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Suficiência Divina

Vladimir Lossky. Théologie négative et connaissance de Dieu chez Maitre Eckhart. Paris: Vrin, 1960

Suficiência divina e indigência criada

  • Moisés Maimônides não seguiu a doutrina de Avicena, para quem Deus era apenas o Ser sem quididade.
  • O nome secreto de Javé, o tetragrama, designa o Necessariamente Existente, o que não significa que a essência divina seja substituída pela existência, mas simplesmente que ela é idêntica ao seu existir, sendo por si mesma.
    • Maimônides atua como um intermediário entre Avicena e São Tomás na obra O Guia dos Perplexos.
    • Étienne Gilson aborda essa relação no artigo Maimônides e a Filosofia do Êxodo.
    • Eckhart aceita a exegese do Ego sum qui sum dada pelo teólogo judeu, mas mostra hesitação diante da tendência de identificar o nome do Ser com o tetragrama indizível.
    • O texto do Comentário sobre o Êxodo mostra que o Rabino Moisés parece querer que esse verbo sum qui sum seja o próprio nome tetragrama, que significa a substância do criador nuda e pura.
    • Eckhart sugere que o termo ser possui quatro letras em latim e apresenta propriedades latentes, não parecendo tirado de uma obra ou dito por participação.
  • O caráter separado dessa expressão revelada manifesta—se pelo pronominal discretivo da primeira pessoa, que designa a substância pura.
    • As considerações de gramática especulativa sobre eu, que e sou fundamentam essa análise.
  • O primeiro sou designa o sujeito que é nomeado e deve se reportar à essência, segundo Maimônides, enquanto o segundo sou é o predicado que o nomeia ou a sua agnominação, correspondendo ao ser.
  • A singularidade da proposição sum qui sum torna—se evidente pelo fato de que geralmente o sujeito de uma proposição se apresenta como imperfeito devido à sua dependência em relação ao atributo.
  • O nome de sujeito assimila o que se chama sujeito à matéria, opondo—o a tudo o que, sendo forma propriamente dita, não pode ser sujeito de acidentes, conforme Boécio.
  • O atributo ou o agnominante surge sempre como forma ou perfeição do sujeito ou do agnominado.
  • Chamar alguém de justo, bom ou sábio assinala uma essência que não possui essas qualidades por si mesma, revelando uma essência que não se basta.
  • Essas essências necessitadas e pedintes precisam de algo diferente delas mesmas para receber as suas perfeições.
  • A dependência lógica do sujeito perante o seu predicado corresponde à condição metafísica das essências criadas, que não são as perfeições que possuem pelo fato de não serem por si mesmas.
  • A natureza humana de um artesão não lhe basta por si só para construir uma casa, sem que intervenham a vontade de operar, a faculdade, o saber e outras propriedades distintas da essência.
  • As divisões interiores, como a diferença entre a substância e a potência e o fato de o ser não ser o operar, marcam a insuficiência radical das essências que dependem de um agente exterior em seu próprio ser.
  • A condição de uma essência criada é a de necessitar de um perficiente, necessitar de outro e não bastar—se a si mesma, nunca sendo plenamente o que é ou deve ser, assim como o sujeito lógico não é plenamente idêntico ao predicado.
  • Esse estado de indigência é totalmente alheio à Essência divina, pois o Primeiro é rico por si mesmo.
  • O caráter único da proposição sum qui sum revela um sujeito idêntico ao predicado, uma quididade que é anidade, e uma Essência que é Ser e se basta a si mesma, constituindo a sua própria Suficiência.
  • A estabilidade e a perfeição da Essência divina não dependem de nenhum ente que lhe seja exterior ou diferente dela mesma.
  • Essa independência única de Deus é a condição da dependência universal de todas as coisas em relação à Essência que se basta para tudo e em tudo.
    • Se tal suficiência pertencesse a uma criatura, ela seria um ser necessário, o necesse esse de Avicena.
  • A quididade das criaturas e o seu o que é, na medida em que existem, são apenas um modo do próprio Ser, do qual dependem, ao qual se apegam e fora do qual não passam de nada.
    • São Paulo afirma em II Coríntios 3, 5 que a nossa suficiência vem de Deus.
    • Deus não necessita de ser, pois é o próprio ser, nem necessita de sabedoria ou de potência, mas toda perfeição necessita dele, porque cada uma delas é um modo do próprio ser que nele se apoia e adere, e sem ele seria o puro nada, conforme o Evangelho de João.
    • Essa suficiência de Deus é o que se assinala quando se diz, na pessoa de Deus: Eu sou quem sou.
  • O mestre Eckhart ultrapassou a noção aviceniana de um Ser Necessário que seria apenas o existir sem essência, seguindo a exegese de Maimônides.
  • Eckhart quis enxergar na revelação do Êxodo um testemunho sobre o Ser único em quem a essência não difere de seu existir, assim como fez São Tomás.
  • Essa identificação de essência e existência em Deus significa que Aquele que é existe por Si mesmo para um teólogo que se apoia na Bíblia.
  • A maneira de conceber esse Ser que é Ser dependerá do valor que receberem os termos de essência e de ser na doutrina do ser criado.
  • O Ipsum Esse Subsistens de São Tomás é uma essência concebida em termos existenciais, como um Acto puro de existir, diferente de todo existir finito que atualiza uma essência da qual se distingue.
  • A essencialidade de Deus expressa pelo particípio subsistente destaca a atualidade pura do Ser, opondo—o a qualquer noção de um ser composto onde a essência está sempre em potência em relação ao ato de ser.
