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Mundo e Logos

Salvatore Lilla — Clemente de Alexandria

A interpretação alegórica do tabernáculo e do sumo sacerdote

  • Clemente interpreta alegoricamente o tabernáculo judaico, seguindo de perto a exegese de Filon, para ilustrar a passagem do mundo sensível ao inteligível.
  • As colunas e o véu externo do tabernáculo simbolizam os sentidos e o mundo sensível, que retêm as pessoas comuns.
  • O altar do incenso no espaço intermediário simboliza a terra no meio do universo.
  • O candelabro ao sul simboliza os sete planetas.
  • O véu interno, na entrada do Santo dos Santos, marca o limite entre o mundo sensível e o inteligível.
  • A arca santa além do véu simboliza o mundo inteligível, escondido da maioria.
  • A descrição de Clemente sobre a entrada do sumo sacerdote no Santo dos Santos e a gnose que ele desfruta mostra uma forte conexão com o gnosticismo, como visto nos Excerpta ex Theodoto.
  • Em Clemente, a distinção entre o sumo sacerdote e os sacerdotes comuns simboliza a distinção entre o homem gnóstico e os crentes comuns.

A viagem celestial da alma gnóstica

  • Após a morte, a alma do gnóstico ascende através das esferas celestes, ultrapassando os arcontes que guardam os céus, até alcançar o repouso na ogdoada.
  • Clemente descreve a alma que ascende como libertada das paixões e pura, sendo louvada pelos poderes angélicos.
  • Os anjos que guardam os céus detêm as almas ainda apegadas às coisas materiais.
  • Essa visão da ascensão da alma através dos céus é compartilhada pelo gnosticismo, como nos sistemas valentiniano e ofita, e pelo platonismo.
  • Após a ascensão, a alma gnóstica reside na ogdoada (a morada do Senhor) e não na hebdomada, alcançando a visão pura e a contemplation face a face.
  • Nesse estado, a alma ultrapassa a dignidade dos anjos e arcanjos, tornando-se semelhante aos anjos primeiros criados e alcançando a deificação.
  • A conexão entre gnosis e “repouso” é um tema comum no gnosticismo e em Clemente.

A origem do mundo segundo Clemente

  • O estudo da gnosis deve ser preparado pelo estudo da origem do mundo e da natureza, com a teologia vindo depois da cosmologia.
  • Ao interpretar o Gênesis, Clemente segue Filon, distinguindo entre o mundo inteligível (as ideias) criado primeiro e o mundo sensível criado posteriormente.
  • O céu, a terra e a luz mencionados no início do Gênesis são entendidos como padrões inteligíveis, não como o mundo sensível.
  • Clemente acreditava na existência de uma matéria prévia à origem do mundo, sem qualidade e sem forma, conectando-o à tradição platônica e a Filon.
  • A definição da matéria como “não-ser” aproxima Clemente do neopitagorismo e do neoplatonismo, significando sua falta de realidade como ser, não sua inexistência.
  • Clemente defende que o universo teve um início (é gerado), mas que sua origem não ocorreu no tempo, concordando com Filon e certos médio-platônicos contra a visão aristotélica da eternidade do mundo.

A doutrina do Logos

  • O Logos de Clemente desempenha funções cruciais na ética, na gnosis e na metafísica, passando por três estágios distintos de existência.
  • No primeiro estágio, o Logos é idêntico à mente de Deus que contém seus pensamentos ou ideias, que são os paradigmas de todas as coisas.
  • Essa visão das ideias como pensamentos de Deus é compartilhada por Filon, pelo médio platonismo e pelo neoplatonismo.
  • No segundo estágio, o Logos “emerge” da mente divina e torna-se uma hipóstase separada, a causa da criação do mundo sensível.
  • Neste estágio, o Logos é identificado com a totalidade das ideias (o kosmos noetos), com o princípio (arché) de tudo o que foi criado e com a sabedoria (sophia) de Deus.
  • Clemente descreve o Logos como uma unidade que compreende tudo em si mesmo, uma ideia que ecoa a segunda hipótese do Parmênides de Platão e o nous plotiniano.
  • No terceiro estágio, o Logos é imanente no universo, representando a alma do mundo (Weltvernunft), a lei e a harmonia que o mantêm unido.
  • Essa visão do Logos como força imanente tem paralelos no estoicismo, na sabedoria de Salomão e em Filon.

A doutrina da transcendência de Deus

  • Clemente depende fortemente de Filon para sua concepção da mais alta divindade, enfatizando sua transcendência absoluta.
  • Deus é descrito como incorpóreo, sem forma, sem atributos, além do espaço e do tempo, e acima da própria mônada.
  • Sendo apathés por natureza, Deus está acima da virtude, que envolve o controle das paixões.
  • Deus é incognoscível pelo intelecto humano, sendo “desconhecido” e inefável, sem nenhum nome ou palavra adequada para expressar sua natureza.
  • A melhor maneira de a mente humana se aproximar de Deus é pelo processo negativo kat’ aphairesin, removendo todos os atributos sensíveis.
  • Clemente identifica a divindade suprema com um noûs que compreende as ideias, diferindo do “Um” de Plotino, que está acima do noûs.
  • A identificação do princípio supremo com o noûs aproxima Clemente do ensino de Amônio Sacas e de uma das principais vertentes do neoplatonismo, representada por Orígenes, o neoplatônico.
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