ATOS DE PEDRO E DOS DOZE APÓSTOLOS
Biblioteca de Nag Hammadi: The Acts of Peter and the Twelve Apostles; Les Actes de Pierre et des douze apôtres
Kuntzmann & Dubois
Litargoel domina este texto. E Litargoel é Cristo, a pérola, “o Deus da pedra chamejante”, que talvez evoque Ap 2,17. Disfarçado sucessivamente de comerciante de pérolas e depois de médico, Litargoel convida Pedro e os apóstolos a irem em sua cidade adquirir pérolas. Mas a viagem é difícil, pois para tanto precisam renunciar aos alimentos e aos apegos materiais:
Pedro respondeu, dizendo o que ouviu sobre as (penas) do caminho: “Certos (homens) penam, a saber, em seu ministério”. E disse ao homem que oferecia essa pérola: “Eu quero conhecer teu nome e as penas do caminho (que leva) à tua cidade, pois nós somos estrangeiros e servos de Deus. Nós devemos propagar a palavra de Deus com alegria em cada cidade”. Ele respondeu: “Já que pedes meu nome, Litargoel é meu nome, que se traduz como 'pedra de gazela rápida'. Como também perguntaste sobre o caminho da cidade, mostrar-to-ei. Não é qualquer que pode tomar esse caminho, a não ser que renuncie a tudo o que possui e jejue todo dia, de um lugar de repouso ao outro. Com efeito, são numerosos os ladrões e as feras selvagens nesse caminho. Quem levar pão consigo no caminho, os cães negros matá-lo-ão por causa do pão. Quem levar sobre si um precioso manto do mundo os ladrões matá-lo-ão por causa do manto. Quem (tiver) água (consigo, os) lobos (o irão o matar por) causa (da água), pois estão sedentos (dela). (Quem) se preocupar com a (carne) e (com os) legumes, os leões matarão por causa da carne. E, se ele escapa dos leões, os touros o devorarão por causa dos legumes” (p. 5,3-6,8).
Ameaçados pelos ladrões, Pedro e os seus reveem Litargoel em vestes de médico, seguido de um discípulo com o estojo medicinal. A cena do reconhecimento permite-nos valorizar o papel de Pedro e identificar Litargoel a Cristo:
Eis que Litargoel saiu: ele se havia disfarçado para nós, estando sob o aspecto de médico. Tinha medicamento de nardo sob o braço e um jovem aluno o seguia, levando uma caixa cheia de medicamentos. Nós não o reconhecemos. Pedro tomou a palavra e disse-lhe: “Por favor, presta-nos hospitalidade, pois somos estrangeiros, e faz com que sejamos recebidos na casa de Litargoel antes que caia a noite”. Ele disse: “De bom grado a mostrarei a vós, mas surpreende-me de que conheceis esse homem de bem. Com efeito, ele não tem o hábito de se manifestar a qualquer, já que ele próprio é Filho de grande rei. Repousai um pouco, apenas o tempo de procurar esse homem e voltar”. Ele se afasta e volta rapidamente. E diz a Pedro: “Pedro!” Pedro ficou atônito: como sabia ele que seu nome era Pedro? Pedro respondeu ao Salvador: “De onde me conheces, para que me tenhas chamado por meu nome?” Litargoel respondeu: “Quero perguntar-te quem te deu o nome de Pedro”. Ele lhe disse: “Jesus Cristo, o Filho de Deus vivo: foi ele quem me deu este nome” (Cf. Mt 16, 16-18). Litargoel retomou a palavra, dizendo: “Sou eu. Reconhece-me, Pedro”. Tirou o manto que levava sobre ele, graças ao qual se havia disfarçado para nós, manifestando-nos (agora) verdadeiramente quem era ele. Nós nos lançamos por terra e o adoramos, nós, os onze discípulos. Ele estendeu a mão, levantou-nos e nós falamos humildemente com ele. Nossas cabeças estavam modestamente inclinadas quando lhe dizíamos: “Faremos aquilo que quiseres, mas dá-nos força que nos permita fazer o que desejas a qualquer tempo”. E ele lhes dá o nardo medicinal e a caixa que estava na mão do discípulo (p. 8,13-9,32).
