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CERINTO
Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
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Capítulo VI: Cerinto
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1. Os adversários nas Epístolas Joaninas
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O autor joanino, embora tenha sido considerado herege por alguns cristãos, também enfrentou adversários internos que se separaram de seu grupo e foram chamados de anticristos.
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Em 1 João 2:18—19, afirma-se: “Muitos anticristos surgiram; por isso sabemos que é a última hora. Eles saíram de nós; pois, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; mas saíram para que ficasse claro que todos eles não são dos nossos”.
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Em 1 João 4:1—5, ordena-se que os espíritos sejam provados, pois muitos falsos profetas saíram pelo mundo.
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Em 1 João 4:2—5, todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus, enquanto todo espírito que não confessa Jesus não é de Deus e pertence ao espírito do Anticristo.
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Em 2 João 7—11, recomenda-se não receber em casa nem saudar quem não traz essa doutrina, pois quem o saúda participa de sua obra má.
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As passagens joaninas contra os adversários são obscuras e não provam de modo absoluto que se trate de docetistas.
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Esses modos de negação podem designar simplesmente a incredulidade e não necessariamente o docetismo.
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Em João, “Cristo” é quase sinônimo de “Filho de Deus”.
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Confessar Jesus como Cristo encarnado equivale a confessá-lo como Filho de Deus encarnado.
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Em 1 João 5:1, afirma-se: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo nasceu de Deus”.
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Em 1 João 4:15, afirma-se: “Todo aquele que confessa que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus”.
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Em João 20:31, declara-se que o Evangelho foi escrito “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”.
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Algumas passagens só se explicam adequadamente se os adversários tinham sido cristãos próximos ao autor joanino.
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A expressão “eles saíram de nós” pressupõe antiga pertença ao grupo.
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A advertência contra quem “vai além e não permanece na doutrina” pressupõe contato com cristãos que se afastaram.
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A recomendação de não receber esses homens em casa seria incompreensível se eles não tivessem sido aparentemente próximos do autor joanino.
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Algumas passagens se dirigem melhor contra judeus incrédulos.
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Outras só se compreendem como dirigidas contra cristãos considerados hereges.
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A acusação joanina pode referir-se a dois tipos de docetismo, conforme se entenda que os adversários negavam a carne de Jesus Cristo ou negavam que Jesus, como Cristo, veio em carne.
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Se a acusação for não confessar que Jesus Cristo veio em carne, trata-se de docetismo semelhante ao de Saturnilo.
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Nesse caso, o herege afirmaria que Jesus não teve carne real, mas apenas aparência de carne.
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Se a acusação for não confessar que Jesus, como Cristo, veio em carne, pode tratar-se de incredulidade ou de docetismo semelhante ao de Cerinto.
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Cerinto, segundo Irineu, ensinava uma distinção profunda entre Jesus e Cristo.
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Jesus seria filho de José e Maria.
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Por ser mais justo e sábio que os outros, Cristo teria descido sobre Jesus no batismo.
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No fim, Jesus teria morrido e ressuscitado.
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Cristo teria retornado ao Pai.
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Cristo não poderia sofrer nem morrer por ser ser puramente espiritual.
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Em certo sentido, para Cerinto, Jesus não era o Cristo.
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Cristo seria Espírito puro e Filho de Deus, enquanto Jesus seria puramente humano.
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Ao mesmo tempo, Cerinto não afirmava que o corpo de Jesus fosse apenas aparência.
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O docetismo talvez tenha surgido ainda durante a vida do autor joanino, possivelmente com Cerinto na mesma região.
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Irineu situa Cerinto na Ásia, isto é, na província de Éfeso.
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Segundo a tradição, o Quarto Evangelho foi escrito na mesma província da Ásia Menor.
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Se o autor do Quarto Evangelho conheceu algum docetismo, provavelmente conheceu o de Cerinto.
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Também é possível que o autor joanino tenha tido contato com círculos de Antioquia ou Samaria e conhecido docetismo semelhante ao combatido por Inácio de Antioquia.
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A variante muito antiga de 1 João 4:3, “todo espírito que anula Jesus”, ajusta-se bem a Cerinto.
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Cerinto distinguia tão profundamente a natureza divina e a natureza humana em Jesus Cristo que fazia dele duas pessoas.
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Essa distinção podia parecer anular a unidade do Salvador.
