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Transfiguração
ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 21: A TRANSFIGURAÇÃO
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A transfiguração é analisada por meio das interpretações de vários grupos gnósticos e de figuras eclesiásticas como Irineu, destacando-se a eficácia vinculada por Jesus à sua própria constituição humana e ao mistério da cruz.
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O sacerdócio levítico era incapaz de render culto verdadeiro a Deus, sendo necessário o único Mediador para purificar o santuário e estabelecer o sacerdócio supremo da Lei da graça.
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O próprio santuário, constituído pelos espirituais purificados, tornar-se-ia sacerdote supremo em comunhão com o Salvador.
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A análise prévia inclui as leituras e interpretações de Marcion e de outras tradições, como o Evangelho dos Hebreus e os gnósticos setianos, sobre o episódio.
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Marcion lia Lucas 9:30 como dois homens (Elias e Moisés) falando com Jesus em glória, mas, segundo Tertuliano, ele teria lido que eles estavam em pé com Ele, evitando o colóquio para não admitir que a Lei e os Profetas haviam profetizado sobre a paixão de Cristo.
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Tertuliano afirma: “Nam etsi Marcion noluit eum (= Moysen) colloquentem domino ostensum, sed stantem, tamen et stans os ad os stabat et faciem ad faciem – ‘cum illo’, inquit, non ‘extra illum’ – in gloria ipsius, nedum in conspectu”.
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Apesar de sua aversão por Moisés e Elias, Marcion acolheu a transfiguração para usar Lucas 9:35 (“Este é meu Filho o amado; ouvi-O”) e condenar, por boca de Deus, toda obediência à Lei e aos Profetas.
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A “nuvem luminosa” (nephele photene) recebe destaque fora dos escritos valentinianos, aparecendo em textos como o AegEv e o Apocryphon Iohannis (AJ) como símbolo de proteção e revelação da verdadeira majestade de Deus.
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O Apocryphon Iohannis reinterpreta a arca de Noé: “Não assim como o disse Moisés: ‘Ele (= Noé) se ocultou em uma arca (kibotos)’, mas sim, foi proteger-se (skipazein) em um lugar (topos)”.
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Segundo o AJ, Noé e as gentes do linaje divino foram a um lugar envolto em nuvem luminosa para se defender da escuridão, reconhecendo ali a majestade e o senhorio da luz.
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O verbo “proteger” (skepazo), comum ao AJ e ao tratado sem título (UW), não figura no Novo Testamento, mas aparece no Antigo, em Êxodo 33,22, sendo usado pelos gnósticos.
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A exegese de Santo Irineu sobre a transfiguração conecta a cena do Tabor com a promessa de Êxodo 33,22, interpretando a proteção da mão divina e a “altura da rocha” como referência à encarnação do Verbo nos últimos tempos.
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Irineu escreve: “Et Verbum quidem ‘loquebatur Moysi apparens in conspectu, quemadmodum si quis loquatur ad amicum suum’ (Êxodo 33:11) … ‘Sta in loco alto petrae, et manu mea contegam super te’”.
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Para Irineu, a “altura da rocha” tem um sentido cristológico, indicando a plenitude dos tempos (“in novissimis temporibus”) quando o Verbo veio como homem.
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A proteção (contegam / skepaso) não vem da nuvem luminosa, mas da “mão” do próprio Verbo, que se faz acessível ao se fazer carne, permitindo que os homens vejam a Deus face a face sem morrer.
EXÉGESE VALENTINIANA: TESTEMUNHAS DO MISTÉRIO
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A análise valentiniana da transfiguração concentra-se nos números dos personagens presentes, vendo no “quarto” (o Senhor com os três discípulos) e no “sexto” (com Moisés e Elias) uma simbolização da natureza humana espiritual de Jesus.
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Clemente de Alexandria afirma: “O Senhor – ao subir quarto (tetartos anabas) ao monte – se faz sexto”.
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O valentiniano Marcos menciona “Aquele que depois de seis dias subiu quarto (tetarton anabanta) ao monte e se fez sexto…”.
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Ao se fazer sexto, Jesus revestiu uma natureza sensível (hilica) para redimir o mundo, trânsito que teria ocorrido no seio virginal de Maria, sendo evidenciado no monte pela presença de Moisés e Elias.
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A referência cronológica “depois de seis dias” (Mateus e Marcos) é interpretada pelos valentinianos à luz da teofania do Sinai (Êxodo 24,16) e da criação do homem no sexto dia (Gênesis 1:31).
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Marcos afirma: “E por isso disse Moisés (31) que o homem foi feito no dia sexto. E, segundo a dispensação (da saúde), o homem novíssimo se revelou, para regeneração do primeiro homem, no dia sexto”.
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O seis simboliza a criação do homem terreno e, ao mesmo tempo, sua regeneração pelo Homem último (Cristo), estabelecendo um vínculo entre o seis e o oito (Ogdoada).
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O Pseudo-Barnabé escreve em exegese: “E fez Deus em seis dias as obras de suas mãos, e acabou-as no dia sétimo… Quer dizer: em seis milênios consumará o Senhor todas as coisas. O dia, para Ele, significa mil anos”.