  • A teologia negativa afirma que o Deus de São Tomás não é um composto metafísico de essência e existência, diferentemente dos seres criados.
    • São Tomás explica na obra Sobre as Sentenças que o nome Aquele que é expressa o ser absoluto e não determinado por algo adicionado, significando um mar infinito de substância.
    • Ao avançar pela via da remoção, negam—se primeiro as coisas corporais, depois as intelectuais, restando apenas no intelecto que Deus é, e finalmente remove—se o próprio ser como se encontra nas criaturas, permanecendo em uma treva de ignorância pela qual o homem melhor se une a Deus.
  • Expressar positivamente a eminência dessa simplicidade a partir de uma doutrina do ser que vê no ato de existir a perfeição suprema das substâncias criadas resulta em uma absorção da Essência pelo Ato de existir.
    • Étienne Gilson reconhece essa absorção da essência pelo existir na maneira como São Tomás exprime a identidade deles em Deus.
  • Os termos em que Eckhart expressa a mesma verdade pertencem a outra perspectiva doutrinal, onde a identificação do Ser com a Essência divina orienta—se para uma redução do existir à essência.
  • Esse Deus—Ser pode ser compreendido como um existir concebido em termos de uma filosofia da essência, como um Ser que se basta a si mesmo ou como uma essência à qual nada falta.
  • O ser que é por si mesmo opõe—se aos entes que só existem recebendo o ser de uma Causa extrínseca, situando—se na linha da essência suficiente ou indigente.
  • O Deus de Eckhart, que é a suficiência de si e de todos porque o seu ser ou anidade é idêntico à sua essência ou quididade, surge antes de tudo como independente de qualquer outro, não sendo de outro em seu ser.
    • As cinco demonstrações da primeira proposição do Prólogo da Obra Tripartida, de que o Ser é Deus, são concebidas nesse sentido.
  • Os seres criados distinguem—se do Ser que é por Si mesmo pelo fato de serem dependentes de uma Causa eficiente, e não por serem compostos.
  • Essa dependência implica a renúncia à Unidade, a queda a partir do Uno e a precipitação na dualidade, que é a raiz de toda divisão e distinção.
  • As criaturas que possuem o ser de outro definem—se em relação a Deus como o não—Uno, opondo—se à indistinção do Ser que o Uno assinala.
  • A identidade da essência e do existir em Deus apresenta—se para o mestre Eckhart sob um ângulo de visão diferente daquele de São Tomás quando vista sob a razão do Uno.
  • Essa identidade deixa—se designar em termos negativos como a Indistinção do Ser ou a sua pureza.
  • Em termos positivos, ela designa—se como a sua Suficiência ou plenitude.
  • Os termos pureza e plenitude do ser designam o Ser tal como se manifesta no Uno ou no supósito paternal como a unidade da Essência e como o seu retorno na ação interior da Mônada que engendra uma Mônada.
  • O mestre Eckhart apresenta uma Essência em ação reflexiva em lugar do Ser subsistente de São Tomás.
  • As duas funções do Uno diante do Ser — a indistinção e a primeira determinação — são inseparáveis na teologia de Eckhart.
  • Não se pode falar da Essência senão no supósito, onde ela se revela na ação.
  • A essência permanece inominável e inaparente fora da revelação trinitária, onde a sua identidade se mostra sob um aspecto dinâmico.
  • A aproximação insistente entre o Ego sum qui sum e a Mônada que engendra a Mônada, bem como o retorno completo sobre a própria essência, ocorre porque a primeira proposição dos 24 Filósofos e a décima quinta do Livro das Causas possuem para Eckhart um sentido trinitário.
    • A décima quinta proposição do Livro das Causas afirma que todo aquele que conhece a sua essência está retornando para a sua essência com um retorno completo, o que provém de Proclus.
    • São Tomás interpreta essa proposição na Suma Teológica afirmando que retornar à própria essência nada mais é do que a coisa subsistir em si mesma.
    • Na Exposição sobre o Livro das Causas, São Tomás atribui a essa proposição o sentido de uma reflexão intelectual, sem admitir que a alma humana possa retornar sobre a sua essência em um ato de conhecimento reflexivo.
    • O padre J. Wébert analisa as operações reflexivas na psicologia de São Tomás.
  • O sum qui sum é o Acto pelo qual Deus se afirma como identidade do Ser, retornando sobre Si mesmo na vida trinitária, nesse ebulimento formal, interior e intelectual que consiste na transfusão total da essência livre de causas externas.
  • Esse ato interior revela no movimento a estabilidade e o repouso perfeito da Essência que se basta, isto é, a Unidade essencial das três Pessoas indistintas quanto ao seu Ser.
    • No Comentário sobre o Gênesis, afirma—se que Deus não apenas descansa, mas repousa, o que assinala a estabilidade ou pleno repouso conforme o Eu sou quem sou.
  • O que é mais móvel do que todos os móveis só pode ser imóvel, porque esse é o único meio de ser mais móvel do que si mesmo, e também porque no Uno não há mais nem menos.
    • K. Oltmanns analisa a utilização desse texto do Comentário sobre a Sabedoria em relação à teologia negativa de Eckhart.
  • A ação própria do Supósito paternal deve coincidir com a inação essencial, o que convém a um ato do intelecto, que permanece em repouso enquanto opera.
    • No Comentário sobre o Gênesis, explica—se que o intelecto, por sua propriedade, não trabalha operando, mas descansa, ensinando que Deus é intelecto puro, cujo ser total é o próprio inteligir.
  • Deus é um Intelecto puro, cujo ser total é o próprio inteligir, razão pela qual a Ação absoluta coincide com o Repouso essencial ou a Suficiência que o Intelecto divino manifesta no Ego sum qui sum.
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