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2. O Cerinto de Irineu
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Cerinto teria ensinado não apenas um docetismo cristológico, mas também uma doutrina segundo a qual o mundo foi criado por uma potência separada do Deus supremo.
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Segundo Irineu, o mundo não foi criado pelo “primeiro Deus”.
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O mundo teria sido criado por “uma certa potência fortemente separada e distante dessa primeira autoridade suprema que está acima do universo”.
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A potência criadora não conheceria o Deus que está acima de tudo.
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Cerinto poderia ter sido o primeiro gnóstico propriamente dito, caso tenha separado o verdadeiro Deus da potência criadora e declarado que essa potência não conhecia o verdadeiro Deus.
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Irineu não afirma que Cerinto identificava essa potência com o Deus do Antigo Testamento.
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Se essa identificação não existisse, faltaria ao criador de Cerinto um traço essencial do Demiurgo gnóstico.
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A hipótese de que a potência criadora fosse o Deus do Antigo Testamento continua possível, pois seria difícil explicar de outro modo a ignorância dela em relação ao Deus supremo.
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A doutrina cerintiana da criação é difícil de explicar se o Deus do Antigo Testamento permanecia para Cerinto como verdadeiro Deus.
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A má administração do mundo não bastaria para condenar o ato criador em si.
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Cerinto talvez tenha julgado a criação indigna de Deus, como talvez fizeram os magharianos.
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Os magharianos afirmavam que Deus não criou diretamente o mundo, mas mandou um anjo criá-lo.
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No caso maghariano, o anjo conhece Deus e lhe obedece.
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Assim, Deus continua sendo criador em intenção, mesmo sem criar diretamente.
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A comparação com Simão, o Mago, também é insuficiente.
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Em Cerinto, falta a figura intermediária do Pensamento, que explicaria por que os criadores não conhecem Deus.
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Os anjos de Simão eram provavelmente administradores, e Deus continuava sendo o Criador.
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A potência criadora de Cerinto talvez só possa ser compreendida como o Deus do Antigo Testamento, embora Irineu não o diga expressamente.
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A distinção entre Deus criador e Deus verdadeiro provavelmente não é anterior ao fim do primeiro século.
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Essa distinção se liga à ideia de que o Deus revelado pelo Salvador ainda não fora revelado nem conhecido no Antigo Testamento.
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Se o criador de Cerinto não conhece Deus, provavelmente é uma potência que conhece e ensina, não uma força material inconsciente.
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Por isso, a potência criadora separada de Deus parece só poder ser o Deus do Antigo Testamento.
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Irineu, contudo, não afirma isso claramente.
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A ausência dessa precisão em Cerinto torna a doutrina mais incerta.
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A doutrina atribuída a Cerinto pode ter sido sugerida por um cristianismo muito próximo dele, especialmente o joanino.
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Surge a questão de saber se Cerinto encontrou tais ideias em um gnosticismo anterior.
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Também se pode perguntar se uma doutrina cristã próxima não lhe sugeriu tais formulações.
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Irineu relata o encontro lendário entre o autor joanino e Cerinto nos banhos públicos.
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Segundo o relato de Irineu, o autor joanino, ao reconhecer Cerinto, saiu correndo dos banhos e gritou: “Fugi, para que o teto não caia, pois Cerinto, o inimigo da verdade, está aqui”.
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O relato talvez seja apenas lenda, pois tudo o que Irineu diz sobre o autor joanino deve ser tratado com cautela.
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Mesmo como lenda, ele mostra que, para Irineu, o autor joanino e Cerinto se conheciam.
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A cristologia do Quarto Evangelho contém uma dualidade que poderia ter favorecido a interpretação cerintiana.
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Por um lado, Jesus aparece como homem semelhante aos demais, nascido em Nazaré e considerado filho de José e Maria.
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Käsemann caracteriza a cristologia joanina como um docetismo ainda “ingênuo”, não reconhecido como perigo.
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L. Schottroff nega que se trate propriamente de docetismo, pois a humanidade de Jesus não é questionada.
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Schottroff mostra, porém, que o divino e o humano em Jesus joanino são como dois planos paralelos e distintos.
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De um lado, há um homem que nasce, vive e morre como todos.
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De outro, há um ser divino que habita nele, não sofre mudança ou limite real e não é verdadeiramente tocado pelo mundo.
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Essa forma de docetismo coincide com o que Irineu atribui a Cerinto.
