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HESSAYON, Ariel; APETREI, Sarah Louise Trethewey. An introduction to Jacob Boehme: four centuries of thought and reception. New York (N. Y.): Routledge, Taylor & Francis Group, 2014.

O legado de Boehme em perspectiva. Ariel Hessayon e Sarah Apetrei

I

  • Jacob Boehme recebeu ao longo do tempo as mais diversas qualificações elogiosas, que o situam entre os maiores gênios da humanidade e do pensamento místico e filosófico ocidental.
    • Foi chamado de “instrumento iluminado de Deus”, “príncipe dos filósofos divinos”, “o mais abrangente, fecundo e multifacetado de todos os místicos”
    • Foi descrito como “o maior e mais famoso de todos os Teósofos do mundo”, “o maior dos místicos e o pai da filosofia alemã”
    • Foi caracterizado como “um gigante em inteligência”, “um gênio religioso e filosófico” raramente igualado na história do mundo
    • Foi considerado “o mais imaginativo dos gênios” do início do século XVII e “um dos maiores gênios da humanidade”
    • Walter Benjamin, crítico cultural, o classificou como “um dos maiores alegoristaas”
  • Boehme escreveu em alemão de cerca de 1600 até pouco antes de sua morte em 1624, sendo autor de trinta obras segundo seu primeiro biógrafo, além de extensa correspondência conservada de janeiro de 1618 a junho de 1624, e suas principais preocupações teológicas giravam em torno da criação, do mal e da salvação pela regeneração espiritual interior.
    • Luterano de nascimento, de formação religiosa e até a morte, desenvolveu visões heterodoxas influenciado por Paracelso, pelos reformadores espirituais Caspar Schwenckfeld e Valentin Weigel, e por textos alquímicos e astrológicos
    • Sua compreensão da Trindade incluía uma quarta “pessoa”, Sofia — a Nobre Virgem da Sabedoria Divina — o que lhe valeu acusações de negação trinitária
    • Desenvolveu explicações para a queda de Lúcifer e dos anjos rebeldes, a natureza andrógina de Adão antes da queda, a existência de sete qualidades (seco, doce, amargo, fogo, amor, som e corpus) e três princípios cosmológicos
    • Os três princípios correspondiam ao mundo das trevas (Deus Pai), ao mundo da luz (Deus Filho) e ao mundo temporal visível (o Espírito Santo)
    • Estabelecido como sapateiro em Görlitz, na Alta Lusácia, escreveu em meio a intensas disputas religiosas, políticas e científicas, bem como ao início da Guerra dos Trinta Anos em 1618
    • Anunciou uma iminente Grande Reforma — uma nova era de amor, paciência, paz e alegria
  • Os comentadores dos séculos XIX e XX se dividiram profundamente diante da obra de Boehme, oscilando entre a admiração por sua profundidade e a censura por sua obscuridade quase impenetrável.
    • Foi elogiado como “pensador independente, audacioso e profundamente penetrante”, com “espantosa amplitude de pensamento e profundidade de experiência”
    • O filósofo existencialista Paul Tillich descreveu sua obra como “um dos sistemas mais profundos e estranhos do pensamento ocidental”
    • Esse “simples sapateiro camponês”, “iletrado e sem formação”, foi comparado a Dante pela grandiosidade de sua visão mística
    • A “notória opacidade” de sua prosa — descrita como um “furacão coagulado de linguagem” — fez dele, nas palavras de Cyril O'Regan, “uma das leituras mais difíceis na história do pensamento cristão”
    • Foi acusado de fazer “violência constante à linguagem” ao tentar “expressar o inexpressível” por meio de neologismos bárbaros
    • O filósofo idealista francês Émile Boutroux descreveu sua obra como “uma mistura de teologia abstrusa, alquimia, especulações sobre o indiscernível e o incompreensível, poesia fantástica e efusões místicas” — em suma, “um caos deslumbrante”
  • A tendência de Boehme a polarizar opiniões não era nova, como demonstra o espectro que vai da adulação à repulsa, atravessando línguas e séculos.
