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METAFÍSICA
Alexandre Koyré — Místicos, espirituais e alquimistas do século XVI alemão
A metafísica de Weigel
- Dá-se uma rápida olhada sobre o sistema metafísico de Weigel para ver como o mundo se apresenta a seu pensamento, encontrando pontos e elementos que permitirão precisar, se não a filiação histórica das doutrinas, ao menos a filiação natural e o “lugar” de seu pensamento.
- Para Valentin Weigel, o mundo aparece como uma unidade, como um todo finito, composto de matéria e de força, ou, se se preferir, de matéria visível, tangível, sensível, e de matéria sutil, espiritual ou astral.
- O mundo é “duplo” (zwiefach), e todos os seres que o compõem são “duplos” também: visíveis e invisíveis, e possuem dois “corpos”: primeiro, um corpo material, e segundo, um corpo astral.
- O corpo material, grosseiro, não é mais do que a envoltura e a expressão do corpo astral; o exterior não é mais do que a expressão do interior.
- O corpo astral não é matéria propriamente dita, e Weigel diz inclusive com frequência que é imaterial.
- Com efeito, o corpo astral é um corpo “força” (Kraftleib), uma espécie de fluido energético, extremamente “tênue”, “sutil” e “penetrante”, uma tintura que forma o corpo grosseiro e que atua sobre ele.
- O corpo astral ou astrum (Gestirn) é a sede e o suporte da vida; é ele quem funda a unidade do organismo e quem explica a evolução do germe.
- Do que imediatamente se deduz que o mundo é um organismo, que forma uma unidade viva e que todos os seres que o compõem participam da vida na medida em que participam do ser.
- V. Weigel, Vom Orth der Welt, capítulo XIII, páginas 57 e seguintes: “Este grande mundo visível, céu e terra, o limo da terra (limus terrae) com toda a criatura corporal tem uma matéria e no entanto foi feito sem matéria… Todas as coisas corporais são um excremento ou fumaça coagulada, fumus coagulatus, dos astros invisíveis. A abençoada fumaça tem três substâncias em si: o enxofre (Sulphur), o sal (Sal) e o mercúrio (Mercurius)… Assim é o homem… uma fumaça coagulada, um excremento de seu corpo sideral interior, ou astrum… pois cada astrum quer ter seu “corpo”.”
- Todos os seres que compõem o universo são “duplos”, como o universo mesmo, salvo o homem, no entanto, que é “triplo” por estar “composto de corpo propriamente dito (corpo material ou grosseiro), de alma vital (ou astrum) e de espírito.
- Por seus dois primeiros componentes, o homem pertence à natureza; por seu espírito, participa do ser divino.
- É mais: por seu espírito, o homem encarna a Deus, e o nascimento do espírito na alma humana não é outra coisa que o “segundo nascimento” do homem “em Deus” ou de Deus “na alma”.
- Se se considera o universo de um ponto de vista ligeiramente distinto, ver-se-á que pode ser concebido também como “triplo”.
- Com efeito, em cima — ou no interior — do mundo astral, há que reconhecer a existência do mundo angélico.
- Acima — ou no interior — do mundo angélico, há que reconhecer a existência do mundo divino.
- Por outro lado, há que ter em conta que tudo o que é está em Deus: os demônios e o inferno, assim como os anjos e o paraíso, uma vez que todo ser vem de Deus, e não há nada que seja “fora dele”.
- Fora de Deus, não há mais do que o Nada absoluto.
- Deus é a essência última de toda coisa (Wesen aller Wesen), e o ser de todo ser.
- Deus — na criatura — torna-se criatura ele mesmo (wird creatürlich).
- A relação deste conceito com os de Sebastian Franck e os de Nicolau de Cusa se torna muito patente.
- V. Weigel emprega além disso os termos destes últimos.
- V. Weigel, Ein Büchlein dass Gott allein gut sei, capítulo XI, página 211: “O imperfeito deve permanecer em seu perfeito, nenhuma imagem pode ser sem aquele do qual ela é. Omne principiatum non potest esse extra suum principium (Todo principiado não pode estar fora de seu princípio)”.
- V. Weigel, De vita beata, página 100: “Sic omnia, quae subsistunt, unius participant” (Assim todas as coisas que subsistem participam do um). “Tolle unum et nullus erit numerus… Tolle punctum et nulla erit linea; tolle Deum et nulla erit creatura. Sed non e contra” (Tira o um e não haverá número… Tira o ponto e não haverá linha; tira Deus e não haverá criatura. Mas não o contrário).
- É preciso admitir o Um se se quer compreender a existência do múltiplo?
- Além disso, a dizer verdade, não há por que recorrer a um raciocínio: trata-se de uma implicação imediata que leva diretamente do participante ao participado.
