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Morte
ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 29: A MORTE
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A negação da morte verdadeira de Cristo por alguns hereges baseava-se em Romanos 6,5ss, embora os gnósticos docetas e marcionitas não tenham chegado a negar a morte real de Cristo, atribuindo-lhe apenas uma “semelhança de morte”, como apontado por Orígenes.
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De acordo com Orígenes, alguns hereges se esforçaram para afirmar que Cristo não morreu verdadeiramente, mas teve uma semelhança de morte, parecendo morrer mais do que tendo morrido de fato.
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Os maniqueus sustentavam que Cristo subiu à cruz, mas não sofreu nem morreu de verdade.
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Marção, embora negasse o nascimento terreno de Cristo, ainda assim afirmava que seu Cristo foi crucificado, derramou sangue e morreu.
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Fausto argumentava que não se pode inferir necessariamente a morte do nascimento, dando o exemplo de Elias, que nasceu e não morreu, e de Jesus, que poderia ter morrido sem ter nascido.
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Mário Victorino, ainda pagão, citava o argumento necessário de Cícero (“Se uma mulher deu à luz, deitou-se com um homem”) e acrescentava “Se nasceu, morrerá”, observando que, para os cristãos, tais inferências não são necessárias, pois para eles é manifesto que (Cristo) nasceu sem homem e não morreu (para sempre).
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A MORTE NA PERSPECTIVA GNÓSTICA — Os gnósticos, operando com uma distinção entre o Pleroma (reino da verdade) e o Kenoma (região da imagem), negavam categoria de “verdadeira” à morte sensível de Jesus, considerando-a como tendo a realidade umbrátil de uma imagem, cuja verdade plena residia no reino do paradigma.
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Para os gnósticos, a verdadeira morte não é a separação comum da alma do corpo (definição estoica), mas sim aquela que afeta o espírito (pneuma), ou seja, o pecado ou a ignorância de Deus.
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O Evangelho segundo Felipe afirma que um pagão não morre porque nunca viveu, enquanto aquele que creu na Verdade vive e corre o risco de morrer porque vive.
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O mesmo Evangelho sustenta que os que afirmam que o Senhor morreu primeiro e depois ressuscitou estão enganados, pois primeiro ele ressuscitou e depois morreu, e se alguém não obtém primeiro a ressurreição, não morrerá.
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A MORTE E A RESSURREIÇÃO COMO EVENTOS ESPIRITUAIS EM JESUS — Para os gnósticos, a verdadeira ressurreição e morte de Jesus ocorreram no Jordão, sendo a ressurreição a recepção do Espírito Santo e a morte a perda desse Espírito, invertendo a ordem cronológica da economia eclesiástica que colocava a morte carnal antes da ressurreição da carne.
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A inversão da ordem (primeiro a ressurreição, depois a morte) implica que, se alguém não obtém primeiro a ressurreição (a gnose), não morrerá para a ignorância e o regime de paixões.
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Para os valentinianos, os fenômenos sensíveis da morte e ressurreição de Jesus no tempo repetem o mistério invisivelmente verificado no Jordão, onde ocorreu a morte definitiva da carne e a ressurreição definitiva do espírito.
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O SIGNIFICADO DA MORTE NA CRUZ PARA OS VALENTINIANOS — A morte na cruz, além de seu valor exemplar, foi o signo e instrumento da vitória do Salvador sobre o inimigo (a Morte), sendo indispensável para redimir e purificar as igrejas, assim como sua concepção, nascimento e batismo, e nela se cumpriu o paradigma celeste do pathos de Sofia com a separação real entre o Salvador (pneuma e psyche) e seu corpo sui generis.
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Assim como o nascimento do Salvador libertou da gênese e do destino, e seu batismo arrancou do fogo, sua paixão libertou da paixão, para que em tudo o acompanhassem.
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EFICÁCIA DA MORTE DE CRISTO CONTRA O THANATOS — A morte do Salvador era necessária, segundo os valentinianos, para o triunfo humano sobre a Morte (arconte da morte), corrigindo a separação interna que ocorreu no paraíso quando o elemento feminino (Eva) se inclinou para a vida dos sentidos, causando a morte como consequência do dissídio entre o intelecto (alma) e os sentidos (corpo).
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Se a mulher não se tivesse separado do homem, não teria morrido com o homem; sua separação foi a origem da morte, e Cristo veio para reverter essa separação, reunindo os dois e vivificando os que estavam mortos nessa separação.
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O reino da Morte é dominado pela transgressão e pela ignorância do verdadeiro Deus, sendo governado pelo diabo, “príncipe da apostasia”, que afeta o homem destinado a um regime de vida superior ao dos sentidos.
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O LIVRO VIVENTE E A REVELAÇÃO PELA CRUZ — O Evangelho da Verdade esclarece que a morte de Jesus na cruz permitiu a revelação do livro vivente (o Filho, medida pessoal de Deus), que estava oculto no pensamento do Pai, pois foi crucificado e, ao se abrir, seus caracteres (os nomes dos escolhidos) caíram no mundo, constituindo a Igreja e concedendo a “saúde”.
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O livro vivente dos viventes, escrito no pensamento e intelecto do Pai, estava desde antes da fundação do universo em sua incomprensibilidade e ninguém podia tomá-lo até que aquele que o tomaria fosse crucificado.