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O docetismo de Cerinto poderia derivar do Evangelho de João, embora o autor joanino pudesse condenar uma dedução excessiva de suas próprias ideias.
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O autor joanino poderia ter combatido ideias derivadas das suas, mas levadas além delas.
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L. Schottroff tem dificuldade em explicar esse versículo segundo sua teoria.
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Mesmo assim, João 1:14 permanece no texto e não pode ser eliminado.
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Não é convincente afirmar, com Käsemann, que não há teologia da cruz em João.
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Para João, a cruz é vitória de Cristo, mas isso também ocorre em Paulo.
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O Quarto Evangelho admite tensões e contradições que Cerinto talvez tenha simplificado logicamente.
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João mantém escatologia presente e escatologia futurista.
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João opõe filhos de Deus e filhos do mundo como se houvesse duas origens primordiais.
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João também afirma que alguém pode tornar-se filho de Deus.
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João afirma que o Logos se fez carne.
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João diz que é preciso renascer para ser salvo, como se tudo no ser humano tivesse de mudar.
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João também sugere que o salvo pertence a Deus desde o princípio e estava destinado à salvação.
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O pensamento joanino não pode ser reduzido a sistema.
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A opinião atribuída a Cerinto simplificaria a cristologia joanina por uma lógica estrita que não corresponde ao estilo de João.
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Ainda assim, tal opinião pode ter surgido de reflexão sobre o Evangelho.
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A doutrina cerintiana da criação é muito mais difícil de deduzir do Quarto Evangelho do que sua cristologia.
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Cerinto, mesmo contradizendo certas afirmações de João, pode ter dependido dele.
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Ele talvez tenha levado às últimas consequências a atitude anticosmica e antijudaica joanina.
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Em João 17:25, o mundo não conheceu Deus.
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Em João 14:17, o mundo não pode receber o Espírito da verdade.
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Isso ainda não basta para dizer que o criador do mundo não conhece Deus.
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Uma conclusão mais extrema poderia surgir da união entre antijudaísmo e atitude anticosmica.
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João afirma frequentemente que os judeus não conhecem Deus.
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Os judeus pensam conhecer um Deus essencialmente criador do mundo.
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Poder-se-ia concluir primeiro que esse criador não é o verdadeiro Deus e depois que ele não conhece o verdadeiro Deus.
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Se foi o criador quem instruiu os judeus por sua Lei e não os instruiu sobre o verdadeiro Deus, seria porque não o conhecia.
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A doutrina da criação atribuída a Cerinto também contradiz João e talvez não seja tão antiga quanto seu docetismo.
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João afirma que o Antigo Testamento dá testemunho de Cristo.
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João não pensa que o Antigo Testamento ignorasse completamente a verdade sobre Deus.
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Cerinto teria ido muito além de João na crítica ao judaísmo.
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João ataca os judeus de seu tempo, mas não o Antigo Testamento.
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Irineu não apresenta em Cerinto um antijudaísmo profundo e apaixonado como o que aparece em Saturnilo.
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A doutrina da criação permanece fluida.
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Ela não afirma que o Criador seja o Deus do judaísmo.
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Ela também não afirma que ele seja um anjo.
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A doutrina parece posterior ao docetismo atribuído a Cerinto.
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Se João conheceu o docetismo de Cerinto, não parece ter conhecido sua doutrina da criação.
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Se a conhecesse, teria ficado tão indignado com ela quanto com o docetismo.
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Nenhuma outra obra do Novo Testamento parece conhecer claramente essa doutrina.
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Inácio de Antioquia conhece o docetismo, mas não demonstra claramente conhecer essa doutrina da criação.
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Irineu talvez tenha confundido Cerinto com uma escola posterior derivada dele.
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Irineu ou sua fonte talvez tenham deformado e exagerado as ideias de Cerinto sobre esse ponto.
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3. Tradições contraditórias sobre Cerinto
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As tradições antigas sobre Cerinto são confusas e contraditórias, o que torna incerto o retrato histórico apresentado por Irineu.
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Em algumas tradições, Cerinto aparece como ultra-joanino e gnóstico.
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Em outras, aparece como cristão judaico.
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Às vezes, como em Irineu, ele é inimigo do autor joanino.
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Em outras tradições, ele se confunde com o próprio autor joanino.
