User Tools

Site Tools


primal:mateus-o-pobre:prece

PRECE

Mateus o Pobre — A Vida de Oração Ortodoxa

  1. A oração espiritual e genuína é simultaneamente chamado e resposta: um chamado divino e uma resposta humana, fundada no fato de que a alma humana foi criada à imagem de Deus e dela deriva o próprio ser.
  2. O único caminho verdadeiro para o homem se conhecer a si mesmo é primeiro tomar consciência de Deus, pois a própria autoconsciência é uma imagem da consciência que Deus tem de si mesmo, e pelo batismo essa autoconsciência retorna à sua imagem divina original.
  3. A oração tornou-se a postura da alma diante de seu Criador na consciência de sua renovação pelo Espírito Santo, pelo qual a alma recupera em Cristo a imagem de sua filiação original e se aproxima do Pai com ousadia.
  4. Misticamente, a oração é o chamado perpétuo de Deus dentro do homem, atraindo-o para a realização do propósito último de sua criação, que é a união com Deus; em sua forma exterior, é a livre resposta da boa vontade humana ao chamado divino.
  5. Segundo São Gregório de Nissa, a oração é um diálogo de coração a coração, eternamente ativo da parte de Deus e eternamente lento da parte do homem, sendo a iniciativa sempre divina.
  6. O propósito temporal desse diálogo divino-humano é garantir a existência segura do homem sob a providência de Deus durante sua vida na terra; o propósito eterno é a reaceitação da comunhão do amor de Deus, de uma vez para sempre.
  7. Deus aparece como benfeitor cada vez que oramos, pois é Ele quem nos chama a orar, e por isso toda oração deve começar com graças transbordantes, diante da humildade de Deus que busca dialogar conosco apesar de nossos pecados.
  8. A disponibilidade de Deus em compartilhar a vida temporal do homem com todas as suas falhas, aceitando com ele a opressão de uma natureza sujeita à vaidade, revela a harmonia entre sua grandeza e sua humildade.
  9. Diante da grandeza de Deus, o homem descobre sua pecaminosidade e necessidade de arrependimento; diante de sua humildade no trato conosco, todo orgulho humano se consome, e o sacrifício de humildade e amor torna-se perfeito.
  10. A oração começa como chamado secreto de Deus, depois assume seu propósito divino como ato de arrependimento e purificação, e por fim atinge sua meta última como sacrifício de amor e humildade que nos prepara para a comunhão com Deus.
  11. Embora a oração seja um sentido espiritual implantado na alma humana, muitos nunca oram e morrem sem jamais ter tomado consciência de si mesmos ou de sua afinidade com Deus, condição que o apóstolo Judas descreve como a das estrelas errantes destinadas às trevas eternas.
  12. A oração não é apenas um sentido para organizar a vida neste século, mas foi implantada na natureza humana para que por ela o homem ascenda a Deus e alcance a união com Ele, passando da vida perecível para a vida eterna.
  13. Sem a oração, o homem perde a glória de sua imagem divina e deixa de se assemelhar a Deus; por meio dela, Deus o atrai a si mesmo e o homem misteriosamente caminha em direção a Ele, e até mesmo atrai Deus a si.
  14. Para Deus, o amor não é emoção, mas oferta de si mesmo: na oração, Deus oferece a si mesmo ao homem e a união consigo, para que Ele seja totalmente do homem e o homem seja totalmente seu.

Ditos dos Padres sobre a natureza da oração

  1. São Macário, o Grande, ensina que a oração deve ser feita com mente atenta e expectante diante de Deus, em silêncio ou em voz alta conforme o momento, totalmente concentrada e movida por amor ao Senhor, pois assim Deus ilumina e encontra repouso na alma bem-intencionada.
  2. São João Damasceno define a oração como a elevação da mente a Deus.
  3. São João Clímaco afirma que a oração é por natureza um diálogo entre o homem e Deus, une a alma ao seu Criador, os reconcilia e tem o efeito de sustentar o mundo unido.
  4. Santo Antônio, o Grande, exorta a clamar a Deus dia e noite, pois Deus ensinará o que é bom, purificará o espírito com fogo invisível e fará Jesus habitar no homem, tornando-o capaz de adorar a Deus como deve.
  5. São Isaac, o Sírio, ensina que toda conversação secreta e todo cuidado do intelecto dirigido a Deus é chamado pelo nome de oração e a ela pertence, e que da oração genuína nasce o amor de Deus.
  6. O padre João de Kronstadt observa que, numa oração longa, apenas alguns minutos são verdadeiramente agradáveis a Deus, pois o que fundamentalmente importa na oração é a proximidade do coração com Deus, atestada pela doçura de sua presença na alma.

