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Evangelho de Judas
Elaine H. Pagels; Karen L. King. Reading Judas: the Gospel of Judas and the shaping of Christianity. New York: Viking, 2007.
- Por mais de uma década circularam rumores sobre um lendário evangelho atribuído a Judas Iscariote, e em abril de 2006 a National Geographic Society tornou pública a descoberta arqueológica — uma cópia do Evangelho de Judas, traduzida para o copta a partir do grego original do século II, encontrada no Médio Egito perto de Al Minya nos anos 1970.
- Camponeses teriam encontrado acidentalmente uma gruta funerária contendo uma caixa de calcário que preservara por séculos escritos antigos, entre eles o Códice Tchacos, datado aproximadamente do século IV
- O códice circulou secretamente entre negociantes durante anos, foi armazenado indevidamente — primeiro em um cofre bancário úmido em Hicksville, Nova York, por quase dezessete anos, e depois congelado —, sofrendo danos consideráveis até 2001, quando chegou às mãos do filólogo Rodolphe Kasser, da conservadora Florence Darbre e do historiador Gregor Wurst, que trabalharam durante cinco anos para restaurar o texto
- Irineu de Lião já mencionara o Evangelho de Judas em seu Contra as Heresias, por volta de 180, descrevendo um grupo de cristãos que declarava que Judas, o traidor, “conhecia a verdade como nenhum outro e realizou o mistério da traição”
- Numa primeira leitura, o autor do Evangelho de Judas pareceu aos pesquisadores um homem muito irado com uma mensagem ofensiva — retratando Jesus a ridicularizar repetidamente seus discípulos e acusá-los de cometer todo tipo de pecados e impurezas em seu nome —, mas para além dessa impressão inicial o texto está repleto do brilhante ensinamento de Jesus sobre a vida espiritual.
- O que importa tão profundamente ao autor é a incapacidade de reconciliar a crença em um Deus amoroso e bom com a ideia de que Deus desejava a morte sacrificial e sangrenta de Jesus e de seus seguidores
- Na visão do autor, os líderes cristãos que convocavam seus irmãos a “glorificar-se” dessa forma eram assassinos que haviam desentendido totalmente o ensinamento de Jesus e adoravam um deus falso
- Judas, único entre os discípulos, compreendeu o ensinamento de Jesus — e foi por isso que o entregou para ser morto
- O Evangelho de Judas abre uma janela sobre as disputas entre cristãos do século II acerca do significado da traição de Judas e do ensinamento de Jesus, suscitando questões como: por que um discípulo perturbado trairia seu mestre; como algum cristão poderia imaginar Judas como o discípulo predileto de Jesus; o que são “os mistérios do reino” revelados só a Judas.
- Alguns estudiosos classificaram o Evangelho de Judas como um evangelho “gnóstico”, colocando-o no lado perdedor das batalhas entre cristãos primitivos com interpretações diversas — mas essa classificação pode levar a impressões falsas, pois até recentemente os estudiosos derivavam suas descrições dos cristãos “gnósticos” quase exclusivamente dos Pais da Igreja, não dos escritos recém-descobertos
- O termo Gnosticismo foi inventado no século XVIII, muito antes de os novos textos serem descobertos, de modo que as visões modernas continuam definidas pelas caracterizações da heresia feitas pelos vencedores
- Ler o Evangelho de Judas apenas como mais um exemplo de heresia gnóstica conhecida repete clichês arraigados; quando se vai além dos estereótipos provenientes de ouvir apenas um lado da história, esses novos achados enriquecem o conhecimento da diversidade do imaginário e da prática cristã primitiva.
- O Evangelho de Judas compreende a natureza humana como essencialmente espiritual — o corpo físico se decompõe na morte enquanto a alma preenchida de espírito vive eternamente com Deus —, e vê Jesus como o revelador divino enviado por Deus para ensinar sobre seu reino
- A ascensão dos bispos não eliminou a competição nem encerrou a controvérsia — mestres como o mártir Justino defendiam os cristãos de acusações hostis ao mesmo tempo que atacavam outros cristãos, e Irineu buscou criar uma igreja unificada denunciando mestres espirituais independentes e consignando ao lixo todos os evangelhos além dos quatro canônicos.
- Cerca de cento e cinquenta anos depois, Constantino — o mais inesperado dos convertidos, que se tornou imperador do Império Romano — pôs fim à perseguição e reuniu bispos em Niceia em 325 para estabelecer uma definição de cristianismo; os que objetavam eram amaldiçoados, seus edifícios confiscados ou incendiados e seus membros forçados a se conformar ou expulsos como “hereges”
- Muitos escritos foram literalmente forçados à clandestinidade — mas nem tudo se perdeu: como o Evangelho de Judas, muitos livros foram enterrados em jarros ou escondidos em túmulos, preservados para um futuro distante
- O Evangelho de Judas expõe, como nenhuma outra obra sobrevivente do cristianismo primitivo, a angústia e a raiva que alguns cristãos sentiam diante das mortes violentas e horríveis de familiares e amigos — fiéis colocados à morte para entreter as multidões romanas —, com a raiva dirigida menos contra os romanos do que contra seus próprios líderes por encorajarem os cristãos a aceitar o martírio como vontade de Deus.
- O Evangelho de Judas restaura uma voz de dissidência — um apelo para que a religião renuncie à violência como vontade e propósito de Deus para a humanidade
- Ao longo dos últimos cento e cinquenta anos, o acesso a mais de quarenta evangelhos, cartas e outras obras cristãs primitivas revelou que a história primitiva do cristianismo foi tumultuada — um tempo de intensa reflexão, experimentação e luta envolvendo todas as questões fundamentais
- Esses evangelhos recém-descobertos oferecem a oportunidade — e o desafio — de ver com olhos novos as tradições familiares chamadas de cristianismo
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