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Em Irineu e em Pseudo-Tertuliano, provavelmente dependente do Syntagma de Hipólito e inspirado por Irineu, Cerinto parece gnóstico.
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Cerinto teria defendido a necessidade da circuncisão para os cristãos.
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Teria se oposto a Pedro por batizar Cornélio, um pagão.
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Teria se oposto a Paulo por não circuncidar Tito.
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Os cerintianos teriam rejeitado as epístolas de Paulo.
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A pessoa e a doutrina de Cerinto já pareciam incertas quando se começou a falar dele.
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É difícil saber se Cerinto foi o primeiro gnóstico propriamente dito ou um representante de cristianismo judaico ainda mais intransigente que o de Tiago, irmão do Senhor.
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É difícil saber se ele foi o inimigo combatido por João nas epístolas e no Evangelho ou o próprio autor chamado João.
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As tradições sobre Cerinto só aparecem muito tempo depois da época em que ele teria vivido.
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Inácio não o conhece.
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Policarpo não o conhece.
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Hegesipo não o conhece.
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Justino não o conhece.
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Irineu o conhece apenas vagamente e fala de “um certo Cerinto na Ásia”.
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Irineu dá pouquíssimas informações sobre sua doutrina.
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Clemente de Alexandria não fala dele.
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Tertuliano não fala dele.
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A Epístola dos Apóstolos, apócrifo antignóstico provavelmente do século II, menciona Cerinto.
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Nessa obra, Cerinto é associado a Simão, o Mago, formando com ele um símbolo duplo da heresia.
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A Epístola dos Apóstolos não dá detalhes sobre sua doutrina.
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Cerinto já parece nela uma figura lendária.
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A combinação entre Cerinto gnóstico e Cerinto cristão judaico não se explica pela simples derivação do gnosticismo a partir do judaísmo.
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Alguns estudiosos modernos poderiam negar a contradição por considerarem que o gnosticismo deriva do judaísmo.
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Contudo, não é possível que um cristão judaico ensinasse que o verdadeiro Deus não é o criador do mundo e que esse criador não o conhece.
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A única ideia que vincularia Cerinto ao cristianismo judaico é a tese de que Jesus teria sido inicialmente apenas homem como os outros.
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Essa ideia também explica por que Irineu fala dos ebionitas logo depois de Cerinto.
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Fora essa cristologia, os ebionitas nada têm em comum com o Cerinto descrito por Irineu.
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Essa cristologia pode ser deduzida, de certo modo, do Evangelho de João.
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Por isso, é mais natural vincular Cerinto ao autor joanino do que ao cristianismo judaico.
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Os testemunhos que apresentam Cerinto como cristão judaico são tardios e menos confiáveis que os que o apresentam como gnóstico.
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Esses testemunhos são essencialmente os de Epifânio e Filastro.
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Filastro talvez apenas reproduza Epifânio, como pensou Carl Schmidt.
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Epifânio está longe de ser testemunha confiável.
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Epifânio é propenso a negligências, confusões e erros.
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Irineu é mais antigo e mais confiável.
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A Epístola dos Apóstolos associa Cerinto a Simão, o Mago, o que dificilmente ocorreria se ele não fosse tido como gnóstico.
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Os Alogi, segundo Epifânio, atribuíam as obras joaninas a Cerinto.
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O testemunho mais antigo sobre os Alogi parece ser o de Irineu em Contra as Heresias 3,11,9.
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Eles rejeitavam a ideia do Paráclito e o espírito profético, sendo provavelmente adversários dos montanistas.
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Epifânio diz que havia Alogi em Tiatira, cidade da Lídia onde o montanismo prosperou até depois de meados do século III.
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Irineu não os trata como hereges, mas como infelizes.
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Epifânio diz que concordavam com a Igreja em tudo, exceto quanto à autenticidade dos escritos joaninos.
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Isso indica que o viam mais como gnóstico que como cristão judaico.
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A transformação posterior de Cerinto em cristão judaico pode ser explicada por sua cristologia e por sua associação posterior ao Apocalipse.
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Mesmo se essa ideia vier de reflexão sobre João, ela aproxima Cerinto dos cristãos judaicos.
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Irineu fala dos ebionitas logo depois de Cerinto por causa dessa semelhança.
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Pseudo-Tertuliano faz de Ebion, suposto mestre dos ebionitas, o sucessor de Cerinto.
