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Segredo
Pierre Deghaye — A Doutrina Esotérica de Zinzendorf (1700-1760). Paris: Klincksieck
Recusa de uma regra institucional do segredo
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Acusação contra os Irmãos
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As práticas esotéricas atribuídas a Zinzendorf estavam no centro das controvérsias sobre sua pessoa e ação já durante sua vida.
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Johann Albrecht Bengel critica Zinzendorf por proibir a exposição da doutrina chiliasta no púlpito, embora ele mesmo pensasse que certas verdades não deveriam ser ensinadas publicamente, como no caso da apocatástase.
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Johann Georg Becherer acusa Zinzendorf de praticar uma disciplina do segredo (disciplina arcani), comparando-o aos gnósticos e seus arcanos.
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Diversos escritos publicados contra Herrnhut retomam a acusação de uma regra do segredo, à qual o próprio Zinzendorf respondeu em um escrito apologético editado por Spangenberg.
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O testemunho de Spangenberg
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Spangenberg, sucessor de Zinzendorf, reconhece a complexidade de sua doutrina e não elude os problemas, embora sua própria ação pastoral tenha levado a uma subestimação dessa complexidade.
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Spangenberg relata que os adversários dos Irmãos acusavam a disciplina do segredo de encobrir teorias ou práticas condenáveis para a Igreja, o Estado ou a moral.
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As ideias perigosas para a Igreja incluiriam a negação da eternidade das penas, e as temidas pelo príncipe seriam as teorias do reinado milenar de Cristo na terra.
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As suspeitas de práticas imorais ligavam-se à mística nupcial professada por Zinzendorf, cuja expressão foi considerada ousada, fazendo lembrar as licenças gnósticas de Eva Buttlar.
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Embora as teorias e práticas dos Irmãos não fossem subversivas ou imorais, sua apresentação como mistérios fazia com que verdades audaciosas parecessem chocantes aos não iniciados.
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Spangenberg aprova a reserva sobre os mistérios essenciais, concordando que nem toda verdade deve ser dita em qualquer momento, lugar ou a qualquer pessoa.
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Spangenberg reprova Zinzendorf por não ter seguido esse preceito com rigor, por não ter conseguido calar sua esperança, resultando no que se chama de um esoterismo tagarela.
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Spangenberg optou conscientemente pela teologia pública sem negar o fundamento da teologia arcana, sendo mais rigoroso que Zinzendorf ao deplorar que o mestre tivesse traído seus próprios mistérios.
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A defesa de Zinzendorf
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A. Verdades naturalmente secretas
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Zinzendorf nega formalmente que os Irmãos tivessem erguido o segredo como uma disciplina institucional, mas reconhece seu possível fundamento.
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Zinzendorf afirma que a disciplina do arcano sempre existiu na Igreja, mas que os Irmãos dela não dispunham, embora estivessem fundados em se submeter a ela em muitos pontos.
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A situação ideal para a Comunhão dos Irmãos era aquela em que, por doze anos, ficaram naturalmente protegidos por sua solidão, onde os mistérios eram comunicados apenas a outros solitários.
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Foram os perseguidores (os porcos) que arrancaram as pérolas, forçando Zinzendorf a considerar a instituição de uma regra do segredo como proteção artificial e provisória.
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O segredo nunca é verdadeiramente concebido como uma instituição, pois o mistério habita o coração dos eleitos, não um santuário feito por mãos humanas.
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A separação é entre os filhos de Deus e os não convertidos (mortos à fé), baseando-se na Escritura, como no comentário de Zinzendorf sobre Jesus subindo à montanha com seus discípulos.
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* As verdades do sermão da montanha não são para os não convertidos, mas para os filhos de Deus.
Zinzendorf distancia-se da tradição religiosa ao não considerar todos os cristãos batizados como filhos de Deus, pois o simples sacramento do batismo não torna a conversão supérflua.-
* Os não batizados também fazem sua salvação.
Toda a espiritualidade de Zinzendorf baseia-se na necessidade do segundo nascimento, que não é o do sacramento ordinário, mas o do renovo da aliança do batismo.O homem não regenerado não recebe o espírito de Deus.-
B. O problema na perspectiva das perseguições
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A proteção material contra os inimigos é uma medida necessária que remonta aos primeiros cristãos, que fechavam as portas durante a comunhão para evitar calúnias.
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Os primeiros cristãos, ao proferirem as palavras Ite missa est, convidavam o povo a sair antes de celebrar a comunhão, para se protegerem da interpretação maliciosa de seus ritos.
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A instituição de uma barreira entre os eleitos e o mundo é apenas um reflexo de defesa sob o império da necessidade, pois a verdadeira Igreja goza naturalmente de uma solidão que a abriga.
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Durante o Reino milenar, a assembleia dos eleitos será totalmente invisível, com o diabo acorrentado.
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C. O mesmo problema para uma comunidade não perseguida
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Mesmo após o fim das perseguições, o problema do mistério para uma comunidade vivendo no mundo permanece, como demonstrado pela história da Igreja primitiva.
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Quando os cristãos se tornaram senhores do púlpito e do pretório e começaram a ensinar publicamente os mistérios, a Igreja foi entregue aos piores dilaceramentos.
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A divulgação dos mistérios é apontada por Zinzendorf como a origem dos cismas que dividem a cristandade, começando pelos pequenos cismas que geraram as grandes seitas.
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O problema não são apenas pessoas maliciosas, mas aqueles mal preparados para acolher altas verdades, incluindo os sinceros que as repetem imperfeitamente.
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Zinzendorf responsabiliza São Paulo pelo surgimento da heresia ariana, considerada a pior de todas, devido a uma interpretação errônea de suas palavras isoladas de seu contexto.
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* O texto de I Coríntios VIII, 6, sobre um só Deus, o Pai, e um só Senhor, Jesus Cristo, foi mal compreendido por teólogos não inspirados.
A doutrina de Maomé também é atribuída por Zinzendorf a essa infeliz vulgarização da pregação paulina. -
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