Sinal da Cruz
Joaquim Carreira das Neves (CNEJ)
Nesta unidade literária, Jesus continua a apresentar, em diálogo com os Judeus, o mistério do seu ser. Começa por fazer uma declaração “estranha”; logo, misteriosa: “Eu vou-me embora, vós haveis de procurar-me, mas morrereis no vosso pecado”(v. 21). O termo “pecado” aparece cinco vezes (v. 24bis. 34). Pelo contexto, concluímos que o “pecado” dos judeus consiste em não acreditarem em Jesus (v. 24b: “De fato, se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados”). Os judeus perguntam-lhe: “Quem és tu, afinal?” (v. 25), e Jesus responde: “Precisamente é o que vos digo desde o princípio” (v. 25b). Todo o evangelho, mas, sobretudo os diálogos dos cc. 7-8 têm por fim expor a identidade de Jesus. Ele é o EU SOU, o Deus em si de Ex 3,14. Embora tudo seja tão misterioso, Jesus está a dizer a verdade porque diz aquilo que “ouviu do Pai” (vv. 26-27). E, logo a seguir, declara a afirmação central desta unidade: “Quando elevardes ao alto o Filho do Homem, então conhecereis que EU SOU e que nada faço por mim mesmo, mas falo destas coisas tal como o meu Pai me ensinou” (v. 28).
O EU SOU Divino de Jesus só se descobrirá na Cruz, isto é, quando for “levantado” entre o céu e a terra. O mistério do humano será desvendado no mistério da Cruz.
Não se trata, pois, de pecados materiais dos judeus, mas do pecado em não aceitarem o enviado do Pai. A locução do absoluto EU SOU não significa que se refira diretamente à revelação do tetragrama sagrado de Ex 3,4, mas ao mundo do divino dessa mesma revelação, depois amplamente glosada no Deutero Isaías (Is. 41, 4; 43, 10. 11. 12.13. 15.; 44,6.24; 45,3).
Assim sendo, o Jesus da Cruz não é um abandonado e amaldiçoado como o Dt. 21, 23 classifica os crucificados e como os judeus classificavam também Jesus, razão porque afirma no v. 29: “E aquele que me enviou está comigo. Ele não me deixou só, porque faço sempre aquilo que lhe agrada.”
A unidade termina, como acontece em tantas outras, com a anotação do redator: “Quando expunha estas coisas, muitos acreditaram nele.”
Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 42-43; Evangelho de Tomé - Logion 27
Jesus tentou dizer aos discípulos a maneira justa de entender a disjuntiva mundo-luz, esclarecendo a disparidade que há entre “estar” no mundo e “ser” do mundo, através deste dito no Evangelho de João. O que queria dizer, sem dúvida, com isto, é que há duas formas de estar no mundo, uma sendo e outra sem ser do mundo. A primeira consiste em estar no mundo contaminado dele — estes eram os discípulos — e a outra é uma maneira pura de estar, tal como diz Jesus que está na luz: “tendo vencido ao mundo”.
-
Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas. (João 12,46)
René Guénon: SIMBOLISMO DA CRUZ — METAFÍSICA DA CRUZ
Ananda Coomaraswamy: VEDANTA
O problema último e mais difícil surge quando nos perguntamos: qual é o estado do ser que se libertou assim de si mesmo e retornou à sua fonte? É mais do que evidente que uma explicação psicológica está fora de questão. É, de fato, justamente neste ponto que podemos confessar melhor com nossos textos: “Quanto mais alguém está certo de que compreende, com mais segurança se engana”. O que pode ser dito do Brahman — que “Ele é, só por isso Ele pode ser apreendido” — também pode ser dito de qualquer um que tenha se tornado o Brahman. Não se pode dizer o que é isso, porque não se trata de nenhum “o quê”. Um ser que está “libertado nesta vida” (o “homem morto que anda” de Rumi) está “no mundo, mas não é dele”.
