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SIMÃO O MAGO
Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Capítulo I: A “gnose” de Simão, o Mago
1. Simão como cismático antes que herege
- Os textos de Nag Hammadi não permitem determinar com segurança quando o gnosticismo nasceu nem como era em seu início.
- Não se conhece a data em que os textos de Nag Hammadi foram escritos.
- Sabe-se apenas que são anteriores a meados do século IV.
- Em sua forma atual, a maior parte desses textos parece relativamente tardia.
- Para o período mais antigo, no qual o gnosticismo deve ter surgido, as fontes principais continuam sendo os heresiólogos e sobretudo o Novo Testamento.
- O Novo Testamento é mais confiável que Irineu e os demais heresiólogos para o que se refere ao primeiro século.
- O gnosticismo costuma ser situado, ao menos em sua formação, na segunda metade do primeiro século.
- Os textos do Novo Testamento também foram escritos nesse período.
- As obras heresiológicas disponíveis não são anteriores à segunda metade do segundo século.
- A investigação do gnosticismo exige tratar do Novo Testamento, embora seus problemas sejam extremamente complexos.
- Quase cada passagem do Novo Testamento recebeu vasta discussão.
- Mesmo um estudo prolongado não garante conhecimento exaustivo de tudo que foi escrito sobre cada passagem.
- Não se pode formar uma ideia do gnosticismo sem tocar no Novo Testamento.
- Quem estuda o Novo Testamento também precisa falar do gnosticismo, ainda que nem sempre o tenha estudado em profundidade.
- O estudo das epístolas paulinas e dos escritos joaninos obriga a tomar posição sobre a origem do gnosticismo.
- A interpretação muda conforme se considere o gnosticismo anterior, posterior, independente ou derivado do cristianismo.
- Do mesmo modo, quem estuda o gnosticismo precisa falar do Novo Testamento.
- A hipótese de um surgimento do gnosticismo no vale do Lico a partir de Colossenses é improvável.
- Com base no Novo Testamento, pensou-se que o gnosticismo teria aparecido primeiro na Samaria e no vale do Lico.
- A hipótese do vale do Lico apoia-se na Epístola aos Colossenses.
- A teoria segundo a qual Colossenses combate gnósticos é apenas uma hipótese.
- Essa hipótese é muito improvável.
- Tudo indica que a epístola combate o cristianismo judaico, não uma forma de gnosticismo.
- A tradição que faz da Samaria o primeiro lugar do gnosticismo depende sobretudo de Simão, o Mago, mas essa tradição é incerta.
- O gnosticismo samaritano foi considerado uma das formas mais antigas, talvez a mais antiga, de gnosticismo vinculável a lugar, tempo e indivíduo definidos.
- Essa consideração depende das tradições sobre Simão, o Mago.
- A doutrina de Simão, se é que ele ensinou alguma, dificilmente já apresentava os traços característicos do gnosticismo.
- Entre esses traços estaria a distinção entre o Deus dos cristãos e o Deus do Antigo Testamento.
- Justino favorece essa interpretação.
- A desvalorização do Criador, e não do mundo, parece desconhecida nas obras do primeiro século.
- Essa desvalorização não é afirmada nem combatida nessas obras.
- A Apophasis Megale não prova que Simão distinguisse Deus e o Criador.
- Hipólito, no século III, atribui a Apophasis Megale a Simão.
- A obra provavelmente não é de Simão.
- Ela pode ter sido escrita em uma escola simoniana no século II ou no início do século III.
- Nela não há evidência de distinção entre Deus e o Criador.
- O mito da Mãe atribuído por Irineu a Simão pode não conter nada propriamente gnóstico.
- O mito pressupõe uma visão pessimista do mundo.
- Esse mesmo pessimismo aparece em Paulo e João.
- Apesar do pessimismo, o ato da criação não é desvalorizado.
- A Mãe cria em obediência ao Pai.
- A ideia de Deus criar por meio da Mãe, isto é, do Espírito, não é estranha ao cristianismo.
- No Veni Creator, o Espírito é chamado Criador.
- A figura de Simão foi talvez considerada pai do gnosticismo por causa de sua proximidade com temas paulinos.
- Quase todas as ideias atribuídas a Simão pelos heresiólogos têm relação com Paulo.
- O mito da Mãe pode ser compreendido a partir de ideias paulinas.
- A doutrina simoniana da salvação, tal como descrita por Irineu, tem ligação ainda maior com a doutrina paulina.
- Por isso, os discípulos de Simão não deveriam obedecer à Lei.
- Eles deveriam considerar-se livres para fazer o que quisessem.
