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DIONÍSIO O AREOPAGITA — DOS NOMES DIVINOS
Capítulo 8. Sobre o poder, a justiça, a preservação, a redenção — em que também se trata da desigualdade
Seção I.
- A Verdade Divina, em sua plenitude e sabedoria supersábia, é celebrada pelos teólogos como poder, justiça, preservação e redenção, embora a Divindade ultrapasse todo poder concebível.
- Os teólogos cantam a plenitude da Verdade Divina e a sabedoria supersábia como poder e justiça.
- A mesma realidade é designada também como preservação e redenção.
- A Divindade é superior e excede todo poder, de qualquer modo que este exista ou seja concebido.
- Quem foi nutrido nos Oráculos Divinos sabe que a Palavra de Deus atribui muitas vezes o Senhorio à Divindade.
- O Senhorio é atribuído à Divindade mesmo quando ela é distinguida das próprias potências supercelestes.
- A questão consiste em compreender como os teólogos podem cantar como Poder aquela realidade que é superior a todo poder.
- Também se deve compreender de que modo o nome de poder deve ser aplicado à Divindade.
Seção II.
- Deus Todo-Poderoso é chamado Poder porque contém, supera, produz e sustenta todo poder, inclusive o poder que fortalece a fraqueza.
- Deus Todo-Poderoso possui de antemão e possui supereminentemente em si todo poder.
- Ele é Autor de todo poder e produz todas as coisas conforme convém a um Poder inflexível e inapreensível.
- Ele é Autor da própria existência do poder, seja universal, seja particular.
- Ele é ilimitado em poder, não apenas por produzir todo poder, mas por estar acima de tudo, até mesmo acima do Poder subsistente por si.
- Por seu poder superior, ele traz à existência indefinidamente poderes sem fim distintos dos poderes existentes.
- Os poderes sem fim, ainda que trazidos à existência sem fim, não conseguem enfraquecer a produção superinfinita de seu poder produtor de poder.
- A natureza de seu poder que tudo excede é inefável, desconhecida e inconcebível.
- Pela abundância do poderoso, esse poder concede poder até mesmo à fraqueza.
- Ele mantém coesos e preserva até os ecos mais remotos de seu poder.
- Nas percepções sensíveis potentes, luzes superbrilhantes alcançam até visões obscuras.
- Sons intensos penetram até ouvidos pouco aptos à recepção dos sons.
- Aquilo que de modo algum ouve não é audição, e aquilo que de modo algum vê não é visão.
Seção III.
- A distribuição do poder ilimitado de Deus Todo-Poderoso alcança todos os seres, de modo que nada existente carece inteiramente de alguma potência.
- Nenhum ser é totalmente privado da posse de algum poder.
- Cada ser possui poder intelectual, racional, sensível, vital ou essencial.
- Até mesmo o ser subsistente por si possui poder de ser a partir do Poder superessencial.
Seção IV.
- As potências deiformes das ordens angélicas recebem do Poder infinitamente bom sua existência, sua imutabilidade e sua aspiração perpétua ao bem.
- As potências deiformes das ordens angélicas procedem do Poder superessencial.
- Desse Poder elas recebem a imutabilidade.
- Dele recebem todos os seus movimentos intelectuais, imortais e perpétuos.
- Dele recebem o próprio equilíbrio e a aspiração indiminuível ao bem.
- O Poder ilimitado em bondade lhes confere o poder de ser e de ser tais.
- Também lhes concede o poder de aspirar sempre a ser.
- Concede-lhes ainda o próprio poder de aspirar a possuir sempre o poder.
Seção V.
- Os dons do Poder indefectível sustentam homens, animais, plantas e toda a natureza do universo, preservando a ordem de cada realidade e a continuidade do todo.
- Os dons do Poder indefectível passam aos homens, aos viventes, às plantas e a toda a natureza do universo.
- Esse Poder fortalece as coisas unidas para a amizade e a comunhão mútuas.
- Fortalece também as coisas divididas para que cada uma permaneça em sua própria esfera e limite, sem confusão e sem mistura.
- Ele preserva a ordem e as boas relações do todo para o bem próprio de cada realidade.
- Ele guarda invioladas as vidas imortais dos anjos individuais.
