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Mani e a tradição evangélica

QUISPEL, Gilles; OORT, Johannes van. Gnostica, judaica, catholica: collected essays of Gilles Quispel. Leiden: Brill, 2008.

  • A constatação de que os maniqueus combatidos por Agostinho revelam conhecimento do Diatessaron de Taciano decorre do fato de que Mani viveu em época em que essa obra constituía o evangelho oficial da igreja aramaica, tornando altamente provável que tanto Mani quanto seus discípulos tenham recorrido ao texto tacianista; essa probabilidade se reforça ao se verificar que fontes maniqueias remanescentes, bem como testemunhas indiretas como os Actes d’Archelaus, preservam leituras nitidamente diatessaronicas que só podem ser explicadas pela circulação vigorosa do Diatessaron em ambientes sírio-aramaicos.
    • A evidência específica de que o maniqueu Adimanto inseriu no episódio do jovem rico a ordem de Jesus “toma a tua cruz”, leitura ausente dos evangelhos canônicos mas atestada por Afraates, que indiscutivelmente utilizou o Diatessaron, confirma que Adimanto — e portanto Mani — conheciam o texto tacianista; a persistência de variantes características no tratado de Addai traduzido para o latim mostra que os maniqueus preservaram diretamente, mesmo em tradução, marcas textuais originárias do original sírio.
  • A presença de citações diatessaronicas nos debates entre maniqueus norte-africanos e católicos, mesmo quando não traduzem diretamente do siríaco, manifesta-se no exemplo emblemático de Félix, que, em discussão com Agostinho, emprega a frase “e eu vos enviarei o Espírito Santo Paráclito”, cuja formulação não corresponde ao grego canônico e aponta para a variante do Diatessaron registrada por Efrém em seu comentário, onde se lê: “Eis que vos envio aquele que profere boas palavras… Eu vos envio outro que profere boas palavras”, revelando a coloração diatessaronica que permeava as citações maniqueias.
  • A recorrência de variantes tacianistas nas obras de maniqueus africanos — como Fausto de Mileve e outros — indica a circulação de um Diatessaron em latim, condição necessária num contexto de declínio do grego entre falantes latinos do século IV, impossibilitando a leitura direta da sinopse grega de Taciano; o testemunho de Agostinho de que Fausto lia obras maniqueias sírias em latim confirma que os maniqueus dispunham de um Diatessaron latino distinto daquele usado por Vítor de Cápua.
    • A comparação entre o Diatessaron medieval usado no Ocidente e a variante preservada pelos maniqueus, sobretudo quanto à forma “ele vos enviará o Espírito Santo”, mostra que as versões vernaculares medievais já haviam perdido parte das variantes originais de Taciano, seja por adaptação do tradutor ao texto bíblico corrente, seja porque já trabalhavam com exemplar previamente adaptado; a versão veneziana, por exemplo, traz “ele vos enviará o Espírito Santo”, preservando apenas parcialmente a leitura tacianista, onde originalmente o sujeito emissor é Jesus e não Deus.
  • A surpreendente ocorrência, nos escritos polêmicos de Agostinho contra os maniqueus, da forma “e eu vos enviarei outro Paráclito”, embora não corresponda ao texto bíblico que Agostinho costuma citar, revela que o bispo de Hipona frequentemente recorreu à memória e que sua memória havia sido moldada por formas textuais maniqueias derivadas do Diatessaron; o cotejo com o códice africano Bobbiensis, que traz “ele vos dará outro advogado”, mostra que Agostinho não citava sua Bíblia, mas ecoava, involuntariamente, o evangelho tacianista aprendido no período em que foi maniqueu.
    • A evidência adicional de que Agostinho conhecia o Diatessaron já durante sua adesão ao maniqueísmo reforça a hipótese de que o célebre doutor conservou para sempre influências textuais tacianistas, cuja presença se deixa ver em numerosas outras citações de seus escritos, o que confirma a profunda penetração do Diatessaron na formação teológica do futuro Padre da Igreja.
  • A permanência de influências maniqueias e tacianistas em Agostinho torna-se ainda mais compreensível quando se constata que ele permaneceu maniqueu por tempo muito mais longo do que as nove anos que frequentemente menciona, e que sua teologia recebeu influências substanciais dessa adesão prolongada; evidências adicionais sugerem ainda que Agostinho conheceu o Evangelho de Tomé, texto apreciado por Mani e pelos maniqueus, que o consideravam testemunho sírio edesseno da verdadeira tradição; a familiaridade de Agostinho com obras veneradas por Mani torna provável que ele tenha conhecido tanto o Diatessaron quanto o Evangelho de Tomé, textos centrais na tradição encratista e judaico-cristã que alimentou o maniqueísmo.
  • A presença de citações extracânonicas nos tratados anti-maniqueus de Agostinho se evidencia no modo como Adimanto cita o dito de Jesus “Sede benignos, como o vosso Pai celeste, que faz nascer o seu sol sobre bons e maus”, cuja forma não é encontrada nos evangelhos canônicos e corresponde, porém, à versão preservada nas Homilias Pseudo-Clementinas: “Tornai-vos bons e misericordiosos, como o Pai que está nos céus, que faz nascer o sol sobre bons e maus e faz descer a chuva sobre justos e injustos”, demonstrando que a tradição judaico-cristã subjaz a certos ditos transmitidos por maniqueus e que Addai, discípulo de Mani, transmitia formas textuais aprendidas direta ou indiretamente por meio do próprio Mani.