- Irineu acrescenta em latim: Secundum enim ipsius gratiam salvari homines, sed non secundum operas iustas.
- A frase significa: “Pois os homens são salvos por sua graça, e não por obras justas”.
- Essa é, em certo sentido, a doutrina paulina, exceto pelo fato de que, para Paulo, a salvação ocorre pela graça de Jesus Cristo.
- A afirmação de que Simão teria reivindicado salvar por sua própria graça é pouco provável.
- No relato de Irineu, são atribuídas a Simão características manifestamente cristológicas.
- Caso haja algum elemento de verdade nessa atribuição, é mais provável que seus discípulos o tenham colocado no mesmo nível de Cristo.
- É menos provável que Simão tenha colocado a si mesmo nesse nível.
- A hipótese mais provável é que cristãos ortodoxos ou cristãos judaicos encontraram uma obra simoniana e pensaram que palavras dirigidas a Cristo eram dirigidas a Simão.
- Também poderiam ter pensado que palavras pronunciadas por Cristo eram pronunciadas por Simão.
- A afirmação de que Simão teria reivindicado ser Deus Pai é ainda mais difícil de aceitar.
- Observou-se certa semelhança entre o nome Simão e um dos nomes atribuídos a Deus.
- Essa semelhança poderia explicar a notícia de Justino segundo a qual quase todos os samaritanos veneravam Simão como Deus supremo.
- Sem essa explicação, a afirmação de Justino seria surpreendente, mesmo admitindo grande veneração dos discípulos por Simão.
- A tradição sobre Simão parece ligada ao paulinismo e à polêmica judaico-cristã contra Paulo.
- Algumas obras pseudo-clementinas mostram que, em certos círculos judaico-cristãos, o nome de Simão podia encobrir o de Paulo.
- Paulo era atacado sob o nome de Simão.
- Em algumas partes do romance clementino, Simão representa Paulo.
- Em outras partes, representa Marcion, que queria ser discípulo de Paulo.
- R. M. Grant considera possível que parte do relato de Irineu sobre o simonianismo derive de ataques ebionitas contra Paulo.
- Grant pergunta se as informações de Irineu realmente se referem aos simonianos ou se vêm de ebionitas que usaram Simão para atacar Paulo.
- O uso de Simão como máscara de Paulo aparece nas Homilias e Reconhecimentos Clementinos e em suas fontes.
- Essas fontes remontam ao século II.
- Irineu parece conhecer algo semelhante a essas fontes quando afirma que Simão passou a disputar avidamente com os apóstolos após o episódio de Atos.
- Grant julga mais provável que os simonianos tenham sido, em certa medida, paulinos radicais.
- Segundo essa hipótese, os ebionitas reconheceram depois esse fato e atacaram Paulo por meio de Simão.
- Simão pode ter sido considerado pai de todas as heresias porque foi assimilado a Paulo.
- Se Simão for visto apenas como o mágico de Atos 8:9—24 ou como chefe de uma pequena seita, é difícil fazê-lo carregar tal responsabilidade.
- Os simonianos provavelmente nunca passaram de um pequeno grupo, situado principalmente na Samaria e sem grande influência externa.
- Por meio de Menandro, que ensinou em Antioquia, o simonianismo poderia ter influenciado Saturnilo e Basilides.
- Outros gnósticos muito antigos mencionados pelos heresiólogos, como Cerinto, não parecem ligados a Simão.
- Mesmo havendo continuidade entre Simão, Saturnilo e Basilides, elementos novos e não simonianos foram introduzidos.
- Entre esses elementos estão influências que parecem vir do Quarto Evangelho.
- Se a questão é Paulo, já não seria absurdo fazê-lo pai de todas as heresias gnósticas.
- Os filhos do paulinismo frequentemente modificaram as ideias de seu pai.
- Os gnósticos também podem ser filhos do pensamento joanino.
- O Evangelho de João e Cerinto podem, de certo modo, ser vinculados à corrente paulina.
- Langerbeck mostrou que as doutrinas dos grandes gnósticos eram basicamente um paulinismo radical.
- A Segunda Epístola de Pedro, obra apócrifa talvez tardia, atribui a heresia, isto é, o gnosticismo, a uma interpretação equivocada das epístolas de Paulo.
- A própria existência histórica de Simão pode ser questionada, embora seja mais simples admitir que ele existiu.
- F. Chr. Baur julgou que Simão nunca foi mais que uma caricatura de Paulo.
- A principal razão para crer em sua existência é que, no primeiro século, Simão era conhecido por Lucas, autor dos Atos dos Apóstolos.
