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Jó XXVIII

Comentários sobre Jó. Livro V.

  1. Jó precisava ser humilhado pela comparação com Deus após suportar tantos sofrimentos com constância, para que a vitória de suas virtudes não se transformasse em queda pela soberba.
  2. O Senhor responde a Jó do meio do turbilhão porque fala severamente a quem foi provado, mostrando poder terrível para conter qualquer elevação orgulhosa.
  3. A fala divina ocorre diretamente por inspiração interior ou de modo adaptado por criatura angélica, sendo a primeira uma iluminação sem som que instrui o coração de modo imediato.
  4. Deus declara sua vontade por meio dos anjos de modos diversos, usando palavras, objetos, ações, imagens interiores, aparições sensíveis, substâncias celestes, substâncias terrestres ou presença espiritual no coração.
  5. Deus fala por palavras mediante um anjo quando uma voz temporal é formada por criatura racional para tornar audível aos homens uma decisão divina eterna.
  6. Deus fala por objetos mediante anjos quando elementos visíveis anunciam realidades futuras, como o âmbar de Ezequiel figura o Mediador em quem a natureza divina e a humana se unem.
  7. Deus fala simultaneamente por palavras e ações quando ensina por gestos simbólicos, como a caminhada divina no jardim mostra a instabilidade espiritual do homem após o pecado.
  8. Deus fala por imagens interiores ou por formas corporais assumidas temporariamente, como nas visões de Jacó, Pedro e Paulo ou na aparição dos três homens recebidos por Abraão.
  9. Deus fala por substâncias celestes, terrestres ou mistas quando usa nuvens, animais, fogo e sarça para comunicar realidades espirituais e prefigurar a encarnação.
  10. Deus inspira os profetas por meio de anjos presentes de modo secreto no coração, elevando a mente humana acima do peso da carne para contemplar causas futuras.
  11. A fala do Senhor a Jó no turbilhão pode ter ocorrido por mediação angélica exterior e por iluminação divina interior, de modo que Jó exprimisse em palavras aquilo que recebera sem palavras.
  12. A pergunta divina contra Eliú é repreensão da arrogância, pois ele possuía sentenças verdadeiras, mas as envolvia em palavras inábeis pela vaidade.
  13. A ordem para cingir os lombos como homem exorta Jó a conter não apenas a concupiscência da carne, mas também a concupiscência do coração que se gloria da própria virtude.
  14. Deus interroga a criatura por meio do castigo, de mandamentos difíceis e da revelação parcial de seus mistérios, para manifestar a paciência, a obediência e a humildade humanas.
  15. A menção aos fundamentos da terra passa da criação do mundo para a construção da Igreja, na qual os pregadores santos são fundamentos estabelecidos por Deus.
  16. A pedra angular designa Cristo, que une os povos e sustenta a Igreja, mostrando que a linguagem aparentemente cosmológica deve ser lida também em sentido místico.
  17. As medidas e linhas da terra significam os limites ocultos da Igreja, traçados pelo juízo secreto de Deus ao chamar alguns povos e reter outros fora da pregação.
  18. Os eleitos estão dentro das medidas divinas e os réprobos fora delas, mesmo quando parecem pertencer exteriormente à fé.
  19. As bases da terra simbolizam os doutores da Igreja, que sustentam o peso do edifício e tornam os preceitos difíceis praticáveis pelo exemplo de vida.
  20. As bases também significam os profetas, que sustentam os apóstolos ao anunciarem previamente a encarnação do Mediador e receberem plena luz com a vinda de Cristo.
  21. A pedra angular é Cristo, que une judeus e gentios em uma só Igreja e reconcilia a humanidade terrena com os anjos celestes.
  22. Em sentido moral, a terra representa a alma justa, cujo fundamento é a fé e cujo edifício de virtudes deve ser preservado pela lembrança humilde do estado anterior de pecado.
  23. Deus mede a alma justa ao distribuir diversamente seus dons, concedendo a cada pessoa graças específicas e limitando aquilo que cada uma pode realizar.
