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Metafísica da Trindade

INTERPRETAÇÃO METAFÍSICA DA TRINDADE

As três interpretações da Trindade apresentadas por F. Schuon (Compreender o Islã) podem ser obtidas por transposição metafísica do dogma cristão, seja a partir das Hipóstases, seja a partir das Processões divinas, por meio de um conjunto de correspondências analógicas ou de «identificações misteriosas» entre os elementos das três «representações». No caso das Hipóstases, a base da analogia será a “determinação”; no caso das Processões divinas, será a Inteligência e a Vontade, ou, equivalentemente, o Conhecimento e o Amor. Essas “bases de analogia” nos dão a chave para a transposição metafísica em questão.

Na representação latina, as três Hipóstases estão situadas no mesmo plano ontológico e, de certa forma, horizontal; podem ser vistas como “determinações” particulares da Essência divina. O Pai é um “terminus a quo” (ponto de partida) — no sentido escolástico — e o Filho um “terminus ad quem” (ponto de chegada), e o mesmo ocorre com o Espírito Santo. A transposição metafísica, que conduz à primeira interpretação de F. Schuon, opera um endireitamento vertical: «A perspectiva “vertical” (Super-Ser, Ser, Existência) vê as Hipóstases como “descendentes” da Unidade ou do Absoluto; ou da Essência, se assim se quiser, os graus da Realidade». Trata-se, então, de “determinações” do Indeterminado, determinações evidentemente principais, uma vez que, a este nível, não se saberia “sair” do Princípio. O Ser, segundo René Guénon, é a primeira determinação do Não-Ser. Esta determinação corresponde ao Filho, primeira “determinação” do Pai. Quanto à Existência, ela deve ser considerada evidentemente em sua realidade principal; identifica-se então com Mâyâ ou a «Possibilidade universal»; é Mâyâ, na medida em que Theotokos , que permite a Deus «existir», e é também o Espírito Santo que «revela» o Pai e o Filho a si mesmos.

As «Hipóstases descendentes» aparecem assim como os graus da Realidade (principial), ou como determinações do Absoluto no relativo, mas sempre in divinis, o que lhes confere o caráter «ilusório» de Mâyâ, já que é in divinis que Mâyâ deve ser «concebida» (a Imaculada Conceição). Mâyâ é, então, o “Jogo” de Deus consigo mesmo, e identifica-se assim com a Sabedoria: “YHVH me possuiu desde o início de seus caminhos, antes de suas obras mais antigas. Fui fundada na eternidade (…) Eu era a sua obra, regozijando-me a cada dia e brincando sem cessar na sua presença» (Livro dos Provérbios VIII, 22-31). É, portanto, Ananda, a Bem-aventurança, o Amor: «Eu sou o oceano da Felicidade Infinita, e é em mim que, ao sopro caprichoso de Mâyâ, se elevam ou se acalmam todas as ondas do universo» (Viveka-cuda-Mani, de Shankara).

Nas considerações anteriores, Ananda — que é o terceiro termo do ternário vedântico Sat-Chit-Ananda — surge claramente como o análogo do Espírito Santo na segunda interpretação da Trindade dada por F. Schuon, a qual corresponde precisamente a esse ternário. Essa “perspectiva horizontal suprema” serve, assim, de intermediário entre a “perspectiva horizontal não suprema” (Pai, Filho, Espírito) e a “perspectiva vertical” (Super-Ser, Ser, Existência).

De fato, o papel de intermediário desempenhado por Sat-Chit-Ananda vai muito além. Permite, de fato, passar da consideração das Hipóstases para a das Processões divinas, trazendo assim à luz a perfeita coerência do Mistério trinitário, ou melhor, de sua expressão ao mesmo tempo teológica e metafísica, e em particular dos dois modos de analogia que permitem a transposição.

Na procissão da Inteligência pela qual o Pai (Sat) engendra o Filho (Chit), o Pai não conhece nenhum “objeto”: “Tu não podes conhecer Aquele que faz conhecer o que é conhecido, e que é o seu próprio Ser em todas as coisas. Da mesma forma que o próprio Deus não conhece aquilo que Ele é, porque Ele não é nenhum ‘isto’”. Deus (Sat) é conhecimento Puro e Absoluto (Chit), conhecimento do “nada”. Por isso mesmo, esse conhecimento se identifica com a Ignorância (a Ignorância Erudita), que não é outra senão Mâyâ. Esta última, enquanto Shakti de Brahma, não é outra senão a Omni-Possibilidade, a Omni-Potência, a Vontade, o Amor puro e Absoluto, o Espírito Santo, que procede assim do Pai (e do Filho) por meio da Vontade, e que é também Bem-aventurança (Ananda). É nesse contexto que se situa, então, o mistério ou o “milagre” da Existência, sob qualquer forma que seja, a partir do instante em que essa forma é devolvida ao seu Princípio, do qual não está separada senão ilusoriamente. Não é em vão que a teologia ensina que Deus criou o mundo por amor, mas não por “amor ao mundo”, que não tem senão uma existência ilusória (o jogo de Mâyâ), e que não existe senão para permitir ao Único sem segundo afirmar que todo outro “diferente Dele” não existe.

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