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6 Noite

LECLERC, Eloi. Le cantique des créatures ou le symbole de l'union. Paris: Fayard, 1970

  1. O Cântico das Criaturas revela que Francisco de Assis, ao louvar a noite, não se detém em sua escuridão, mas sim nas suas claridades, evidenciando uma contínua busca pela luz divina através das criaturas.
  2. A denominação de “irmã” para a lua e as estrelas, no poema, indica uma relação de afeto íntimo e pessoal de Francisco com esses elementos cósmicos, indo além de uma simples menção.
  3. A escolha do adjetivo “preciosas” para qualificar as estrelas revela uma valorização profunda e simbólica da matéria cósmica, criando uma imagem rica em significados inconscientes que transcendem o sentido objetivo.
    • Essa palavra, “preciosas”, é a mesma que Francisco utiliza para designar os objetos e lugares destinados à Eucaristia, estabelecendo uma relação entre o valor das estrelas e o do sagrado.
    • Ao aplicar esse termo à lua e às estrelas, o santo confere a essas realidades cósmicas uma expressividade sacra, transformando-as em uma linguagem do sagrado para ele.
  4. A valorização religiosa da lua, conforme os estudos de Eliade, está ligada à compreensão do declínio e da morte como fases necessárias para um novo nascimento, reconciliando o homem com seu destino cíclico.
    • Esse simbolismo lunar, que ilustra a morte seguida de ressurreição, foi posteriormente utilizado pela apologética cristã para prefigurar a ressurreição, como exemplificado por Santo Agostinho.
    • No entanto, a imagem lunar no Cântico não faz alusão direta a essas fases, devendo ser compreendida no movimento total do poema, que integra o sofrimento e a morte como vias de acesso ao Transcendente.
  5. A celebração da lua e das estrelas, logo após o louvor ao sol, revela uma atitude de acolhimento ao mistério noturno, indicando que também nessa face da existência há luz para aqueles que se entregam ao mistério total da vida.
    • A noite, para o homem que busca controlar racionalmente seu destino, não possui valor, ao passo que, para aquele que a acolhe com confiança, ela se torna símbolo das profundezas inconscientes e maternas do ser, como ilustrado por Péguy.
  6. No âmbito psíquico, as imagens da noite e de suas claridades funcionam como um espelho para a alma, revelando suas próprias profundezas, seu inconsciente e seu mistério total, onde o homem se reconhece e se confronta consigo mesmo.
    • A contemplação dessas imagens permite à alma explorar sua própria sacralidade ao decifrar a do mundo, fazendo das realidades noturnas uma linguagem para forças ocultas do ser.
  7. A imagem de “Irmã Lua e as Estrelas” é valorizada não por sua utilidade ou função, mas por seu próprio ser, sua substância, abrindo caminho para um mundo de valores interiores que pertencem ao domínio do “ser” e não do “fazer”.
    • A associação dos adjetivos “claras” e “preciosas” remete, inconscientemente, à figura de Santa Clara, cujo nome e vida consagrada se tornam um símbolo para a integração do princípio feminino na espiritualidade de Francisco.
    • A presença de Clara representa para Francisco um acolhimento em profundidade, uma abertura ao ser e à mulher em sua vocação transcendente, o que foi fundamental para sua maturidade espiritual e a “espiritualização da vida”.
  8. A louvor a Irmã Lua e as Estrelas é uma expressão simbólica e inconsciente da experiência profunda de espiritualização das forças obscuras, da transfiguração do Eros em Ágape, onde os símbolos femininos noturnos representam o confronto do homem com sua própria “noite” interior.
    • Essas imagens simbolizam o arquétipo feminino em sua universalidade, representando a vida, a morte, o desejo e o progresso espiritual, e traduzem a metamorfose da alma ao se abrir para seu mistério total.
  9. No Cântico, a imagem das claridades da noite complementa a do sol, formando um casal cósmico fraterno que evita os excessos de um regime espiritual unilateral, seja ele puramente solar (racionalista) ou puramente noturno (orgiástico).
    • Diferentemente de Nietzsche, que se identifica com seu próprio sol e confessa não poder cantar as estrelas, Francisco não se fecha em sua própria luz, mas se reconhece irmão de todas as criaturas e, com elas, eleva-se ao Altíssimo.
  10. A celebração das claridades noturnas é a linguagem de uma alma pobre que, recusando-se a monopolizar o sol, permanece aberta ao mistério do ser em sua totalidade, sendo essa abertura já uma transfiguração que se expressa no grande símbolo cósmico feminino.
  11. O louvor final, “Louvado sejas, meu Senhor, por Irmã Lua e as Estrelas”, emerge das profundezas da alma como um eco de uma pobreza íntima que, longe de ser vazia, é um grande esplendor interior, do qual todas as estrelas claras, preciosas e belas se originam.
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