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Jesus, o misericordioso e fiel, tomou aquele livro com magnanimidade a custa de golpes, porque sabia que sua morte seria vida para muitos, assim como a fortuna do dono da casa fica oculta em um testamento ainda não aberto.
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AS MÚLTIPLAS MORTES DE CRISTO SEGUNDO A CONSTITUIÇÃO GNÓSTICA — Antes de chegar à morte comum, deram-se em Cristo várias mortes, começando pela separação mítica do Espírito Santo no Jordão, que resultou em um estado de paixões e ignorância, onde seu pneuma perdeu a luz e o conhecimento, morrendo misticamente, e com ele a psique caiu na ignorância e no regime de morte.
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Ao abandono do Espírito (aludido em Mt 27,46), que os gnósticos descreveram como necessário prelúdio para a morte, seguiu-se a perda da gnose e o consequente relaxamento do ânimo.
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OS EXECUTORES DA MORTE DE JESUS — Intimamente ligado ao triunfo do Salvador na cruz está o papel dos executores de sua morte, sendo que, para os eclesiásticos, os responsáveis eram Israel e os pagãos, enquanto para os gnósticos a responsabilidade máxima recaía sobre o inimigo (Thanatos ou diabo), que usou os judeus (psíquicos cheios de paixões, feitos “filhos do diabo”) para dar morte a Jesus, isentando o demiurgo Yahvé e Pilatos.
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Pseudo-Barnabé (7,9) e Melitão afirmam que os judeus crucificaram Jesus após tê-lo desprezado, traspassado e cuspido.
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Para os cainitas, apenas Judas entendeu o mistério da morte salvífica e, agindo sob influxo de Sofia, realizou o mistério da traição para que a redenção do universo se levasse a efeito, ao contrário dos arcontes que tentavam impedi-la.
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MORTE E ENGANO: A VITÓRIA SOBRE A MORTE DEVORADORA — O drama da morte de Jesus se sintetiza na ideia de que a morte havia devorado primeiro o homem, mas Jesus, morrendo na cruz, devora a morte e liberta o homem, utilizando uma tática de fraude contra o inimigo, que foi enganado pela humanidade de Cristo, escondendo o anzol da divindade no isca da carne.
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Os valentinianos recorreram ao mito de Sofia, que foi “devorada pela paixão” (doce) ao tentar compreender o Deus supremo, como protótipo do pecado original que precisava ser remediado.
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Irineu compara o pecado original ao homem sendo “devorado pelo grande cetáceo” (o diabo), assim como Jonas foi devorado pela baleia, mas com a certeza de que seria vomitado.
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O Salmo 21,21 (“Eu estava na boca do leão”) e outras passagens são evocadas para descrever o Salvador na boca da morte, parecendo ser por ela devorado no sensível, mas não no divino.
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A Epístola a Rheginos afirma que o Salvador “se tragou a morte” ao abandonar o mundo perecedouro, devorando o visível com o invisível e proporcionando o caminho da imortalidade.
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Heracleão interpreta 1 Coríntios 15,53ss como referindo-se à alma (psique), que, por sua índole média, pode ser devorada pela corrupção da matéria ou absorvida pela incorruptela do pneuma, graças ao triunfo de Cristo.
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O Evangelho de Felipe apresenta a antítese: o mundo é um devorador de cadáveres, enquanto a Verdade é um devorador de vida, e Deus é um devorador de homens, desejando o sacrifício do homem morto para lhe infundir a vida.
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O FRAUDE COMO ESTRATÉGIA DE VITÓRIA — O Salvador adotou uma tática de fraude contra a Morte (Thanatos), escondendo sua divindade desde a encarnação (virgindade de Maria, nascimento, humildade) até a cruz, a fim de que o inimigo, ao vê-lo como puro homem, o devorasse e fosse vencido, sendo obrigado a vomitar as almas que injustamente possuía.
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O valentiniano Marcos revela que o masculino da tétrada suprema não poderia ser suportado pelo mundo, assim como o Filho se apresentou de forma acessível para poder entrar no império do Thanatos e debelá-lo.
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Cristo deu morte ao Thanatos, privando-o do império e obrigando-o a vomitar aqueles que havia devorado desde o início da história humana, embora os gnósticos limitassem essa vitória aos homens psíquicos e pneumáticos, não aos hílicos.
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CONCLUSÃO SOBRE A MORTE DE CRISTO NA PERSPECTIVA GNÓSTICA — Nenhum herege negou a morte de Cristo, mas os gnósticos, dentro de um esquema platônico, negaram um conteúdo verdadeiro e real aos fenômenos do Kenoma (região da imagem), considerando a morte visível de Jesus na cruz como um evento que possui a verdade do sucesso, mas a não-verdade do conteúdo.
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A morte “comum”, pela separação física da alma, era inevitável e não tinha peso específico, enquanto a morte dos racionais (psíquicos) interessava aos gnósticos como sequência da “substância média”, que podia escolher o caminho da dissolução ou o da incorruptela.
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A morte de Jesus oferecia aos “psíquicos” o paradigma de superioridade à matéria e à ignorância, e agia indiretamente sobre os “pneumáticos” ao dispor para a gnose o “psíquico” em que se escondiam.
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