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APÓCRIFO DE JOÃO

Biblioteca de Nag Hammadi: inglês; Livre des secrets de Jean

Frederik Wisse

Trata-se de um importante trabalho de Gnosticismo mitológico. Usando a estrutura de uma revelação dada pelo Cristo ressuscitado a João, o Filho de Zebedeu. Oferece uma descrição clara e notável da criação, queda e salvação da humanidade; a descrição mitológica se desenvolve em termos similares aos primeiros capítulos do Gênesis. Relatos do primeiros Padres indicam que tinham alguma familiaridade com este trabalho, o que indica que este tratado devia estar circulando antes do final do século II DC.

O tratado oferece respostas a duas questões básicas: Qual a origem do mal? Como se pode escapar deste mundo mau para nossa morada celestial? A cosmogonia, apesar dos detalhes exóticos, busca também respostas as estas questões. A suprema Deidade é definida em termos de conceito abstrato grego de perfeição, uma perfeição que exclui todo antropomorfismo e todo envolvimento no mundo. Desta suprema deidade emana uma série de seres-luminosos, incluindo o Cristo e sophia.

De acordo com o tratado, a queda se dá quando Sophia deseja produzir um ser sem a aprovação do grande Espírito ou seu consorte. Consequentemente, ela produz um Deus-criador monstruoso Yaldabaoth, que ainda possui algum poder-luminoso de sua mãe. Yaldabaoth cria anjos para governar o mundo e ajudar na criação do homem; o homem ele mesmo é moldado depois à imagem do Pai perfeito, que foi espelhado na água. O Homem vem à vida quando Yaldabaoth é enganado para soprar poder-luminoso nele. Assim começa um combate incessante entre os poderes da luz e os poderes da escuridão pela posse das partículas divinas no homem. Os poderes do mal põe o homem em um corpo material para mantê-lo prisioneiro, e também criam a mulher e o desejo sexual para espalhar as partículas da luz e tornar a fuga mais difícil. Finalmente o Cristo é enviado para salvar a humanidade para relembrar às pessoas sua origem celestial. Somente aqueles que possuem este conhecimento e viveram vidas ascéticas podem retornar ao reino da luz; os outros reencarnam-se até alcançar o conhecimento salvador.

Bentley Layton

O “Livro Secreto de acordo com João” contém uma das narrativas mais clássicas do mito gnóstico (v. ESCRITURA GNÓSTICA CLÁSSICA). Após uma descrição filosófica de deus como a fonte de todo ser, o autor gnóstico segue descrevendo a estrutura do mundo Divino em complexidade gloriosa, afirmando, “o que aconteceu antes do Gênesis 1:1”. Depois deste pesado prelúdio, os eventos da história do Gênesis são recontados de uma perspectiva gnóstica. A história termina com a exortação do salvador gnóstico da raça humana para “despertar” e ser salva.

Além da complexidade e terminologia do preâmbulo à criação relatada no Gênesis, e ao desdobramento ampliado do relato do Gênesis, depreende-se que o criador do mundo material identificado como deus no Gênesis, não é o verdadeiro deus mas Satã (aí denominado Ialdabaoth e Saklas). Além do mais a criação de Adão é bem mais complexa do que no Gênesis: uma criação dupla — primeiro um Adão “animado” feito apenas de alma, embora com partes anatômicas, e segundo uma casca para abrigá-lo.

O relato do Gênesis assim desdobrado de modo mais complexo vai atá o nascimento de Set; depois disso segue a história subsequente da raça humana em termos gerais, dentro do contexto do discurso teológico sobre a atividade do Espírito Santo. Nada é dito da história de Israel, nem sobre Jesus como uma encarnação do Cristo pré-existente. No entanto, Cristo (“o ungido”) é uma figura importante do mito.

Toda esta narrativa do mito gnóstico está encapsulada dentro de uma estória que parece implicar que o conteúdo da obra é um ensinamento pós-ressurreição de Jesus. O que confirma a crença gnóstica que depois de sua ressurreição Jesus permaneceu na terra por 18 meses e ensinou a “verdade plena”. Entretanto em termos do mito gnóstico a identidade do revelador não é Jesus mas Barbelo, o segundo princípio, talvez aqui manifestado como a reflexão da luz.

