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Obra de Cristo

BETTENSON, Henry (ORG.). The early Christian Fathers: a selection from the writings of the Fathers from St Clement of Rome to St Athanasius. Oxford: Oxford University Press, 1996.

VI. A obra de Cristo

(a) Salvação pelo exemplo do amor na Encarnação e na Paixão

Deus é Ele mesmo amor, e, por causa de seu amor, nos buscou; e, na geração eterna do Filho, a natureza inefável de Deus é pai, sua compaixão por nós é mãe. Foi em seu amor que o Pai nos buscou, e a grande prova disso é o Filho que gerou de si mesmo e o amor que foi o fruto produzido de seu amor. Para isso desceu, para isso assumiu a natureza humana, para isso suportou voluntariamente os sofrimentos do homem, a fim de que, sendo reduzido à medida de nossa fraqueza, nos elevasse à medida de seu poder. E, pouco antes de derramar sua oferta, quando se deu a si mesmo como resgate, deixou-nos um novo testamento: “Dou-vos meu amor”. Qual é a natureza e a extensão desse amor? Por cada um de nós, deu sua vida, vida que valia o universo inteiro, e requer em troca que façamos o mesmo uns pelos outros. Quis Dives Salvetur, 37

(b) O movimento descendente e ascendente da salvação. Gnosticismo cristianizado

O Filho, sendo o poder do Pai, realizou facilmente todos os seus propósitos. Não deixa sem cuidado a menor coisa sob seu governo; pois, de outro modo, o todo não teria sido bem produzido por ele. Supõe-se que do poder supremo proceda aquele exame cuidadoso que se aplica a todas as partes, até às mínimas; a todas as partes, até que se chegue ao supremo governante do universo inteiro, que governa todas as coisas segundo a vontade de seu Pai; enquanto todos os seres, ordem após ordem, contemplam a salvação universal, até que se chegue ao grande Sumo Sacerdote. Pois de uma única causa — a fonte da energia segundo a vontade do Pai — dependem a primeira, a segunda e a terceira ordens, e então, no limite do mundo sensível, encontra-se a bem-aventurada hierarquia dos anjos. Abaixo deles, ordenadas em devida subordinação, estão as classes de seres que, de um e por meio de um, recebem e conferem salvação, estendendo-se até nós, homens. Assim, do mesmo modo que até o menor pedaço de ferro é movido pela influência de um ímã, que se estende através de uma série de anéis de ferro, também os seres virtuosos são atraídos pelo Espírito Santo e se unem estreitamente à primeira “morada”, e essa influência desce, em ordem, até a última. Os maus… não governando nem sendo governados, precipitam-se para baixo… A lei divina é que o homem disposto à virtude seja elevado. Stromateis, VII, ii (9)

(c) A natureza humana de Cristo: uma aproximação ao docetismo

O gnóstico não é o tipo de homem que se envolve em quaisquer paixões, salvo aquelas necessariamente incidentes à sua permanência no corpo, como fome, sede e semelhantes. Mas, no caso do Salvador, seria absurdo supor que seu corpo exigisse esses serviços essenciais para sua permanência. Pois comia não por necessidade corporal, visto que seu corpo era sustentado por poder santo, mas para que seus companheiros não alimentassem falsa opinião a seu respeito, como de fato alguns homens fizeram mais tarde, a saber, que ele se manifestara apenas em aparência. Ele mesmo era e permaneceu “imperturbável pela paixão”; nenhum movimento das paixões, seja prazer, seja dor, encontrou caminho nele. Ibid. VI, ix (71)

(d) Vitória sobre a morte

O primeiro homem brincava no paraíso, em liberdade, pois era filho de Deus. Então caiu, pelo prazer — sendo este o sentido alegórico da serpente —, e foi desviado por seus desejos. Ali a criança, sendo homem, desobedeceu a seu Pai e desonrou Deus. Quão grande é o poder do prazer! O homem era livre, em sua inocência, e então se achou ligado por seus pecados. O Senhor, por sua parte, quis libertá-lo de seus grilhões e, sendo Ele mesmo ligado na carne — eis o mistério divino —, lutou com a serpente e escravizou o tirano, a morte; e, maravilha das maravilhas, embora o homem se extraviasse pelo prazer, embora estivesse cativo da corrupção, o Senhor o exibiu posto em liberdade por seus braços estendidos. Ó mistério admirável! O Senhor foi posto em repouso, e o homem foi erguido. O homem foi expulso do paraíso; e agora recebe recompensa maior que a da obediência, a recompensa do Céu. Protrepticus, XI (111)

(e) “Universalismo”

O evangelho diz que “muitos corpos dos que haviam adormecido ressuscitaram” — claramente para um estado melhor, o estado daqueles que foram transformados. Houve então uma espécie de movimento geral e de mudança como resultado da dispensação do Salvador. Um homem justo não difere de outro no que diz respeito à sua justiça, quer esteja sob a Lei, quer seja grego. Pois Deus é o Senhor não apenas dos judeus, mas de todos os homens, embora seja mais intimamente o Pai daqueles que o conhecem… Aqueles que viveram boas vidas antes da Lei foram contados como tendo fé e foram julgados justos. É claro que aqueles que estavam fora da Lei por falarem uma língua diferente, e contudo viveram boas vidas, mesmo se estavam de fato no Hades e “na prisão”, ao ouvirem a voz do Senhor — seja sua própria voz, seja aquela que operou por meio dos Apóstolos — converteram-se e creram. Pois se recorda que o Senhor é “o poder de Deus”; e o poder nunca poderia ser impotente.

