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6. Universo e Alma
GIUSEPPE FAGGIN. MEISTER ECKHART E LA MISTICA TEDESCA PREPROTESTANTE. MILANO: FRATELLI BOCCA, 1946
VI - O UNIVERSO E A ALMA
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O ato de criar pertence essencialmente à natureza divina, sendo idêntico a ela, o que faz com que Deus seja Deus precisamente porque cria e o Uno seja fonte necessária do múltiplo.
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A alma não pode afirmar somente Deus porque, ao fazê-lo, afirma a si mesma; tampouco pode pôr apenas a si mesma, pois ao declarar sua finitude e relatividade, postula o Absoluto.
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Teologicamente, pode-se expressar que o Pai é Pai porque gera naturalmente o Filho, e o Filho é Filho porque deriva do Pai.
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Para Eckhart, que inicia sua investigação metafísica a partir do Uno e não da concretude dos indivíduos múltiplos, a multiplicidade não é um dado originário, mas um momento da Vida divina deduzido do próprio Uno.
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O cosmo noético é considerado, em acordo com o exemplarismo agostiniano-tomista, como o Verbo do Pai, coeterno e consubstancial a Ele.
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O mundo criado não exige um ato de livre vontade de Deus que garanta sua contingência, significando, não menos necessariamente, a própria Vida divina e eterna.
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O inteligir de Deus é geração e, ao mesmo tempo, causa das coisas e concessão do ser, sendo, portanto, vontade criadora; não há razão metafísica para dividir a unicidade do Ato divino em dois atos separados de inteligência e vontade.
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Eckhart distingue o mundo como está no eterno Pensamento de Deus (Princípio gerador) do mundo visível como se apresenta fora de Deus, no tempo e no espaço.
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A natureza de Deus é o Intelecto, e para Ele ser é inteligir, de modo que, assim como não lhe repugna pensar muitas coisas, também não lhe repugna produzi-las imediatamente.
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Deus, causa e princípio do múltiplo, é copioso segundo as razões ideais; é um uno simples em todo o ser, mas múltiplo segundo a razão.
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Tais razões ideais constituem seu Verbo, sua palavra pensada, o Filho idêntico ao Pai.
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A causa é sempre superior àquilo de que é causa e não é nenhum dos entes de que é princípio; portanto, em Deus, a realidade criada é vida e, como tal, incriável como o próprio Deus.
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Todas as coisas estão nEle não sob a razão de ser, mas sob a razão de viver e inteligir; cada coisa que está em Deus é o próprio Deus.
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Reconduzida ao Uno e no Uno, a multiplicidade deixa de ser múltipla para se tornar uma só Vida e uma só Inteligência.
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Sendo Deus o Ser e sendo uno o ser no qual tudo se fundamenta, e dada a identidade em Deus de ser e inteligir, o ser das coisas deve ser entendido como pensamento pensado, como realidade inteligível.
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O idealismo platônico de Eckhart o leva a identificar decisivamente, não só em Deus mas também nas coisas, o ser e o pensamento.
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Cada coisa é na medida em que é pensada (isto é, gerada) pelo Pensamento absoluto.
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O mundo ideal é o pensamento de Deus, Verbo gerado não criado, eterno e infinito, imagem viva do Pai.
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Se Deus é o ser de todas as coisas e as coisas só têm vida em sua causa essencial, mas não o ser, surge a dificuldade de que as coisas, fora de Deus que é o Ser, são o nada, concluindo-se que elas são na medida em que estão no Ser, isto é, em Deus.
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A dependência da realidade gerada e criada é reconfirmada de maneira idealista e gnoseológica: se o ser de Deus é inteligência e é o mesmo ser das coisas, então as coisas são pensamentos divinos.
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O centro da metafísica eckhartiana é a geração, o processo íntimo do Espírito que, ao se explicar necessariamente na alteridade, não sai de si nem deixa de ser Uno.
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Eckhart não confunde geração com criação, embora no final a criação perca seu significado autônomo.