  • A confirmação, pelo códice de Colônia, de que Mani cresceu num ambiente judaico-cristão implica que ele conhecia profundamente a tradição evangélica dessas comunidades, o que explica a presença de paralelos entre citações maniqueias e textos judaico-cristãos; essa coincidência torna extremamente difícil distinguir, nos escritos maniqueus, entre variantes diatessaronicas e judaico-cristãs, sobretudo porque Taciano, como já observado por Hugo de Groot, também integrou no Diatessaron variantes de origem judaico-cristã; a constatação de que Mani conhecia o Evangelho de Tomé, que preserva tradição judaico-cristã edessena, torna ainda mais complexa a separação entre elementos tacianistas e judaico-cristãos no corpus maniqueu.
    • Apesar dessa complexidade, o caso específico do dito transmitido por Addai indica que sua fonte imediata era judaico-cristã, pois a forma preservada nas Homilias pseudo-clementinas se mostra independente da redação mateana e reproduz versão mais primitiva do logion, fato confirmado também pelo Diatessaron neerlandês e pelo persa, que trazem formas poéticas como “Deus faz brilhar o seu sol” e “Deus faz chover a sua chuva”, ausentes em Mateus 5,45; o Salmo do Bema maniqueu confirma essa influência ao reproduzir a forma “para que sejais bons como o vosso Pai”, ausente de qualquer Diatessaron conhecido.
  • A análise do caso evidencia que os maniqueus preservaram forma antiga do logion que não se encontra nos manuscritos do Novo Testamento, sugerindo que as Homilias pseudo-clementinas conservaram estágio primitivo da tradição; o maniqueu que compôs o Salmo do Bema parece ter sido diretamente influenciado pela tradição judaico-cristã e não pelo Diatessaron, reforçando que ambos — Judaico-Cristianismo e Diatessaron — conservaram tradições antigas, muitas vezes convergentes, que se cruzaram e se influenciaram mutuamente ao longo do século II.
  • A teoria maniqueia segundo a qual os escritos do Novo Testamento teriam sido interpolados por judaizantes — resumida na fórmula “as Escrituras do Novo Testamento foram falsificadas por pessoas que quiseram inserir a Lei dos judeus na fé cristã” — deriva diretamente do próprio Mani, que, como Paráclito, reivindicava autoridade para distinguir entre trechos autênticos e interpolados; essa concepção ecoa ironicamente os escritos judaico-cristãos, como as Homilias pseudo-clementinas, onde Jesus distingue entre perícopas verdadeiras e falsificadas do Antigo Testamento, demonstrando que a crítica maniqueia ao judaísmo foi influenciada, de modo paradoxal, por correntes judaico-cristãs.
    • A constatação de que o Diatessaron continha interpolacões judaizantes — integradas por Taciano a partir de tradições extracânonicas — oferece base empírica para a crítica maniqueia, sugerindo que Mani, formado no judaico-cristianismo, tinha condições de identificar esse tipo de adição; o paralelo com Marcion, que também denunciou “interpolacões judaizantes” nos evangelhos e usou argumentos próximos, reforça que Mani e Adimanto podem ter se apoiado parcialmente em argumentos marcionitas.
  • A deterioração precoce do chamado “Texto Ocidental”, muito difundido em Roma já na época de Marcion, devido à influência de tradições extracânonicas e judaico-cristãs, demonstra que tanto Marcion quanto Mani utilizavam textos já afetados por variantes desse tipo e tinham consciência disso; a dificuldade de distinguir entre inserções judaizantes e tradições primitivas decorre do fato de que judaico-cristianismo e Diatessaron se entrelaçavam na transmissão textual.
  • A compreensão de Mani como “apóstolo de Cristo” torna-se inteligível quando se percebe que seu contato com o cristianismo ocorreu dentro da Mesopotâmia, onde vigorava forma de cristianismo muito diferente da forma católica; nesse ambiente, Cristo era visto como verdadeiro profeta, Satanás como “mão esquerda” de Deus, e o encratismo radical de textos como o Evangelho de Tomé, os Atos de Tomé e o próprio Diatessaron constituía norma espiritual; simultaneamente, doutrinas de Bardesanes sobre matéria não criada e especulações gnósticas sobre o demiurgo inferior Saklas circulavam ao lado dessas tradições, compondo o quadro religioso que formou Mani, que jamais teve contato direto com o cristianismo católico.
    • A rejeição de Mani à doutrina judaico-cristã segundo a qual Deus é autor tanto do bem quanto do mal explica o dualismo radical de sua teologia; esse mesmo motivo explica sua rejeição seletiva da tradição evangélica judaico-cristã, embora grande parte de sua formação — e de sua citação das palavras de Jesus — permaneça vinculada a ela; o dilema enfrentado por Mani, nesse ponto, aproxima-se daquele de Orígenes e Agostinho, igualmente empenhados em rejeitar a noção de que Deus produz o mal.
  • A profunda dependência de Mani em relação ao judaico-cristianismo se evidencia pelo fato de citá-lo extensivamente, integrar sua concepção trinitária (Pai, Mãe, Filho), adaptar sua doutrina das manifestações sucessivas do “verdadeiro profeta” e incorporar suas tradições encratistas e apocalípticas; a persistência do judaico-cristianismo pode ser reconhecida não só no maniqueísmo, mas também no nestorianismo, que preserva formas adotianistas, no messalianismo e até nas concepções de Maomé acerca do profeta, revelando que o judaico-cristianismo exerceu influência decisiva na formação de religiões orientais.
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