O autor e lugar da composição são desconhecidos. A data é provavelmente final do século II. A língua da composição é grega. O plano da obra é o seguinte:

  • Romance (atos apócrifos dos apóstolos)
  • Revelação angélica e diálogo de revelação
  • Tratado
  • Cosmogonia e uranografia
  • “História Verdadeira” da humanidade
  • Monólogo de Sabedoria

Kuntzmann & Dubois

Este tratado chegou ao nosso conhecimento depois de quatro recensões, duas mais longas (Códice 11,1 e IV,1) e duas mais curtas (111,1 e BG,2). Aparentemente, trata-se de revelação fictícia de Cristo ressuscitado a João, filho de Zebedeu. Mas, em profundidade, é descrição das origens do mundo, da queda e da salvação do homem, respondendo a duas questões típicas dos gnósticos: 1) Qual é a origem do mal no mundo? 2) Como é que o homem pode escapar desse mal e voltar à pátria celeste?

Para responder a essas interrogações, o autor relê os primeiros capítulos de Gênesis em perspectiva gnóstica e antijudaica. A estrutura da divindade tem em seu ponto culminante o Ser sem misturas, apresentado segundo fraseologia característica (p. 2,33-3,17):

Como ele é o Espírito invisível, não convém pensá-lo como deus ou de qualquer outro modo, pois ele está além de deus, já que ninguém está acima dele e que ele não é dominado por ninguém, não havendo nele nada de inferior porque o melhor está nele, sendo ele o único absolutamente perfeito porque ele não tem necessidade de nada, já que todo ele é perfeição, não carecendo de nada que pudesse torná-lo mais perfeito. Ele é invariável e absolutamente perfeito na luz: incircunscritível, porque ninguém o precede para circunscrevê-lo; indistinto, porque ninguém o precede para impor-lhe uma distinção; incomensurável, pelo fato de que ninguém o precede para medi-lo; invisível, porque ninguém o vê; eterno, porque sempre existente; inexprimível, porque ninguém pode captá-lo para o expressar; inominável, porque ninguém o precede para nomeá-lo.

É desse ser que derivam as entidades luminosas, que são qualidades personificadas, entre as quais Cristo e Sofia, a Sabedoria. Pode-se constatar que se trata de sistema emanacionista complicado, com base na etimologia dos nomes divinos. No estado atual das pesquisas, grande parte desse simbolismo ainda nos escapa, mas o sistema visa basicamente a ilustrar a derivação divina do homem e sua capacidade de voltar ao mundo transcendente após o seu périplo terrestre.

A origem do mal no mundo é debitada à inconsciência de Sofia, que põe no mundo o monstruoso deus Ialdabaôth (de yâlad, gerar, e sabaoth, forças) sem o consentimento de seu esposo, o Grande Espírito (p. 9,25-10,19):

A Sabedoria, que é Eão, reflete por seu próprio pensamento e pela reflexão do Espírito invisível e da presciência. Ela desejava tornar manifesto aquilo que se parecia com o que ela pensava, sem esperar pela vontade do Espírito — que não estava de acordo — nem por sua concordância e aprovação. Devido ao desacordo da pessoa de seu parceiro, ela não encontra sua anuência (e, enquanto solicitava consentimento), fora da vontade do Espírito e do reconhecimento de seu cônjuge, então operou-se a saída.

Presa da força irresistível que existe nela, seu pensamento não permaneceu improdutivo e (foi então que) apareceu, vindo dela, um produto incompleto e discordante, porque ela o havia criado sem seu cônjuge. Ele não se parecia em nada com o aspecto de sua mãe, sendo de forma diferente.

Quando ela (= Sofia) se deu conta de que o objeto de seu desejo havia tomado a forma disparatada de serpente com boca de leão, com os olhos crepitantes e flamejantes de relâmpagos, então afastou-o para longe dela e dos lugares para que nenhum dos imortais pudesse vê-lo, pois ela o havia criado por ignorância. Ela o cerca então de nuvem luminosa e coloca um trono no meio dessa nuvem, de modo a que ninguém o visse, exceto o Espírito Santo, que chamamos Mãe dos Vivos e que lhe dá o nome de Ialdabaôth.