- Ele preserva sem mudança os corpos e ordens celestes, vivificantes e astrais.
- Ele torna possível o período do tempo.
- Ele dispersa as revoluções do tempo por suas progressões e as reúne por seus retornos.
- Ele torna inextinguíveis os poderes do fogo.
- Ele torna inexauríveis os cursos da água.
- Ele estabelece limites para a corrente aérea.
- Ele firma a terra sobre o nada.
- Ele preserva de perecerem os impulsos vivificantes da terra.
- Ele conserva sem confusão e sem divisão a harmonia e a mistura mútuas dos elementos.
- Ele mantém coeso o vínculo entre alma e corpo.
- Ele desperta as potências nutritivas e crescentes das plantas.
- Ele sustenta as potências essenciais do todo.
- Ele assegura a continuidade do universo sem dissolução.
- Ele transmite a própria deificação ao fornecer poder para ela àqueles que são deificados.
- Absolutamente nenhuma coisa é privada da garantia governante e do abraço do Poder Divino.
- Aquilo que absolutamente não possui poder não é, não é coisa alguma e não possui qualquer espécie de posição.
Seção VI.
- A impossibilidade de Deus negar a si mesmo não indica falta de poder, mas impossibilidade de queda da Verdade e do Ser.
- Elimas, o Mago, pergunta: “Se Deus Todo-Poderoso é onipotente, como se diz por vosso teólogo que ele não é capaz de fazer alguma coisa?”
- Elimas calunia o Divino Paulo, que afirmou “que Deus Todo-Poderoso não é capaz de negar a si mesmo”.
- Há receio de incorrer em ridículo por tentar derrubar casas frágeis, construídas sobre areia por pequenos meninos em brincadeira.
- A compreensão teológica dessa questão não deve ser tratada como se fosse um alvo inacessível.
- Negar a si mesmo seria cair da verdade.
- A verdade é um existente, e cair da verdade é cair do existente.
- Se a verdade é um existente e a negação da verdade é queda do existente, Deus Todo-Poderoso não pode cair do existente.
- A não existência não é.
- Assim como o impotente não é poderoso, a ignorância, por privação, não conhece.
- O sábio que não compreende isso imita lutadores inexperientes.
- Tais lutadores julgam os adversários fracos segundo sua própria opinião e encenam bravamente uma luta contra adversários ausentes.
- Eles golpeiam corajosamente o ar com golpes vazios e pensam ter vencido os antagonistas, embora ainda não tenham experimentado a força dos rivais.
- Segundo a melhor conjectura possível do sentido do Teólogo, Deus superpoderoso deve ser celebrado como Onipotente, Bem-aventurado e único Senhor.
- Ele reina no reino da própria Eternidade.
- Ele não caiu de modo algum das coisas existentes.
- Antes, possui supereminentemente e de antemão todos os seres existentes, conforme convém ao Poder superessencial.
- Ele transmitiu a todos os seres o poder de ser e esse próprio ser, em fluxo generoso, conforme convém à abundância de poder excedente.
Seção VII.
- Deus Todo-Poderoso é celebrado como justiça porque distribui a cada ser o que lhe convém, preservando sua medida, beleza, ordem e capacidade próprias.
- A justiça Divina distribui a todos as coisas adequadas, a medida devida, a beleza, a boa ordem e a disposição.
- Ela demarca todas as distribuições e ordens para cada ser segundo o limite verdadeiramente mais justo.
- Ela é Causa, para todos, da ação livre de cada um.
- A justiça Divina ordena e dispõe todas as coisas.
- Ela preserva todas as coisas sem mistura e sem confusão.
- A partir de todos, ela dá a todos os seres existentes as coisas convenientes a cada um, segundo o que cabe devidamente a cada ser.
- Os que abusam da justiça Divina acusam-se inconscientemente de injustiça manifesta.
- Eles dizem que a imortalidade deveria estar nos mortais.
- Dizem que a perfeição deveria estar no imperfeito.
- Dizem que a necessidade imposta deveria estar no livre.
- Dizem que a identidade deveria estar no variável.
- Dizem que o poder perfeito deveria estar no fraco.
- Dizem que o temporal deveria ser eterno.
- Dizem que as coisas naturalmente móveis deveriam ser imutáveis.