    • O teólogo dinamarquês do século XIX Hans Martensen observou que Boehme “teve de passar, não apenas em vida, mas também após sua morte, por honra e desonra, boa e má reputação. Muitos o consideraram um visionário e situaram seus ensinamentos na história das loucuras humanas. Em muitas bibliotecas, seus escritos são encontrados sob o rótulo Fanatici. Outros o exaltaram aos céus e acreditaram ter encontrado nele todos os tesouros do conhecimento e todos os enigmas resolvidos”
    • No dia seguinte ao enterro de Boehme, um dos médicos que o atenderam em seu leito de morte lamentou a perda de “um homem precioso, iluminado e altamente ensinado por Deus”, que deveria ter sido reverenciado em vez de abertamente difamado como “um fanático, entusiasta e visionário”
    • As reações à sua obra — no original alemão ou em traduções para o latim, holandês, inglês, galês, francês e russo — abarcaram desde a adulação até a exasperação e a repulsa
  • Figuras de destaque intelectual manifestaram posições opostas diante da obra de Boehme, ora celebrando sua profundidade mística, ora defendendo-o de acusações heréticas.
    • Pierre Poiret, devoto francês dos místicos, afirmou que foi a Boehme que Deus “descobriu o fundamento da natureza, das coisas espirituais bem como corporais, e que, com uma percepção absolutamente penetrante das questões teológicas ou sobrenaturais, conheceu também a origem dos verdadeiros princípios da filosofia metafísica e pneumática, bem como puramente física”
    • Louis Claude de Saint-Martin, tradutor francês de Boehme no início do século XIX, conhecido como “le philosophe inconnu”, exortou os leitores a mergulharem corajosamente em seus “numerosos escritos, que contêm exposições extraordinárias e surpreendentes de nossa natureza primitiva; da fonte do mal; da essência e das leis do universo; da origem da gravidade; do que ele chama de sete poderes da natureza; da origem da água; da natureza da desobediência dos anjos das trevas; do caminho de reconciliação que o amor eterno empregou para restituir o homem em sua herança”
    • Franz von Baader, filósofo católico alemão, chegou a Boehme por intermédio de Saint-Martin e defendeu-o da acusação “absurda” de reviver o “blasfemo erro gnóstico antigo” que faria do diabo o cozinheiro e tempero de Deus e da criação, insistindo que Boehme estabeleceu mais profundamente do que qualquer outro antes ou depois dele o ensinamento fundamental de um Deus sobrenatural, supramundano e incriado
  • Posições mais ambivalentes foram expressas por Georg Christoph Lichtenberg, Samuel Coleridge e Ralph Waldo Emerson, que reconheceram tanto o gênio quanto as limitações de Boehme.
    • Lichtenberg, cientista alemão do século XVIII, comparou a prosa das “obras imortais” de Boehme a certas odes em que “o autor fornece as palavras (o som) e o leitor, o sentido” — observação posteriormente popularizada por Sigmund Freud em sua obra sobre o chiste e sua relação com o inconsciente
    • Samuel Coleridge, o poeta, chamou Boehme de “o grande Teósofo alemão” e escreveu que o sapateiro “contemplava a Verdade e as formas da Natureza através de uma névoa luminosa, a escuridão vaporosa surgindo de sua Ignorância e peculiaridades acidentais de imaginação e sensação, mas com a Luz irradiando em seu interior a partir de sua alma mais íntima”
    • Ralph Waldo Emerson, ensaísta americano do século XIX e transcendentalista, via Boehme como poeta, sábio e místico que “trêmulo de emoção” ouvia “reverente, com a mais suave humanidade, o Mestre”, e sua excelência residia na abrangência: “Seu objetivo é grande. Ele quer conhecer, não uma coisa, mas todas as coisas”
  • Vozes contrárias denunciaram Boehme como impostora, fanático ou visionário irracional, rejeitando sua obra como jargão místico incompreensível e espiritualmente ilegítimo.
    • O teólogo John Wesley, do século XVIII, denunciou Boehme como um “louco engenhoso” e, ao ler sua exposição alegórica do Gênesis, declarou que era “o mais sublime dos absurdos; bombástico inimitável; empolamento sem paralelo”
    • Um historiador eclesiástico alemão afirmou que os escritos de Boehme exibiam “uma mistura variada de termos químicos, visões cruas e jargão místico”, e que jamais havia reinado “tal obscuridade e confusão nos escritos de qualquer mortal”
    • William Warburton, bispo de Gloucester, dispensou Boehme como um impostor cujas efusões eram “um amontoado de palavras sem sentido e ininteligíveis”, “o jargão do espírito da infatuação”
    • George Horne, bispo de Norwich, objetou que ou o esquema de Boehme era “uma nova revelação, ou uma explicação da antiga” — se a última, por que envolto em “jargão místico” inédito na Igreja cristã? Se a primeira, era “uma impostura e ilusão”, pois “inspirações extraordinárias” só seriam críveis se sustentadas por milagres
  • A erudição moderna abordou Boehme por três ângulos complementares — taxonômico, genealógico e contextual — sem que nenhum deles resulte em uma classificação definitiva ou neutra.