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O mundo criado como realidade exterior, fenomênica e sensível está para o mundo gerado como a palavra expressa está para o ato da intelecção interior.
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Como a palavra expressa, o mundo criado pode ser considerado distinto de Deus, mas seu significado e verdadeiro ser consistem no pensamento interior, fora do qual ela é nada.
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A unidade do Ser se dispersa e se fenomeniza no mundo criado: do Indistinto caem-se nas distinções, do Uno no número, do Bem no mal, do Verdadeiro no falso.
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O Universo é somente na medida em que é uno, e deriva do uno simples, primeiro e imediato; suas partes não subsistem em si mesmas, mas recebem o ser do Todo, fora do qual não têm ser algum.
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A consideração empírica e fenomenística das coisas deve ceder lugar à intuição metafísica: a realidade sensível é complexidade de partes e momentos, cada qual remetendo a outro em função de uma Totalidade autossuficiente.
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Desse Universo, Deus é chamado também de alma, termo que deve ser entendido em relação ao espiritualismo idealista fundamental de Eckhart.
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Tal universo criado é eterno, pois único é o processo da Vida divina que é na medida em que pensa e, ao pensar, opera e cria.
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A geração do Filho não é um fato passado, mas um ato que se cumpre no eterno presente; o mesmo se diz da criação do mundo: Deus cria o mundo agora da mesma maneira como o criou no primeiro dia.
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A criação implica a geração, e a geração se completa na criação; a distinção entre geração e criação é possível apenas dentro da unicidade do processo da automanifestação divina.
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Se a geração produz algo outro de si, mas não algo fora de si, não saindo da absoluta Unidade do Gerante, a criação, ao conferir o ser distinto e a essência determinada, é ato que se cumpre na eternidade, dentro do Ser, isto é, em Deus.
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A tese da eternidade do mundo foi condenada pela Igreja. Eckhart distinguiu entre o verbo ativo criar (referível só a Deus) e o passivo ser criado (referível ao universo), argumentando que, mesmo que a criação de Deus seja eterna, o mundo não é eterno porque a passividade e o tempo estão na criatura.
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Em sua Apologia, Eckhart afirma que quem tomasse o mundo inteiro junto com Deus não teria mais do que se tivesse somente Deus, pois o mundo acrescentado a Deus não constitui um ser maior, já que fora de Deus é nada.
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Somente o gerado, que é eterno, é ser verdadeiro, enquanto a criatura como tal é nada, uma vez que a criação não se cumpre no tempo, mas na eternidade, e um aumento progressivo de ser é impensável.
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Eckhart afirma que todas as criaturas são um puro nada, não porque sejam pouco ou algo, mas porque nenhuma criatura tem ser.
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Essa foi a vigésima sexta tese condenada em nome da realidade dos existentes e da real eficiência da obra criadora divina.
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Eckhart poderia defender-se dizendo que, se Deus desviasse seu olhar num piscar de olhos, as criaturas seriam reduzidas a nada.
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Fundando o ser das criaturas no próprio Deus e recusando-se a buscar nelas uma autônoma subsistência, Eckhart acrescentou que, ao dizer isso, não se destrói o ser das coisas, mas se o constitui.
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A mediação entre a afirmação de que Deus é o ser das coisas e a do nada da criatura é dada pela concepção dialética da relação entre Deus e a realidade criada.
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Nada é tão próprio da criatura quanto o criador, pois a criatura tem todo seu ser do criador, e o criador, como criador, nada tem de próprio senão a criatura.
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A natureza da coisa criada consiste em contínuo fluxo e devir; ela é na medida em que não é e se torna; seu ser é definível apenas como desejo e tensão ao Ser, como relatividade e referência a outro, isto é, como temporalidade e duração.
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Na medida em que é, a criatura está em Deus (no Ser), e seu ser é Deus; na medida em que é criatura determinada, distinta e oposta, ela não é, pois seu devir é um perene morrer e relação com o nada.