- A descrição lucana não parece aplicável diretamente a Paulo.
- Lucas descreve um mágico samaritano convertido por Filipe que tenta comprar dos apóstolos o poder de conceder o Espírito Santo.
- À primeira vista, parece impossível que essa história tenha sido inventada para se referir a Paulo.
- Mesmo assim, vários elementos da descrição poderiam ser aplicados a Paulo por seus adversários.
- Para os judeus, “samaritano” podia ser sinônimo de herege ou pecador.
- Em João 8:48, Cristo é chamado samaritano por seus inimigos.
- Paulo, que realizava milagres, poderia ter sido considerado mágico, assim como Cristo também foi.
- A tentativa de comprar o direito de dar o Espírito Santo poderia significar o desejo de chefiar sua Igreja e introduzir novos convertidos na recepção do Espírito sem recorrer sempre a Jerusalém.
- Em troca, Paulo poderia ter prometido enviar dons aos “pobres”, ebionim, como a comunidade judaico-cristã de Jerusalém chamava a si mesma.
- Foi exatamente isso que Paulo fez.
- A discordância entre Simão e Pedro poderia refletir a discordância entre Pedro e Paulo em Gálatas 2:11—14.
- Filipe era um “helenista”, assim como provavelmente Ananias, que introduziu Paulo na comunidade cristã de Damasco.
- Os cristãos de Antioquia, entre os quais Paulo deve ter recebido formação cristã, também vieram do ambiente helenista.
- Depois da morte de Estêvão, Filipe talvez fosse o helenista mais conhecido, e conversões realizadas por seu grupo poderiam ser atribuídas a ele.
- A possibilidade de Lucas ter recebido diretamente de Filipe a tradição sobre Simão não pode ser provada.
- Se Filipe tivesse contado a Lucas que batizou Simão, Lucas não poderia estar enganado nesse ponto.
- Nesse caso, Simão teria existido de fato.
- Contudo, a dependência direta de Lucas em relação a Filipe é apenas uma possibilidade.
- A semelhança entre a acusação contra Simão e a promessa paulina de enviar dinheiro aos ebionim levanta suspeitas.
- Em Gálatas 2:10, a promessa de Paulo faz parte do acordo que lhe permitiu organizar suas Igrejas com liberdade.
- Entre os direitos exercidos por Paulo estava a imposição de mãos para participação no Espírito, conforme Atos 19:6.
- A confusão de Simão com Paulo pode já estar presente no relato de Atos.
- Lucas talvez não tenha percebido que seu mestre Paulo era alvo indireto de uma tradição difamatória.
- Lucas recolheu muitas tradições em círculos judaico-cristãos e pode tê-las reproduzido sem compreender plenamente seu sentido.
- Ele parece ter desejado reconciliar paulinismo e cristianismo judaico.
- Por ser favorável aos dois lados, talvez não tenha percebido como um lado via o outro.
- O relato de Atos sobre a coleta paulina diverge da explicação de Paulo em Gálatas.
- Em Gálatas, Paulo apresenta a promessa de enviar dons como parte do acordo com Tiago, Pedro e João.
- Em Atos 11:28—30, Lucas diz que Paulo e Barnabé foram intermediários de uma oferta voluntária enviada pela Igreja aos cristãos de Jerusalém durante uma fome no Império.
- Lucas pode ter ignorado a Epístola aos Gálatas ou lembrado mal seu conteúdo.
- Esse erro sobre o motivo da coleta ajuda a explicar por que ele não percebeu que a acusação contra Simão também poderia ser feita contra Paulo.
- Se o relato de Atos sobre Simão se referia de fato a Paulo, os cristãos judaicos negavam que tal acordo tivesse sido aceito.
- Eles teriam afirmado que Paulo propôs o acordo, mas que os apóstolos não o aceitaram.
- As tradições posteriores sobre Simão podem ser explicadas com mais facilidade como polêmica judaico-cristã contra Paulo.
- Quando retratam Simão como viajante e missionário que foi a Roma, aproximam-no de Paulo.
- Paulo foi viajante, missionário e também foi a Roma.
- Há razões para admitir que Simão existiu, embora a cautela permaneça necessária.
- A existência do nome Simão levanta a questão de como os simonianos teriam recebido esse nome se ele fosse apenas personagem fictício de Atos.
- Justino e as obras clementinas mencionam seu lugar de nascimento.
- Se apenas Justino trouxesse esse detalhe, ele poderia ser tão suspeito quanto sua confusão entre uma estátua de Semo Sancus e uma estátua de Simão.
