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DOCETISMO
Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Capítulo III — Docetismo
1. Diferentes Formas de Docetismo
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Os docetistas são heréticos que, para afirmar a divindade de Jesus Cristo, negam sua humanidade, ensinando que Cristo era homem apenas em aparência — um ser divino e puramente espiritual revestido de forma humana, à semelhança dos deuses da mitologia grega que visitavam a terra.
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Docetismo — do grego dokein, parecer: doutrina segundo a qual Cristo apenas parecia sofrer e morrer, sendo isso um meio de ensinar a verdade aos homens.
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A heresia docetista, de todas as heresias, foi talvez a que mais arriscou esquecer o ensinamento fundamental do cristianismo, pois o que Cristo ensinou acima de tudo foi que o sofrimento e a morte não são sinais de condenação divina — e para ensiná-lo pelo exemplo era necessário que tivesse verdadeiramente sofrido e verdadeiramente morrido.
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Se a Paixão tivesse sido apenas uma aparência destinada a ensinar a verdade, por isso mesmo ela nada teria ensinado.
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Simone Weil — filósofa francesa para quem o docetismo era a única heresia que lamentava ver condenada.
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A inclinação gnóstica ao docetismo tem múltiplas raízes: a vinculação à corrente cristã que afirmava a divindade original de Jesus Cristo — a de Paulo e João —, o desejo de acentuar ao máximo essa divindade, e a concepção de que a salvação é trazida pela lição da cruz, o que contém em si um perigo de docetismo.
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A outra corrente cristã era a dos cristãos judaicos, que tendiam a considerar Cristo, antes de tudo, apenas um homem.
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O perigo do docetismo reside em que, ao conceber a cruz como imagem salvadora, pode-se concluir que sua virtude reside inteiramente na imagem e que a crucificação não precisaria ter ocorrido de fato.
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Se o evento não foi real, a própria imagem perde sentido; ao insistir no mito, corre-se o risco de esquecer a história.
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O docetismo é algo muito menos simples do que se imagina, e uma doutrina chamada docetista não é docetista sempre do mesmo modo, sendo necessário distinguir ao menos quatro tipos.
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O primeiro tipo de docetismo é a afirmação de que os sofrimentos e a morte de Cristo foram meras aparências — forma combatida por Inácio de Antioquia por volta do ano 110.
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Inácio de Antioquia — bispo cristão martirizado, que se opõe ao docetismo nas cartas Aos Tralianos (6,2) e Aos Esmirnienses (2; 4,2; 5,3).
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Essa forma pode significar tanto que Cristo não sofreu de modo algum quanto que seus sofrimentos eram, num sentido, o oposto do que pareciam: uma derrota aparente que era na verdade uma vitória.
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Livro da Sabedoria, capítulo 3, versículos 2 a 5 — “Aos olhos dos ignorantes eles pareceram — edoxan — morrer. Sua partida deste mundo foi tomada por uma desgraça… Mas eles estão em paz… Sua esperança estava plena de imortalidade. Por uma dor passageira receberão grandes bênçãos.” O autor não duvida que os justos morreram de morte física, mas mesmo assim escreve: “Eles pareceram morrer.”
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Odes de Salomão, ode 42 — “Não fui repreendido, mesmo quando parecei sê-lo; não perei, ainda que me condenassem” — passagem que pode ser interpretada como docetista ou como cristianismo ordinário, conforme a leitura.
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A mesma formulação é ortodoxa ou herética segundo o modo como se a interpreta.
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O segundo tipo de docetismo vai além e afirma que Cristo assumiu forma humana apenas para enganar o diabo e os poderes, tornando possível a crucificação — que foi uma armadilha pela qual os poderes foram vencidos ao crerem que venciam.
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Primeira Carta aos Coríntios 2,8 — Paulo afirma que, se os poderes soubessem, não teriam “crucificado o Senhor da glória.”
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Especulações do cristianismo primitivo descrevem Cristo descendo dos céus e assumindo em cada esfera celeste a forma dos anjos que aí habitavam, para não ser reconhecido pelos poderes.
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Ascensão de Isaías — obra cristã provavelmente escrita no final do primeiro século, que contém a especulação sobre a descida disfarçada de Cristo pelos céus; seu anjo diz a Isaías: “Ele será semelhante à tua forma e será pensado que é carne e sangue.”
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Simão, o Mago — figura a quem também é atribuída a especulação sobre a descida oculta aos anjos.
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Epístola aos Filipenses 2:7-8 — “Nascido à semelhança dos homens. E sendo encontrado em forma humana…” — fórmula passível de interpretação docetista.
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Romanos 8:3 — “Deus… enviando seu próprio Filho à semelhança da carne pecadora…” — outra expressão paulina que pode ser lida nessa direção.
