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SATURNINO
Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Capítulo VIII — Saturnino
1. O Deus do Antigo Testamento em Saturnino
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A figura de um Criador distinto do verdadeiro Deus, ainda vaga e não identificada com o Deus da Lei antiga em Cerinto, aparece com muito maior clareza em Saturnino, juntamente com os motivos que poderiam ter levado à introdução dessa figura.
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Cerinto — figura cujas características não aparecem com clareza, cuja historicidade pode ser duvidosa, e cuja teoria da criação não parece ser conhecida pelo autor joanino nem acompanhada de motivos que a confirmem.
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Para Saturnino há sete criadores, que são anjos, e um deles é “o Deus dos judeus” — o mais importante, pois Cristo veio ao mundo para a destruição desse Deus e para a salvação dos que creem em Jesus Cristo.
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Irineu, Adversus Haereses I, 24, 2 — relato em tradução latina que resume a doutrina de Saturnino.
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O antijudaísmo e a atitude anticósmica de Saturnino vão muito além dos de João, ao ponto de afirmar que cristianismo e judaísmo são religiões conflitantes e inimigas, e que muitos profetas do Antigo Testamento foram inspirados por poderes inferiores ou mesmo diabólicos.
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Segundo Saturnino, os demônios ajudaram os seres humanos mais perversos até a vinda de Cristo — o que implica que os personagens do Antigo Testamento apresentados como prósperos e vitoriosos eram em geral os mais malvados.
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A atitude anticósmica de Saturnino manifesta-se em implicações éticas práticas não encontradas no autor joanino nem em Cerinto: os saturnilianos diziam que casar e gerar filhos são coisas que vêm do diabo, e muitos deles se abstinham de carne.
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Saturnino é o primeiro cristão que, a partir da relação entre o cristianismo e o Antigo Testamento, se afastou decisivamente do cristianismo de Paulo e João, sendo o primeiro exemplo quase certo de gnosticismo propriamente dito — ao contrário do que sustentava Bousset, para quem Saturnino teria sido o primeiro gnóstico a “cristianizar” um gnosticismo pré-cristão.
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Bousset — estudioso que considerava Saturnino o primeiro gnóstico a inserir a figura de Jesus num sistema presumivelmente pré-cristão.
2. Saturnino e os Sete Anjos
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Saturnino é, ao que se sabe, o primeiro a falar dos sete anjos criadores, ideia que não se explica apenas pela astronomia e pela astrologia, mas também pela doutrina bíblica dos sete dias da Criação e pela ideia de que o “oitavo dia” — o dia da Ressurreição, o domingo cristão — é superior ao sétimo, o Shabat.
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A astronomia dos sete céus planetários foi certamente usada mais tarde por muitos gnósticos, que encontraram nela um argumento para subordinar o Deus do sétimo dia e do sétimo céu a um Deus mais elevado.
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Na Ascensão de Isaías Deus reina no sétimo céu porque é ainda o Deus dos sete dias, o da Criação, e portanto o sétimo céu é o mais elevado; os místicos judeus colocavam igualmente Deus no sétimo “palácio.”
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Basilides — discípulo de Menandro como Saturnino, que se interessa pela astronomia, o que sugere que Saturnino também o fazia, podendo ter extraído daí um argumento adicional para reduzir o Deus do sétimo dia ao nível de um poder inferior.
3. Saturnino e a “Centelha de Vida”
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Outra ideia encontrada pela primeira vez em Saturnino é a da centelha de vida, pela qual ele parece ser o inventor de um dos elementos característicos do mito gnóstico: segundo Irineu (I, 24, 1), os seres humanos foram modelados pelos anjos à imitação de uma imagem luminosa que lhes apareceu e que não puderam apreender; como eram fracos e rastejavam como vermes, o poder do alto, tendo deles piedade por terem sido feitos à sua imagem, enviou uma centelha de vida que os fez erguer-se e viver.
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A centelha de vida não pode ser uma vida física, pois nem todos a possuem — apenas os que têm fé, os que creem em Cristo (Irineu, I, 24, 2); trata-se da vida no sentido joanino, da salvação ou graça, da vida eterna já presente.