A VOZ DO CÉU
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A voz que sai da nuvem no Tabor é interpretada por Clemente de Alexandria como “sétima”, assumindo um papel profético e psíquico que anuncia o fim da economia antiga e a chegada da nova dispensação centrada no Filho.
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Clemente escreve que o Senhor “é proclamado (anakeryssomenos) Filho de Deus mediante a voz – sétima (di' hebdomes… tes phones) –, a fim de que os uns, crendo nEle (peisthentes peri autou), descansem (anapauontai)”.
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A voz é sétima porque provém do demiurgo, senhor da Hebdomada, mas atua como instrumento de uma Sabedoria superior, proclamando a filiação divina de Jesus.
O RESPLANDOR
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O resplandor do rosto de Jesus como o sol e a luz que envolve seu corpo são descritos por Clemente de Alexandria como uma “luz espiritual” que põe a descoberto a virtude que dele sai, visível apenas aos “escolhidos para ver”.
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Clemente narra: “E é rodeado em torno (o Senhor) com luz espiritual (foti perilampetai pneumatikos), pondo ao descoberto a virtude que dEle sai (ten dynamin ten ap’autou paragymnossas), na medida assequível aos escolhidos para ver”.
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A luz espiritual envolve o Senhor externamente, mas é idêntica à sua pessoa como Unigênito, sendo a “luz inacessível” (1 Timóteo 6:16) que ele habitualmente esconde sob sua envoltura terrena.
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Os discípulos não viram essa luz com olhos carnais, pois não há parentesco entre aquela luz e a carne, mas sim porque a virtude e o querer do Salvador potencializou (enedynamosen) a carne para a contemplação.
MEDIDA DO CONHECIMENTO
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A revelação da virtude divina de Jesus na transfiguração ocorre na medida da capacidade dos escolhidos, tendo sido estes primeiro “engrandecidos” pelo Salvador para poderem contemplá-lo em sua grandeza real e única.
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Os Atos de Pedro com Simão (Acta Petri cum Simone) afirmam: “Unusquisque enim nostrum sicut capiebat videre, prout poterat videbat”.
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Contra a ideia de uma revelação acomodada, o Evangelho segundo Felipe (§ 26) indica que o Senhor fez grandes os discípulos para que fossem capazes de vê-lo grande: “Mas, quando apareceu a seus discípulos (mathetes) em glória sobre o monte, não era pequeno. Hizose grande”.
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O documento Excerta ex Theodoto (ET) esclarece que a voz no monte se dirigiu aos “escogidos já iniciados” (tois ede syniousin eklektois), enquanto a voz no Jordão se dirigia aos futuros crentes.
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O Senhor ordenou “A ninguém digais o que vistes” (Mateus 17:9) para que os homens não entendessem sua dignidade, se abstivessem de pôr as mãos sobre Ele e a dispensação da morte se tornasse imperfeita.
TABOR E JORDÃO
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Os mistérios do Tabor e do Jordão são conectados pela exegese valentiniana através da simbologia dos números (seis e oito) e pela manifestação da paloma, cujo valor numérico (801, alfa e omega) revela o Filho como princípio e fim da dispensação.
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Marcos valentiniano afirma: “A éste o notificou (ephaneirose) – ao ir (Jesus) para o batismo – a bajada da paloma, que é omega e alfa. O número dela é, em efeito, 801”.
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No Tabor, Jesus é “insigne Ogdoada”, mas desce do monte e é retido na Hebdomada (passível), sujeito aos arcontes, para realizar sua paixão e morte no sexto dia (Parasceve).
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Apenas os “filhos da luz” penetram através do seis (Jesus homem) até o mistério da paloma, o número insigne que é princípio e fim dos séculos.
“EXCERPTA EX THEODOTO” (Ester 4)
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O texto dos Excerpta ex Theodoto oferece uma exegese da transfiguração que, embora ambígua, parece estar mais alinhada com a teologia eclesiástica do que com a valentiniana específica, ao focar na glória que a Igreja aprenderá após a morte.
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O documento afirma que o Senhor apareceu em glória sobre o monte aos apóstolos “a causa da Igreja, a saber, ‘o linaje escogido’ (1Pe 2,9); a fim de que (a Igreja) aprendesse sua etapa (prokopen) depois de seu êxodo carnal (meta ten tes sarkos exon)”.
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Sobre a visão, explica-se que o Salvador “potencializou (enedynamosen) a carne (sua) para a contemplação”, pois não há parentesco entre aquela luz e a carne sensível.
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O espanto diante da voz (em vez da luz) é explicado psicologicamente: “Porque os ouvidos são mais incrédulos que os olhos, e a voz inesperada (ha para docan fone) fere mais”.
CONCLUSÃO
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A análise conclusiva indica que a exegese gnóstica da transfiguração, embora rica em simbologia numérica (4, 6, 7 e 8), é deliberadamente esotérica e sibilina, contrastando com os temas fortes que se poderia esperar, como a relação entre transfiguração e ressurreição.
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Os hereges sacrificam os motivos genéricos e óbvios (como a revelação da forma divina de Jesus) para se fixarem em caprichosos jogos numéricos de tecnicismo ambíguo, visíveis em Marcos e no Stromateus de Clemente.
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