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Livro de Daniel 7:13 — Daniel não vê um filho de homem, mas “alguém semelhante a um filho de homem”; a expressão hos anthropos na Epístola aos Filipenses é provavelmente a tradução literal do aramaico kevar enas de Daniel.
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Apocalipse 1:12-13 e 14,14 — a expressão “semelhante a um filho de homem” é conservada fielmente.
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Apocalipse de Esdras (4 Esdras 13:3) e Similitudes de Enoque (XVI, 1) — obras que preservam a mesma fórmula.
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Os gnósticos são, em sua maior parte, exegetas, e alguns de seus mitos parecem ter por único fim justificar um texto sagrado.
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Esse tipo de docetismo, assim como o anterior, não parece vinculado à ideia de que a matéria, sendo má, seria indigna de Cristo — Inácio de Antioquia e a Ascensão de Isaías desconhecem a distinção entre Deus e o Demiurgo.
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O terceiro tipo de docetismo, muito antigo, é o atribuído por Ireneu a Cerinto, que distingue Jesus e Cristo como duas partes distintas — a humana e a divina — de Jesus Cristo, podendo ser considerado o primeiro esboço da teoria das duas naturezas.
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Ireneu — bispo cristão do século II, que atribui a Cerinto essa doutrina em sua obra Contra as Heresias (I, 26, 1).
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Cerinto — pensador gnóstico segundo o qual Jesus era homem como os outros, filho de José e Maria, mas mais sábio e justo; Cristo, ser divino proveniente do verdadeiro Deus desconhecido pelo mundo, desceu sobre Jesus no batismo sob forma de pomba, falou por meio dele e, no momento da morte, abandonou-o e reascendeu ao Pai.
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Jesus sofreu e ressuscitou; Cristo, ser puramente espiritual, não podia sofrer nem morrer.
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Esse docetismo se articula com o dualismo gnóstico: Cerinto ensinava que a criação do mundo não era obra do verdadeiro Deus, mas de um poder muito distante dele e que o desconhecia.
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João 14:30 — “Ele não tem poder sobre mim” — dito do Cristo joanino sobre o Príncipe do mundo, aplicável ao Cristo de Cerinto em relação ao mundo da criação.
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O docetismo de Cerinto encontra raízes no Quarto Evangelho: tanto para Cerinto quanto para João, o mundo não conhecia a Deus, e Cristo vem do Pai e retorna ao Pai.
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João 17:11 — antes do início da Paixão, Jesus diz: “Já não estou mais no mundo.”
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O Jesus joanino é transcendente — permanece senhor de seu destino, ninguém lhe tira a vida; ele a dá se quer e a retoma se quer (João 10:18).
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Quando os soldados o vêm prender e ele diz “Eu sou”, eles recuam e caem por terra — João 18:6.
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Ao contrário do Jesus de Mateus e Marcos, o de João não diz “Por que me abandonaste?”, parecendo sempre unido a Deus.
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Ao mesmo tempo, o Jesus joanino aparece verdadeiramente humano em certos momentos: está cansado (João 4:6), com sede (João 4:7; 19,28), chora (João 11:35).
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João 6:41-42 — os judeus perguntam: “Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e cuja mãe conhecemos? Como diz agora: Desci do céu?” — e o Evangelista não sugere que estejam errados do seu próprio ponto de vista.
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João 8:57-58 — “Ainda não tens cinquenta anos e já viste Abraão?” — ao que Jesus responde: “Antes que Abraão existisse, eu sou.” O Evangelista não contradiz que Jesus não tivesse cinquenta anos.
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Ao longo do Quarto Evangelho subsiste uma distinção implícita entre um homem simplesmente humano e um ser divino eterno que fala por meio dele.
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A crucificação em João é também uma elevação, uma glorificação — o que implica distinguir aparência visível e realidade oculta.
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A teoria de Cerinto identifica Cristo e o Espírito Santo, o que ressoa na estranha teoria joanina segundo a qual o Espírito não pode ser dado aos discípulos senão após a morte de Jesus — João 7:39 e 16,7.
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João 20:22 — o Ressuscitado sopra o Espírito sobre os discípulos, o que pode significar que é ele mesmo, ou o Verbo novamente encarnado nele, que assim se instala neles.
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E. Schweizer — estudioso que observa que a doutrina dos adversários das epístolas joaninas, ao separar o Jesus terreno do Cristo celeste, coloca em questão a própria cristologia de João.
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Luise Schottroff — estudiosa que mostra que, para João, existem em Jesus duas realidades distintas e paralelas: de um lado um homem de carne que nasce, vive e morre como todos; de outro um ser divino descido do céu que não sofre verdadeiramente mudanças nem ataques do mundo — o que é também uma forma de docetismo, precisamente o de Cerinto.