Ialdabaôth torna-se então o verdadeiro demiurgo criador. E põe-se freneticamente em ação, criando as 365 Forças celestes e, finalmente, também o homem, produzido segundo a imagem do Pai perfeito refletido na água. Mais de nove páginas são consagradas à produção dos Arcontes. O homem nasceu de um acidente: a pedido das Forças, Ialdabaôth sopra um pneuma no corpo psíquico que elas fabricaram (p. 19,15-20,9):

Então, ele soprou sobre o rosto (de Adão) o seu sopro, que é a força de sua mãe, o que ele próprio (= Ialdabaôth) não sabia, pois estava na ignorância. E a força da mãe saiu de Ialdabaôth (e) penetrou no corpo psíquico que eles haviam construído segundo a imagem de (Homem) primordial. E o corpo se moveu, cheio de energia e luz.

No mesmo instante, isso provocou o ciúme do resto das forças, pelo fato de que o homem, que, com efeito, havia saído de todas elas e ao qual elas haviam dado sua força, tinha inteligência bem mais penetrante do que a de seus criadores e bem maior do que a do primeiro arconte. Compreendendo que ele era luminoso, tinha mais ideias que elas e se havia despojado do vício, elas então o raptaram e o jogaram nas partes inferiores da imensa matéria.

Mesmo no mundo da matéria mais afastada do mundo espiritual, o homem, radioso da luz do alto, continuará sendo objeto da luta das Forças da luz, desejosas de salvá-lo, e das Forças das trevas, que juraram fazê-lo perder-se. Mas o ciúme destas últimas choca-se com a misericórdia do Pai perfeito. É preciso ler a interpretação gnóstica de Gênesis 2-3 para constatar como o texto bíblico pode ser objeto de um comentário pormenorizado (p. 20,9-22,9):

A bem-aventurada Mãe-Pai, benfeitora e misericordiosa, tomou-se de piedade pela força da mãe, (força) que foi expulsa do primeiro arconte para que pudesse dominar o corpo psíquico e sensível. Então, por meio de seu sopro benfeitor e sua grande misericórdia, enviou uma ajuda a Adão: uma inteligência-luz vinda dele (= o sopro), chamada Vida.

Ei-la que vem em ajuda de toda criatura! Ela tomou para si o seu tormento e a resgatou em sua plenitude, instruindo-a sobre a queda de (sua) deficiência, bem como sobre o caminho da volta, (que é) o caminho por onde ela desceu. E a inteligência-luz estava oculta em Adão (não apenas) para passar despercebida dos arcontes, mas também para (permitir) à inteligência o resgate da deficiência da mãe.

E o homem resplandeceu por causa da partícula de luz que estava nele e seu pensamento era bem mais sublime do que o de todos os seus criadores. A partir do momento em que se inclinaram (para ele), eles perceberam que seu pensamento era sublime. Então, puseram-se de acordo com todo o bando dos arcontes e dos anjos. E pegaram fogo, terra e água, misturaram-nos uns aos outros com os quatro ventos do fogo, amassaram-nos juntos e operaram uma grande fusão.

E eles transformaram Adão em sombra da morte, para proceder a uma remodelagem a partir da terra, da água, do fogo e do sopro, isto é, a partir da matéria, da ignorância da treva, do desejo e de seu espírito disfarçado.

(Eis o laço! Eis) o túmulo da remodelagem do corpo! Eis o que esses bandidos fizeram o homem carregar: o laço do esquecimento! E (é assim que) ele tornou-se homem mortal.

Eis a catábase primordial! Mas eis que a inteligência-luz que estava nele irá despertar seu pensamento!

E os arcontes levaram Adão e o colocaram no paraíso e disseram-lhe: “Come!” (Lentamente). Pois seu alimento é amargo e sua beleza é perversão, sua delícia é engano e suas árvores são iniquidade, seu fruto é veneno incurável e sua promessa é morte. Quanto à árvore da vida, eles a colocaram no meio do paraíso! Eu vou explicar-vos qual é o segredo de sua vida: é o desígnio que eles fomentaram juntos, é a imagem de seu espírito! Sua raiz é amarga e seus ramos são morte; sua sombra é ódio e em sua folhagem está o engano; seu suco é o unguento da perversidade, seu fruto é mortal e sua seiva é a cobiça; ela germina nas trevas. Para aqueles que a provam, o Hades é seu local de estada e a treva é seu local de repouso. Mas aquilo que foi chamado por eles “a árvore do conhecimento do bem e do mal” é a inteligência-luz. (Por meio dela), eles impediram Adão de ver sua plenitude e conhecer a nudez de sua vergonha. Mas eu os incitei a comer!

