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Triunfo sobre o destino
ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 6: O TRIUNFO SOBRE O DESTINO
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A primeira vitória do Salvador com sua vinda ao mundo situa-se nos céus intermediários, onde ele estabelece as bases do triunfo sobre os poderes do mal, libertando os homens do desequilíbrio cósmico e da ignorância de Deus.
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De acordo com os valentinianos e ofitas, os céus da Hebdomada eram repartidos entre sete arcontes do demiurgo, cada um governando uma multidão de anjos e potestades, enquanto a Héxada (mundo infralunar) era governada pelo cosmocrátor (o demônio), inimigo dos homens espirituais e psíquicos.
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O desordem reinante consistia no fato de que os indivíduos de natureza racional, embora devessem obedecer ao criador, eram atraídos pelas paixões hilicas e sugestões dos espíritos materiais, que eram mais eficazes por sua proximidade com o mundo.
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As almas ou homens psíquicos, nascidos do demiurgo, viam-se submetidos às leis da matéria e ao poder do cosmocrátor e seus anjos, sofrendo um desequilíbrio de forças que os inclinava fatalmente para a corrupção e a morte.
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O destino (heimarmene) é definido nos Excerpta ex Theodoto (Ester 69) como o concurso de muitas e contrárias virtudes (dynameis) que regulam a marcha das constelações e governam os indivíduos, favorecendo um desequilíbrio no qual os poderes maléficos predominam sobre os benéficos.
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O texto afirma que “as constelações, por si, nada fazem, senão que indicam (oude poiei, deiknysi de) o influxo das virtudes dominantes; igual que o voo das aves, algo significa, (mas) nada produz”.
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Os poderes celestes atuam por partida dobra: os benéficos (arcontes e anjos do demiurgo) e os maléficos (espíritos do mal), sendo que a conjunção de seus eflúvios muitos e contrários dá lugar ao fado (heimarmene).
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Este desequilíbrio não suprime a liberdade do homem psíquico, mas a dificulta enormemente, pois três elementos conspiram contra seu livre-arbítrio: o influxo dos poderes maléficos sobre o corpo, a ausência de influxo contrário eficaz dos poderes benéficos (mercenários), e a debilidade congênita do homem terreno.
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O Salvador vem não para devolver uma liberdade perdida, senão para destruir o fado e facilitar o exercício da liberdade, tornada trabalhoso desde os dias de Adão.
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A vitória do Bom Pastor sobre o fado é descrita nos Excerpta ex Theodoto como uma ruptura do antigo regime astral, na qual o Senhor desce para transferir os crentes em Cristo do fado para sua providência (pronoia), anunciada pela estrela nova e extranha dos magos.
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O Salvador é apresentado como o único “perfeitamente providente” (teleon pronoetikos), enquanto os mercenários (poderes benéficos) possuem uma providência imperfeita e são incapazes de salvar e defender as almas contra os lobos (poderes maléficos).
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A estrela dos magos é interpretada como um astro novo e extranho que destruía a antiga ordem astral, brilhando com luz nova e não mundana, e traçando novos e salutares caminhos para transferir os crentes do fado para a providência do Senhor.
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O texto estabelece que “até o batismo o fado é verdadeiro. Mas, logo do batismo, os astrólogos já não dizem verdade”, indicando que o triunfo do Salvador se aplica aos crentes por meio do batismo e da gnose.
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A vitória é absoluta em si mesma, mas só se aplica aos que creem em Cristo; para os incrédulos e os hílicos, entregues a suas paixões, o fado continua em vigor e o Salvador não desceu para eles.
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A análise do regime de providência entre os valentinianos mostra que o Salvador governa os crentes mediante sua providência perfeita, enquanto o demiurgo e seus arcontes, embora benéficos por consubstancialidade com as almas, são apenas mercenários incapazes de vencer sozinhos os espíritos malignos.
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Os valentinianos distinguem claramente entre o demiurgo (psíquico, livre, intermediário) e o cosmocrátor (maligno), sendo que o primeiro se caracteriza pela psique racional e seus anjos possuem uma mesma essência que as almas humanas, o que lhes confere uma amizade natural para com elas.
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A heimarmene ou fatalidade só pôde aparecer no cosmos por obra do cosmocrátor e seus satélites, espíritos materiais fisicamente determinados à corrupção, que triunfam praticamente sobre as potestades benéficas e subjugam as almas.
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O Salvador, ao travar combate com a morte que reinava indiscutível entre os homens, abre um novo horizonte e atua sua providência diretamente sobre o alma psíquica, que ao acolhê-lo com fé, dá lugar ao triunfo sobre as potestades adversas.
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O triunfo do Salvador sobre o destino é preliminar e limitado a desembaraçar o caminho para a fé perfeita e para a gnose, pois o espírito (pneumático) está por encima do fado e o hilico é insalvável.
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A hora de Jesus e sua sujeição aos astros são interpretadas por basilidianos e valentinianos como parte de uma economia regida pela lex naturae, na qual o Salvador, embora sujeito à genitura e à hora da apocatástase, atua como o autor da providência que corrige as travas e restitui cada substância à sua região própria.
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Basílides, comentando João 2:4 (“Ainda não chegou minha hora”), afirma que o Salvador estava sujeito à “genitura” dos astros e à hora da apocatástase, provando que cada coisa tem seus tempos próprios (idiois kairois).
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Os valentinianos e basilidianos compaginam a eficácia salvífica de Jesus com a lex naturae, concebendo que, por sua ação positiva, o Salvador determina o tempo, o modo e o fato da apocatástase de todas as coisas, em especial a saúde plena dos filhos de Deus.
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Entre as notícias complementares de outras seitas, os simonianos (segundo Irineu) afirmam que o Salvador veio para romper a dupla escravidão da Ennoia (pensamento de Deus) ao mundo e dos homens aos mandamentos dos anjos criadores, que haviam imposto leis para sujeitar a humanidade.
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A vitória de Cristo sobre o destino é, em suma, um aspecto parcial de sua redenção: os que acolhem a fé já não se submetem ao domínio das potências malignas, mas vivem sob o influxo direto do Salvador em regime de liberdade de filhos de Deus, rompendo-se o ciclo da gênese e da reincorporação.
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A conclusão do capítulo ressalta que os gnósticos não eram fatalistas, apesar da conexão entre antropologia, angelologia e cosmos; antes, acentuavam a situação precária do homem interior sob o regime do pecado e da ignorância, à qual o Salvador vem imprimir o impulso necessário para superar o funesto e fatal livre-arbítrio do homem animal.
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O falho não estava na psicologia humana, mas nas premissas históricas do gênero humano: a nível psíquico, o indivíduo era livre (como os justos do AT), mas com uma autonomia (synexousia) não idônea para o exercício superior da gnose.
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A forma de Deus na pessoa de Jesus veio para imprimir no homem interior o impulso necessário que acaba, por superação, com o alicorto livre-arbítrio do homem animal, levando-o à verdadeira liberdade dos filhos de Deus.
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