Grandeza da Prece

  1. Em sua essência verdadeira, a oração é uma comunhão com o coro celestial no louvor ao Criador; sua grandeza reside em ser obra dos seres espirituais em geral, não limitada a este século nem destinada apenas à satisfação das necessidades humanas.
  2. Pedimos a Deus por coisas temporais porque caímos de nossa condição espiritual original, e Deus, em sua graça, desceu ao nosso nível e prometeu ouvir nossas necessidades, assegurando que jamais nos abandonará em nossas tribulações.
  3. A verdadeira conclusão a que chegam todos os santos é que a oração é um ato de glorificar a Deus, um ministério divino de honra transcendente, cujo fundamento é a submissão absoluta à vontade divina, à semelhança do ofício dos Serafins.
  4. A rendição total à vontade de Deus é uma entrada em aliança com Ele em preparação para a união final com sua vontade, e a corrupção de nossa natureza não impede a glória de nosso ofício quando ele é movido pelo amor puro.
  5. A oração como glorificação do Criador transcende os limites de nossas deficiências e indignidade; quando fielmente realizada para santificar o nome de Deus, tem o poder de transformar os orantes em santos por mediação da graça.
  6. Por meio da oração pura, os olhos do homem se abrem para ver no espírito a árvore da vida, que é Cristo, e sua mão se estende em arrependimento para colher as palavras do evangelho e delas se alimentar, sendo renovado e vivendo para sempre.
  7. São Isaac, o Sírio, diz que a oração é o Reino de Deus, e Cristo nos urge a orar sempre porque é na oração constante que o Reino de Deus se revela secretamente dentro de nós.

Provérbios dos Padres sobre a grandeza da oração

  1. São Macário, o Grande, ensina que a perseverança na oração é o fundamento e a força orientadora de todas as boas ações, pois por meio dela se obtêm diariamente as demais virtudes, e nela o homem digno é inflamado pela paixão divina e recebe a graça da perfeição santificante do Espírito.
  2. O Abba Isaac afirma que todo monge que busca o caminho perfeito visa à oração ininterrupta, que é a pedra angular do arco de todas as virtudes.
  3. São Isaac, o Sírio, responde que o ápice de todos os labores ascéticos é a oração constante, pois quem a alcança tocou o fim de todas as virtudes e tornou-se morada do Espírito Santo.
  4. Santo Antônio, o Grande, exorta a pedir com todo o coração o Espírito ardente, pois Ele habita nos corações retos, revelará mistérios mais elevados e trará alegria celestial dia e noite.

Necessidade da Prece

  1. A relação da alma humana com Deus e o anseio de falar com Ele são elementos essenciais do ser humano, assim como o ministério e o louvor são essenciais à natureza dos anjos; o homem que responde ao espírito de adoração em sua alma produz bons frutos a seu tempo.
  2. No mundo atual, retornado à adoração de ídolos como o dinheiro, a ganância e o prazer sensual, a oração tornou-se a arma primeira e única para a salvação da alma, lembrando ao homem que existe um Deus vivo, um reino preparado, uma vida gloriosa e um julgamento a enfrentar.
  3. A oração lembra ao homem que ele não pertence a este mundo, refreia o coração da cobiça injusta, guarda os pés do pecado e a língua da adulação, concede discernimento profundo e renova cada dia a paz interior perdida nas provocações e injustiças do mundo.
  4. Deus não busca meros crentes, mas adoradores verdadeiros que o adoram em espírito e em verdade, pois Deus é espírito e verdade e só aceita a oração que O conhece bem e corresponde à Sua própria natureza.
  5. O fato de Cristo dizer que Deus busca tais adoradores revela que Deus procura a oração do homem e participa da criação das circunstâncias para que ela floresça; sem a oração, o homem perde o significado de sua existência e o propósito de sua criação.

Ditos dos Padres sobre a necessidade da oração

  1. O Bispo Ignácio Brianchaninov ensina que Deus não precisa de nossas orações, mas que para nós a oração é indispensável porque ela aproxima o homem de Deus.
  2. São Efrém, o Sírio, afirma que as virtudes se formam pela oração, que suprime a ira, refreia o orgulho e a inveja, atrai o Espírito Santo à alma e eleva o homem ao céu.
  3. São João Clímaco exorta a não largar o bastão da oração para não cair, pois mesmo uma queda não será fatal para quem persiste nela.
  4. São Isaac, o Sírio, ensina que a oração fortalece a consciência, investe a mente de poder, reforça a esperança e acende a confiança, tornando o homem capaz de suportar as tribulações e os males deste mundo.
  5. São Isaac afirma que a oração perfeita guia o homem ao céu, despreza o amor deste mundo, atrai a graça denominada Reino dos céus e faz o homem esquecer a terra e lembrar apenas de seu Ajudante invisível e poderoso.
  6. São Isaac ensina que por meio de palavras se tem acesso aos mistérios, pois a oração aproxima a mente de Deus.
  7. São Isaac observa que Deus não dispensa seus dons apenas em resposta a pedidos, mas fez das petições um canal para conduzir a mente à contemplação de sua eternidade.
  8. São Isaac distingue a oração acompanhada de pensamentos sublimes e devotos, que se transforma em chamas de fogo, da oração sem virtude, que não tem poder diante de Deus; a força da oração está não em suas palavras mas na justiça de quem ora.
  9. São Isaac declara que a oração é superior a todas as demais virtudes.