- A redescoberta da estátua mostrou que Justino se enganara nesse ponto.
- A concordância entre as tradições dá certo valor ao testemunho, embora uma possa depender da outra ou ambas de fonte lendária comum.
- Duvidar da existência de Simão talvez seja ceticismo excessivo.
- É mais simples pensar que Simão existiu.
- Mesmo admitindo a existência de Simão, quase nada se sabe com segurança sobre sua doutrina.
- Não se sabe se ele possuía doutrina própria além do que aprendeu do cristianismo.
- É improvável que teorias como o mito da Mãe remontem ao próprio Simão.
- A Apophasis Megale, citada por Hipólito no século III, não pode ser de Simão.
- Essa obra está ligada a um conjunto de doutrinas relativamente tardias.
- As informações de Epifânio, no fim do século IV, são ainda mais suspeitas que as dos séculos II e III.
- Para o pensamento do próprio Simão, resta apenas aquilo que pode ser extraído de Atos.
- O relato de Atos foi provavelmente escrito nos últimos quinze anos do primeiro século, talvez por volta do ano 90.
- Ele pode ter sido influenciado por polêmica judaico-cristã contra o simonianismo e o paulinismo.
- Também pode ser em parte lendário.
- A expressão “a grande potência” em Atos não prova que Simão fosse gnóstico.
- Haenchen sustentou que o modo como os samaritanos falam de Simão em Atos já implica gnosticismo.
- Mesmo que os samaritanos o chamassem “a grande potência”, esse título não indicaria presença gnóstica no primeiro século.
- A expressão parece antes judaico-cristã ou judaica.
- Hegesipo, citado por Eusébio em História Eclesiástica 2,23,13, põe a expressão na boca de Tiago, o Justo, irmão do Salvador.
- Nesse texto, a expressão significa “Deus”.
- Em Atos, ela significa simplesmente que os samaritanos divinizavam Simão por causa das maravilhas realizadas por sua magia.
- Divinizar um homem não implica ser gnóstico nem pertencer ao gnosticismo.
- Se Simão se tomava por Deus, poder-se-ia concluir loucura, não gnosticismo.
- Lucas diz apenas que Simão se apresentava como “alguém grande”.
- A acusação de considerar-se Deus ou deixar-se divinizar é frequente entre cristãos e judeus.
- Em Atos, essa acusação aparece também em relação a Herodes Agripa.
- A fonte do relato é desfavorável a Simão e provavelmente exagera alguns elementos.
- A frase sobre “a grande potência” é tão suspeita quanto o restante do relato de Atos.
- Haenchen reconhece que o conhecimento sobre Simão é extremamente incerto.
- Ele divide o relato de Atos em duas camadas sucessivas de tradição.
- Pensa que o relato verdadeiro e mais antigo foi remodelado.
- Mesmo assim, atribui confiança especial à frase sobre “a grande potência”.
- Essa frase também é suspeita.
- Ela implica hostilidade contra Simão e deseja retratá-lo como alguém que aceitou ser divinizado.
- O uso da expressão “grande potência” trai origem judaico-cristã.
- Os cristãos judaicos eram precisamente inimigos de Simão.
- O pedido de Simão em Atos indica mais uma disputa de autoridade eclesial que simples magia.
- Haenchen pensa que um mágico como Simão deveria ter pedido o Espírito para si, a fim de fazer milagres como Filipe.
- Nesse caso, deveria ter dirigido seu pedido a Filipe, e a intervenção de Pedro pareceria inútil.
- A observação mostra que Simão não era tanto um mágico quanto um chefe de Igreja.
- Se fosse apenas mágico, bastaria possuir o Espírito.
- O que ele desejava era o direito de dar o Espírito.
- Ele provavelmente queria conceder aos cristãos da Samaria a participação no Espírito por si mesmo.
- Em outras palavras, queria o direito de certa independência de sua Igreja em relação a Jerusalém.
- Essa reivindicação era natural para um samaritano.
- O pedido ocorre quando Pedro e João vão à Samaria controlar a obra de Filipe.
- A visita de Pedro e João afirma a autoridade da Igreja de Jerusalém sobre os novos convertidos.
- Simão pode ter representado uma tendência cismática samaritana dentro do cristianismo primitivo.
- Simão era samaritano e fora convertido por um “helenista”.
- Os helenistas não aceitavam o valor especial da Igreja de Jerusalém da mesma forma que os judaico-cristãos.
- A pretensão de primazia da Igreja de Jerusalém lembrava a pretensão dos sacerdotes do Templo sobre judeus de todo o mundo.