Assim, pensa-se que é provada a bondade de Deus, e que o poder do Senhor para salvar com justiça e equidade é manifestado àqueles que se voltam para Ele, seja aqui, seja em outro lugar. Pois o poder operante não vem apenas sobre os homens aqui; ele opera em todos os lugares e em todos os tempos. Stromateis, VI, vi (47)

(f) A deificação do homem

“Ao que tem, será acrescentado”; conhecimento à fé, amor ao conhecimento, e ao amor a herança. E isso acontece quando o homem depende do Senhor pela fé, pelo conhecimento e pelo amor, e ascende com Ele ao lugar onde Deus está, o Deus e guardião de nossa fé e de nosso amor, de quem o conhecimento é entregue àqueles que são aptos para esse privilégio e que são selecionados por causa de seu desejo de preparação e formação mais plenas; que estão preparados para escutar o que lhes é dito, para disciplinar suas vidas, para progredir pela observância cuidadosa da lei da justiça. Esse conhecimento os conduz ao fim, ao fim final sem fim; ensino da vida que deverá ser nossa, uma vida conforme a Deus, com os deuses, quando formos libertados de toda punição e correção, que sofremos em consequência de nossas más ações para nossa disciplina salvadora. Depois de assim libertados, aqueles que foram aperfeiçoados recebem sua recompensa e suas honras. Terminaram sua purificação, terminaram o restante de seu serviço, embora seja um serviço santo, com os santos; agora se tornaram puros de coração e, por causa de sua íntima proximidade com o Senhor, aguarda-os a restauração à contemplação eterna; e receberam o título de “deuses”, visto que estão destinados a ser entronizados com os outros “deuses” que se situam imediatamente abaixo do Salvador. Assim, o conhecimento é um atalho para a purificação e um caminho pronto para a mudança aceitável a um estado superior. Ibid. VII, x (55-56)

Se não crês nos profetas… o próprio Senhor falará a ti, Ele “que, estando na forma de Deus, não considerou sua igualdade com Deus como prêmio a ser arrebatado, mas se rebaixou”. Este é o Deus de compaixão, desejoso de salvar o homem; e a própria Palavra, neste ponto, fala-te claramente, envergonhando a incredulidade; a Palavra, digo, de Deus, que se fez homem precisamente para que aprendas de um homem como pode ocorrer que o homem se torne Deus. Protrepticus, I (8, 4)

(g) Progresso para a salvação pela fé, pelo temor, pelo amor e pelo conhecimento

Tendes, ó homens, a proclamação divina da graça; ouvistes também, por outro lado, a ameaça da punição. Por meio destas, o Senhor salva, guiando o homem pelo temor e pela graça. Ibid. X (95, 1)

A primeira inclinação para a salvação manifesta-se a nós como fé; em seguida vêm temor, esperança e arrependimento; estes, avançando com o auxílio da disciplina e da perseverança, conduzem-nos ao amor e ao conhecimento. Stromateis, II, vi (31, 1)

Para o homem que caminha pela razão, a primeira lição é o conhecimento de sua ignorância. O homem ignorante começa sua busca e, por ela, encontra o mestre. Tendo-o encontrado, crê; e, tendo crido, espera; depois ama, e daí é tornado semelhante ao amado, desejoso de ser aquilo que primeiro passou a amar. Ibid. V, vii (17, 1)

O primeiro ponto de partida é aprender com temor, o que conduz a abster-se da maldade; o segundo é a esperança, que conduz a mirar o melhor, enquanto o amor completa o processo, como convém, formando-nos no caminho do conhecimento. Ibid. IV, vii (54)

(h) Salvação pela iluminação

A treva é a ignorância que nos faz cair em pecados, embotando nossa percepção da verdade. O conhecimento é iluminação, que expulsa nossa ignorância e administra uma correção. O abandono do pior é a revelação do melhor. Pois aquilo que a ignorância havia ligado é libertado pelo crescimento do conhecimento. E esses vínculos são rapidamente desfeitos pela fé, da parte do homem, e pela graça, da parte de Deus, quando nossos pecados são perdoados pelo remédio espiritual do batismo. Paedagogus, I, vi (29)

Quando um homem é lembrado do melhor, necessariamente se arrepende do pior. Ibid. I, vi (32)

O gnóstico é salvo, pode-se supor, graças à sua apreensão da vida boa e da vida má, pois tanto no conhecimento quanto na atividade ele “excede os escribas e os fariseus”. Stromateis, VI, xv (115)

O desejo celeste e verdadeiramente divino vem aos homens desta maneira: quando o ideal é aceso na própria alma pela Palavra divina e é capaz de resplandecer; e, o que é melhor, a salvação acompanha imediatamente a nobre vontade, sendo vontade e vida, poder-se-ia dizer, companheiras de jugo. Protrepticus, XI (117)

Assim como aqueles que sacudiram o sono estão de imediato despertos por dentro, ou antes, assim como aqueles que tentam remover uma película dos olhos não fornecem a luz do sol aos olhos, pois não lhes cabe fornecê-la, mas removem os impedimentos à visão e deixam o olho livre para ver: assim, no batismo, pelo Espírito divino, livramo-nos dos pecados que, como névoa, obscurecem nossos olhos, e deixamos o olho do espírito livre, desimpedido e iluminado. Somente por esse olho contemplamos Deus, quando o Espírito Santo se derrama em nós desde o Céu. Paedagogus, I, vi (28)

O Senhor, como Deus e homem, dá-nos toda espécie de proveito e auxílio. Como Deus, perdoa nossos pecados; como homem, educa-nos para ficarmos livres do pecado. Ibid. I, iii (7)

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