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A centelha de vida não é algo que pertença à natureza humana desde o início; o homem modelado pelos anjos é talvez não simplesmente Adão, mas o símbolo de toda a humanidade antes da revelação de Cristo — o homem velho —, enquanto o homem que recebeu a centelha é o homem novo transformado por Cristo.
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Barbara Aland — estudiosa que mostrou que para Heracleon, discípulo de Valentino, “os espirituais em sentido estrito não existem senão após a vinda de Cristo.”
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Apócrifo de João — descreve uma série de ferimentos que os Archons criadores infligem sobre a natureza de Adão para tentar apagar a luz que ele recebera.
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Livro da Sabedoria 10,1 — fonte possível da ideia de que Adão foi instruído e salvo pela Sabedoria; mas nesse livro Adão é instruído após a queda, sem uma segunda queda, ao contrário do que parece exigir a lógica do sistema de Saturnino.
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A distinção entre os que têm a centelha de vida e os que não a têm não deve ser confundida com a distinção entre os bons e os maus criados pelos anjos, que corresponde apenas ao bem e ao mal do Antigo Testamento.
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Tertuliano, Adversus Valentinianos 29 — os valentinianos pensavam que almas boas e más eram simbolizadas por Abel e Caim; mas Abel não possuía a bondade segundo o Espírito, que vem da liberdade; era Set o símbolo das pessoas que têm o Espírito — e nele o Espírito era de graça, não de natureza.
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Valentino, fragmento 2 — somente Deus, e o que vem de Deus, é bom para os valentinianos.
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A questão de se a centelha — que deve ser chamada de Espírito — permanece no crente durante toda a vida como uma substância constitutiva do ser levanta dificuldades, pois o Espírito parece para Paulo uma inspiração momentânea e não uma presença constante; a ideia de sua permanência pode derivar da Primeira Epístola de João.
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João 3:8 — “O vento sopra onde quer” — imagem que sugere a espontaneidade e não a permanência do Espírito.
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Primeira Epístola de João 3:9 — “Ninguém nascido de Deus comete pecado; pois a natureza de Deus permanece nele, e não pode pecar porque é nascido de Deus.”
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João 1:12 — “Aos que o receberam, deu o poder de se tornarem filhos de Deus, aos que creem em seu nome.”
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Basilides — discípulo do mesmo mestre que Saturnino, acusado por Clemente de Alexandria de fazer da fé uma essência (ousia), uma natureza (physis), uma substância (hypostasis) — Stromata V, 1, 3.
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Tanto para Saturnino quanto para Basilides havia condições éticas para a salvação, como também para João; é provável que se deva reservar o julgamento sobre se havia neles uma doutrina absolutamente coerente a esse respeito.
4. Conclusão
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Saturnino parece ter dado passos decisivos no caminho pelo qual o cristianismo de certos cristãos se transformou progressivamente em gnosticismo, reunindo em sua doutrina todos os elementos do mito gnóstico: os dois níveis do mundo supraterrestre correspondentes ao Antigo e ao Novo Testamentos, a atitude anticósmica acentuada, o verdadeiro Deus que já não é o criador do mundo, os sete Archons e a centelha de vida vinda do alto que ao morrer retorna à sua fonte.
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O “Pai desconhecido,” que é também “o Poder supremo,” corresponde ao “Poder desconhecido” de Menandro; o docetismo de Saturnino continua o que se atribuía a Menandro; a fé que dá a centelha produz uma espécie de ressurreição, assim como para Menandro o “conhecimento” e o batismo conferiam a vida eterna permitindo ao convertido ressuscitar nesta vida — note-se o uso do verbo diegeire.
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Primeira Carta aos Coríntios 2,6 — fonte paulina da ideia de que Deus quer “destruir os Archons.”
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João 1:5 — fonte provável da “imagem luminosa” que os criadores não puderam apreender.
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Os Archons formaram a humanidade copiando a imagem luminosa que lhes apareceu do alto; mesmo antes da centelha há em todo ser humano algo que vem parcialmente do alto, não apenas dos Archons.
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