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Imagem de Deus

ANTONIO ORBEANTROPOLOGIA DE SÃO IRINEU

CAPÍTULO IV: À IMAGEM DE DEUS

  • A análise da formação do homem “à imagem de Deus” segundo Irineu enfrenta a questão de saber se a forma humana do corpo de Adão reflete diretamente a forma de Deus, o que levou alguns a acusar a doutrina de antropomorfismo, enquanto outros (como Orígenes) identificavam a imagem exclusivamente com o intelecto (noûs:) e rejeitavam qualquer noção de corporeidade divina.
    • Orígenes (Hom. III in Genes. 1) relata que “muitos na Escritura divina lemos Deus falar aos homens, e por isso os judeus (alguns?), mas também alguns dos nossos, pensaram que Deus devia ser entendido como homem, isto é, distinto por membros e hábitos humanos”, enquanto os filósofos desprezam estas coisas como fabulosas.
    • Xenófanes (apud Clemente de Alexandria, Strom. VII 4,22,1) criticava a tendência humana de atribuir forma aos deuses: “Os etíopes (os imaginam) negros e chatos; os trácios, ruivos e azuis”.
    • Ciceron (De natura deorum I 18,47-48) expõe a posição epicurista de que “a figura do homem vence a forma de todos os animais animados” e, portanto, “os deuses têm a espécie humana, não são um corpo, mas como que um corpo (quasi corpus), não têm sangue, mas como que sangue”.
  • Irineu, ao contrário de Orígenes e dos alegoristas alexandrinos, defende que a “imagem de Deus” se refere propriamente ao corpo humano (o plasma), pois Deus plasmou o homem do limo da terra com suas próprias mãos (o Filho e o Espírito Santo) e nele desenhou sua própria forma, de modo que o corpo visível do homem é o suporte da imagem divina.
    • Irineu (Epideixis 11) afirma que Deus “desenhou sobre a carne modelada sua própria forma, de sorte que até o que é seu aspecto visível levasse a forma de Deus” e que “o homem criado foi posto sobre a terra como imagem de Deus”.
    • Tertuliano (De resurrectione carnis 5,8-6,5) desenvolve esta ideia: “Cristo era o pensamento do que a argila exprimia, o qual havia de ser homem, como o limo, e Palavra feita carne, como então a terra… Aquela argila já então revestida da imagem de Cristo, que havia de viver em carne, não só era obra de Deus, mas também garantia”.
    • Contra a alegoria de Orígenes, Irineu insiste que o corpo não é algo acidental ou indigno da imagem divina; pelo contrário, a “imagem de Deus” no homem inclui a carne, pois Deus a plasmou diretamente e a destinou à incorrupção e à vida eterna.
  • A noção de que o homem é “imagem da imagem de Deus” (isto é, imagem do Filho, que é a imagem do Pai) é um esquema triádico herdado de Filão e transmitido por Clemente de Alexandria e Orígenes, mas Irineu aplica este esquema ao corpo (plasma) e não apenas à alma ou ao intelecto.
    • Filão (Leg. alleg. III 96) ensinava que “a imagem foi reproduzida segundo Deus, e o homem segundo a imagem, que adquiriu força de paradigma”, sendo Deus o paradigma supremo, o Logos a sua imagem direta (he eikon), e o homem feito “kata eikona” (à imagem).
    • Clemente de Alexandria (Protr. 10,98,4) escreve: “Imagem de Deus é seu Logos – e este divino Logos é filho legítimo do Nous (= Pai), luz arquétipo da luz –, e imagem do Logos, o homem verdadeiro, o intelecto do homem, que se diz por isso ter sido feito à imagem de Deus e à semelhança (sua)”.
    • Irineu (Epideixis 22) resume: “Porque Ele fez o homem à imagem de Deus. E a imagem de Deus é o Filho; à imagem do qual foi feito o homem. Eis porque, nos últimos tempos, se manifestou para dar a entender que a imagem era semelhante a Si”.
  • O corpo de Adão, embora seja “imagem” do Filho (Verbo) desde a criação, não possui ainda a “semelhança” divina; esta será alcançada apenas quando a carne humana for glorificada e conformada ao corpo glorioso de Cristo ressuscitado, que é o paradigma supremo do homem feito à imagem e semelhança de Deus.
    • Irineu (Adv. haer. V 16,2) afirma que nos tempos pretéritos o homem fora feito à imagem de Deus, “mas não se mostrava (que assim o fosse). Porque o Verbo, à cuja imagem tinha sido feito o homem, era ainda invisível. Razão pela qual perdeu também com (tanta) facilidade a semelhança. Mas quando o Verbo de Deus se fez carne, ambas as coisas as confirmou: manifestou em sua verdade a imagem, feito Ele (pessoalmente) isto (= carne) que era sua imagem; e restituiu em (toda a sua) firmeza a semelhança, fazendo o homem semelhante ao Pai Invisível mediante o Verbo visível”.