- Deus é, portanto, a Unidade suprema, o Ser perfeito, a Perfeição absoluta.
- Deus é, portanto, “completamente bom sem ápice de mal algum”.
- É o Bem — o Bem substancial a se e per se — que não depende de nada nem de ninguém, que não necessita de nada nem de ninguém.
- Livre e voluntariamente criou o mundo, do qual não tinha necessidade e cuja criação não acrescentou nada à sua perfeição infinita.
- Por ser o Bem Absoluto, Deus não é só a força criadora da qual tudo provém, mas também o objetivo absoluto para o qual tudo tende como para sua perfeição e para seu bem.
- Porque só pela participação na perfeição e na beatitude se converte alguém em perfeito e bem-aventurado.
- Por ser a fonte, a essência e o término de tudo, é ao mesmo tempo imanente e transcendente ao mundo.
- É o repouso absoluto, a beatitude eterna, o poder infinito e imutável, mas é também a vida e o movimento absolutos, sendo, no entanto, superior à vida, ao movimento e ao repouso.
- V. Weigel, Scholasterium Christianum, página 177: “Na verdadeira pátria… nulla fit actio vel operatio vel motus… quia nulla est indigentia” (nenhuma ação ou operação ou movimento se faz… porque não há carência).
- Deus é a Unidade perfeita, o Ser supremo, fonte de todo ser e de toda perfeição.
- Por isso se deduz que tanto para Weigel como para todos os teólogos místicos (e inclusive para todos os teólogos a sós) é absolutamente indefinível, inconcebível, incognoscível, que está por cima de todo ser e de todo pensamento e que nenhuma qualificação, nenhuma determinação lhe é aplicável.
- V. Weigel, Studium universale, Dij: “Majestade, Deus ou Divindade, a eterna e invisível essência de sua glória é eterna, incompreensível, invisível a todas as criaturas. Assim ele, a partir da pura ocultação, isto é, a partir da divina escuridão… no princípio, nasceu, criou, fez a palavra, a sabedoria e disse: ‘Faça-se a luz’.”
- É afetoloso (affectlos), desprovido de vontade (willos), desprovido de pessoa (personlos).
- Em si mesmo não é nem vontade nem conhecimento.
- Não quer nada, não é afetado por nada.
- No fundo, tudo isso se acha implicado na noção do Absoluto, concebido como Unidade suprassubstancial e supraessencial.
- Em um Absoluto semelhante não se pode situar nem ato de conhecimento nem ato de vontade que necessariamente suporiam uma distinção e uma dualidade.
- Tudo isso não é novo.
- Desde Plotino até Sebastião Franck, passando por João Escoto Erígena, o mestre Eckhart e Nicolau de Cusa, afirma-se a mesma doutrina da divindade (Deitas, Gottheit) que não é nem ninguém, nem vontade, nem pensamento, que não é nada ou que é o Nada, e que no entanto é a fonte e o princípio de tudo, e nesse sentido é Tudo.
- Weigel não faz mais do que apoiar a doutrina de seus mestres quando afirma que em si, absoluto, Deus não tem nenhuma determinação, que não é nada, mas que relativamente, em relação ao homem e ao mundo, tem muitas; aparece então no fundo como detentor de todas.
- Deus, com efeito, é tudo e nada.
- É tudo complicativo e nada explicativo.
- É mais que tudo e menos que tudo.
- Weigel não se limita a repetir esses assertos.
- Acrescenta que Deus se conhece no homem e no homem se torna conhecimento, pessoa, pensamento e vontade, o que pode — e deve inclusive — interpretar-se de duas formas.
- Em primeiro lugar, há que considerar que o homem é a imagem, a semelhança e a expressão de Deus ad extra.
- É a imagem de Deus, e Deus ao pôr-se diante dele, dá a si mesmo sua própria revelação; pode, portanto, conhecer-se e ver-se no homem, porque o homem lhe serve de objeto (Gegenwurff, objectum), no qual se reflete.
- Logo, há que dar-se conta de que o homem é algo mais que uma simples imagem de Deus.
- Porque Deus se encarna no homem, habita nele, está realmente presente na alma.
- É ele quem nesta “alma” se torna “pessoa”, “consciência”, “vontade”.
- É ele quem conhece e é conhecido, quem é sujeito do ato de “conhecimento” e seu objeto.
- Nada há de incompatível com o caráter absolutamente indeterminado da divindade, uma vez que Deus não é Deidade e uma vez que na pessoa de Cristo é pessoa, e homem e vontade.