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Essa ideia absurda talvez já estivesse no Syntagma de Hipólito.
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Epifânio e Filastro, dependentes desse Syntagma, acabam fazendo de Cerinto uma espécie de ebionita.
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Epifânio parece até confundir Ebion com Cerinto.
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Lipsius já observara que a fonte de Epifânio sobre Cerinto devia tratar dos ebionitas, isto é, dos cristãos judaicos, e não de Cerinto.
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Como a Igreja considerava o Evangelho e o Apocalipse obras do mesmo autor, os Alogi também os aproximaram.
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Como os Alogi eram adversários do espírito profético e o Apocalipse é uma profecia, a atribuição do Apocalipse a Cerinto tornou-se conveniente.
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Daí surgiu um duplo retrato: Cerinto gnóstico a partir do Quarto Evangelho e Cerinto cristão judaico a partir do Apocalipse.
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Se há dois Cerintos, talvez seja porque há dois Joões.
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Como a tradição da Igreja uniu os dois autores joaninos, os Alogi também os uniram.
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A atribuição do Apocalipse a Cerinto favoreceu a construção de um Cerinto milenarista e judaizante.
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A autoridade do Apocalipse foi longamente discutida na Igreja.
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A ideia de que o Apocalipse fosse de Cerinto foi mais bem recebida que a atribuição do Quarto Evangelho a ele.
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A partir do século III, houve tendência a descrever a doutrina de Cerinto com base no Apocalipse.
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Caio, sacerdote romano do início do século III, atribui a Cerinto ideias encontradas no Apocalipse porque o considera seu autor.
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Dionísio de Alexandria conhece a opinião de que o Apocalipse era de Cerinto.
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Teodoreto pensa Cerinto como milenarista porque se apoia no Caio de Eusébio ou em Dionísio de Alexandria.
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A citação de Dionísio Bar-Salibi sobre Hipólito não prova com segurança que Hipólito já atribuísse a Cerinto todo o retrato judaico-cristão posterior.
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Caio sabia que alguns atribuíam também o Quarto Evangelho a Cerinto e compartilhava essa opinião.
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Dionísio Bar-Salibi, no século XII, preserva notícia sobre essa controvérsia.
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O mesmo trecho afirma que Cerinto ensinava a circuncisão, irritou-se com Paulo por não circuncidar Tito, chamou o apóstolo e seus discípulos de falsos apóstolos e operários fraudulentos, ensinou que o mundo foi criado por anjos, e falou de comida e bebida materiais e muitas blasfêmias.
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A partir das palavras “e o bem-aventurado Hipólito levantou-se”, o texto já não é citação direta de Hipólito.
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Pseudo-Tertuliano mostra confusão entre tradições gnósticas e judaico-cristãs sobre Cerinto.
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Pseudo-Tertuliano parece seguir Irineu de modo confuso.
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Atribui a Cerinto algumas ideias de Carpocrates, que em Irineu aparece imediatamente antes de Cerinto.
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Atribui a Carpocrates algumas ideias de Cerinto.
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Por isso, afirma que, para Cerinto, Cristo, isto é, Jesus, era apenas homem.
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Liga Cerinto ao cristianismo judaico ao fazer de Ebion seu sucessor.
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Ao mesmo tempo, atribui a Cerinto a ideia de que o mundo foi criado pelos anjos.
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Também lhe atribui a ideia de que o Deus dos judeus é apenas um anjo.
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Também lhe atribui a ideia de que a Lei vem dos anjos.
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Essas ideias são claramente gnósticas.
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Cerinto, se existiu, foi provavelmente mais gnóstico que cristão judaico.
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O retrato do Cerinto cristão judaico parece obra de heresiólogos relativamente tardios.
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Também foram enganados pela cristologia de Cerinto, que o aproxima dos ebionitas, embora provavelmente derive de outra fonte.
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Foram ainda enganados porque alguns cristãos, que talvez inicialmente atribuíssem apenas o Quarto Evangelho a Cerinto, passaram a atribuir-lhe também o Apocalipse e as ideias nele encontradas.
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A oposição entre Cerinto e o autor joanino pode ser explicada pela semelhança entre suas doutrinas e pela radicalização cerintiana de temas joaninos.
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A cristologia de Cerinto pode ter sido deduzida do Quarto Evangelho por alguém que buscava sistematizá-lo.
