User Tools

Site Tools


gnosis:marcion:lampe

Peter Lampe

Peter Lampe. From Paul to Valentino: Christians at Rome in the first two centuries. Tradução: Michael G. Steinhauser. Minneapolis: Fortress Press, 2003.

  • Capítulo 24 — Marcion
    • Marcion atuou em Roma nas décadas de 140 e 150, após um período de comunhão com os cristãos romanos e antes de sua ruptura provável em julho de 144.
      • Irineu situa o fortalecimento de sua doutrina sob o presbítero romano Aniceto, por volta de 155–166.
      • Tertuliano o coloca no reinado de Antonino Pio, enquanto Clemente de Alexandria indica que sua atividade já aparecia sob Adriano.
      • Clemente de Alexandria afirma que Marcion já não vivia no reinado de Marco Aurélio e que era mais velho que Basilides e Valentino.
      • Justino, contemporâneo de Marcion, declara que ele ainda ensinava nos anos 150.
      • A expressão grega associada à idade de Marcion deve ser lida em transliteração como presbytes neoteros syngeneto.
      • A expressão grega ligada ao ensino contínuo de Marcion deve ser lida em transliteração como kai nyn eti esti didaskon.
  • As referências a Marcion apresentam-no como empresário cristão ligado à navegação.
    • As informações antigas sobre Marcion aparecem dispersas em diferentes fontes.
  • A ocupação de Marcion como naukleros indica que ele era armador ou proprietário de navios, e essa designação pertence a uma tradição plausível da comunidade cristã romana de língua grega.
    • Tertuliano usa o termo grego naukleros, e não o termo latino navicularius.
    • Marcion provavelmente falava grego e designava em grego a própria profissão.
    • Rhodon, discípulo de Taciano, chama Marcion de nautes, isto é, homem do mar, sem contrariar a tradição de Tertuliano.
  • Tertuliano associa Marcion ao transporte marítimo de mercadorias e cargas.
    • A referência aos navios de Marcion aparece no plural, sugerindo mais de uma embarcação.
    • A censura de Tertuliano inclui a acusação de cargas furtivas ou ilícitas em navios chamados depreciativamente de piratas.
  • O naukleros ocupava uma posição econômica lucrativa e socialmente respeitada no comércio marítimo do século II.
    • O naukleros podia ser proprietário de navio ou capitão de navio próprio ou alugado, conduzindo negócios em nome próprio.
    • O comércio ultramarino exigia capital elevado e envolvia risco extremo, mas também podia produzir grandes lucros.
    • Testamentos e doações de naukleroi demonstram a rentabilidade da profissão.
    • Sob Adriano e seus sucessores, a condição material dos armadores era especialmente favorável.
    • No Egito, os proprietários de navios figuravam entre os homens mais ricos da população.
    • Em alguns lugares, armadores recebiam assentos especiais no teatro, como senadores e dignitários.
    • Cícero já distinguia positivamente os armadores em relação a pequenos comerciantes e artífices.
  • Os privilégios vinculados ao estatuto de naukleros aumentavam o prestígio e a atratividade da profissão.
    • Cláudio concedera direitos especiais aos armadores e comerciantes de grãos em Roma.
    • Nero isentara de impostos sobre os navios aqueles que transportavam alimentos ultramarinos.
    • Desde Adriano, os naukleroi do século II eram sobretudo dispensados de impostos municipais.
  • O armador recebia privilégios quando colocava sua capacidade de transporte a serviço da annona imperial, responsável pelo abastecimento de Roma e do exército.
    • A annona garantia sobretudo grão, carne, óleo e vinho para a capital e para as tropas.
    • Como não havia grandes companhias, cooperativas ou consórcios empresariais, o Estado contratava empresários individuais.
    • Marcion poderia ter sido levado a Roma não apenas por intenções missionárias, mas também por contratos com a annona imperial.
    • Os armadores eram remunerados por fretes chamados vecturae.
  • No século II, o naukleros ainda conservava considerável liberdade diante do Estado.