  24. A diversidade dos dons impede a soberba e cria dependência recíproca pela caridade, pois cada pessoa possui no outro aquilo que não recebeu em si mesma.
  25. A Igreja é o corpo de Cristo no qual membros diversos exercem funções distintas e, pela caridade, formam uma unidade viva e harmônica.
  26. A sabedoria divina estabelece limites aos dons de cada pessoa, de modo que ultrapassar a medida recebida conduz à perda do próprio ofício espiritual.
  27. Davi e Paulo preservaram a medida recebida ao não pretenderem realizar aquilo que não lhes fora concedido.
  28. A linha estendida sobre a alma consiste nos exemplos dos santos, que corrigem defeitos, moderam excessos e ensinam a manter a justa medida nas obras.
  29. O exemplo de Pedro ensina simultaneamente coragem diante dos perseguidores e humildade diante da correção fraterna, impedindo tanto a fraqueza por medo quanto o excesso por orgulho.
  30. A discrição mostra que uma mesma virtude deve às vezes ser exercida e às vezes suspensa, quando sua prática indiscreta ameaça causar dano maior aos fracos.
  31. Paulo circuncidou Timóteo por prudência pastoral, embora ensinasse a liberdade dos gentios, pois uma virtude pode ser preservada justamente quando é temporariamente contida por discernimento.
  32. A suspensão do zelo deve ser examinada pela intenção interior, para que não proceda de medo, ambição ou interesse próprio, mas do verdadeiro bem comum.
  33. As bases da alma são suas intenções, que só sustentam virtudes autênticas quando permanecem firmadas em Cristo e voltadas à vida eterna.
  34. Toda alma eleita edifica suas ações temporais sobre Cristo quando suas intenções repousam na esperança da eternidade.
  35. A pedra angular em sentido moral é a dupla compreensão da Escritura e também Cristo, que une vida ativa e contemplativa em sua própria encarnação.
  36. As estrelas da manhã são os anjos, que louvam o mistério da redenção e se alegram com a integração dos homens redimidos ao número celeste.
  37. A exultação humana diante da redenção expressa uma alegria que a voz não consegue conter nem explicar plenamente, enquanto Deus limita as tentações para que exercitem sem destruir.
  38. O mar simboliza o mundo perseguidor, e o ventre simboliza a corrupção dos pensamentos carnais de onde irrompem ameaças contra a Igreja.
  39. O mar coberto por nuvem representa a crueldade dos perseguidores velada pela ignorância e pela cegueira, tanto fora quanto dentro da Igreja.
  40. Deus circunda o mar com limites ao restringir providencialmente a ira dos perseguidores para que ela não destrua a Igreja.
  41. As portas representam os santos pregadores e a tranca representa o Senhor encarnado, que fortalece seus pregadores e detém o ímpeto dos perseguidores.
  42. O limite imposto ao mar mostra que a perseguição só avança até onde Deus permite, servindo antes à purificação dos santos que à destruição da Igreja.
  43. O mar pode significar o mundo inteiro submetido ao limite divino, pois Deus não permite que os pecadores ultrapassem a ordem estabelecida por sua providência.
  44. O mar que irrompe do ventre também figura os gentios saídos da idolatria, cuja fúria inicial é contida por Deus para que sejam conduzidos à fé.
  45. A imposição de limites ao mar indica que Deus disciplina os convertidos pelas normas dos preceitos, para que não retornem à instabilidade dos desejos antigos.
  46. Em sentido moral, o mar é o coração agitado por ira, conflito, orgulho e engano, que só não destrói a vida espiritual porque Deus o contém pelo temor inspirado.
  47. O coração tumultuoso é coberto por nuvem e trevas porque ainda não vê claramente a paz interior nem contempla plenamente as verdades sublimes.
  48. Deus circunda o coração com limites ao restringir a contemplação segundo sua fraqueza e ao impedir que sugestões más avancem até o consentimento ou a ação.
  49. As portas são as virtudes e a tranca é a caridade, pela qual Deus conserva as boas obras contra as ondas das tentações interiores.
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