- Von der Seligmachenden Erkenntniss Gottes, Ms., publicado por A. Israel, V. Weigels Leben und Schriften, Zschoppau, 1888, página 97: “Absolutamente, sozinho e por si mesmo, sem toda criatura, Deus permanece sem pessoa (personloss), sem tempo (zeitloss), sem lugar (stattloss), sem ação (wirkloss), sem vontade (willoss), sem afeto (affectloss), e assim ele não é nem Pai nem Filho nem Espírito Santo, ele é a própria eternidade, sem tempo, ele paira e habita em si mesmo em todo lugar, ele nada opera, também nada quer, também nada deseja. Mas respectivamente, isto é, na e por meio da criatura, ele se torna pessoal, atuante, querente, desejante, assume afeto ou permite que, por nossa causa, pessoa e afeto lhe sejam atribuídos”. (Cf. ibidem, página 122).
- A vontade de Deus, na eternidade, está em repouso.
- Na criação, ela se manifesta, se torna operativa e querente.
- A necessidade dessa manifestação radica na natureza do próprio Deus, que é bondade.
- Cf. V. Weigel, Studium universale, capítulo VIII, página Hv: “Pois Deus é um ser essencial eterno, sem tempo, sem vontade, que, no entanto, trouxe o tempo e a vontade para fora de si. Portanto, pode-se dizer com propriedade: em Deus, desde a eternidade, havia repouso e silêncio, que nem queria nem desejava. Mas quando o tempo deve começar, ele quis e desejou. Pois sem tempo, ele não queria nada, não desejava nada. Eternidade sem tempo (e tempo não é nada sem eternidade), mas sempre ambos juntos, nenhum sem o outro. Assim como a criatura recebeu sua essência de Deus e permanece em Deus, assim também Deus recebeu a vontade na e por meio da criatura, e permanece ele mesmo a vontade na criatura racional. É o mesmo que: assim, o Deus sem vontade (willoson Gott) recebeu vontade por meio da criatura temporal, de modo que queira e deseje isto e aquilo, saiba, etc. Assim, Deus é uma vontade da criatura e não sem ela. Não são duas vontades, uma de Deus, a outra da criatura, é apenas uma vontade, a saber, de Deus na criatura, e da criatura em, com e por meio de Deus”.
- Em linhas gerais, basta talvez que se recorde que Deus é tudo complicativo.
- A natureza é Deus explicativo; o contém na medida em que é sua expressão.
- Além disso, o que em Deus, que é Espírito, não é nem pessoa, nem conhecimento, nem vontade, se expressa no homem (o homem espiritual) ao se tornar pessoa, pensamento, luz divina.
- Portanto, uma vez mais, o que conhece e se revela no homem não é o homem, é Deus, como é Deus quem quer e crê nele, e como é o homem quem, então, quer e crê “em Deus”.
- V. Weigel, Γνῶθι σεαυτόν livro I, capítulo XIII, página 33: “Deus é o princípio e o fim da fé no homem e não sem o mesmo… Portanto, ainda que o conhecimento divino sobrenatural venha de Deus, não vem, no entanto, sem o homem, mas em, com, a partir de e por meio do homem”.
- A doutrina é constante; Deus se expressa por, em e com o homem.
- O homem não desaparece, mas fica e continua com sua individualidade própria.
- O mundo é uma expressão de Deus que se torna corporal, temporal, atuante, sem que o mundo perca sua realidade, nem Deus sua eternidade.
- Retorna-se, uma vez mais, ao mundo criado, analisando sua estrutura e o lugar que o homem ocupa no universo.
- O sentido do termo criado e criatura não é o mesmo para Weigel que para Schwenckfeld ou Lutero.
- Deus cria por sua vontade, do nada, mas em si mesmo; o mundo não está separado de Deus, como em uma doutrina onde Deus não fosse mais do que transcendente.
- Aqui, Deus é transcendente e imanente ao mesmo tempo.
- Isso se aproxima muito de João Escoto Erígena.
- Cf. V. Weigel, Kurtzer Bericht zur Teutschen Theologie, página 149: “Deus é a essência de todas as essências, e a vida de todos os viventes… Essa essência é chamada infinitum, infinita; pois é incompreensível, inexprimível e ininvestigável para toda criatura como criatura… Assim Deus é a essência de todas as essências e a vida de todos os viventes complicativamente (complicative) e, no entanto, Deus não é criatura explicativamente (explicative)”.
- Ibidem, página 144: “Cada criatura tem necessariamente duas coisas em si, o Bem e o Mal, o Bem de Deus como a essência, a vida, a luz, o espírito, o Mal porém dela mesma, isto é, seu próprio Nada. Pois a criatura por si mesma é nada, mas o que ela é e tem, isso tem de Deus. Diz Tauler a partir de Eckehart: o que é feito não é verdadeira essência, mas como uma imagem ou sombra ou acidente, e assim fala também a Teologia alemã”.