    • O armador podia aceitar ou recusar viagens a serviço público, mantendo também empreendimentos privados.
    • Essa liberdade era restringida sobretudo em períodos de guerra.
    • No século III, a dependência em relação ao Estado tornou-se mais forte e os serviços públicos passaram a ser um fardo pesado.
  • As corporações de comerciantes e armadores facilitavam a relação entre o Estado e os empresários do comércio marítimo.
    • O Estado via com bons olhos associações capazes de listar empresários disponíveis.
    • A negociação com armadores individuais tornava-se mais simples por meio de corpos organizados.
    • As corporações limitavam muito pouco a iniciativa privada de seus membros.
    • Cada membro continuava responsável pelos próprios negócios.
  • Os privilégios do naukleros no século II dependiam da posse de navio, não de filiação obrigatória a uma corporação.
    • A ausência de obrigatoriedade corporativa podia ser relevante para um armador cristão.
  • As corporações de mercadores e armadores estavam presentes em centros importantes da época de Marcion.
    • Roma, Óstia, Putéolos e Aquileia possuíam tais associações.
    • Em Óstia, os escritórios de corporações ficavam na arcada atrás do teatro.
    • Os mosaicos de navios nos pisos desses espaços indicavam o vínculo com a atividade marítima.
    • A forma preservada desses locais pertence ao tempo de Septímio Severo.
  • Marcion provavelmente administrava um negócio marítimo amplo o bastante para delegar viagens e dedicar tempo a debates teológicos em Roma.
    • Um naukleros não precisava viajar pessoalmente em seus navios.
    • O sínodo romano de presbíteros e mestres em julho de 144 teria ocorrido justamente quando o mar estava aberto.
    • O mare clausum, período de mar fechado, ia de 11 de novembro a 10 de março.
    • A disponibilidade de Marcion para trabalhos teológicos, exegéticos e crítico-textuais sugere delegação de responsabilidades.
  • As viagens de Marcion correspondiam à profissão de naukleros e deixaram traços nas fontes antigas.
    • Marcion vinha do Ponto, mais especificamente da cidade comercial de Sinope.
    • Hipólito o apresenta como filho do bispo de Sinope.
    • Marcion viajou para a Ásia e depois estabeleceu residência permanente em Roma por volta de 140.
    • Antes de migrar para Roma, enviou uma seguidora para preparar sua chegada.
    • Jerônimo registra a frase: “Enviou previamente a Roma uma mulher, que prepararia para ele os ânimos a serem enganados.”
  • A doação de 200.000 sestércios feita por Marcion à igreja romana revela a grandeza de seus recursos financeiros.
    • A quantia foi devolvida quando Marcion se separou da comunidade romana.
    • O censo da ordem equestre era de 400.000 sestércios, e o dos senadores, desde Augusto, era de um milhão.
    • Plínio afirma a um amigo: “A partir de tua condição de decurião em nossa cidade, pode-se concluir que possuis um censo de 100.000.”
    • A doação de Marcion equivalia ao dobro da fortuna mínima de um decurião municipal.
    • A mesma quantia correspondia à metade da fortuna mínima de um cavaleiro romano.
    • A quantia equivalia ainda à fortuna mínima de um iudex ducenarius e à renda anual de um procurador ducenarius.
  • Outras comparações econômicas mostram que 200.000 sestércios constituíam uma soma muito elevada.
    • Em Marcial, uma casa na cidade de Roma custa 200.000 sestércios.
    • Marcial afirma: “Com 200.000, pode-se obter uma propriedade perto de Patras.”
    • Um pequeno terreno dado por Plínio à sua ama de leite valia 100.000 sestércios.
    • Com 200.000 sestércios, Marcion poderia obter cerca de cinquenta hectares de terra cultivável.
  • A riqueza de Marcion poderia aproximá-lo da ordem equestre, mas sua orientação ascética tornava improvável tal aspiração social.
    • A ordem equestre controlava comércio e finanças no período imperial.