O Senhor enviou-os a serviço dos doentes e dos pobres, alertando-os quanto a frequentar os ricos:
Pedro tomou a palavra e disse-lhe: “Senhor, foste tu que nos ensinaste a renunciar ao mundo e a todas as coisas que lhe pertencem. Nós as abandonamos por tua causa. Preocupa-mo-nos unicamente com o alimento para um dia. Onde poderemos encontrar o necessário que tu nos pedes para dá-lo aos pobres?” Respondendo, disse o Senhor: “Ó, Pedro, será conveniente que conheças (o sentido) da parábola que eu disse. Tu não sabes que meu nome, que tu ensinas, é superior a toda Riqueza? E que a sabedoria de Deus é superior ao ouro, ao dinheiro, à pedra de grande valor?” E deu-lhes a caixa de medicamentos, dizendo-lhes: “Curai todos os doentes da cidade que creem em meu nome” (p. 10,14-11,1).
“Quanto aos ricos desta cidade, eles que não se julgaram dignos sequer de me interrogar, mas que se comprazem em sua riqueza e em seu desprezo pelos homens, portanto, não comais com as pessoas desse tipo em suas casas. E também não façais amizade com elas. Não vos deixeis influenciar por sua parcialidade, pois uma multidão tomou o partido dos ricos. São aqueles que cometem pecados nas assembleias e levam outros a fazê-lo. Mas julgai-os com equidade, para que vosso ministério seja honrado e eu também e para que meu nome seja honrado nas assembleias” (p. 11,26-12,13).
Assim, o leitor toma conhecimento de que a revelação do Senhor a Pedro e aos apóstolos é parábola construída sobre simbolismo conhecido do Novo Testamento, ou seja, o pobre, o rico, o doente, a pedra preciosa, a viagem, o Cristo curador. O texto visa essencialmente a clarificar a atitude apostólica dos ministros itinerantes do Evangelho, na perspectiva de Mt 10,5-15 e paralelos. Deve-se notar também a insistência no respeito ao pobre na assembleia cristã, o que lembra a reação de Apóstolo São Paulo em 1Cor 11,17-22.
Este escrito remete a uma Igreja que procura situar-se diante do Gnosticismo nascente. O vocabulário gnóstico já é perceptível em termos como mundo, médico, pérola e abstenção, mas os Apotegmas dos Padres também parecem ter inspirado este vademécum apostólico.
Madeleine Scopello
MEYER, Marvin W. The Nag Hammadi Scriptures: The Revised and Updated Translation of Sacred Gnostic Texts Complete in One Volume. London: HarperCollins Publishers, 2009.
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O Códice VI de Nag Hammadi contém uma ampla variedade de tratados — oito de diferentes orientações, três dos quais pertencem à gnose hermética —, sendo o tratado de abertura os Atos de Pedro e dos Doze Apóstolos.
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O tratado está bem preservado e ocupa as páginas 1, 1–12, 22 do códice
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É uma tradução copta de um original grego perdido, com título ao final do texto — possivelmente um acréscimo posterior às linhas finais que descrevem os apóstolos adorando Cristo
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Esse tratado altamente alegórico abre-se com um relato proferido pelo apóstolo Pedro, que narra como, algum tempo após a crucificação, ele e seus companheiros embarcam em um navio para cumprir o ministério confiado a eles por Cristo; após navegarem um dia e uma noite, o vento os leva a uma pequena cidade no meio do mar chamada “Persevera-na-paciência”.
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No cais, Pedro encontra um homem de bela aparência — cujo corpo é apenas parcialmente visível — carregando um livro e uma caixa de madeira preciosa, que grita “Pérolas! Pérolas!” — 2, 10–32
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O anúncio das pérolas atrai a atenção dos ricos apenas por um brevíssimo momento; os pobres, ao contrário, rodeiam o homem, ansiosos para ver uma pérola brilhante, ainda que não possam comprá-la
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O mercador estrangeiro diz-lhes que poderão ver a pérola se concordarem em ir à sua cidade, e que poderão até possuí-la, se assim desejarem — ele a oferecerá graciosamente — 3, 14–5, 1
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Pedro pede ao homem que revele seu nome e informe sobre as dificuldades da viagem até sua cidade, pois ele e seus companheiros têm a missão de difundir a palavra de Deus em toda parte — 5, 8–14
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O mercador revela seu nome — Litargoel — e seu significado: “pedra brilhante de luz” — um nome apropriado para alguém que vende artigos de luxo
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Litargoel descreve o caminho até sua cidade, nomeada segundo seus nove portões, acessível apenas àqueles que deixaram tudo para trás — alusão ao conhecido tema da renúncia —; o caminho é extremamente perigoso, com ataques de ladrões e animais selvagens.