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Cerinto poderia ter sido um discípulo de João que tentou explicar as consequências do que o mestre dissera, mesmo tendo sido por ele repudiado.
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As epístolas joaninas parecem opor-se ao docetismo, mas isso não é absolutamente certo; os dois versículos que parecem combatê-lo comportam outras interpretações.
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Primeira Epístola de João 4:2-3 — “Todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus, e todo espírito que não confessa Jesus não é de Deus.”
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Clemen — estudioso que observa que, se se tratasse de docetistas, o texto exigiria o infinitivo “ter vindo em carne” e não o particípio “vindo”.
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Para João, o nome Cristo tem não apenas sentido messiânico mas transcendente, equivalendo aproximadamente a “Filho de Deus” — João 20:31.
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O docetismo eventualmente combatido nas epístolas joaninas poderia ser o da Ascensão de Isaías, contemporânea do Quarto Evangelho, cuja temática é atribuída a Simão Mago por Ireneu (I, 23, 3), Tertuliano e Epifânio.
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O quarto tipo de docetismo consiste em pensar que a carne e a matéria seriam indignas de Cristo, de modo que ele não poderia ter tido um corpo material sujeito a condições vulgares — docetismo vinculado ao dualismo filosófico entre espírito e matéria e à ideia clássica de que o divino não pode sofrer.
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Mani — fundador do maniqueísmo, para quem o docetismo se funda na concepção da matéria como mal, por exagero do dualismo platônico.
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Marcion — gnóstico que não podia crer que Cristo tivesse nascido como todos os seres humanos nascem, embora ensinasse que ele verdadeiramente sofreu a Paixão.
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Valentino — gnóstico que parece ter pensado que certas funções corporais não podiam ocorrer no corpo de Cristo como nos outros corpos humanos.
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Essas especulações, embora ridículas, são inspiradas por uma piedade ingênua e provavelmente servem também para justificar formas anteriores de docetismo que já não eram compreendidas.
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Nem Cerinto, nem a Ascensão de Isaías, nem Saturnilo, nem Basilides, nem Carpocrates fundamentam o docetismo na ideia de indignidade da matéria ou da carne para Cristo.
2. Contradições no Docetismo Atribuído aos Gnósticos
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A ideia de que os algozes foram enganados explica as estranhas especulações que Ireneu atribui a Basilides — segundo o qual teria sido Simão de Cirene, e não Cristo, a ser crucificado — mas essa atribuição é dificilmente aceitável tal como está, pois se o Cristo que zombou dos algozes não fosse de algum modo idêntico ao homem que sofreu, sua atitude seria odiosa.
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Basilides — gnóstico cristão que Ireneu apresenta como ensinando que Cristo trocou sua figura pela de Simão de Cirene para que, quando este fosse crucificado, Cristo pudesse zombar dos algozes.
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Ph. Carrington — estudioso que mostrou que essa ideia poderia ter sido sugerida por uma leitura literal do Evangelho de Marcos 15:21-25, onde o nome de Jesus não é mencionado explicitamente após o de Simão de Cirene, e as formas pronominais auton, auto, autou poderiam ser referidas a Simão.
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Salmo 2,4 — considerado profético — junto à ideia da cruz como armadilha, pode ter levado à afirmação de que Cristo “riu” no momento da crucificação.
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Clemente de Alexandria — no Stromata IV, 81-85, cita os Exegetica de Basilides, onde este sustenta que o sofrimento é justificável apenas como castigo dos culpados ou, no caso dos inocentes, como freio à tendência ao pecado — o que demonstra que para Basilides Jesus não só sofreu como era plenamente humano.
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As especulações em torno de Simão de Cirene não são inteiramente produto da imaginação de Ireneu, como atesta o Segundo Tratado do Grande Seth, de Nag Hammadi, embora esse texto difira do que Ireneu descreve.
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Segundo Tratado do Grande Seth 56, 2-19 — Cristo (ou o Grande Seth identificado com Cristo) diz: “Mas ao fazer essas coisas, eles se condenam a si mesmos. Sim, eles me viram; eles me puniram. Foi um outro, o pai deles, que bebeu o fel e o vinagre; não fui eu. Eles me golpearam com a cana; foi um outro, Simão, que carregou a cruz sobre seu ombro. Foi sobre um outro que colocaram a coroa de espinhos. Mas eu me regozijava no alto sobre toda a riqueza dos arcontes e a descendência de seu erro, de sua glória vazia. E eu ria de sua ignorância.”