    • Um provincial da Ásia Menor no século II poderia concebivelmente alcançar essa posição.
    • A Lex Claudia proibia senadores de possuírem navios mercantes.
    • A classe equestre, por isso, entrou com maior facilidade no campo lucrativo do transporte marítimo.
  • A teologia ascética de Marcion orientava sua relação com o dinheiro e afastava a busca de nobreza social.
    • Marcion desafiava o criador do mundo e insistia na observância rigorosa das bem-aventuranças.
    • Lucas 6:20 é tratado como propriedade própria do ensinamento de Cristo.
    • Marcion chamava seus seguidores de “miseráveis” e “odiados” pelo mundo.
    • A expressão grega citada por Tertuliano deve ser transliterada como syntalaiporoi ou mismoumenoi.
    • O Deus criador promete felicidade aos ricos, enquanto Cristo promete felicidade aos pobres.
    • A doação de 200.000 sestércios torna-se compreensível como investimento religioso, não como estratégia de ascensão social.
    • Hermas poderia ter visto com simpatia esse desprezo de Marcion pela acumulação de status.
  • A relação entre teologia e origem social também permite explicar por que um homem rico adotou desprezo pelo mundo e hostilidade ao criador.
    • O demiurgo marcionita é apresentado como governante do mundo desejoso de guerras.
    • Irineu descreve o demiurgo como “instigador de guerras, inconstante em sua decisão, e contraditório consigo mesmo”.
    • Clemente de Alexandria permite situar uma fase embrionária da doutrina de Marcion já no tempo de Trajano.
  • As características bélica e contraditória do demiurgo marcionita refletem experiências próprias de um naukleros sob Trajano.
    • A experiência histórica ajuda a explicar por que Marcion selecionou tais características tradicionais para representar o demiurgo.
    • A imagem teológica não é separada do horizonte social e profissional do armador.
  • As guerras de Trajano impuseram ao transporte privado um serviço compulsório pesado, que ajuda a compreender a imagem marcionita de um demiurgo guerreiro.
    • As campanhas em Dácia e Mesopotâmia exigiam deslocamento constante de tropas.
    • Era necessário concentrar alimentos, armas, roupas e calçados em pontos estratégicos durante anos.
    • A Coluna de Trajano mostra navios transportando tropas e suprimentos.
    • Cidades gregas próximas ao Danúbio, o sul da Rússia, o norte da Itália e Aquileia aparecem no circuito de abastecimento.
    • Adriano, ao perceber a deterioração econômica do império, reduziu impostos, perdoou dívidas e subsidiou cidades.
    • Adriano concedeu benefícios específicos aos navicularii a serviço do Estado, sobretudo isenção de liturgias municipais.
    • Um edito de M. Petronius Mamertinus mostra como soldados indisciplinados podiam requisitar serviços compulsórios.
    • Marcion, como armador do Ponto, dificilmente escapou das exigências das guerras de Trajano.
  • A posição geográfica do Ponto tornava plausível a participação indireta de Marcion nas pressões logísticas das guerras de Trajano.
    • O Ponto situava-se entre os dois grandes teatros de guerra, Dácia e Mesopotâmia.
    • A administração imperial romana aparece, na percepção de Marcion, como expressão do demiurgo.
    • Nas Antíteses, Marcion caracteriza explicitamente a burocracia romana como representante do demiurgo.
  • A acusação de que o demiurgo é inconstante e contraditório corresponde à experiência dos armadores diante de políticas imperiais alternantes.
    • Trajano exigia serviços compulsórios, enquanto Adriano concedia privilégios.
    • O arco de Trajano em Benevento mostra o imperador em atitude amistosa com mercadores e armadores.
    • Adriano encerrou políticas ofensivas e ofereceu benefícios, mas não abandonou completamente ações militares.
    • O que parecia racional do ponto de vista imperial podia parecer contraditório aos proprietários de navios.
  • A revolta judaica de 115 a 117 pode constituir um pano de fundo secundário para o tema marcionita do demiurgo guerreiro.