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Após uma visão dramática de uma cidade rodeada por ondas e muralhas, Pedro parte com seus companheiros e evitam os perigos da estrada graças aos conselhos do mercador
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Ao chegarem aos portões da cidade, Litargoel vem ao encontro deles não mais como mercador, mas como médico, carregando uma caixa de unguentos e seguido por um jovem discípulo com uma bolsa cheia de remédios — 8, 14–19
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Os apóstolos não reconhecem Litargoel de imediato; pouco depois, o misterioso médico revela-se como Cristo — 9, 2–19
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Cristo exorta os discípulos a curar os doentes da cidade que creem em seu nome e oferece-lhes sua bolsa de remédios
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João observa que ele e seus companheiros não foram ensinados a curar; Cristo responde: “Os médicos deste mundo curam o que é do mundo, mas os médicos das almas curam o coração” — 11, 16–19
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Cristo os aconselha a curar primeiro os corpos sem medicamentos mundanos, para que as pessoas credam em seu poder de curar as doenças do coração
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Após um aviso final sobre os ricos que estão até dentro das igrejas — uma crítica ao cristianismo ortodoxo —, o tratado encerra-se com os apóstolos prostrando-se diante de Cristo e o adorando
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No estilo vivaz do romance, os Atos de Pedro e dos Doze Apóstolos aborda o tema das viagens missionárias dos apóstolos, motivo desenvolvido especialmente nos atos apócrifos dos apóstolos.
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Um paralelo interessante pode ser traçado com os Atos de Filipe: nesse texto, Filipe chega à cidade de Azoto, no litoral da Palestina — 3.15 —, após uma perigosa viagem desde Candace, na Etiópia, e ao alcançar os portões da cidade pede um lugar para se hospedar
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Como em vários atos apócrifos, o autor foca na necessidade de renúncia às posses mundanas para ser salvo
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Animais selvagens e bandidos são encontrados com frequência em textos apócrifos, gnósticos e monásticos que descrevem as tentações sofridas por quem busca a verdade
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O símbolo da pérola é central no presente texto: também conhecido pelo famoso Hino da Pérola nos apócrifos Atos de Tomé, a pérola simboliza aqui a salvação espiritual.
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O nome Litargoel é composto de duas palavras gregas — lithos, “pedra”, e argos, “brilhante” — seguidas do sufixo honorífico semítico el, que remete a Deus e aparece frequentemente em nomes angélicos
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Andrea Lorenzo Molinari observa que a figura do mercador de pérolas Litargoel poderia ser compreendida como “a pérola de Deus”, possível referência à parábola da pérola em Mateus 13,46
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Nos Atos de Pedro e dos Doze Apóstolos, Litargoel é uma figura central, retratada com múltiplas formas, aparecendo como Cristo e como médico santo
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O tema do médico de origem estrangeira que cura corpos e almas é outro elemento-chave dos Atos de Pedro e dos Doze Apóstolos, encontrado também na Doutrina do Apóstolo Addai — texto sírio do século V dependente de tradições anteriores — e nos Atos de Filipe 5 — texto também posterior ao original grego dos Atos de Pedro e dos Doze Apóstolos.
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Esse fato sugere que os Atos de Pedro e dos Doze Apóstolos podem ter influenciado outros textos cristãos primitivos, particularmente o quinto Ato de Filipe, composto na Ásia Menor no final do século IV
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A ênfase colocada na pobreza e na renúncia ao mundo levanta a questão de saber se os Atos de Pedro e dos Doze Apóstolos é um texto gnóstico ou simplesmente um tratado usado pelos gnósticos em razão da presença de temas que lhes eram familiares
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O tratado foi compreendido por Martin Krause, Douglas M. Parrott e R. McL. Wilson como sendo composto, consistindo possivelmente de quatro seções principais — ou duas seções principais, segundo Andrea Lorenzo Molinari: uma introdução; a história do encontro de Pedro com o mercador de pérolas e a reação dos ricos e pobres; o relato da viagem de Pedro e seus companheiros à cidade de Litargoel, com a visão de Pedro; e a revelação de Litargoel como médico e Cristo.
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Há algumas contradições entre essas quatro seções, sendo possível que tenham sido reunidas por um editor que utilizou parábolas já disponíveis para comunicar um episódio da missão apostólica
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A data de composição do tratado pode ser atribuída ao final do segundo século ou ao início do terceiro — data que vários paralelos com o Pastor de Hermas parecem corroborar
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