    • O enfoque taxonômico pergunta como Boehme deve ser definido; o genealógico, quais tradições intelectuais e religiosas ele herdou e às quais contribuiu; o contextual, em que meio ele deve ser situado
    • Clérigos protestantes e historiadores eclesiásticos tenderam a rotulá-lo de herege, fanático, entusiasta ou impostor, ridicularizando-o como artesão iletrado e delirante
    • Seus seguidores o reverenciaram como instrumento divino, figura santificada, profeta, iluminado, mestre sincero e gênio
    • Boehme não se conforma facilmente a um tipo específico, e nenhum desses termos é neutro, pois cada um revela — em diferentes graus — a perspectiva do leitor; por isso, pode ser mais útil concebê-lo como um híbrido excepcional
  • A genealogia intelectual de Boehme remete a múltiplas tradições que ele transformou de maneira singular, sem que nenhuma delas baste para explicá-lo.
    • Escrevendo cerca de um século após a Reforma alemã e convocando uma Grande Reforma, Boehme foi ocasionalmente comparado a um segundo Lutero, e o pensamento luterano — especialmente como mediado em Görlitz — claramente exerceu grande impacto em seu desenvolvimento
    • Foi situado dentro de uma tradição de misticismo alemão com raízes em pseudo-Dionísio Areopagita, que buscava compreender a natureza divina enfatizando o que Deus não é
    • Foi considerado sucessor independente dos reformadores espirituais, notadamente Caspar Schwenckfeld e Valentin Weigel
    • A influência de Paracelso é inegável — por meio dele e de seus intérpretes, Boehme se familiarizou com a tradição alquímica mais ampla, e seu conhecimento do heliocentrismo revela familiaridade com textos astrológicos
    • Elementos percebidos como panteístas sugeriram que Boehme teria se inspirado em uma teologia antiga que abraçava correntes de gnosticismo, neoplatonismo, hermetismo e adaptações cristãs da Cabala judaica
    • Embora não fosse um milenarista fervoroso, esperava um iminente período de grande tribulação, e seu pensamento apocalíptico foi comparado ao esquema escatológico de Joaquim de Fiore
  • A recuperação do contexto vivido por Boehme tem sido decisiva para desfazer equívocos duradouros sobre sua figura e sua obra.
    • Descobertas biográficas complementaram e corrigiram o retrato idealizado consagrado pela hagiografia
    • Pesquisas sobre o cenário intelectual vibrante de Görlitz, as controvérsias religiosas entre católicos, luteranos, calvinistas e sectários, o impacto local da Guerra dos Trinta Anos e o círculo de médicos, alquimistas, profetas, simpatizantes dos Rosacruzes, funcionários alfandegários, artesãos e nobres enriqueceram a compreensão de como sua obra foi informada por contextos mais amplos
  • O legado de Boehme, rico e diversificado, estende-se pelos quatro séculos desde a cópia manuscrita de sua primeira obra, e permanece vivo tanto no meio acadêmico quanto entre leitores populares atraídos por questões de espiritualidade, filosofia e ecologia.
    • A tradução moderna para o inglês de Andrew Weeks, com o texto original alemão e aparato crítico, está próxima de ser concluída, o que deve contribuir para resgatar o pensamento de Boehme do esquecimento em que caiu nos estudos anglófonos de história, teologia e filosofia
    • Alguns leitores são atraídos pela busca de “Sabedoria Superior” ou pelo interesse na filosofia esotérica e no misticismo; outros veem em seus ensinamentos sobre o mal, a presença de Deus na criação e a virgem nobre Sofia potencial para debates sobre filosofia moral, ambientalismo, expressão poética e espiritualidade centrada no feminino
    • Evelyn Underhill resumiu com hipérbole: Boehme “permanece um daqueles imortais envoltos em nuvens que devem ser redescobertos e reinterpretados pelos aventureiros de cada época”

II

  • A interpretação de Boehme tem sido um processo de “revelação progressiva”, e o volume foi concebido para ilustrar esse processo diacrônico, detendo-se em marcos significativos ao longo do caminho.
