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Viagem ao mundo

ANTONIO ORBECRISTOLOGIA GNÓSTICA

CAPÍTULO 7: VIAGEM AO MUNDO

  • O tema da viagem do Salvador através dos céus, do mundo supremo até a terra, é analisado como um gênero literário utilizado por gnósticos e eclesiásticos para explicar o descenso do Logos sem comprometer sua imutabilidade espiritual.
    • Na discussão com Celso, Orígenes argumenta que o Logos, sendo virtude e divindade de Deus, não abandona seu trono nem se move localmente ao descer; antes, vem a habitar naqueles que o recebem, permanecendo simultaneamente junto ao Pai.
    • Justino Mártir já distinguia entre o Pai ingênito, incapaz de ser circunscrito ou de se mover, e o Cristo, seu Filho, pessoalmente compreensível e dotado de circunscrição, que se aparece e se dá a conhecer aos homens no Verbo.
    • Os valentinianos distinguem dois estados no Filho: como Unigênito no seio do Pai (João 1:18) e como Primogênito na criação (Colossenses 1:15), mas afirmam que é a mesma pessoa, que não se separa de si mesma ao descer: “Jamais o que desce se separa do que permanece”.
  • O descenso do Salvador é concebido principalmente como a assunção de “primícias” (aparche) das substâncias espirituais, psíquicas e materiais, pelas quais ele se une pessoalmente às espécies salváveis do universo, mais do que como um movimento local através de esferas planetárias.
    • Ptolomeu, conforme Irineu, ensina que o Salvador assumiu (suscepisse) de Acamote o espiritual, revestiu-se (indutum) do Cristo psíquico vindo do Demiurgo, e rodeou-se (circumdatum) de um corpo de substância animal, feito visível e palpável por uma arte inenarrável.
    • O texto dos Excerpta ex Theodoto (Ester 58:1-59,3) descreve como o “grande Lutador, Jesus Cristo” assumiu em sua própria pessoa a Igreja dupla: o elemento escolhido (espiritual) da Sofia que gera, e o elemento chamado (animal) da economia de Iavé.
    • A assunção destas substâncias ocorre por penetração e crase (krasis), não por separação ou confusão: o Salvador as “endossou não individuado (ou choristheis), mas, ao contrário, penetrando-as com poder e assimilando-as à sua pessoa”.
  • A ideia de um descenso “clandestino” ou “incógnito” do Salvador é comum a várias famílias gnósticas e também a Irineu, servindo para explicar como o Logos passou pelos céus sem ser reconhecido pelos arcontes e potestades, a fim de preparar sua vitória sobre o demônio.
    • Irineu, em sua Demonstração da Pregação Apostólica (Epid. 84), afirma que “o Verbo desceu invisível para os seres criados”, citando o Salmo 23,7: “Levantai, ó príncipes!, vossas portas… e entrará o rei da glória”.
    • O Segundo Logos do Grande Set (NHC VII,2) declara: “Ao descer eu (ao mundo), ninguém me viu. Mudava, em efeito, as formas (morphe) em mim. Eu mudava uma ideia (idea) com outra ideia”.
    • Os ofitas, segundo Irineu (I 30,12), afirmam que o Salvador desceu pelos sete céus, “assimilado (assimilatum) a seus filhos, e pouco a pouco esvaziou sua virtude”, removendo seu poder sobre os homens.
  • O incógnito do Salvador é justificado por múltiplas razões teológicas: para não deslumbrar as criaturas com a plenitude de sua glória, para não revelar a economia do Deus Bom aos arcontes (que são apenas instrumentos), e para poder enganar o demônio (Thanatos) e vencê-lo mediante a morte aparente na cruz.
    • Os docetas de Hipólito explicam que nem os próprios eones podiam contemplar de golpe a plenitude do Filho, razão pela qual ele se concentrou “como grandíssimo relâmpago” em um corpo diminuto para descer e libertar as formas caídas.
    • Um motivo adicional é a animadversão dos arcontes e dinâmeis celestes para com todo aquele que pretende atravessar seus domínios; ao descer de incógnito, o Salvador evita ser detido e anuncia que sua missão visa os homens, não os anjos.
    • O combate do Salvador com o Thanatos só era factível sem estridências, mediante a forma humana, preparando assim sua própria morte em cruz e a vitória imediata sobre o príncipe da morte.
  • O paralelo entre o descenso do Salvador e o mito de Hermes (Mercúrio) é explorado por gnósticos (como os naasonos) e também por Mario Victorino, que compara a metamorfose do deus pagão com a encarnação de Cristo, embora com diferenças fundamentais na compreensão da realidade da natureza assumida.
    • Os naasonos interpretam Hermes como o Logos que guia as almas e as desperta do sono, aplicando-lhe passagens de Homero e de Paulo (Efésios 5:14): “Desperta, tu que dormes, e levanta-te, e Cristo resplandecerá para ti”.
    • Mario Victorino, comentando Filipenses 2:8, evoca a Eneida de Virgílio (IV 242ss) para comparar a obediência de Mercúrio a Júpiter com a obediência de Cristo ao Pai, mas entende a realidade da natureza humana assumida pelo Filho, contra os docetas.
  • A análise final do capítulo distingue claramente entre a “assimilação ou transfiguração” externa (adotada pelos simonianos para passar incógnito) e a “assunção real de substâncias” (defendida pelos valentinianos para salvar as primícias de cada espécie cósmica), sendo esta última a mais relevante para a soteriologia.
    • Para os simonianos, o Salvador se “transfigurou e assimilou” (metamorphoumenon kai exomoioumenon) às virtudes e potestades angélicas apenas para passar despercebido e salvar a alma (a ovelha perdida), não para salvar os anjos.
    • Para os valentinianos, ao contrário, a assunção real da substância animal (arcôntica) é necessária para salvar toda a natureza angélica e humana; a assimilação externa basta para passar incógnito, mas não para salvar as naturezas.
    • Conclui-se que o Salvador desceu inadvertido de todas as criaturas (anjos, arcontes, demiurgo, demônios) por sua própria dignidade transcendente, porque os céus intermediários não estão chamados per se à saúde, e para esconder-se do Thanatos em forma humana, dispondo sua própria morte na cruz.
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