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Origem — exegeta cristão para quem a cruz do Salvador era dupla: o Filho de Deus foi crucificado visivelmente na cruz, mas foi o diabo que foi invisível e atado a ela com seus principados e poderes.
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A afirmação de que todos os gnósticos eram docetistas não deve ser aceita: os três gnósticos considerados mais importantes — Basilides, Valentino e Marcion — ao mesmo tempo são e não são docetistas.
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Tratado sobre a Ressurreição, possivelmente de Valentino — “O Filho de Deus, Rheginos, era Filho do homem. Ele reuniu os dois, possuindo humanidade e divindade” (44, 22-26).
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Tratado Tripartite, fiel a Valentino — diz que o Salvador assumiu a morte sobre si, bem como a pequenez humana; aceitou ser concebido e nascer como criança, sendo homem “em corpo e alma” (115, 3-11).
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Teodoto — valentiniano que admite a morte de Jesus e ao mesmo tempo afirma que algo nele não foi tocado pela morte; o Pneuma que desceu sobre ele no Jordão se retirou para dentro de si mesmo para que a morte pudesse operar, e o Salvador, no próprio momento de morrer, destruiu a morte e ressuscitou o corpo mortal despojado de suas paixões.
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Zostrianus 48, 27-28 — “Ele estava ali novamente, aquele que sofre ainda que seja incapaz de sofrer.”
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Atos de João — Cristo diz: “Pensais que sofri, mas não sofri; e não acreditais que sofri, no entanto sofri.”
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Salmo maniqueu — “Fui preso e não fui preso; fui julgado e não fui julgado; fui crucificado e não fui crucificado; fui trespassado e não fui trespassado; sofri e não sofri.” — textos em que o docetismo é ensinado como paradoxo e mistério, e ao mesmo tempo como seu oposto.
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É na poesia que o gnosticismo melhor preserva os pensamentos que o inspiraram desde o início.
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Pistis Sophia e Melquizedeque — obras gnósticas tardias que repudiam expressamente o docetismo.
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Nos textos tardios de Nag Hammadi, o sentido das formas primitivas de docetismo parece quase inteiramente perdido, e seus autores parecem crer literalmente que a morte do Salvador foi apenas aparente — ideia que o islamismo preservou em sua representação de Jesus.
3. Comparação com o Cristianismo Não-Gnóstico
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O docetismo, tal como normalmente concebido, provoca indignação naqueles que admiram e respeitam acima de tudo a humanidade de Jesus Cristo, e o Cristo joanino era talvez já demasiado consciente de ser Deus — ao ponto de tornar sua representação inferior à dos Evangelhos Sinóticos.
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W. L. Knox — estudioso que observa que um docetismo como o dos Atos de João era provavelmente possível em círculos ortodoxos no século II.
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Carl Schmidt — estudioso que afirma que as visões docetistas devem ter sido bastante difundidas nos círculos eclesiásticos.
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Clemente de Alexandria — afirma que Jesus era apathes, incapaz de sofrer.
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Orígenes — apresenta uma interpretação da Paixão que dá margem a leituras docetistas.
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Tendências docetistas podem provavelmente ser encontradas no interior da Igreja em todas as épocas.
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Em geral, uma interpretação docetista não altera muito a percepção dos fiéis, pois a pessoa humana de Jesus Cristo permanece a mais forte no espírito dos crentes, apesar de todas as razões que, numa reflexão mais cuidadosa, deveriam conduzir a uma ideia de Cristo em situação muito diversa da dos outros seres humanos.
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A teologia amplamente aceita que atribui a Cristo a consciência de ser Deus diminui a grandeza de seu sacrifício quase tanto quanto as interpretações docetistas — o que revela uma dificuldade interna ao próprio cristianismo não-herético.
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Um nobre da corte de Luís XIV, repreendido pelo rei por não ter sacrificado seus vasos de ouro e prata pelas necessidades do Estado como ele próprio fizera, respondeu: “Quando morreu na Sexta-Feira, Jesus Cristo sabia que ressuscitaria no Domingo.”
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Alain — filósofo francês citado a propósito da “forma humana” que nos conduz, muito convenientemente, a considerações sobre a dupla natureza de Cristo.
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As palavras finais de Jesus — o grito de abandono — testemunham que ele havia esquecido, ao menos naquele momento, que era Deus; e os que o contemplam também esquecem isso, sendo precisamente por isso que o consideram ao mesmo tempo homem e Deus.
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Os caminhos da teologia são difíceis e enganosos, pois os que pretendem acentuar a divindade de Cristo acabam por tirar-lhe aquilo que verdadeiramente manifesta seu caráter divino — sendo talvez mais adequado dizer que Cristo tinha fé em sua filiação divina e em sua ressurreição, mas não que as conhecia com certeza.
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