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FLOR DO FOGO
Pierre Deghaye. La Naissance de Dieu ou la Doctrine de Jacob Boehme. Paris: A. Michel, 1985.
A FLOR DO FOGO. DA SUBLIMAÇÃO
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A flor do fogo (o lírio) é o símbolo da sublimação alquímica, sendo a obra química um ciclo que a matéria percorre para atingir sua perfeição, assim como a alma segue um devir que a torna perfeita.
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A pedra filosofal está na perfeição da alma chegada ao termo de sua maturação.
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A sublimação é um movimento de elevação e transmutação da matéria.
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O devir da alma é a história de sua transmutação.
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A alma não é um princípio imutável, mas está em devir, nascendo a si mesma das profundezas tenebrosas para a luz.
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A alma tenebrosa é a alma que não se conhece (inconsciente); a alma luminosa conhece a si mesma e a Deus.
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O ciclo da alma é a passagem das trevas à luz, do inconsciente ao consciente.
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O lírio místico (espírito que floresce na alma) cresce no fogo da alma, simbolizando a transmutação do fogo obscuro em luz.
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A teosofia é uma ciência de Deus e do homem, onde a Divindade transcendente, para se fazer conhecer, emana uma alma universal (alma eterna) cuja a alma humana é a imagem.
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O movimento de emanação é um ciclo de sete graus que tanto a alma universal quanto a humana percorrem.
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Deus se engendra a si mesmo num inconsciente tenebroso, e a alma universal é inicialmente este inconsciente.
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A ciência de Deus é uma psicologia, pois descreve o devir de Deus na esfera da revelação.
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O devir de Deus é uma elevação do nada à plenitude do ser, uma transmutação onde o Pai (trevas, fogo devorante) é sublimado no Filho (luz).
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Deus só é verdadeiramente Deus segundo a sua luz; sem o Filho, o Pai é um vale tenebroso.
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A luz é fogo sublimado.
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A psicologia de Boehme se une à ciência da natureza (physis), pois a alma é a natureza, o vestuário sensível sem o qual o espírito (insaisável) não se manifestaria.
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O ciclo da natureza eterna (sete graus) descreve-se com qualidades sensíveis que têm valor de arquétipos, fundando o simbolismo de Boehme na analogia entre o visível e o invisível.
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O sol visível é o símbolo da luz que brilha na natureza eterna; o fogo visível remete ao fogo da alma.
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A alma é um fogo (desejo) sob dois aspectos contraditórios: fogo obscuro (voraz, devorador, cólera do Pai) e fogo luminoso (luz, amor, desejo de amor sublimado).
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O ciclo da natureza é o ciclo do desejo, passando do desejo voraz ao desejo de amor.
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Deus, vontade pura e isenta de desejo (Absoluto incognoscível), se converte em desejo para se revelar e se conhecer, saindo do Nada para o Ser.
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O homem não pode pensar Deus senão como desejoso de se revelar.
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A revelação não é o desvelamento de um Deus já pleno, mas o advento de uma Deidade que acede ao ser e se conhece.
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Há uma analogia dinâmica entre a alma humana e a alma universal porque Deus se manifesta sob a forma humana, e o devir da alma humana é projetado na alma universal.
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Para se manifestar, o espírito se reveste de um corpo: primeiro um corpo de pedra (desejo petrificado, prisão de si mesmo, fogo negro não aceso), depois um corpo sublimado (corpo glorioso da alma).
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O primeiro corpo é o arquétipo de todos os corpos terrestres; a alma é sua própria prisão, um símbolo de trevas.
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A vontade una se divide desde o nascimento da alma em dois movimentos contrários (concentração e explosão), que geram um turbilhão: a roda da angústia.
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O inferno (cólera do Pai, fogo frio da morte) está na raiz de toda vida; nascemos em inferno e a dinâmica da alma vai do mal ao bem, do inferno ao paraíso.
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O desejo de se manifestar é um instinto primário da Divindade, e o mal se compreende pela finalidade deste instinto: tornar perceptível o que não o era, pois é a dor que torna sensível a vida.
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A cólera de Deus desperta a vida; sem ela, a vida não nasceria.
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A passagem do primeiro corpo ao segundo se dá por uma transmutação que abole o primeiro (segunda nascença).
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A sublimação faz renascer de um eu miserável a um si realizado (lírio).
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O desdobramento da alma implica dois instintos que são um: manifestar-se (expansão) e superar-se (ascensão), gerando a si mesmo como o Pai gera o Filho.
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A maternidade da alma é a do desejo; há duas mães: a mãe tenebrosa (imagem do Pai) e a Virgem (Sabedoria, mãe do Cristo).
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A segunda nascença (João 3) é nascer de cima, de uma outra mãe, progredindo; a regressão ao ventre tenebroso (Lúcifer) é a descida fatal ao abismo.
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O desejo engendra uma imagem de si mesmo pela imaginação (faculdade de produzir imagens reais), que é a fé quando boa, gerando à imagem do Deus de luz.
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O desejo insaciável produz a crença; o desejo que morre e renasce eternamente saciado cria uma substância (corpo espiritual) pela magia da imaginação ex nihilo.
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O espírito (vontade) se contempla no espelho do corpo de luz, e deste duplo desejo (espírito que deseja a imagem e imagem que deseja o espírito) nasce o Espírito Santo (suspiro de amor).
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O fogo (espírito) busca sua imagem e a encontra na água (fixa o fogo, dá-lhe um corpo, acalma sua violência), abandonando-se na contemplação.
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O abandono da vontade não é submissão à Lei (reino da cólera), mas libertação da Lei.
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A alma que se encontra está no paraíso (sua própria substância, corpo glorioso), mesmo aqui na terra.
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O arquétipo de todos os corpos gloriosos aparece no sétimo grau do ciclo: a natureza sublimada unida à Sabedoria.
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A verdadeira unidade não está no Uno indivisível, mas na união sem confusão do Pai (fogo) e do Filho (luz), onde o fogo é adocicado pela água (óleo da lâmpada).
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Adão pecou pelo sono e pela magia do sonho (imaginação perversa), perdendo o corpo celestial e tornando-se macho (fogo devorante).
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Eva nasceu do sonho de Adão à sua imagem decaída.
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A semente depositada no seio de Eva (germe de luz) desperta no seio de Maria, e no corpo celestial de Cristo o fogo transmutado se une à luz (totalidade recuperada).
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O homem virginal é o símbolo do desejo saciado, conjunção de dois desejos (fogo que deseja a luz e água que deseja o fogo vivificador), numa integridade indestrutível (lírio).
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A virgindade está na totalidade das potências masculinas e femininas da alma.
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A poética do fogo (Bachelard) aproxima-se de Boehme pela imagem do fogo que se purifica em luz e do narcisismo que revela as potências duplas, mas dela se distancia pela ausência do drama, da dor e da transcendência.
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Para Boehme, a sublimação não é um jogo fácil ou uma idealização, mas uma conquista sobre o inferno e a morte, própria da experiência religiosa que alimenta a sua teosofia.
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