VIDA INTERIOR
Elémire Zolla. I mistici dell’Occidente. 2. In: Gli Adelphi. Nuova edizione riveduta, quarto edizione ed. Milano: Adelphi edizioni, 2013.
DE EXPLICAÇÃO DAS MÁXIMAS DOS SANTOS SOBRE A VIDA INTERIOR
Artigo 30 - Verdadeiro
O estado passivo do que todos os santos místicos falaram tanto não é passivo senão do mesmo modo que a contemplação; ou seja, não exclui as ações tranquilas e desinteressadas, senão só a atividade ou as ações movidas por preocupação e zelo por nosso interesse pessoal. O estado passivo é aquele no qual a alma, não amando já a Deus com um amor composto, realiza toda ação sua deliberada com vontade plena e eficaz, mas também tranquila e desinteressada. Realiza ora as ações simples e indefinidas que se chamam quietude e contemplação, ora as ações bem definidas das virtudes correspondentes a seu estado. Não obstante, realiza umas e outras de maneira igualmente passiva, ou seja, tranquila e desinteressada. Este estado é habitual, mas não absolutamente imutável; pois, além do fato de que a alma pode perdê-lo do todo, esta também comete nele alguns pecados veniais. Este estado passivo não supõe inspirações extraordinárias: comporta unicamente uma paz e uma total disponibilidade da alma para receber todas as impressões da graça. Uma pluma perfeitamente seca e leve, como diz Cassiano, é levantada sem resistência pelo mais leve sopro de vento que prontamente a empurra em toda direção; quando, em mudança, está molhada e pesada, seu mesmo peso a faz menos móvel e disposta para ser levantada. No amor interessado, que é o menos perfeito, a alma conserva todavia um resto de temor interessado que a faz menos leve, menos dúctil e menos móvel quando a empurra o sopro do espírito interior. A água agitada não pode ser limpa, nem acolher a imagem dos objetos próximos, mas uma água tranquila é como a tábua pura de um espelho. Acolhe sem alteração a imagem de cada objeto sem conservar nenhuma. O mesmo sucede com a alma pura e tranquila. Deus imprime nela sua imagem e a de todos os objetos que Ele quer imprimir nela: tudo se imprime, tudo se apaga. Dita alma não tem nenhuma forma sua própria, e igualmente tem todas as formas que a graça lhe dá. Nada lhe fica e tudo se apaga como na água apenas Deus quer produzir nela novas impressões. Só o puro amor pode dar tal paz e tão perfeita docilidade. Este estado passivo não é sempre uma contemplação atual. A contemplação pode formar parte deste estado habitual só por períodos limitados. O amor desinteressado não deve ser menos desinteressado, nem por conseguinte menos tranquilo, nas ações próprias das virtudes que nas ações indistintas da pura contemplação.
Falar desse modo significa dissipar todo equívoco e admitir um estado que não é senão o exercício do puro amor, tão autorizado por toda a tradição.
Artigo 30 - Falso
O estado passivo consiste em uma contemplação passiva que é perene; e esta contemplação passiva é uma espécie de êxtase contínuo e uma milagrosa ligadura das potências que as põe em uma incapacidade real de obrar livremente.
Falar desse modo significa confundir o estado passivo com a contemplação passiva, tendo ademais uma ideia absolutamente falsa da contemplação; significa supor um estado de êxtase milagroso e perene, que exclui todo caminho de fé, toda liberdade, todo mérito e demérito; um estado, enfim, incompatível com a peregrinação que é esta vida; significa ignorar a experiência dos santos e confundir todas suas ideias.
Artigo 31 - Falso
A razão é uma falsa luz. É preciso obrar sem consultá-la, pisotear as conveniências, seguir sem vacilação nosso primeiro impulso e reputá-lo divino. É preciso eliminar não só as reflexões movidas pela inquietude, senão todo tipo de reflexão; não só as precauções cheias de cuidados pelo futuro, senão todo tipo de precaução. Não basta com não ser sábios intimamente: há que abandonar-se até não vigiar-se já a um mesmo com olho simples e tranquilo, até não desprezar nenhum impulso impetuoso da natureza para não receber mais que os da graça.
Falar desse modo significa crer que a razão o primeiro dos dons de Deus na ordem da natureza - é um mal e, em consequência, significa renovar o louco e ímpio erro dos maniqueus; querer mudar a perfeição em um fanatismo contínuo; querer fazer-nos tentar a Deus em cada momento da vida.
Artigo 33 - Verdadeiro
No estado passivo todas as virtudes encontram-se reunidas no amor, mas sem excluir nunca o exercício de cada virtude particular. Pois, como diz santo Tomás seguindo a São Agostinho, a caridade é a forma e o princípio de todas as virtudes. Em distingui-las ou especificá-las estriba o objeto particular ao que se dirige o amor. O amor que se abstém dos prazeres impuros é a castidade, amor que, quando sofre males toma o nome de paciência. Este amor, sem abandonar sua simplicidade, converte-se sucessivamente em todas as demais virtudes: mas não deseja nenhuma delas enquanto virtude, ou seja força, grandeza, beleza, regularidade, perfeição. “A alma desinteressada não ama as virtudes”, observa São Francisco de Sales, “nem porque são belas e puras, nem porque são dignas de ser amadas, nem porque embeleza e aperfeiçoa a quem as pratica, nem porque são meritórias, nem porque preparam a recompensa eterna, senão só porque são a vontade de Deus. A alma desinteressada”, como dizia este grande santo à madre De Chantal, “não se lava das próprias culpas para ser pura nem se adorna com as virtudes para ser bela, senão para agradar a seu esposo, de maneira que, se a este a fealdade lhe tivesse sido igualmente agradável, a ela lhe teria agradado tanto como a beleza”. Exercitemos, pois, cada virtude sem pensar que é uma virtude; em cada momento pensemos só em fazer o que Deus quer e nosso amor zeloso faz de sorte que não queiramos já ser virtuosos por nós mesmos ainda que, ao mesmo tempo, o cheguemos a ser tanto mais, quanto menos nos importe sê-lo. Neste sentido se pode dizer que a alma passiva e desinteressada já não deseja tampouco o amor como sua perfeição e felicidade, senão só porque é o que Deus quer de nós. Esta precisamente é a razão pela que São Francisco de Sales diz que “voltamo-nos a nós mesmos quando amamos o amor em vez de amar ao Bem-amado”. E em outro lugar este santo diz que “o desejo da salvação é bom, porém todavia mais perfeito é não desejar nada”. Quer dizer que nem sequer há que desejar o amor de Deus enquanto é nosso bem. Finalmente, para dar a esta verdade toda a precisão necessária, este santo afirma que é preciso esforçar-se em buscar em Deus só o amor de sua beleza, e não o prazer que se encontra na beleza de seu amor“. Tal distinção pode parecer sutil a quem não foi todavia instruído pela unção, mas apoia-se na tradição de todos os santos desde os origens do cristianismo, e não se pode desprezar sem desprezar aos santos que puseram a perfeição neste zelo tão delicado do amor.
Falar desse modo significa repetir o que os santos místicos disseram, seguindo a Clemente e aos ascetas, sobre a cessação das virtudes, argumento que é muito necessário explicar com infinitas precauções.
Artigo 33 - Falso
No estado passivo, o exercício das virtudes particulares cumpriu seu tempo porque o puro amor, que todas as contém em sua quietude infinita, dispensa totalmente às almas de exercitá-las.
Falar deste modo significa contradizer o evangelho; pôr a pedra do escândalo no caminho dos filhos da Igreja; chamar-lhes com nome de vivos quando estão mortos.
