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Livro metáfora

Imke de Gier. ‘CE LIVRE MONSTRERA A TOUS VRAYE LUMIERE DE VERITE’. Marguerite Porete’s Le mirouer des simples ames as a mystatogic text. Tese de Doutorado. Antwerpen, 2013

O livro como metáfora

O emprego da palavra livre articula ideias sobre autoria e escrita, revelando que a “escrita” do livro pela personificação Alma reflete menos a escrita literal do livro pela autora histórica Marguerite Porete do que a jornada espiritual empreendida e encenada pelas personificações alegóricas dentro dele.

  • A autoria no Mirouer não é um conceito monolítico, pois na mesma frase em que a Alma diz que “mandou escrever este livro” (ce livre fist escrire), ela também diz que foi um dom de Deus, e uma nova agente, o Amor, aparece como aquela que “fez este livro” (fait ce livre).
  • O Amor pode tanto “mandar fazer” o livro pela Alma quanto “fazê-lo” ela mesma como força criativa intermediária entre a Alma e Deus, e no capítulo 101 a Alma refere-se ao Amor que “lhe abriu seu livro” (me ouvrit son livre), sendo a luz da abertura deste livro o meio pelo qual a Alma pode alcançar o estado de perfeição que é a aniquilação.
  • Há uma transferência gradual, embora irregular, da autoria do Amor no início para uma maior ênfase no livro sendo “escrito” pela Alma em direção ao seu fim, o que parece refletir a própria transformação desta última em direção à aniquilação.
  • A noção da jornada espiritual em direção à união mística com Deus como algo que requer esforço e trabalho é transmitida no Mirouer, sendo o livro apresentado como um “empreendimento” (entreprise) do qual o Amor é senhora, e fazer o livro envolve um elemento de sofrimento, pois o “ciúme de amor” (jalousie d’amour) e a “obra de caridade” (oeuvre de charite) sobrecarregaram (encombree) a Alma para fazê-lo.
  • Escrever o livro é equiparado à mendicância espiritual (mendiant creature), algo que mantém a alma sobrecarregada (encombree) e presa dentro da vontade, pois ao descrever Deus através da escrita, uma atividade ainda realizada através da criaturalidade, a Alma permanece mendicante e sobrecarregada porque queria realizar o projeto de escrever sobre Deus para seus “próximos” (proesmes).
  • O livro é um projeto que a Alma se arrepende de ter tentado escrever, pois ela tentou fazer algo que era impossível de dizer ou fazer, e no capítulo 119 ela declara que o livro “é de base, a ousadia o conduziu, e foi feito pela ciência humana e pelo senso humano; e a razão humana e o senso humano nada sabem do amor interior” (est de bas, Couradise l’a maine, et si a este fait par humaine science et humain sens; et humaine raison et humain sens ne sevent rien d’amour denentraine).

Metáforas textuais

No capítulo 66, o Amor fala do progresso que a Alma fez na “lição divina” (divine leçon), e o Espírito Santo é invocado como autor, sendo a Alma o “precioso pergaminho” (precieux parchemin) sobre o qual essa lição é escrita.

  • A metáfora usada para transmitir o papel do Espírito Santo evoca 2 Coríntios 3.2-3, onde a carta de Cristo é escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração.
  • A noção do livro como apresentado no Mirouer opera em outro nível metafórico, menos evidente para audiências contemporâneas, onde a passagem que transmite a Alma como um pergaminho serve para sublinhar a propensão medieval para metáforas textuais.
  • O paradoxo subjacente de escrever um livro aparentemente impossível deve ser considerado não apenas à luz da inefabilidade de transmitir o divino, mas também da perspectiva do livro como uma metáfora espiritual que deve ser, em última análise, deixada para trás pela Alma.
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