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A inquietude é a vida da criatura fora de Deus, um receber que nunca se sacia e exige o dar de Deus; Eckhart não pode dizer qual consistência essa tensão criatural tem em si mesma, pois nenhum substrato real pode fundá-la ontologicamente.
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A matéria é concebida, à maneira plotiniana, como não-ser absoluto ou como cego impulso a outro, expressão psicológica, mais que ontológica, da criaturalidade.
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O tempo, dentro do qual se estende a irrequietude das coisas, não é real receptáculo das criaturas nem está em Deus, mas está na alma, sinônimo de criaturalidade, inquietude e relatividade.
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A criatura é na medida em que tende ao Ser, e o Ser é na medida em que é Princípio e Fim do criado; diante do dilema de a criatura não ter consistência fora de Deus (tornando o tender não-ser absoluto) ou de transportar as vicissitudes das criaturas para o Ser divino, Eckhart opta por esta segunda alternativa.
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Para conferir ser ao devir, que é multiplicidade e distinção, Eckhart resolve o fluir, que é continuidade, numa soma de instantes pontuais, atribuindo a cada instante o que não pode ser predicado de sua totalidade móvel: a unidade, a indivisibilidade e a indistinção, ou seja, o ser.
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O criado, em seu devir, recebe instante por instante seu ser de Deus; assim, também o devir, reconduzido ao Ser, é metafisicamente reavaliado como unidade e bem.
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Se o próprio devir das coisas vem das causas segundas, o ser do devir vem de Deus; nada é por acaso com relação à causa primeira que é Deus.
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A reavaliação do devir é feita analiticamente em sede ontológica e sinteticamente em sede gnoseológica: as coisas mutáveis, quando conhecidas pelo intelecto, tornam-se objeto de uma ciência imutável e adquirem, em virtude dela, a imutabilidade que falta à criatura como tal.
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No intelecto, a multiplicidade e a dispersão fenomênica se recolhem em unidade; a criatura, que em si mesma é nada, adquire valor de ente.
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O pensamento, acolhendo o criado na unidade e na luz da inteligência, eleva-o à dignidade de gerado e refaz o processo vital do Pai e da geração eterna.
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Para Eckhart, permanece a sombra escura do não-ser, um fluir puro, uma temporalidade ilusória, da qual ele não consegue dar conta teoricamente, permanecendo como instância ineliminável do irracional.
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Como nos grandes místicos, o núcleo central do pensamento eckhartiano é constituído por Deus e pela alma em sua relação dialética; o Universo sensível não tem realidade efetiva em si mesmo, consistindo como imagem em função da interioridade da alma.
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A cosmologia cede lugar à teologia e à metafísica da alma; o objeto se reduz ao Sujeito, ao ato da Inteligência absoluta.
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A alma é divina não por ser objeto pensado, mas por ser subjetividade como Deus e por nela se cumprir o nascimento eterno.
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Somente a alma, porque é inteligência, não se limita a ser semelhante a Deus, mas quer e pode ser igual a Ele, que é Espírito, instaurando em si a própria vida do Absoluto.
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A psicologia eckhartiana repete motivos clássicos da doutrina platônica e aristotélico-tomista, mas reencontra o neoplatonismo; sua originalidade consiste na gnoseologia que completa a doutrina psicológica e propõe o problema da imanência divina.
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A alma, para Eckhart como para Plotino, é o compêndio de toda a realidade, divina e criada, e é coextensiva a ela; o que fora da alma é multiplicidade e descontinuidade, reconquista nela unidade e conciliação.
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O processo da Vida divina não é possível nem tem significado senão na alma, isto é, na atualidade da subjetividade.
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Se o Ato divino se cumprisse fora de nós e o Absoluto permanecesse como Objeto externo sem se instaurar em nós, a alma estaria condenada a transcender sua espiritualidade intrascendível em busca de um além inatingível.