    • O Deus judaico, criador do mundo, podia ser associado ao zelo guerreiro do movimento zelota.
    • Cássio Dio e Apiano destacam o ardor militar dos rebeldes judeus no norte da África no tempo de Trajano.
    • Orósio e Eusébio também são mencionados nesse contexto.
    • Basilides, escrevendo em Alexandria, caracteriza o demiurgo como aquele que “quis submeter ao povo judeu o restante dos povos do mundo”.
  • A revolta judaica atingiu menos diretamente a experiência de Marcion que a máquina militar de Trajano na Dácia e na Mesopotâmia.
    • Marcion não vivia no Egito, diferentemente de Basilides.
    • O armador do Ponto era afetado mais de perto por requisições imperiais contra magnatas do transporte marítimo.
    • A revolta judaica pode ser considerada pano de fundo adicional, mas não primário.
  • A doutrina marcionita do demiurgo deve ser relacionada a situações históricas específicas sem ser reduzida a uma derivação linear.
    • A leitura literal do Antigo Testamento podia levar à conclusão de que o demiurgo era guerreiro, emotivo e inconstante.
    • A tradição pós-veterotestamentária também conhece a figura de um deus guerreiro, como em 1QM.
    • A questão decisiva é por que Marcion enfatizou esses elementos tradicionais e ignorou outros.
    • Escribas judeus também praticavam exegese literal do Antigo Testamento, mas chegaram a uma imagem diferente do criador.
    • Isaías 45:7 é citado na base marcionita da maldade do demiurgo: “Eu sou aquele que estabelece o mal.”
  • A interpretação da doutrina de Marcion exige a combinação entre tradição teológica e situação social.
    • A derivação histórico-tradicional e a explicação histórico-social não se excluem.
    • A interpretação tridimensional articula situação e tradição como dimensões complementares.
  • Uma explicação exclusivamente teológica ou exclusivamente histórico-social é insuficiente para compreender Marcion.
    • A análise histórico-social não compete com a interpretação teológica interna.
    • A situação social acrescenta uma dimensão a mais ao entendimento da doutrina.
  • Em julho de 144, Marcion rompeu com as igrejas ortodoxas de Roma e fundou sua própria igreja com uma base financeira inicial expressiva.
    • Oséias 200:000 sestércios foram devolvidos a Marcion.
    • A quantia pôde funcionar como capital inicial para a expansão do movimento.
    • Esse financiamento ajuda a compreender a rápida formação da igreja marcionita.
  • Já nos anos 150, a doutrina de Marcion se difundira amplamente e era vista como grave ameaça pela igreja estabelecida.
    • Justino afirma que a heresia de Marcion alcançara todas as províncias.
    • A expressão grega associada a essa amplitude pode ser transliterada como pan genos anthropon e polloi.
    • Na Apologia, Justino menciona Marcion ao lado de Simão e Menandro.
    • No Diálogo, Justino enumera marcionitas, valentinianos, basilidianos e saturnilianos, mantendo Marcion em primeiro lugar.
    • Irineu informa que Justino escreveu uma obra específica contra Marcion.
    • Um presbítero da Ásia Menor, Hegesipo, Dionísio de Corinto, Teófilo de Antioquia, Filipe de Gortina, Modesto, Irineu de Lyon, talvez Melitão de Sardes, Rhodon em Roma e Clemente em Alexandria combateram Marcion.
  • A igreja marcionita tornou-se conhecida em todo o mundo romano e foi reconhecida até por adversários externos.
    • Celso tinha conhecimento da igreja marcionita.
    • Eusébio menciona vários outros opositores de Marcion.
    • Tertuliano afirma: “A tradição herética de Marcion encheu o mundo inteiro.”
    • Epifânio registra posteriormente a difusão marcionita em Roma, Itália, Egito, Palestina, Arábia, Síria, Chipre, Tebaida, Pérsia e outros lugares.
  • O movimento marcionita consolidou-se internamente como igreja organizada, e não como simples escola desordenada.
    • Os adversários reconheciam, ainda que com relutância, a existência de comunidades estruturadas.
