadas com esse regalo não costumam dar fruto em terra seca
- Quem tiver perfeito ódio ao mundo estará livre da tristeza mundana, mas quem ainda está tocado por ele não estará de todo livre dessa paixão, pois como não se entristecerá quando se vir privado do que ama?
- Alguns homens conhecidos no mundo, vivendo com muitos cuidados, angústias e vigílias seculares, escaparam dos movimentos e ardores da própria carne — e esses mesmos, entrando nos mosteiros e vivendo livres desses cuidados, caíram torpemente nos vícios
- É preciso guardar-se muito para não caminhar por caminho largo e espaçoso pensando percorrer o estreito e difícil, vivendo assim enganado — pois o caminho angosto é a aflição do ventre, a perseverança nas vigílias, a água por medida e o pão por conta, beber o salutar purgante das ignomínias e vitupérios, a mortificação das próprias vontades, o sofrimento das ofensas, o desprezo de si mesmo, a paciência sem murmuração, tolerar fortemente as injúrias, não se indignar com os que infamam nem queixar-se dos que desprezam, e humilhar-se diante dos que condenam.
- Bem-aventurados os que por esse caminho caminham, porque deles é o Reino dos céus
- Ninguém entra no tálamo celestial a receber a coroa dos grandes santos, a não ser quem tenha cumprido a primeira, a segunda e a terceira maneira de renúncia — a saber: renunciar a todas as coisas exteriores como pais, parentes e amigos; renunciar à própria vontade; e renunciar à vanaglória que costuma acompanhar a obediência.
- A esse vício da vanaglória estão mais sujeitos os que vivem em comunidade do que os que moram em solidão
- O Senhor disse por meio de Isaías: Saí do meio deles, apartai-vos e não toqueis coisa impura e profana
- Os que fizeram milagres, ressuscitaram mortos e expulsaram demônios são as insígnias dos verdadeiros monges, as quais o mundo não merece receber — pois se o merecesse, supérfluos seriam os trabalhos e a solidão do afastamento
- Quando, após a renúncia, os demônios inflamam importuna e ardentemente o coração com a memória dos pais e irmãos, é principalmente então que se devem tomar as armas da oração e acender o coração com a memória do fogo eterno, para que com ela se apague a chama danosa desse outro fogo.
- Os jovens que, após terem-se entregado a deleites e vícios da carne, desejam entrar na vida religiosa, devem exercitar-se com toda atenção e vigilância nos trabalhos espirituais e determinar-se a abster-se de todo gênero de vícios e deleites, para não terem fins piores do que foram os princípios.
- Muitas vezes o porto — que costuma ser causa da salvação — é também causa de perigos, como bem sabem os que navegam por esse mar espiritual
- É coisa miserável ver perderem-se os navios no porto, os quais estiveram salvos em meio ao mar
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