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Eckhart constrói sua metafísica da alma de modo a incluir nela todos os graus e momentos do ser, fazendo com que o corpo esteja na alma e que ela, à semelhança de Deus, produza a vida do corpo no tempo.
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A alma, una em si mesma, se explicita em múltiplas faculdades ou potências que têm seu valor apenas na unidade da alma.
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Fora da alma, tais faculdades se resolvem em uma multiplicidade de relações com as coisas externas, que são múltiplas e devientes e, como tais, aparências e não entes.
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A classificação das faculdades psíquicas repete motivos tradicionais e é uma contaminação das doutrinas platônica e aristotélica: potência vegetativa, potência sensitiva, memória, inteligência e vontade.
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As faculdades inferiores (memória, inteligência e vontade, que constituem a alma racional e são imagem da Trindade) são potências superiores, enquanto a sensitiva e a vegetativa são inferiores.
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A memória, ao evocar o que não é mais e o tornar presente no ato de pensamento, é faculdade criadora no não-ser e assemelha-se a Deus, que age no não-ser como criador.
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O intelecto compreende o que é e torna possível a obra das outras faculdades, convertendo em verdade e, portanto, em entidade o que na memória é apenas passado e na vontade e no desejo apenas futuro.
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Eckhart menciona a faculdade irascível e a concupiscível, referindo-se à teoria platônica de sua localização, mas olha mais para sua raiz comum e unidade.
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Por meio das faculdades inferiores, a alma se dispersa na multiplicidade exterior, cai do Uno no múltiplo (portanto, no mal, no não-ser, no erro), perde sua liberdade e se resolve em irrequietude e tensão ansiosa, nas quais consiste sua criaturalidade.
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Como Deus tem um nome apenas no processo da geração eterna e não em sua natureza não gerada (em que é Divindade inoperosa e sem nome), assim a alma tem um nome e uma individualidade empírica apenas quando se exterioriza e opera mediante suas potências inferiores.
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Esse é o homem exterior e servil, mesclado ao corpo, que opera em cada membro, detém-se nas últimas propagações da obra divina, olha para o criado e não ascende ao gerado e à imóvel fonte de todo ser.
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Nisso consiste sua criaturalidade fatal e ineliminável, que o distingue de Deus e torna impossível afirmar uma imediata identidade da alma com Deus.
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Sempre que Eckhart fala de alma criada, refere-se às faculdades psíquicas inferiores que estão em relação com a realidade criada; somente a esse propósito ele afirma que o homem, como criado, foi feito à imagem (ad ymaginem), não é a imagem (ymago) de Deus.
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A metafísica idealista de Eckhart, por não conceder ao criado nenhuma relativa autonomia, está toda voltada a desvalorizar a criação e a supervalorizar o Pensamento absoluto como Ato gerante.
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Conhecer e agir moralmente significa fugir do criado como tal, retornar às fontes do Divino, transcendendo o criado para retornar ao gerado e ao eterno, ao que é.
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O pensamento de Eckhart não conhece outra realidade senão a do ideal e do invisível; ele só conhece a ascese da abstração.
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O retorno é obra do intelecto; o conhecimento constitui a única via de ascensão; a luz radiante do pensamento puro dissolve qualquer compromisso com elementos irracionais ou míticos, não conhecendo outra certeza senão a do Logos.
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Dentro do luminoso conhecimento do eterno presente não há lugar para o sentimentalismo romântico, nem para lamentos e nostalgia do que não é mais, nem para ansiedade e pressentimento de um futuro desejado.
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O objeto do intelecto é o ente, não o que devém; o Ser gerado, não o nada das criaturas.
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O conhecimento do Eterno e do Imutável é conhecimento das razões ideais, e inversamente; para que isso seja possível, é necessário que o intelecto se despoje de todas as imagens estranhas e perturbadoras, devendo estar vazio de toda forma para poder compreendê-las todas.
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O intelecto humano, como tal, não tem forma nem determinação individual, mas é uno em si mesmo e universal; as eternas essências ou razões ideais não são produções arbitrárias do eu empírico, mas Objetos universais, válidos em si mesmos.