- A organização do cristianismo copiava de perto a organização do judaísmo.
- Os helenistas talvez criticassem essa organização centralizada.
- Os samaritanos nunca aceitaram essa centralização.
- Simão, se existiu, foi talvez de tendência cismática, não propriamente heresiarca.
- Assim como os samaritanos eram cismáticos dentro do judaísmo, os cristãos samaritanos podem ter desejado independência parcial de Jerusalém.
- Os cristãos judaicos de Jerusalém podem ter visto nisso uma afronta profunda.
- O simonianismo pode ter sido convertido em modelo do paulinismo, também detestado por eles.
- O paulinismo parecia cisma porque libertava cristãos pagãos da Lei.
- A Lei, como o Templo, constituía a unidade do judaísmo, da qual os cristãos judaicos não queriam separar-se.
- Por romper a unidade, Paulo podia ser comparado a Simão.
- A oposição a Paulo sob o nome de Simão permitia acusá-lo indiretamente.
- Os cristãos veneravam Paulo.
- Combatê-lo sob o nome de Simão permitia atribuir-lhe acusações que talvez não ousassem formular diretamente.
- Nada característico da doutrina de Simão é conhecido com segurança.
- Ele talvez tenha se interessado especialmente pelo Espírito.
- Atos permite concluir apenas que o Espírito era para ele um poder sobrenatural que permitia, entre outras coisas, realizar milagres.
- O Espírito também podia ser inspiração própria dos membros da Igreja e elemento de formação do grupo.
- Essa concepção pouco difere do que o Espírito era para muitos cristãos.
- Mesmo que o mito da Mãe remontasse a Simão, o que é muito improvável, ele não seria propriamente gnóstico.
- A Mãe, isto é, o Espírito ou a Igreja, oprimida pelos anjos, isto é, pelo mundo, não constitui ideia propriamente gnóstica.
- A Mãe não é forma do Demiurgo, porque cria por ordem de Deus.
- Ela cria como a Sabedoria cria no Antigo Testamento, como o Verbo em São João ou como o Espírito no Veni Creator.
- Não há razões sólidas para afirmar que o gnosticismo apareceu primeiro na Samaria ou em Colossos.
- O Novo Testamento não fornece base firme para situar o primeiro gnosticismo na Samaria.
- Há ainda menos razão para situá-lo em Colossos.
- Os documentos mais antigos em que aparece uma tendência capaz de tornar-se gnosticismo são as epístolas de Paulo aos Coríntios.
- Essa tendência surgiu entre os cristãos de Corinto.
2. Observações sobre o livro de Beyschlag
- Karlmann Beyschlag oferece forte apoio à tese de que o Simão de Atos não era gnóstico.
- O livro Simon Magus und die christliche Gnosis foi publicado em Tübingen em 1974.
- A obra é muito rica em referências.
- Para Beyschlag, o Simão descrito em Atos não era gnóstico.
- O gnosticismo simoniano apareceu muito mais tarde, no século II.
- Esse gnosticismo deve ser entendido como ramo da gnose cristã.
- Não deve ser entendido como etapa preliminar anterior à gnose cristã.
- O que é gnóstico no simonianismo deriva de uma gnose cristã posterior a Simão.
- O que talvez não seja cristão ainda não é gnóstico.
- A demonstração de Beyschlag é correta quanto ao caráter não gnóstico de Simão em Atos, mas seu retrato do Simão histórico é discutível.
- A dependência do simonianismo gnóstico em relação ao cristianismo é adequadamente demonstrada por Beyschlag.
- A hipótese de Beyschlag sobre o Simão histórico não parece necessária nem a mais provável.
- Para Beyschlag, Simão foi um theios aner, isto é, um “homem divino” no sentido antigo da expressão.
- Ele teria sido venerado como tal por uma população provavelmente pagã de Sebaste.
- Essa hipótese suscita várias objeções.
- A hipótese de uma veneração pagã de Simão não se ajusta ao contexto narrativo de Atos.
- Na seção de Atos em que Simão aparece, ainda não se trata da pregação aos pagãos.
- A pregação aos pagãos começa apenas nos capítulos 10 e 11.
- Pedro batiza Cornélio nesses capítulos.
- Os cristãos de Antioquia, rompendo o costume cristão primitivo de falar apenas a judeus, começam também a falar aos gregos.
- O eunuco da rainha da Etiópia em Atos 8:26—34 era ao menos prosélito.
- Ele fora a Jerusalém para adorar Deus e Filipe o encontra lendo o profeta Isaías.
- Filipe parece dirigir-se não a pagãos, mas a judeus cismáticos de algum tipo, como eram a maioria dos samaritanos.