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A ideia de que o mundo vem não do verdadeiro Deus, mas de uma potência inferior, pode ser dedução extrema da atitude anticosmica e antijudaica joanina.
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Cerinto pode ter sido discípulo do autor joanino.
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Ele teria ido além do mestre, deduzindo do ensinamento dele ideias que o próprio autor joanino não professava.
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Seria natural que o autor joanino protestasse contra essa interpretação de sua doutrina e rejeitasse Cerinto com horror.
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Isso explicaria ao mesmo tempo a hostilidade e a semelhança entre ambos.
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O Quarto Evangelho não precisa ser entendido como escrito contra Cerinto.
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Ele parece antes dirigido contra a incredulidade dos judeus ortodoxos.
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A Primeira e a Segunda Epístola de João, provavelmente posteriores ao Evangelho, podem atacar interpretações docéticas que Cerinto alegava tirar dele.
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Os Alogi talvez tenham atribuído as obras joaninas a Cerinto por perceberem a semelhança das doutrinas.
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Também podem ter explorado essa semelhança para atacar o Evangelho de João por meio de Cerinto, como cristãos judaicos atacaram Paulo por meio de Simão.
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4. Algumas razões para duvidar de sua existência
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O retrato coerente de Cerinto permanece incerto, pois sua doutrina combina elementos de épocas diferentes e só é testemunhada tardiamente.
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O retrato reconstruído retorna em parte ao de Irineu.
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Contudo, o retrato de Irineu é vago e abstrato.
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A doutrina nele apresentada reúne duas ideias que não parecem pertencer exatamente ao mesmo momento.
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Cerinto só é mencionado muito depois do tempo em que teria vivido.
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Justino, que esteve em Éfeso, não o conhece.
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Inácio de Antioquia conhece o docetismo, mas não menciona Cerinto.
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Inácio também não demonstra conhecer hereges que distinguissem o verdadeiro Deus do Criador.
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Na Epístola dos Apóstolos, talvez a obra mais antiga que o menciona, Cerinto já parece figura lendária e quase mítica.
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Ele aparece como símbolo do herege, ao lado de Simão, o Mago.
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A existência de Cerinto pode ser questionada porque Irineu lhe atribui ideias gerais dos gnósticos do século II.
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Eugene de Faye observa que Irineu atribui a Cerinto ideias geralmente próprias dos gnósticos do século II.
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Uma doutrina comum e banal na segunda geração gnóstica dificilmente teria sido preservada intacta por um século.
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Uma ideia particular ou traço marcante poderia sobreviver à memória de seu autor.
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Doutrinas inteiras, compostas por elementos comuns a sistemas posteriores, seriam facilmente confundidas com outros sistemas.
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O relato de Filastro é cheio de confusões ainda mais estranhas.
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O mesmo pode ser dito de Epifânio, de quem Filastro talvez dependa.
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A ideia singular de que Cristo ainda não ressuscitou talvez derive de erro de interpretação de Epifânio.
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Eugene de Faye considera essa ideia uma marca distintiva de Cerinto.
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Caius, citado por Eusébio, afirma que Cerinto ensinava que, após a ressurreição, o reino de Cristo seria terreno.
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Caius também afirma que a carne reviveria em Jerusalém e serviria às paixões e prazeres.
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A “ressurreição” mencionada por Caius provavelmente se refere à ressurreição geral, não à ressurreição de Cristo.
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Epifânio talvez tenha interpretado erroneamente essa palavra como se tratasse da ressurreição de Cristo.
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Epifânio também se contradiz.
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Em Panarion 28,6, afirma que, segundo Cerinto, Cristo ainda não ressuscitou.
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Em Panarion 28,1, afirma que, segundo Cerinto, Cristo ressuscitou.
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Não há razão suficiente para atribuir a Cerinto essa ideia singular.
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Certas tradições heresiológicas aproximam Cerinto demais dos coríntios de Paulo, o que pode indicar confusão nominal.
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Epifânio afirma que 1 Coríntios 15 foi dirigida contra Cerinto.
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Segundo Epifânio, alguns cerintianos negavam a ressurreição.
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Paulo diz algo semelhante sobre certos coríntios em 1 Coríntios 15:12.
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Epifânio afirma também que havia entre os cerintianos um batismo pelos mortos.
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Esse costume existia entre os coríntios, conforme 1 Coríntios 15:29.