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Nosso conhecer não é, como o de Deus, um criar, mas um receber interior. O Pai gera o Filho; nosso intelecto não se compara ao Pai, mas ao Filho que em si reflete o Pai.
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No conhecimento intelectual, a alma se recolhe em si mesma numa perfeita redução, deixando fora de si o não-ser das aparências sensíveis, reencontrando a absoluta unidade consigo mesma.
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O conhecimento é similitudo, e a similitudo é um em dois.
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O conhecimento humano só pode ter valor objetivo se realiza as condições do conhecimento divino; Eckhart afirma que somos apenas por graça o que o Verbo é por natureza, mas a identidade das duas formas de conhecimento é afirmada inequivocamente.
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O Pai gera o Filho como sua imagem, idêntico a Ele e da mesma natureza. Eckhart acrescenta que na alma Ele o gerou, não apenas estando ela junto dEle como igual, mas Ele está nela.
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O Pai gera o Filho na alma precisamente como na eternidade, ininterruptamente, e gera a si mesmo como filho, como o mesmo Filho.
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Deus, mediante Deus, se reconhece na alma; ela reconhece com tal sabedoria a si mesma e todas as coisas, a própria sabedoria em seu próprio lume, e, mediante a mesma sabedoria, o Pai em sua majestade como potência criadora fecunda.
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Deus não é Espírito entendido como Objeto do pensamento, mas como pensamento que pensa em nós, como a nossa Subjetividade. O olho com que vejo Deus é o mesmo olho com que Deus me vê.
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Se as eternas razões ideais são incriadas porque geradas, o intelecto, na medida em que faz uma só realidade com elas, deve ser incriado e incriável, isto é, gerado, pois a alma no ato intelectivo não tem relações com o tempo, mas com o ser eterno.
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O tempo, em sua essência, nada tem em comum com Deus e com a alma; se a alma fosse tocada pelo tempo, não seria mais alma, nem Deus poderia nunca nascer nela.
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A alma é criada se considerada em sua obra inferior relativa ao criado; mas, como intelecto que conhece o Gerado e o Eterno, não deveria ser gerada? Do contrário, o criado conheceria o gerado e deveria ser semelhante a ele.
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Se a alma fosse toda e somente intelecto como é Deus, seria incriada e não seria alma, assim como o homem, se fosse todo e só alma, seria imortal mas não seria homem.
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Eckhart negou sempre ter admitido na alma uma virtude incriável e incriada; ele afirma que nada de criado é pura e totalmente intelecto, pois então não seria criável, e que só Deus pode ser pura Inteligência.
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Quanto mais uma coisa possui de intelecto e de intelectual, tanto mais possui de Deus, do uno e de ser uno com Deus, pois Deus é uno intelecto e o intelecto é Deus uno.
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Embora a teoria incriminada seja encontrável em seus sermões, Eckhart recorre a justificativas de ordem moral e edificante e a distinções equívocas: o Filho é semelhança, nós somos à semelhança; o Filho é filho natural, nós adotivos.
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Se a geração na alma ocorre por obra da Graça, pergunta-se se esta é uma luz criada ou incriada; Eckhart fala expressamente de luz incriada e incriável.
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Embora a criação como concessão de ser tenha uma função importante no pensamento de Eckhart, se o criado como tal é nada e seu ser subsiste apenas em Deus e por Deus, e se a alma não pertence ao tempo mas é inteligência que conhece o Eterno, então a alma pertence à Vida eterna e não ao mundo das coisas criadas e transeuntes.
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As almas inteligentes não são criadas no tempo e não aumentam a quantidade do ser, mas são eternas gerituras de Deus e constituem a plenitude do Espírito, o pleroma de Deus operante.
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O que das almas aparece no tempo e no espaço é apenas aparência fenomênica e manifestação exterior do invisível e, como tal, é criado; o que a alma possui de determinado ou individual está condenado a morrer.