- O episódio pode ter ocorrido em Siquém, não em Sebaste.
-
- Em Atos 12, os que divinizam Herodes Agripa o chamam “deus” porque são pagãos.
- Em Atos 8, os que divinizam Simão o chamam “a grande potência”.
- Essa é uma expressão judaica, judaico-cristã ou samaritana para se referir a Deus.
- Não é expressão pagã.
- Beyschlag reconhece que o theios aner não era chamado assim.
- A linguagem posta por Lucas na boca dos admiradores de Simão indica que ele não os considerava pagãos.
- É pouco provável que uma população da religião samaritana divinizasse um homem.
- A fonte lucana sobre Simão provavelmente é judaico-cristã ou deriva de um ambiente hostil a ele.
- Na primeira parte de Atos, Lucas geralmente usa fontes judaico-cristãs.
- A parte do relato em que Pedro e João aparecem visa glorificar os apóstolos de Jerusalém.
- A expressão “a grande potência”, mesmo que seja samaritana, é ainda mais seguramente judaica e judaico-cristã.
- Hegesipo atribui o uso dessa expressão a Tiago, irmão do Senhor.
- Nos Evangelhos Sinóticos, o sumo sacerdote usa “a Potência” para Deus, ao menos em Marcos e Mateus.
- Lucas acrescenta “de Deus”, como faz em Atos 8.
- Isso sugere que sua fonte talvez trouxesse apenas “a grande potência”.
- Na Bíblia, El significa Deus e também “Potência”.
- Há mais razão para supor uma fonte judaico-cristã.
- Mesmo que parte da tradição sobre Simão venha dos helenistas, ela continua marcada por hostilidade.
- Haenchen considera possível que a primeira parte do relato derive de tradição preservada pelos helenistas.
- A deificação de Simão por seus concidadãos lembra a de Herodes Agripa.
- Herodes Agripa foi punido por permitir que a multidão o chamasse deus.
- Em Atos 12, Lucas evita atribuir ao próprio Herodes Agripa a pretensão de ser deus.
- Lucas coloca o título divino na boca do povo, como faz no caso de Simão.
- A intenção das duas fontes é criticar alguém que aceita ser posto em pé de igualdade com Deus.
- O relato inteiro contém hostilidade contra Simão.
- A hostilidade da fonte permite duvidar de que Simão tenha reivindicado ser Deus ou deus.
- O Simão histórico provavelmente não afirmou ser Deus ou deus, assim como Herodes Agripa provavelmente também não.
- Os admiradores de Simão, pertencentes segundo Lucas à religião samaritana e tão monoteístas quanto os judeus, provavelmente não lhe deram título que o igualasse a Deus.
- A acusação vem dos adversários de Simão e dos simonianos.
- No fim do primeiro século, havia hostilidade contra Simão e os simonianos entre cristãos ligados à comunhão das Igrejas.
- A acusação de aceitar ser divinizado, e talvez a acusação de magia, pode ser atribuída a essa hostilidade.
- Atos não menciona gnosticismo na passagem sobre Simão.
- Na época de Atos, o gnosticismo mal havia aparecido.
- Se há alguma alusão ao gnosticismo em Atos, ela se refere a Éfeso, não à Samaria.
- Em Atos 20:29—30, Paulo prediz aos anciãos de Éfeso o aparecimento de “lobos ferozes”.
- Paulo diz que, dentre eles mesmos, surgirão homens que falarão coisas perversas para arrastar discípulos.
- Se isso se refere aos gnósticos, Lucas situa o gnosticismo depois de Paulo, e não durante sua vida.
- A hostilidade contra Simão em Atos decorre mais de risco de cisma do que de heresia gnóstica.
- Simão não pede simplesmente o Espírito Santo para fazer milagres.
- Ele pede o direito de dar o Espírito Santo pela imposição das mãos.
- Em outras palavras, pede o poder de confirmar.
- De fato, pede ser bispo, isto é, ter na Samaria os mesmos poderes dos apóstolos em Jerusalém.
- Aos olhos dos apóstolos, o perigo não é a heresia, mas o cisma.
- O perigo também é permitir que um grupo cristão se organize com certa autonomia.
- Simão não pede autonomia completa, pois oferece dinheiro.
- Ele oferece precisamente o que Paulo oferecerá para obter o direito de pregar o Evangelho à sua maneira entre os pagãos.
- Em Gálatas 2:10, Paulo recorda a condição concedida: “Somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer”.
- Lembrar-se dos pobres significava enviar dinheiro à comunidade de Jerusalém.