    • Irineu (Adv. haer. V 13,3) comenta 1 Coríntios 15:53 e Filipenses 3:20-21: “O que é, segundo isso, o corpo de humildade que o Senhor transfigurará conformando-o (conformatum) ao corpo de sua glória? Claro é que a carne, a qual também é humilhada ao cair (e corromper-se) em terra. Porém sua transfiguração tem lugar, porque mortal e corruptível como é, faz-se imortal e incorruptível, não em virtude de sua substância (ouk ex idias hypostaseos), mas segundo a eficácia do Senhor”.
    • Conclui-se que o paradigma da criação de Adão não é simplesmente o Verbo encarnado, nem sequer a carne ou humanidade do Verbo, mas a carne glorificada do Verbo, a humanidade gloriosa de Jesus; Deus se fixou nela ao formar do limo o primeiro Adão.
  • A teologia de Irineu apresenta o corpo humano como “imagem da imagem de Deus” (isto é, imagem do Verbo), o que significa que o corpo foi configurado pelo Verbo (mão de Deus) com a forma humana em atenção ao futuro Verbo encarnado, sendo o corpo de Adão uma espécie de “rascunho” ou “garantia” (pignus) do corpo glorioso de Cristo.
    • Tertuliano (Adv. Prax. 12,3-4) explica que o Pai falava com o Filho (que havia de vestir o homem) e com o Espírito (que havia de santificar o homem), e que “aquele limo já então revestido da imagem de Cristo, que havia de viver em carne, não só era obra de Deus, mas também garantia”.
    • O Deus Pai não tem forma humana (nem angélica, nem de outra espécie), mas o Filho, como Verbo e imagem do Pai, adotou para si a forma humana como veículo de sua manifestação e salvação, e nela imprimiu sua própria forma na carne de Adão.
    • A razão pela qual Deus escolheu o corpo humano (e não o corpo de águia ou de leão) como imagem de Cristo é que ele responde, em seus membros e em sua estrutura, ao exercício livre e racional necessário para a deificação, e reflete as perfeições harmônicas da pessoa do Filho.
  • A exegese de Irineu sobre o cego de nascença (João 9:1-7) confirma que o mesmo Verbo que plasmou Adão continua plasmando os homens no ventre materno e que a curação dos olhos do cego revela a “mão de Deus” que forma todo o corpo, provando que o corpo humano é obra direta do Verbo e não de arcontes ou anjos.
    • Irineu (Adv. haer. V 15,2) argumenta que “quem formou a visão é o mesmo que formou todo o homem, servindo à vontade do Pai”, e que o milagre mostra “a antiga plasmagem (antiquam plasmationem) como foi feita, e manifesta a Mão de Deus por meio da qual foi plasmado o homem do limo”.
    • O milagre prova que “não há outro Deus fora daquele que plasmou o homem e lhe deu o sopro de vida”, e que “não há outra mão divina além da que desde o princípio até o fim nos forma, adapta à vida, assiste ao seu plasma e o consome à imagem e semelhança de Deus”.
    • Conclui-se que o Verbo de Deus é o único autor do corpo humano, desde a primeira plasis de Adão até a formação de cada homem no ventre materno, e que a “imagem de Deus” no homem é impressa pelo Verbo na própria carne, como garantia da futura glorificação e da conformidade com o corpo rutilante de Cristo.
  • A perfeição da “imagem” e da “semelhança” divinas no homem não se realiza na criação, mas apenas na consumação escatológica, quando a carne mortal e corruptível, pela virtude do Espírito e pelo poder do Verbo, for conformada ao corpo glorioso de Cristo e se tornar capaz de ver a Deus face a face.
    • Irineu (Adv. haer. V 9,2-3) ensina que “a carne sem o Espírito de Deus é morta, não tem vida nem pode herdar o reino de Deus… Mas onde está o Espírito do Pai, ali o homem vivente…, a carne herdada pelo Espírito, olvidada de si, que assume a qualidade do Espírito, feita conforme ao Verbo de Deus”.
    • Ele cita 1 Coríntios 15:49: “Assim como temos levado a imagem do que de terra é, levemos também a imagem do que provém do céu”, explicando que “o que é terreno? O plasma. E o que é celeste? O Espírito”.
    • Conclui-se que a verdadeira e plena “imagem e semelhança” de Deus será manifestada quando a carne glorificada do homem for transfigurada à semelhança do corpo de glória do Senhor, tornando-se imagem perfeita da Imagem de Deus, que é Cristo, e através dEle, imagem do Pai.
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