- Cf. Γνῶθι σεαυτόν I, capítulo II, página 113: “Cada criatura tem duas coisas em si: o Bem e o Mal, a Essência e o Nada. Boa é a criatura na medida em que permanece abandonada a Deus (Gott gelassen) sem toda aceitação da vontade, onde Deus mesmo é tudo na criatura e isso se chama Cristo. Má, porém, é e se torna a criatura quando se volta para o não-abandono (Ungelassenheit) desde Deus”.
- A “sabedoria divina” é a Eva celestial (Boehme tomará logo essa ideia) na qual e pela qual, desde toda a eternidade, Deus se expressa e se conhece como Deus e criador.
- Cf. Weigel, Studium universale. D iij: “A celestial Eva fez no princípio de Deus um Deus, um Criador; ela é a mãe de todos os viventes, por ela tudo vem à luz, sem ela não haveria Deus, nenhum Criador, somente Eternidade sem tempo… no princípio e antes do princípio de todas as criaturas ela era. Depois, por meio dela, Deus deu à luz o Filho no mundo, isto é, Deus se fez Filho por meio da Sabedoria”.
- É, portanto, evidente que tudo quanto Deus criou é bom (além disso, esse et bonum convertuntur — ser e bem se convertem) e que tudo quanto é, é bom ao menos na medida em que é.
- Que a natureza de tudo (na medida em que é precisamente a expressão da Sabedoria divina, e em certo sentido é Deus) é boa e divina também.
- E, no entanto, a criatura é imperfeita e o mal existe.
- Weigel o soluciona admitindo que a existência do mal é um puro acidente, de modo algum necessário em si mesmo.
- Além disso, o mal, na medida em que é mal, não tem realidade nem pode ser considerado como criado por Deus.
- Com efeito, o mal não é mais do que um defeito (defectus), uma negação pura.
- Por essa mesma razão, precisamente o mal é inerente à criatura, uma vez que esta é necessariamente limitada e, enquanto tal, imperfeita.
- Pode-se, portanto, dizer que o mal metafísico (a imperfeição) é necessário, mas que esse mal-imperfeição deve ser cuidadosamente distinguido do mal moral (o pecado) que é um ato voluntário e livre da criatura.
- Deste modo, apesar da necessidade do mal metafísico, o mal moral (o pecado) permanece como “acidente” no sentido duplo do termo.
- Não é, com efeito, um elemento constitutivo da essência ou da natureza do ser criado, que é e permanece boa.
- Além disso, é realizado por uma ação livre e voluntária da criatura.
- Weigel duvida, no entanto, ao proclamar que o mal (a queda) não desempenha nenhum papel positivo na “fábrica” do mundo, porque se por um lado parece negar a necessidade da queda (Deus, diz ele, fez um ensaio para ver se a criatura permanecia na obediência), por outro, parece atribuir-lhe uma importância capital.
- Sem ela, diz, o mundo não teria sentido como mundo real e temporal.
- Cf. V. Weigel, Soli Deo Gloria, página 40: “…finalmente, Deus fez o homem de toda a criação, por isso ele é chamado Microcosmo; pois ele traz o grande mundo dentro de si, e é pelo grande carregado e alimentado. Além disso, Deus soprou no homem um espírito e o colocou no meio do jardim de seu mundo como prova, para ver se queria permanecer voluntariamente na obediência”.
- A função da prova é concebida por Boehme de uma maneira análoga.
- Weigel, Studium universale, G. Ia: “Por estas palavras devemos entender que este mundo teria sido criado em vão, sim, o homem não teria servido para nada, se tivesse permanecido no Paraíso, o campo não teria sido cultivado, do qual foi tirado”.
- Porque é o tempo que dá ao mundo — e à história — um sentido real, e ainda que nós mesmos (e conosco toda criatura) procedamos do eterno, é através do tempo como somos conduzidos para a eternidade.
- V. Weigel, Γνῶθι σεαυτόν I, I, II, página 19: “Do tempo somos conduzidos para a eternidade… assim, por meio do mal, se é conduzido ao Bem como à origem”.
- Cf. De vita beata, capítulo XXIII, onde Weigel, ao definir Deus como o término ou lugar de todos os espíritos (terminus seu locus spiritum omnium), lhe atribui uma vida supratemporal, e uma visão na qual o que não pereceu é futuro, o que não vem é passado, o que não passa é presente (das Unvergangene gewesen, das Unherkommende zukünftig, das Unhingehende gegenwärtig ist).
- O nunc aeternitatis (agora da eternidade) não conhece nem terminus a quo nem terminus ad quem, isto é, nem presente nem passado.
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