    • Nigel Smith, no capítulo seis, sugere que a recepção de Boehme foi desenvolvimentista
    • Vários ensaios lidam com o paradoxo essencial no coração do pensamento de Boehme — a tensão entre, nas palavras de Andrew Weeks, “seu status anômalo de simples sapateiro e as complexidades incomensuráveis de sua escrita”
    • Ariel Hessayon, no capítulo introdutório, busca oferecer um relato equilibrado da vida de Boehme, despindo-a tanto dos mitos hagiográficos perpetuados por seu primeiro biógrafo quanto dos estereótipos negativos mantidos pela heresiografia
    • Andrew Weeks, no capítulo três, examina o solo teológico e cultural em que Boehme estava enraizado, iluminando como tradições de dissidência anticlerical, cosmogonia medieval e renascentista e metafísica luterana interagem em seu projeto ambicioso, e explora como a “liminaridade” de Boehme entre épocas e entre cultura laica e erudita ressoou poderosamente no modernismo tardio
    • Leigh Penman, em seu capítulo sobre as redes intelectuais de Boehme no início do século XVII, desmonta o mito de Boehme como uma “voz que clama no deserto”, reconstruindo por meio de estudo prosopográfico as redes heterodoxas do Görlitz contemporâneo e as relações patronais e pessoais que o ligavam a pensadores antimonistas, paracelsianos, cabalistas, quiliásticos e espiritualistas
  • A recepção inglesa de Boehme, especialmente no período das Guerras Civis e da Revolução, revela uma disseminação mais difusa do que linear, e sua significância na Inglaterra do século XVII reside menos em sua contribuição à política religiosa radical do que em seu alistamento a serviço de agendas intelectuais preexistentes.
    • Hessayon, no capítulo cinco, aponta as armadilhas de traçar uma genealogia behmenista demasiado linear, mostrando que as traduções inglesas fazem parte de uma disseminação mais ampla de literatura mística e oculta
    • O impulso para a tradução veio de meios irênicos e politicamente moderados, não primariamente de um público sectário radical
    • Nigel Smith, no capítulo seguinte, analisa o apelo dos escritos de Boehme para leitores ingleses nas décadas após suas primeiras publicações, sugerindo que parte da atração inicial residia exatamente na dificuldade e obscuridade de sua prosa — sua recusa em entregar facilmente seu significado ao escrutínio racional
    • Essa opacidade ajudou a confirmar o status da obra como profecia autêntica e encorajou formas experimentais de discurso inspirado e poesia que apontavam precocemente para o registro místico distintivo de William Blake
  • Jane Lead e a Sociedade Filadélfica de Londres foram decisivas para manter o pensamento de Boehme vivo no século XVIII e para moldar as preocupações das gerações subsequentes de leitores.
    • Sarah Apetrei, no epílogo, aborda a Sociedade Filadélfica de Londres, fundada na década de 1690
    • Jane Lead, matriarca visionária dos filadélfianos, ajudou a consolidar a reputação de Boehme como mago inspirado ao estabelecer-se como sua sucessora
    • As interpretações distintas de Lead — como a reconfiguração da doutrina de “Sofia” ou Sabedoria Divina e o desenvolvimento de seu discurso escatológico até uma visão de salvação universal — moldaram as preocupações da geração seguinte de seus leitores, incluindo pietistas radicais e leitores místicos na França, Inglaterra e Escócia
    • Lucinda Martin, no capítulo sete, examina os canais pelos quais os pietistas se reencontraram com Boehme e mapeia o diversificado e vibrante panorama das interpretações pietistas
    • As interpretações pietistas vão desde as profundamente idiossincráticas e sectárias, como os celibatários “Irmãos Anjos” de Johann Georg Gichtel ou a sexualmente invasiva e controladora “Sociedade da Mãe Eva”, até a exposição intelectualmente mais convencional e amplamente difundida da doutrina de Sofia por Gottfried Arnold
    • As implicações antropológicas do pensamento sofianico, sugeridas pelos behmenistas ingleses John Pordage e Jane Lead, estimularam no pietismo não apenas atitudes perturbadoras em relação à sexualidade, mas também novas perspectivas para a autoridade feminina
  • William Law, o místico inglês do século XVIII, utilizou Boehme para construir um sistema espiritual centrado na doutrina da regeneração, reconhecendo o caráter performativo essencial de sua prosa.
    • Alan Gregory, em seu capítulo, mostra como Law usou Boehme dentro de uma tradição apologética anglicana distintiva para mostrar que a narrativa integrada da criação em Boehme resiste tanto às implicações radicalmente dualistas quanto às radicalmente monistas das filosofias contemporâneas
    • Gregory argumenta que Law reconheceu que a prosa de Boehme é essencialmente performativa — escrita com intenção sobre o leitor, não tanto para desvelar mistérios, mas para engendrar mudança
    • Essa apreciação da qualidade geradora da escrita de Boehme é característica da recepção romântica, discutida por Kristine Hannak e Elisabeth Jessen nos capítulos seguintes
    • Hannak analisa como e por que Boehme foi lido como poeta no movimento romântico alemão, explicando que para críticos do racionalismo como Novalis e Friedrich Schlegel o projeto era “poetizar” a sociedade, ou tornar visível o espiritual
    • Jessen contrasta o behmenismo de William Blake e Samuel Taylor Coleridge, argumentando que o engajamento profundamente sentido, sensuamente animado e antiinstitucional de Blake com Boehme o tornava o leitor mais autêntico, enquanto a avaliação de Coleridge era mais criticamente circunspecta
  • A recepção de Boehme na Rússia ortodoxa, desde o profeta behmenista Quirinus Kuhlmann no final do século XVII até os teólogos do início do século XX e os dissidentes soviéticos, revela a extraordinária variedade de contextos em que seu pensamento ressoou como profético.