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Epifânio afirma que Paulo chamou Cerinto e seus discípulos de “falsos apóstolos e operários de iniquidade”.
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Isso implica que 2 Coríntios também teria sido escrita contra Cerinto, conforme 2 Coríntios 11:13.
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Teodoro Bar-Konai afirma que Cerinto pertencia a uma família judaica e vivia em Corinto.
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Os vínculos entre Cerinto, Corinto, cerintianos e coríntios sugerem possível confusão por semelhança de nomes.
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Essa confusão poderia ter surgido entre cristãos orientais que falavam línguas nas quais apenas as consoantes eram escritas.
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Em grego, a confusão seria mais difícil, pois “coríntio” é korinthios, enquanto “cerintiano” é kerinthianos.
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Em uma língua oriental, a confusão entre cerintianos e coríntios poderia ser mais fácil.
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Epifânio, palestino e conhecedor de línguas semíticas, pode ter encontrado a confusão em suas fontes orientais.
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Um heresiarca chamado Cerinto poderia ter sido criado a partir de “coríntios”, como o heresiarca Ebion foi criado a partir dos ebionitas.
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O nome Cerinto poderia ter sido escolhido porque, em grego, Corinto era apenas nome de cidade, enquanto Cerinto também podia ser nome masculino.
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A hipótese de uma ligação entre Cerinto e Apolo permanece especulativa, mas se apoia em alguns indícios.
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Se Cerinto é nome formado a partir dos “hereges” coríntios, Apolo e Cerinto poderiam ser o mesmo homem.
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Apolo poderia ter sido chamado “o coríntio” ou “Corinto” por adversários que queriam recordar sua intervenção infeliz em Corinto.
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Essa hipótese é muito arriscada e não necessária.
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Hipólito, no Elenchos, afirma que Cerinto foi “instruído no Egito” ou “instruído na escola dos egípcios”.
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A informação sobre o Egito é a única diferença e aparece toda vez que Hipólito fala de Cerinto.
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Hipólito, portanto, considerava essa informação certa.
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Carl Schmidt explica a notícia pelo desejo de Hipólito de ligar heresias gnósticas à filosofia grega, cultivada principalmente no Egito.
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O testemunho de Hipólito não é desprezível, pois no Elenchos ele é mais erudito que no Syntagma.
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Ele pode ter lido a informação em Caius, em algum Alogi ou em Praxeas, adversário dos montanistas.
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A notícia de origem egípcia não contradiz Irineu, pois alguém de origem egípcia poderia ter ensinado na província da Ásia.
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Apolo também era de origem egípcia.
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A atribuição do Quarto Evangelho a Cerinto pelos Alogi pode aproximar-se da hipótese de uma ligação com Apolo, mas permanece incerta.
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Se “cerintianos” for deformação de “coríntios”, e se Cerinto foi derivado desse nome, a afirmação dos Alogi se aproximaria da hipótese de uma autoria ligada a Apolo.
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Se Cerinto for deformação de algum apelido dado a Apolo, a aproximação também seria possível.
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Essas especulações são provavelmente arriscadas demais.
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A dúvida sobre a historicidade de Cerinto baseia-se sobretudo no fato de que os heresiólogos só o conhecem muito tempo depois de sua suposta vida.
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Também se baseia no fato de que se sabe muito pouco sobre ele.
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A semelhança entre seu nome e Corinto apenas lança uma sombra sugestiva sobre possível invenção do heresiarca.
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5. Conclusão
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A figura de Cerinto permanece cercada de obscuridade, e até sua existência pode ser posta em dúvida.
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Cerinto pode ter sido inventado para explicar o nome de uma seita.
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A própria seita é misteriosa, ao menos se tiver relação com os coríntios de Paulo.
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Os coríntios parecem ter desaparecido muito rapidamente.
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Também é possível que alguém de outro nome tenha recebido o nome Cerinto.
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Se Cerinto existiu, não é impossível que tenha sido o autor do Evangelho de João, como sustentavam os Alogi.
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Os Alogi vinham da mesma região de onde procede o Evangelho.
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A hipótese que liga Apolo ao Quarto Evangelho não pode ser assegurada.
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O autor poderia ter sido um certo Cerinto.
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Se a atribuição a João apóstolo é impossível e se se busca uma tradição antiga alternativa, a atribuição a Cerinto ao menos existe na Antiguidade.