- Dizem que os prazeres temporários deveriam ser eternos.
- Em suma, atribuem as propriedades de uma coisa a outra.
- Deve-se saber que a justiça Divina é verdadeiramente justiça por distribuir a todos as coisas próprias de cada um, segundo a aptidão de cada ser existente.
- Ela preserva a natureza de cada ser em sua própria ordem e capacidade.
Seção VIII.
- A justiça Divina não abandona os piedosos quando sofrem, mas os firma numa condição excelente e árdua, adequada ao amor pelas realidades divinas.
- Poder-se-ia objetar que não é sinal de justiça deixar os homens piedosos sem assistência quando são esmagados por homens maus.
- Se aqueles chamados piedosos amam as coisas terrenas buscadas zelosamente pelos terrenos, já caíram inteiramente do Amor Divino.
- Não se compreende como poderiam ser chamados piedosos quando tratam injustamente as realidades verdadeiramente amáveis e divinas.
- As realidades divinas deveriam superar imediatamente, em sua estima, as coisas indesejáveis e não amáveis.
- Se eles amam as realidades verdadeiras, devem alegrar-se ao alcançar aquilo que desejam.
- Eles se tornam mais próximos das virtudes angélicas quando, tanto quanto possível, afastam-se do afeto pelas coisas terrenas por aspiração às realidades Divinas.
- Essa retirada se exercita corajosamente nos perigos em favor do belo.
- É mais próprio da justiça Divina não mimar nem destruir a bravura dos melhores por meio dos dons das coisas terrenas.
- Também é próprio da justiça Divina não deixá-los sem assistência quando alguém tenta destruí-los.
- A justiça Divina os estabelece na condição excelente e áspera.
- Ela lhes distribui, enquanto tais, as coisas adequadas a eles.
Seção IX.
- A justiça Divina é celebrada como preservação do todo porque conserva cada ser em sua essência e ordem próprias, resgatando-o da queda para o pior.
- A justiça Divina preserva e guarda a essência e a ordem de cada realidade, distintas e puras em relação ao restante.
- Ela é causa genuína de cada ser cumprir sua própria função no todo.
- Caso essa preservação seja celebrada como resgate salvífico do todo em relação ao pior, tal celebração deve ser inteiramente aceita como cântico da preservação multiforme.
- Essa preservação principal do todo conserva todas as coisas em si mesmas, sem mudança, imperturbadas e sem inclinação para o pior.
- Ela guarda todas as coisas sem discórdia e sem guerra, cada uma regulada por seus próprios modos.
- Ela exclui do todo toda desigualdade e toda intromissão na função alheia.
- Ela mantém as relações de cada coisa para que não caiam em contrários nem migrem.
- Segundo a sagrada teologia, essa preservação pode ser celebrada como redenção de todos os seres existentes.
- Pela bondade preservadora de tudo, ela redime cada ser da queda para fora de seus bens próprios, tanto quanto a natureza de cada preservado admite.
- Por isso os Teólogos a chamam redenção.
- Ela não permite que as coisas realmente existentes caiam na não existência.
- Se algo se desviou para a discórdia e a desordem, ou sofreu diminuição da perfeição de seus bens próprios, também disso ela o redime.
- Ela redime da paixão, da indolência e da perda.
- Ela supre o deficiente e, de modo paternal, releva a frouxidão.
- Ela ergue a partir do mal, ou antes, estabelece no bem.
- Ela preenche o bem que se esvai.
- Ela ordena e adorna a desordem e a deformidade.
- Ela torna completo e liberta de todas as manchas.
- A justiça mede e define a igualdade de todos, excluindo a desigualdade que procede da privação da igualdade em cada realidade particular.
- Basta o que foi dito sobre essas matérias e sobre a justiça.
- A igualdade de todos é medida e definida segundo a justiça.
- Toda desigualdade surgida da privação da igualdade em cada coisa separadamente é excluída.
- Caso a desigualdade seja interpretada como distinções no todo, do todo e em relação ao todo, a justiça também guarda essa desigualdade.
- A justiça não permite que o todo, ao misturar-se por completo, seja lançado na confusão.
- Ela mantém todos os seres existentes dentro de cada espécie particular, na qual cada um foi destinado a estar por natureza.
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