    • Oliver Smith, no capítulo onze, examina não apenas o impacto intelectual de Boehme por meio de círculos maçônicos e da filosofia religiosa russa, mas também seu papel na configuração dos paisagismos ideais das propriedades aristocráticas no século XVIII
    • A importância central da Sofiologia de Boehme para os grandes teólogos russos do final do século XIX e início do século XX é destacada, culminando no surpreendente interesse de marxistas e dissidentes soviéticos
  • A influência de Boehme sobre Hegel representa um dos débitos mais significativos da filosofia idealista alemã, embora essa dimensão mística tenha sido frequentemente marginalizada nos relatos do desenvolvimento filosófico hegeliano.
    • Glenn Magee, no capítulo doze, reavalia a influência de Boehme sobre Georg Wilhelm Friedrich Hegel, o possivelmente maior dos filósofos idealistas alemães
    • O círculo de Schelling, Novalis e Schlegel em Jena — coletivamente seduzidos pelos escritos de Boehme — é o ponto de partida para a tese de Magee de que Boehme forneceu o momento decisivo no pensamento de Hegel
    • Magee sugere que os escritos de Hegel continuaram a ser fertilizados por Boehme ao longo de toda a sua carreira, mesmo levando em conta a ambivalência declarada do próprio Hegel
    • George Pattison analisa as evoluções de Boehme além do idealismo alemão, no trabalho do teólogo hegeliano dinamarquês Hans Martensen, cuja longa relação com Boehme culminou em uma monografia publicada em 1881
    • Pattison sugere que, ao contrário de outros leitores de Boehme, a trajetória teosófica de Martensen se afastou do centro apofático do misticismo cristão — a “sabedoria do não-saber” — e se aproximou de uma espécie de gnose
  • Arthur Versluis mapeia os desafios que Boehme representa para os estudos esotéricos contemporâneos, enquanto Bruce Janz questiona por que Boehme ainda importa hoje, encontrando na criatividade irrestrita de seu pensamento uma fonte de inspiração permanente.
    • Versluis, no capítulo catorze, historiador e teórico do esoterismo ocidental, mostra que a identidade intelectual ambígua de Boehme — reunindo fios alquímicos, astrológicos, cabalísticos e místicos — ajuda a iluminar os problemas taxonômicos inerentes à própria categoria do “esotérico”
    • Janz, no capítulo conclusivo, argumenta que é a criatividade incontida do pensamento de Boehme que constitui fonte de inspiração para leitores contemporâneos — sua recusa a ser inibido por convenções de linguagem ou organização conceitual
    • Janz propõe: “O Boehme mais interessante hoje é aquele que não sabemos que está lá, aquele que se tornou parte do pano de fundo contra o qual outros conceitos se esforçam para se manifestar”
  • Os caminhos da história da recepção de Boehme são desconcertantes em sua variedade, e o volume pretende oferecer um estímulo para pesquisas futuras e o início de uma narrativa coerente sobre o lugar que ele ocupa no “pano de fundo” da modernidade.
    • Há muito mais a dizer sobre o impacto de Boehme na filosofia — Friedrich Nietzsche e Arthur Schopenhauer — na literatura — Ralph Waldo Emerson, David Herbert Lawrence e William Butler Yeats — na psicanálise — Carl Gustav Jung — e na religião — teosofia e pentecostalismo
    • O volume sublinha a especificidade irredutível do contexto histórico na recepção de Boehme, ao mesmo tempo em que destaca temas que transcendem o particular
    • O misterioso do gênero visionário — seu potencial transformador combinado com sua obstinada opacidade — ressoou de forma contracultural em ambientes intelectuais cada vez mais dominados pelo positivismo e pela aversão ao mistério
    • Boehme oferece uma alternativa dinâmica — tão sintonizada com a teoria crítica pós-moderna quanto com a profecia do século XVII — no esforço criativo por novas formas de falar que abram novas formas de pensar
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