- Os pobres, ebionim, eram os cristãos judaicos depois chamados ebionitas.
- A oferta de Simão pode ser entendida à luz do acordo entre Paulo e Jerusalém.
- O exemplo de Paulo mostra que os apóstolos podiam aceitar dons em troca de certa autonomia.
- Os dons indicavam que a autonomia não era completa.
- Assim como o imposto do Templo ligava os judeus do mundo inteiro a Jerusalém, a coleta ligava todos os cristãos à Igreja-mãe.
- Se Simão é personagem fictício que representa Paulo na fonte de Lucas, os apóstolos nunca teriam aceitado tal contrato.
- Nesse caso, Paulo teria interpretado erroneamente seu acordo com eles.
- A coleta de Paulo teria sido feita em vão.
- O dom da coleta não diminuiu a hostilidade dos cristãos judaicos contra Paulo.
- A prova imposta por Tiago a Paulo causou sua prisão.
- Se os romanos não o tivessem protegido ao prendê-lo, essa prova poderia ter causado sua morte.
- Se o relato se refere de fato a Simão, a recusa apostólica pode ter sido motivada pela proximidade da Samaria e por sua tradição separatista.
- Talvez tenha sido a primeira vez que os apóstolos receberam tal pedido.
- Naquele momento, o cristianismo ainda não se espalhara por toda a Palestina.
- Poderia parecer natural não conceder autonomia, mesmo limitada, a Igrejas tão próximas de Jerusalém.
- A condição samaritana de Simão também pode ter sido decisiva.
- A pretensão samaritana de independência religiosa sempre fora insuportável aos judeus da Judeia.
- Os apóstolos podem ter visto no pedido dos cristãos samaritanos o mesmo espírito separatista que os judeus atribuíam à Samaria havia séculos.
- Assim como havia um duplo judaísmo por causa dos samaritanos, temia-se a instituição de um duplo cristianismo.
- Simão foi visto como separatista ou cismático.
- A principal acusação contra ele não foi inicialmente ser pai da simonia.
- Essa acusação só se tornou importante depois.
- A acusação principal era ser pai da heresia, entendida antes de tudo como cisma e separação.
- A gnosticização posterior de Simão não explica sozinha por que ele foi considerado pai de todas as heresias.
- Beyschlag explica corretamente que o Simão histórico não gnóstico pôde ser gnosticizado posteriormente.
- Também foram gnosticizados o apóstolo João, o apóstolo Tomé, Filipe, Maria Madalena e o próprio Jesus.
- Isso não basta para explicar por que Simão foi considerado pai de todas as heresias.
- A explicação provável é que a comunidade chefiada por ele tenha sido a primeira a desejar ampla autonomia.
- Se essa demanda gerou separação real de Jerusalém, o simonianismo deu o primeiro exemplo de cisma.
- O cisma é o caminho da heresia.
- É possível que, em um grupo derivado da Igreja simoniana, no início do século II, tenham aparecido as primeiras doutrinas claramente gnósticas.
3. Como se pode explicar a imagem de Simão em Justino
- A sugestão de Justino de que Simão reivindicava ser um deus deriva provavelmente da mesma tradição que sustenta o relato de Lucas.
- Justino parece sugerir, mais do que afirmar claramente, que Simão reivindicava ser um deus.
- O relato de Lucas mostra que, no fim do primeiro século, alguns cristãos diziam que antes da conversão Simão se apresentava como “alguém grande”.
- Também diziam que seus admiradores o chamavam “a grande potência”, isto é, o divinizavam.
- Simão provavelmente era uma pessoa importante e prestigiosa entre seus concidadãos.
- Sem esse prestígio, seria difícil explicar seu pedido aos apóstolos em Atos.
- Se ele pediu ser uma espécie de bispo, é natural que tenha sido acusado de orgulho.
- Essa acusação seria ainda mais natural se, após a recusa apostólica, ele se tornou chefe de uma Igreja separada.
- Para representar esse orgulho, pode-se ter dito que ele afirmava ser deus ou Deus.
- Talvez Lucas atenue a acusação ao colocar o título divino na boca do povo.
- Talvez atenue também ao acrescentar “de Deus” a “grande potência”, distinguindo o título dado a Simão de Deus propriamente dito.
- O relato de Lucas podia facilmente ser entendido como se Simão se apresentasse como ser divino.
- Apesar das atenuações, o relato de Lucas podia sugerir que Simão se apresentava como ser divino.
- Cristãos judaicos podiam reconhecer a expressão “a grande potência” na perífrase de Lucas.