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No intelecto consiste a vida divina da alma, pois Deus é Inteligência e o inteligir, como tal, é incriado.
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Na grande polêmica medieval entre intelectualistas e voluntaristas, Eckhart se alinha decididamente com os primeiros; amor, sentimento e desejo não encontram lugar nesse místico, que parece não conhecer senão a embriaguez da abstração.
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A vontade, como nos neoplatônicos, é apenas um meio que inicia, uma tensão que expressa a alma em seu momento criatural ou, sob a forma de amor, ressonância afetiva de uma posse que só pertence ao intelecto.
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Na disputa sobre se o louvor a Deus na pátria é mais nobre que o amor a Ele no caminho, Eckhart defende que o ato e o hábito do intelecto são mais nobres que o ato e o hábito da vontade, por seu objeto ser mais simples, mais alto e antecedente.
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O ato do intelecto é mais nobre porque em seu processo abstrativo e ascensional chega até a nua entidade da coisa e, transcendendo o próprio ser inteligível, chega a Deus, que está além do ser.
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O intelecto é mais nobre do que a vontade também porque é livre; o ato intelectivo é a expressão da liberdade, pois por ele a alma não sai de si e no conhecimento intelectual reencontra o conhecimento de si mesma.
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A raiz da liberdade está no intelecto, onde se encontra originaliter e virtute, enquanto está na vontade formaliter.
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Para o homem, a liberdade não consiste numa caprichosa e arbitrária capacidade de se referir às coisas e dominá-las, mas é coincidência intelectual consigo mesma e, portanto, idêntica à necessidade da razão objetiva e universal.
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O destino da alma não é dar vida a um corpo e agir entre as criaturas do mundo, mas recolher-se em sua interioridade e reencontrar o Absoluto em si mesma; o homem deve despojar-se de sua impureza exterior e individualidade empírica, deixar de ser um homem para se tornar o Homem universal.
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Eckhart distingue Deus da Divindade (Divinitas), fazendo consistir na Divindade, absolutamente una, inefável e inativa, a profunda natureza de Deus; a Trindade é a extrinsecação da Divindade, é Deus como atividade.
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A alma, como criada, é criatura de Deus uno-trino e é imagem da Trindade; como tem inteligência, é incriada e é o próprio Filho, gerado e semelhante ao Pai.
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Além da geração e da alteridade (Pai-Filho), está imóvel o fundo abissal e escuro da Divindade; além do intelecto, cujo ato implica alteridade e semelhança, deve-se afirmar a raiz primeira das faculdades espirituais, um fundo imóvel e uno, mais alto que o intelecto.
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O pensamento é desejo do Uno e, portanto, movimento de transcendência que vai além não só do sensível mas também do inteligível, não se detendo no ser (objeto do intelecto), mas transcendendo-o para alcançar a causa do ser, que não é o ser.
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Todo véu que cobre a nua essência de Deus deve ser removido: tanto o véu da bondade (sob o qual a vontade O ama) quanto o véu da verdade (sob o qual o intelecto O pensa).
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Como o conhecimento nos apareceu como semelhança, e a semelhança é alteridade que, mesmo sendo possível apenas na unidade, não a realiza integralmente, é necessário transcender também a semelhança.
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A bem-aventurança não é semelhança, mas união; no Uno não há semelhança. O homem não deve ser semelhante a Deus, mas uno com Deus.
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Eckhart chama com vários nomes esse fundo espiritual que torna a alma una com Deus: casa de Deus, recôndito da alma, alma nua, síntese, razão, centelha, castelo da alma, fundo da alma, mente, germe, roca do espírito, mas, apesar de muitos nomes, o fundo da alma é inominável como a Divindade.
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A identidade da alma com o Filho tornava possível o conhecimento da Verdade universal; a identidade do fundo da alma com a Divindade torna possível a união suprema.
