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Clemente de Alexandria — Stromata

Capítulo IV — As Coisas Divinas Envolvidas Em Figuras Tanto Nos Escritores Sagrados Quanto Nos Pagãos

  • Os que ainda são cegos e mudos, sem entendimento ou visão contemplativa clara — como os não iniciados nos mistérios ou os não músicos nas danças —, devem permanecer fora do coro divino, pois não são ainda puros e dignos da pura verdade, mas ainda discordantes, desordenados e materiais.
    • A inteligência e a retidão essa grande multidão estima não pela verdade, mas pelo que a deleita — e serão agradados não tanto por outras coisas quanto pelo que é semelhante a eles mesmos.
    • O Verbo verdadeiramente sagrado, verdadeiramente divino e mais necessário para nós, depositado no santuário da verdade, foi indicado pelos egípcios pelo que eles chamavam de adyta, e pelos hebreus pelo véu.
    • Somente os consagrados — isto é, os devotados a Deus, circuncidados no desejo das paixões por amor ao que é unicamente divino — tinham acesso a eles.
    • Platão também pensava que não era lícito ao impuro tocar o puro.
    • As profecias e oráculos são falados em enigmas, e os mistérios não são exibidos indiscriminadamente a todos, mas somente após certas purificações e instruções preliminares.
  • Os egípcios ensinavam a seus instruídos primeiro o estilo epistolográfico, depois o hierático, e por fim o hieroglífico — de que há o tipo literal — quiriológico — e o simbólico, que por sua vez inclui o por imitação, o figurativo e o alegórico com enigmas.
    • Para expressar o Sol por escrito, fazem um círculo; para a Lua, uma figura semelhante à Lua, com sua forma própria.
    • No estilo figurativo, transpondo, transferindo, mudando e transformando de muitos modos, traçam caracteres; e nos elogios dos reis em mitos teológicos, escrevem em anaglífos.
    • Como espécime do terceiro tipo — o enigmático — os demais astros, por causa de seu curso oblíquo, foram figurados como corpos de serpentes; mas o sol, como o de um besouro, porque faz uma figura redonda de esterco de boi e a rola diante de si.
  • Todos os que falaram de coisas divinas, tanto bárbaros quanto gregos, velaram os primeiros princípios das coisas e transmitiram a verdade em enigmas, símbolos, alegorias, metáforas e semelhantes tropos — como os oráculos entre os gregos, e o Apolo Pítio, chamado Lóxias.
    • As máximas dos chamados sábios entre os gregos indicam, em poucas palavras, o desdobramento de matéria de considerável importância — como “Poupa o Tempo” e “Conhece-te a ti mesmo.”
    • O Espírito diz por Isaías: “Dar-vos-ei tesouros, ocultos, obscuros.”
    • A sabedoria — difícil de encontrar — é os tesouros de Deus e riquezas inesgotáveis.
    • Os poetas instruídos na teologia pelos profetas — Orfeu, Lino, Museu, Homero e Hesíodo — filosofam muito em sentido oculto; e o estilo persuasivo da poesia é para eles um véu para os muitos.
    • Os sonhos e sinais são mais ou menos obscuros aos homens — não por ciúme, pois seria errado conceber a Deus como sujeito a paixões, mas para que a investigação, introduzindo ao entendimento dos enigmas, se apresse à descoberta da verdade.
    • Sófocles: “E Deus sei ser tal, sempre revelador de enigmas para os sábios, mas para os perversos mau, embora professor em poucas palavras.”
    • No Salmo está escrito: “Ouvi, ó povo Meu, a Minha lei: inclinai o ouvido às palavras da Minha boca. Abrirei a Minha boca em parábolas, proferir ei os Meus problemas desde o princípio.”
  • Paulo fala da sabedoria de Deus oculta em mistério — que nenhum dos príncipes deste mundo conheceu, pois se a conhecessem não teriam crucificado o Senhor da glória —, e reconhece o homem espiritual e gnóstico como discípulo do Espírito Santo dispensado por Deus, que é a mente de Cristo.
    • Paulo: “Todavia, falamos sabedoria entre os que são perfeitos; mas não a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que vêm a nada. Mas falamos a sabedoria de Deus oculta em mistério; que nenhum dos príncipes deste mundo conheceu. Pois se a conhecessem, não teriam crucificado o Senhor da glória.”
    • Os filósofos não se esforçaram em desprezar a aparência do Senhor — portanto é a opinião dos sábios entre os judeus que o apóstolo combate.
    • “Pregamos o que está escrito: o que olho não viu, nem ouvido ouviu, nem penetrou no coração do homem, o que Deus preparou para os que O amam. Pois Deus no-lo revelou pelo Espírito. Porque o Espírito esquadrinha todas as coisas, ainda as profundezas de Deus.”
    • O homem natural não recebe as coisas do Espírito, pois lhe são loucura.
    • O apóstolo, em contraposição à perfeição gnóstica, chama a fé comum de fundamento, e às vezes de leite: “Irmãos, não pude falar-vos como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Dei-vos leite a beber, não carne sólida; porque ainda não podíeis. Nem tampouco podeis agora; porque ainda sois carnais.”
    • Paulo: “Segundo a graça que me foi dada, como sábio arquiteto, lancei o fundamento. E outro sobre ele edifica ouro, prata, pedras preciosas” — tal é a superestrutura gnóstica sobre o fundamento da fé em Cristo Jesus; mas a palha, a madeira e o feno são as adições das heresias.
    • “Mas o fogo provará a obra de cada um, qual seja.” E: “Desejo ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais confirmados” — e era impossível que dons dessa natureza fossem escritos sem disfarce.
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