Eficácia da Prece

  1. Os dons transcendentes da vida cristã, gerais e pessoais, jamais podem se manifestar em sua força e eficácia exceto pela oração; é por ela que o efeito da natureza de Cristo se torna manifesto no homem, e sem ela toda tentativa de declarar as ações divinas na natureza humana se torna falsa e egocêntrica.
  2. Esses fatos sobre a oração devem ser aceitos e aplicados com toda a força, pois ao custo de muito esforço e sacrifício se pode alcançar todos os mistérios transcendentes de Cristo, que antes eram apenas questão de ouvir.
  3. A oração deve tornar-se preocupação suprema, obrigação que desafia todas as outras, prazer que supera todos os demais, de modo que o homem ore em todo tempo, lugar e circunstância em fome insaciável de contato constante com Cristo.
  4. Todo o propósito das obras e circunstâncias da vida é levar ao agrado do Pai pela obediência a Ele por meio de Jesus Cristo, de modo que Cristo preencha a mente e a vida do homem para que seja verdadeiramente Ele quem vive dentro do homem, e não o próprio eu.
  5. Ao avançar na vida de oração, o homem percebe como sua vida se transforma, como as fontes do pecado secam, como os movimentos do mal se extinguem, e como um novo ouvido se cria nele cada manhã para aprender os mistérios do evangelho.
  6. Quanto mais o homem avança na vida de oração, mais saboreia a união com Deus; o que antes era buscado em lágrimas e suor agora se encontra disponível como em sonho, e Deus coloca uma guarda sobre a boca, os olhos e os ouvidos, enquanto o coração deseja apenas agradar a Deus.
  7. Perseverando na oração, o homem descobre a pedra preciosa inestimável no campo do evangelho, e todas as paixões e glórias do mundo perdem valor em seus olhos, tornando-se como punhado de pó e impureza da qual deseja se livrar.
  8. Na oração encontram-se a vontade pessoal de Deus e a do homem: a vontade de Cristo, voltada para a salvação do homem, só pode ser frustrada pela falta de oração, pois jamais Cristo rejeitou quem creu nele e o procurou.
  9. Sem a oração, o homem não pode conhecer a vontade de Cristo para si, e o Espírito só aceita conhecer a vontade do homem por meio da oração; quem não ora não pode esperar nada de Deus e fica entregue aos caprichos de sua própria mente.
  10. O homem que não ora não pode ser mudado nem renovado, e quem não é mudado nem renovado não tem relação genuína nem eficaz com Cristo; sua adoração, por mais ativa que seja, é apenas uma protuberância exterior que acaba se desprendendo sem fruto.
  11. Na oração, o homem não atrai Cristo do céu, mas o descobre dentro de si mesmo, pois Cristo habitou no homem novo pelo batismo e encontra-se à porta do coração batendo constantemente; ao responder ao chamado, o homem o deixa entrar e Cristo começa a ressuscitá-lo e tirá-lo do mundo das trevas.
  12. O homem novo criado à semelhança de Cristo só pode viver, crescer e se fortalecer pela habitação de Cristo em seu coração, o que só se dá pela oração, pela fé e pela vontade; Cristo é a Palavra de vida que o homem abraça pelo coração por meio da oração e do evangelho.
  13. Cristo é a vida eterna que se torna um reino verdadeiro dentro do homem quando este aceita sua pessoa pelo coração por meio da oração e do sacramento do Corpo e Sangue; é a luz verdadeira que ilumina a mente quando o homem aceita viver segundo a verdade e os mandamentos de Cristo.
  14. Sem uma vida de oração com Cristo, não pode haver vida, reino, luz nem vitória sobre o diabo; a oração é o poder eficaz que coloca o homem em contato com Cristo presente dentro dele, fonte de todo poder, bênção e vida.
  15. Por mais que se esforce para conhecer Cristo sem a oração, o homem apenas o conhecerá como Salvador de outros, permanecendo privado de todos os seus dons e graças; é preciso primeiro receber Cristo pela oração e fazê-lo repousar no coração para que Ele possa gerenciar todos os assuntos da vida.
  16. Cristo só se une aos pensamentos, emoções, vontade e sentidos do homem depois de se unir à sua alma; por isso o homem deve abrir todo o seu ser na oração para que Cristo repouse nas profundezas de sua alma, da qual Deus é o único dono e governante.

Ditos dos Padres sobre a eficácia da oração

  1. São Macário, o Grande, ensina que é preciso implorar a Deus com luta no coração e por fé que Ele nos conceda descobrir os tesouros de Cristo em nossos corações no poder e na energia do Espírito, pois a bondade do Pai quis habitar em todo crente que lho pede.
  2. São Macário exorta a quem está despido do poder do Espírito a chorar e implorar ao Senhor o vestido espiritual, pois sem ele o homem está coberto da vergonha das paixões más; devemos pedir a Deus que nos vista com a veste da salvação, o Senhor Jesus Cristo, a Luz inefável que os que a vestiram jamais tirarão pela eternidade.
Search
primal/mateus-o-pobre/prece.txt · Last modified: by 127.0.0.1