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A atribuição a João, o presbítero, por exemplo, não possui o mesmo tipo de testemunho antigo.
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Renan considerou possível, ainda que obscura, a ligação de Cerinto com os escritos joaninos.
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Renan escreveu que Cerinto parece ser um dos artífices desses livros singulares.
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Cerinto passa ao mesmo tempo por adversário que os escritos joaninos querem vencer e por verdadeiro autor desses escritos.
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A obscuridade da questão joanina é tamanha que não se pode dizer que essa última atribuição seja impossível.
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Essa atribuição explicaria o mistério sobre onde esteve o Quarto Evangelho durante quase cinquenta anos.
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Também explicaria a forte oposição feita a ele.
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A paixão particular com que Epifânio combate essa ideia poderia sugerir que ela não era infundada.
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A hipótese de Cerinto como autor do Quarto Evangelho é hoje geralmente rejeitada, mas essa rejeição talvez dependa de uma imagem exagerada dos hereges.
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Significaria também que sua doutrina foi seriamente deformada.
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O juízo sobre ele deveria então ser feito a partir do Quarto Evangelho.
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Se Cerinto existiu e não escreveu o Quarto Evangelho, ainda assim parece ter tido relação com seu autor.
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O tipo de docetismo atribuído a Cerinto pode ser ligado a ideias joaninas.
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Cerinto talvez tenha pertencido ao grupo que, segundo 1 João 2:18—19, separou-se do autor joanino.
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Pode ter distinguido essas naturezas tão fortemente que acabou criando duas pessoas.
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Em uma primeira tentativa de formulação, não é surpreendente que o alvo tenha sido ultrapassado e precisasse de correção.
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A teoria atribuída a Cerinto sobre a criação do mundo pode resultar de confusão de Irineu com gnósticos do século II.
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Irineu provavelmente confundiu, nesse ponto, a doutrina de Cerinto com a dos gnósticos posteriores, como talvez fez no caso de Simão.
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Cerinto, ou o grupo de discípulos separado do autor joanino, talvez se opusesse a esse autor apenas no docetismo.
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Como o autor joanino, Cerinto talvez pensasse que o mundo não conhece Deus.
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Também talvez pensasse que o mundo é dominado por uma potência muito diferente e distante do Pai.
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Permanece duvidoso que essa potência fosse criadora para Cerinto.
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Não há traço dessa doutrina entre escritores cristãos antes de cerca de 110.
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Não há em Cerinto outros traços que confirmem, por exemplo, um antijudaísmo mais radical que o de João.
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Ainda assim, essa doutrina poderia ter sido deduzida do Evangelho de João por alguém que levou ao extremo suas tendências anticosmicas e antijudaicas.
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Ela talvez testemunhe o mesmo cuidado analítico e a mesma preocupação de distinguir claramente que aparecem na cristologia atribuída a Cerinto.
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A possível doutrina cerintiana da potência criadora poderia ser uma tentativa de resolver tensões internas do Evangelho de João.
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De modo semelhante, ele poderia tentar explicar por que o mundo aparece em João ora como obra de Deus, ora como inimigo de Deus.
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Em João 12:47, Cristo diz que veio salvar o mundo.
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Em João 6:33 e 6,51, Cristo é associado à vida dada ao mundo.
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Em João 17:9, Cristo afirma: “Não rogo pelo mundo”.
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Para evitar essa contradição aparente, Cerinto talvez tenha distinguido entre o que é “de Deus” e procede diretamente dele e o que é “do mundo”.
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O que é “do mundo” procederia de Deus apenas por intermédio do mundo.
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Se o mundo está contra Deus, parece difícil dizer que ele procede diretamente de Deus.
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Cerinto pode ter inventado um novo intermediário, uma potência criadora do mundo que não era Deus nem o Logos.
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Essa potência seria distante e separada de Deus e do Logos, embora procedesse deles em última instância.
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É provável que, para Cerinto, essa potência não fosse um princípio absoluto como um segundo Deus.
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Ir tão longe equivaleria a chegar de uma vez ao maniqueísmo, que só apareceu no século III.
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Quando Irineu fala de “primeiro Deus”, parece sugerir um segundo, mas essa linguagem heresiológica não é precisa.
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Mesmo nos gnósticos do século II, a potência inferior não era propriamente um “Deus”.
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Para nomear o suposto segundo Deus, Irineu usa o termo vago “potência”.
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