- Mesmo que Lucas ponha as palavras na boca do povo e não de Simão, muitos leitores podiam ignorar essa diferença.
- A acusação podia facilmente recair sobre o próprio Simão.
- Vários comentadores ainda fazem isso.
- Lucas situa a glorificação de Simão no tempo anterior à conversão.
- Depois da conversão, Lucas mostra Simão agindo com maior humildade diante dos apóstolos.
- Essa nuance provavelmente passou despercebida para muitos leitores.
- O fim do relato impressionou menos que o começo.
- Escritores que citam o relato frequentemente desconsideraram ou transformaram essa nuance.
- O erro de Justino sobre a estátua romana dedicada a Semo Sancus também pode ter contribuído.
- A inscrição Semon; deo Sanco foi tomada por Justino como dedicação ao “deus Simão”.
- Somado ao título “grande potência” entendido em seu sentido pleno, esse erro explica por que Justino pensou que Simão reivindicava ser deus ou Deus.
- Justino provavelmente conhecia pouco de tradições diretamente simonianas ou samaritanas sobre Simão.
- Embora samaritano, Justino parece retirar a maior parte do que diz sobre Simão dos Atos dos Apóstolos.
- O que julgava saber talvez tenha vindo não de simonianos ou samaritanos, mas de cristãos judaicos.
- Justino era de origem pagã.
- Nasceu de pais cristãos em Nablus, nova cidade construída perto da antiga Siquém.
- A população de Nablus provavelmente era majoritariamente pagã.
- Justino provavelmente conhecia poucos compatriotas pertencentes à religião samaritana.
- A afirmação de que quase todos os samaritanos consideravam Simão o primeiro Deus é questionável.
- A comunidade romana provavelmente tinha tendência judaico-cristã, talvez já no tempo de Paulo.
- Justino parece ter simpatia pelo cristianismo judaico, que não considera herético.
- Ele pode ter tido ligações com cristãos judaicos do Oriente.
- Deles pode ter aprendido tradições sobre os samaritanos em geral e Simão em particular.
- Essas tradições teriam facilitado sua crença de que a estátua romana era de Simão e de que Simão fora a Roma.
- As tradições conhecidas por Justino não precisam ser idênticas às pseudo-clementinas.
- Há diferenças entre o que Justino diz sobre Helena e o que dizem as obras pseudo-clementinas.
- Também há diferenças sobre Simão, pois as obras pseudo-clementinas o retratam menos como quem reivindica ser deus e mais como quem reivindica ser Salvador.
- Mesmo diferentes das tradições clementinas, as tradições de Justino poderiam ser igualmente judaico-cristãs.
- Justino não afirma de modo constante e preciso que Simão, Menandro ou Marcion reivindicavam ser deuses.
- Em Apologia 1,26, Justino afirma primeiro que os demônios suscitam homens que reivindicam ser deuses.
- Em seguida, fala de Simão, Menandro e Marcion, aparentemente os homens que teriam reivindicado ser deuses.
- Nos parágrafos dedicados a cada um, ele não repete a acusação.
- Nem mesmo no caso de Simão a acusação é repetida claramente.
- Justino diz apenas que Simão foi tomado por deus, o que concorda com Atos.
- O mesmo ocorre em Apologia 1,56 e no Diálogo 120.
- Simão é tomado por deus, mas não se diz que ele mesmo tenha reivindicado isso.
- Muito menos Justino diz que Menandro e Marcion reivindicaram ser deuses ou foram tomados por deuses.
- A afirmação inicial torna-se duvidosa quando comparada com o restante do texto e com outros textos de Justino.
- Heresiólogos posteriores exageraram o que Justino sugeriu.
- Eles negligenciaram a diferença entre uma frase geral e vaga e afirmações mais constantes e precisas.
- Desse modo, amplificaram as lendas.
- A tradição heresiológica de que Simão e Menandro reivindicavam ser deuses não é tão sólida quanto Foerster pensava.
- Foerster atribuiu grande valor à tradição em que Simão e Menandro aparecem como reivindicando divindade.
- Ele observou que eram os únicos gnósticos dos quais isso era dito.
- Concluiu que os heresiólogos não poderiam ter inventado esse traço com base em exemplos posteriores.
- Contudo, o heresiólogo mais antigo, fonte de toda a tradição, não afirma isso claramente em seus textos mais precisos.
- Quando Justino parece dizê-lo uma vez, aplica a acusação a três hereges, não apenas a Simão e Menandro.
- A repetição de que Simão foi tomado por deus pode ser explicada por fatores diversos da veracidade histórica do fato.
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