ESTADO DE IOGUE
René Guénon: YOGA
O iogue, no sentido próprio da palavra, é aquele que alcançou a união perfeita e definitiva; assim, não se pode aplicar sem exagero essa denominação àquele que se dedica simplesmente ao estudo do yoga enquanto darshana, nem mesmo àquele que segue efetivamente o caminho da realização nele indicado, sem ter ainda alcançado a meta suprema para a qual tende. O estado do verdadeiro iogue é o do ser que alcançou e possui em pleno desenvolvimento as possibilidades mais elevadas; todos os estados secundários aos quais nos referimos também lhe pertencem ao mesmo tempo e, por essa mesma razão, mas por acréscimo, poder-se-ia dizer, e sem mais importância do que aquela que têm, cada um em seu lugar, na hierarquia da existência total, da qual são tantos outros elementos constitutivos. O mesmo se pode dizer da posse de alguns poderes especiais e mais ou menos extraordinários, tais como os chamados siddhis ou vibhutis: longe de deverem ser buscados por si mesmos, esses poderes não constituem mais do que simples acidentes, que dependem do domínio da “grande ilusão” como tudo o que é de ordem fenomênica, e o iogue só os exerce em circunstâncias completamente excepcionais; considerados de outra forma, não poderiam ser mais do que obstáculos à realização completa. Vê-se quão desprovida de fundamento é a opinião vulgar que faz do iogue uma espécie de mago, e até mesmo de feiticeiro; de fato, aqueles que exibem algumas faculdades singulares que correspondem ao desenvolvimento de algumas possibilidades que não são, aliás, mais do que de ordem “orgânica” ou fisiológica, não são de modo algum iogues, mas homens que, por uma razão ou outra, e geralmente por insuficiência intelectual, se detiveram em uma realização parcial e inferior, que não ultrapassa os limites da individualidade humana, e pode-se ter certeza de que nunca irão além disso. Pela verdadeira realização metafísica, despojada de todas as contingências e, consequentemente, essencialmente supraindividual, o iogue tornou-se idêntico àquele “Homem universal” sobre o qual já dissemos algumas palavras anteriormente; mas, para extrair as consequências que isso acarreta, seria necessário sair dos limites que nos impomos no presente. Por outro lado, é sobretudo ao hatha-yoga, ou seja, à preparação, que se refere o darshana a respeito do qual apresentamos estas poucas considerações, destinadas sobretudo, em nossa intenção, a cortar pela raiz os erros mais difundidos sobre este tema; o restante, ou seja, o que diz respeito ao objetivo último da realização, deve ser referido preferencialmente à parte puramente metafísica da doutrina, que é o Vedanta.