    • Tertuliano afirma: “Como as vespas também fazem favos, assim também os marcionitas fazem igrejas.”
    • Havia batismos, ritos e distinções entre batizados e catecúmenos, clérigos e leigos.
    • Bispos e presbíteros são atestados em fontes posteriores.
    • Após a morte de Marcion, diferentes escolas teológicas encontraram lugar na igreja marcionita.
    • Apeles representa a única cisão visível no movimento marcionita.
  • Marcion superou todos os demais hereges de seu tempo em eficácia histórica.
    • Sua influência durante a vida foi maior que a de outros movimentos concorrentes.
  • Somente depois da morte de Marcion os gnósticos, valentinianos e outros grupos passaram a ameaçar a igreja em proporção semelhante.
    • Em Irineu e Hipólito, os marcionitas já não ocupam o primeiro lugar nas listas de hereges, ao contrário do que ocorre em Justino.
    • Depois de 250, a igreja marcionita começa a declinar no Ocidente.
    • Novaciano ainda a combate em Roma.
    • Cipriano e Dionísio de Roma ainda testemunham sua presença.
    • Hipólito considera necessário escrever uma obra específica contra ela.
  • O sucesso missionário de Marcion deve ser explicado pela combinação entre capital inicial e profissão marítima.
    • A base financeira favoreceu o crescimento rápido e a consolidação institucional.
    • A atividade de armador favorecia a expansão geográfica do movimento.
  • Educação de Marcion
  • Marcion aplicou crítica textual ao Evangelho e às cartas paulinas, procedimento que pressupõe formação escolar gramatical.
    • Ele procurou purificar o texto genuíno de interpolações judaizantes.
    • A escola do gramático ensinava a comparar cópias, corrigir textos e remover erros antes do comentário e da exegese.
    • A restauração textual de Marcion consistia sobretudo em supressões, com raras adições.
    • Algumas alterações revelam habilidade linguística, como a substituição de uma palavra por outra de letras semelhantes em Gálatas 2:20.
    • A forma grega corrompida no texto deve ser entendida em transliteração como agorasantos — agapesantos.
    • Pronomes, vozes e partículas eram trocados para eliminar supostas adulterações judaizantes.
    • Não se demonstra que Marcion tenha corrigido o texto por critérios estilísticos ou estéticos.
    • As alterações eram dogmáticas e se afastavam do ethos próprio da gramática.
  • O método textual de Marcion contrariava o ideal antigo de crítica gramatical cuidadosa.
    • Zenódoto, mestre alexandrino da crítica textual, foi criticado por mudanças arbitrárias baseadas em critérios internos falsos e opiniões subjetivas.
    • Gramáticos conscienciosos rejeitavam decisões baseadas apenas em gosto estilístico individual.
    • A purificação deliberada de textos por critérios ideológicos e dogmáticos seria ainda mais censurável.
    • Marcion aplicou seu método de modo aberto e nem sempre consistente.
  • A educação de Marcion corresponde provavelmente à formação recebida na escola do gramático até cerca dos dezessete anos.
    • Sua competência deriva de uma formação gramatical comum.
    • Seu procedimento, porém, é descrito como não gramatical.
  • As Antíteses de Marcion constituíam uma obra crítica ampla, ligada ao seu Evangelho e ao seu Apóstolo.
    • A obra contrastava, com passagens bíblicas, as palavras e ações do criador do mundo e do Deus bom.
    • Havia antíteses breves e também argumentações extensas sobre a interpretação correta das passagens bíblicas.
    • A obra incluía explicações exegéticas, históricas e dogmático-críticas.
    • Não fica claro se se tratava de um comentário contínuo ao Novo Testamento marcionita.
    • A extensão considerável da obra consumia o tempo restante de Marcion fora de sua ocupação habitual.
  • Marcion foi um biblicista, e não o construtor de um sistema filosófico-teológico.
    • Ao contrário da maioria dos gnósticos, Marcion se apoiou em um cânon de Escritura e em uma teologia bíblica.
