SHAH-KAZEMI, REZA
SHAH-KAZEMI, Reza. Paths to transcendence: according to Shankara, Ibn Arabi, and Meister Eckhart. Bloomington, Ind: World Wisdom, 2006.
O Nascimento do Verbo na alma: eis aquilo que resume a essência dos ensinamentos espirituais de Mestre Eckhart. Esse Nascimento é, ao mesmo tempo, o cume transcendente da realização e o critério de todas as outras práticas e atitudes espirituais. Compreender a significação, a natureza e as consequências desse Nascimento é, portanto, essencial para uma avaliação correta dos ensinamentos eckhartianos sobre a realização transcendente.
Esses ensinamentos, tal como se encontram em seus sermões, distinguem-se de seus tratados em latim, mais escolásticos, por sua relação direta com a vida espiritual em seus aspectos imediatos e concretos. Nesses sermões, Eckhart de modo algum prescinde dos ensinamentos religiosos elementares; utiliza-os como outras tantas bases de aproximação de suas dimensões espirituais superiores e mais profundas; aquilo que a religião formal “dá” exteriormente, o espírito supraformal transmuta em realidade de experiência interior. É precisamente porque Eckhart se mostra bastante explícito quanto às modalidades dessa ascensão do formal ao essencial que seus sermões constituem uma fonte particularmente preciosa para a exploração dos temas da transcendência.
Se, no capítulo precedente consagrado a Ibn Arabi, era necessário separar a substância puramente vertical e transcendente de sua doutrina da “expansão” horizontal desta, no caso de Eckhart encontra-se um problema quase oposto: todos os seus sermões são virtualmente de natureza “transcendental”, constituindo outros tantos apelos, imperiosos e dotados de autoridade, a realizar a transcendência hic et nunc.
Essa ênfase na experiência concreta da transcendência — rigorosa e constantemente posta em primeiro plano — contribui para explicar as formulações audaciosas pelas quais as autoridades religiosas de sua época combateram Eckhart. Um dos objetivos secundários deste capítulo será elucidar a importante relação, na perspectiva eckhartiana, entre a mais elevada realização e suas expressões antinômicas, elípticas e paradoxais, expressões que decorrem do abismo que separa do Uno todas as realidades não transcendentes; e é a união com esse Uno que é considerada não simplesmente como a mais elevada beatitude, mas como a única beatitude que existe, propriamente falando — ou falando de modo absoluto.
Em relação a esse “Supremo” que, sozinho, “é”, todas as formas inferiores de felicidade, bem como os atos que a elas conduzem e os contextos que esses atos pressupõem, são descritos em termos singularmente negativos: tudo aquilo que não é esse Bem supremo é, por isso mesmo, uma espécie de mal em relação a ele. Quando Eckhart chega a dizer que a oração ordinária por isto ou aquilo equivale a pedir o mal, compreende-se facilmente por que os guardiões supostamente incumbidos de conservar a ortodoxia católica tiveram dificuldades para distinguir entre uma elipse dialética e uma extravagância herética.
Este capítulo divide-se em três partes: a primeira concentrar-se-á na doutrina metafísica da transcendência, e nela ocupará amplo lugar a exposição relativa à distinção eckhartiana entre o nível da Deidade e o da Divindade trinitária; a segunda, tratando dos aspectos espirituais da via de realização da transcendência, comportará duas seções: a primeira examinará a maneira de transcender a virtude tal como é concebida e praticada convencionalmente, e a segunda se deterá na experiência da Geburt, o “Nascimento” do Verbo na alma, e do Durchbruch, a “Ruptura” ou a união com o Absoluto; e a última parte concernirá ao “retorno existencial”, a maneira de ser própria daquele em quem o “Nascimento” e a “Ruptura” ocorreram.