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Se não se quer que a inata tensão ao Uno seja vã e exasperante, se não se quer que a vida do espírito falte aqui a seu fim e se consuma na espera desesperada de uma união ultra-terrena, é necessário postular a divindade da própria alma.
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A centelha de que fala Eckhart não é uma faculdade, mas a raiz de toda faculdade, como a Divindade é a fonte das hipóstases divinas; ela é a própria essência da alma, a alma nua, e como tal não conhece nem ama.
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Na absoluta nudez interior, a alma coincide com a Divindade e a Divindade com a alma; nem Deus se infunde na alma senão nu de todo acréscimo; a bem-aventurança é posta na própria nua essência da alma, após a remoção de todo véu.
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O que Eckhart disse da Divindade é repetido a respeito do fundo da alma: ele é sem nome como Deus; não gera e não cria, mas permanece numa imóvel e inoperosa quietude como a Essência que in divinis não gera nem profere verbo.
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Uma virtude está na alma que tem uma única operação com Deus; ela mesma cria e faz todas as coisas com Deus e com nada tem algo em comum e gera com o Pai o mesmo Filho unigênito.
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Na alma, todas as criaturas, já elevadas na inteligência à dignidade de razões geradas, incriadas e incriáveis, tornam-se uma única realidade, o próprio Uno.
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A alma é imagem de Deus porque, como Deus é Vida eterna em cujo processo se podem distinguir vários aspectos e momentos ideais (Divindade, geração, criação) que não prejudicam a unidade da essência, assim a alma é processo espiritual que se explicita do fundo essencial nas faculdades superiores e nas potências inferiores.
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O mesmo não-ser que parece constituir o destino da alma como criatura e distanciá-la infinitamente de Deus (que é a plenitude do Ser) está inserido no próprio Deus.
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A alma não é Deus e por isso é imagem e, como tal, é criada; mas a imagem não faz número com seu exemplar e é a própria vida do exemplar.
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Da não se pode sair, porque fora de Deus é o nada. O ser da alma não é um emergir do nada no tempo, mas um depender eterno, cuja manifestação no tempo é apenas aparente.
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Quando a alma estava ainda na Causa primeira, não tinha um Deus, pertencia a si mesma, não queria nada porque era um ser indeterminado que se reconhecia na divina verdade; só quando a alma saiu de seu livre querer e recebeu o ser criado, então teve um Deus.
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Antes que fossem as criaturas, Deus não era Deus, era o que era. Quando as criaturas se tornaram e se iniciou seu ser criado, Ele não era Deus em si mesmo, mas nas criaturas.
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O princípio de individuação consiste na criaturalidade como tal, no sair de Deus, no emergir no tempo e no espaço, sendo apenas o sinal da aparência e do nada, algo que deve ser superado.
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O retorno ao Uno não é retomar mais solidamente posse do próprio eu, mas é reconquista do Universal no intelecto e da absoluta Unidade no fundo essencial.
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Embora as almas, enquanto muitas criaturas, sejam múltiplas, e cada uma delas seja Uno e Tudo, nem as muitas almas constituem uma real multiplicidade nem Deus se divide nelas; Eckhart parece não superar as dificuldades quando afirma que a multiplicidade não morre nem se extingue no Uno, mas permanece oculta.
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Não é possível sair do próprio espírito; a vida de Deus não se atua senão em nós e por nós, em nossa subjetividade; fora de nós, Deus é um vazio nome.
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A existência de outras almas fora da nossa é indiferente para os efeitos da vida espiritual: elas não aumentam o Ser nem determinam novos deveres essenciais. A única verdadeira relação é a da alma consigo mesma, isto é, com Deus.
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A Unidade não é para a alma seu ser imediato (o homem não é essencialmente intelecto), mas é a meta de uma conquista laboriosa.
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A verdadeira vida da alma se desenrola não no Uno em que está submersa desde a eternidade, mas no ato de conquista do Uno; nisso consiste sua humanidade divina, nisso ela é verdadeiramente igual a Cristo, Verbo encarnado, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.
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