    • Especulações mitológicas e cosmológicas são mantidas à distância.
    • Estudos filosóficos não aparecem claramente em Marcion.
    • Motivos filosóficos isolados indicam, no máximo, conhecimento filosófico popular.
    • J. G. Gager defende uma influência epicurista especial na argumentação marcionita sobre um Deus superior.
  • A comparação entre Marcion e Epicuro mostra semelhanças gerais no problema do mal, mas não exige formação filosófica especializada.
    • Marcion pergunta: “Se Deus é bom e conhece o futuro e pode impedir o mal, por que permitiu que a humanidade fosse cercada pelo diabo?”
    • Marcion conclui que, se Deus fosse bom, presciente e poderoso, isso não teria acontecido.
    • Epicuro pergunta se Deus quer eliminar o mal e não pode, se pode e não quer, se nem quer nem pode, ou se quer e pode.
    • Epicuro conclui que, se Deus quer e pode eliminar o mal, resta perguntar de onde vem o mal e por que ele não o elimina.
    • Ambos os argumentos notam a tensão entre o mal no mundo e atributos divinos como bondade e poder.
    • A semelhança pertence a lugares-comuns da filosofia popular helenístico-romana.
  • O argumento de Marcion é menos rigoroso que a formulação lógica transmitida por Lactâncio e associada a Epicuro.
    • Lactâncio organiza quatro combinações entre querer e poder.
    • Sexto Empírico apresenta estrutura argumentativa semelhante.
    • Marcion repete cláusulas condicionais de modo mais plano e menos analítico.
  • A rejeição marcionita da interpretação alegórica do Antigo Testamento não prova formação filosófica pagã.
    • Platão, Eratóstenes, Aristarco e Epicuro rejeitaram a alegoria, mas isso não basta para explicar Marcion.
    • Harnack atribui a rejeição marcionita da alegoria a influências internas.
    • Clemente de Alexandria, filosoficamente educado, usava interpretação alegórica.
    • Muitos filósofos gregos também aplicavam alegoria a mitos, poesia e sobretudo Homero.
    • A exegese não alegórica de Marcion pode parecer inculta, em vez de filosoficamente refinada.
  • Os demais motivos filosóficos em Marcion indicam apenas conhecimento popular comum.
    • A recusa de atribuir emoções a Deus depende de noções filosóficas gerais.
    • Marcion parece conhecer a ideia estoica de apatia.
    • Também aparece uma definição estoica de arrependimento.
    • A ideia de indolência divina pode vir de Epicuro.
    • Esses elementos isolados não demonstram educação filosófica.
  • A apresentação patrística de Marcion como dependente de várias filosofias pertence sobretudo à polêmica anti-herética.
  • Nada permite comprovar em Marcion uma formação superior entre oradores ou filósofos.
    • Os discípulos de Marcion eram chamados discipuli, mas o movimento tomou forma de igreja, não de escola filosófica.
    • Marcion não era filósofo e, nesse ponto, distingue-se de seu adversário Justino.
  • A educação escolar de Marcion deve ter sido a formação comum no gramático, complementada por conhecimentos úteis à navegação.
    • A competência crítico-textual e exegética dificilmente existiria sem tal formação.
    • Matemática, geometria e astronomia, aprendidas na escola gramatical, eram saberes presumíveis para um armador.
    • Tertuliano polemiza: “Os marcionitas são, em sua maior parte, matemáticos.”
    • Tertuliano acrescenta que eles não se envergonham de viver das estrelas do demiurgo, como supostos astrólogos.
  • As poucas referências sociais sobre os discípulos de Marcion sugerem que Apeles possuía educação filosófica pagã superior à de seu mestre.
    • A documentação pertinente é remetida ao Apêndice 1.
    • Apeles aparece como intelectualmente mais próximo de uma formação filosófica que Marcion.
  • Fonte do arquivo usado: :contentReference[oaicite:0]{index=0}
Search
gnosis/marcion/lampe.txt · Last modified: by 127.0.0.1