Assim, as forças lançam Adão no esquecimento de suas origens celestes. E, para garantir maior disseminação e, portanto, enfraquecimento das partículas de luz, elas criam então a mulher, que compromete Adão e o envolve no ciclo das gestações. Essa depreciação da mulher é comum nesses textos, acrescida ainda de desvalorização do Antigo Testamento (p. 23,35-24,29).

Logo que se deu conta de que eles se afastavam de si, Ildabaôth amaldiçoou (sua terra), (acrescentando ainda, a propósito d) a mulher, que seu macho a dominaria, visto que ele (= Aldabaôth) não conhecia o mistério ocorrido por meio do santo decreto. Mas eles (Adão e Eva) temeram censurá-lo e manifestar a seus anjos a ignorância que estava nele. E ele os expulsa do paraíso e os cerca de espessas trevas. E o primeiro ar-conte viu que a virgem se mantinha perto de Adão e que a Inteligência-Luz se havia manifestado nela como vida. E Ial-dabaôth ficou enlouquecido. Mas logo que a pré-noção percebeu (prov.: o que se passava), ela enviou (mensageiros) e eles arrebataram a vida a Eva. O primeiro arconte a enlameou, nela gerando dois filhos, respectivamente Elohim e Iahweh. Elo-him tem face de urso, Iahweh face de gato; um é justo, o outro injusto. Ele estabeleceu Iahweh sobre o fogo e o vento e Elohim sobre a água e a terra. A esses, ele deu o nome de Caim e Abel (como testemunhas) de sua velhacaria. Até hoje, as relações sexuais persistem por causa do primeiro arconte. Ele semeou o desejo genésico naquela que pertence a Adão: através das relações sexuais, suscitou a reprodução da imagem corporal, gerando-os (= os corpos) por seu espírito disfarçado.

O ciclo infernal que constringe a humanidade iria ser rompido pela descida de Cristo, que salva os ascetas que possuem a gnose. Quanto aos outros, conhecerão a reencarnação até o momento em que também possam ser dignos de salvação.

Esse longo texto desenvolve portanto uma teologia da salvação (uma soteriologia): sob a avalanche dos pormenores um pouco folclóricos, como os nomes das entidades emanadas do Pai perfeito, o processo fundamental é o de uma queda irresponsável (não é Adão, mas Sofia que comete o erro) e fatal, pois as forças das trevas passam a tentar afundar o homem em sua ignorância. Mas o texto também promete a salvação por meio de salvador celeste. O homem colabora um pouco com essa salvação adquirindo a gnose e dedicando-se a ascetismo essencialmente sexual e carnal, o que explica a depreciação da mulher.

John Turner

MEYER, Marvin W. The Nag Hammadi Scriptures: The Revised and Updated Translation of Sacred Gnostic Texts Complete in One Volume. London: HarperCollins Publishers, 2009.

* Descoberto no Códice Gnóstico de Berlim 8502 em 1896 e publicado apenas em 1955, o Livro Secreto — Apócrifo — de João é provavelmente o mais amplamente conhecido de todos os tratados setianos, sobrevivendo em não menos do que quatro manuscritos separados.

  • Dois manuscritos — Códices II e IV de Nag Hammadi — contêm uma versão um pouco mais longa; os outros dois — Códice III de Nag Hammadi e o Códice Gnóstico de Berlim 8502 — contêm versões um pouco mais curtas
  • Nos três códices de Nag Hammadi, o Livro Secreto de João é sempre o primeiro tratado copiado
  • O bispo cristão antignóstico Ireneu de Lião resumiu, em Contra as Heresias 1.29 — final do século II —, uma obra muito semelhante à primeira parte do Livro Secreto de João, atribuindo-a a certos “gnósticos”
  • Uma versão posterior do relato de Ireneu — Contra as Heresias 2, falsamente atribuída a Tertuliano — atribuiu a obra a certos “setianos” — Sethoitae —, e Teodoreto de Cirro — Resumo das Fábulas Heréticas 13 — identificou esses gnósticos como “Barbeloítas”
  • Em Contra as Heresias 1.30, Ireneu resume uma obra que apresenta uma revisão de Gênesis 1–9 similar à segunda parte do Livro Secreto de João, atribuindo-a a certos “outros” — alii —; o Pseudo-Tertuliano os identificou como “Ofitas” e Teodoreto os identificou posteriormente como Setianos
  • Segundo Frederik Wisse, um dos editores da sinopse padrão do Livro Secreto de João, todos os quatro manuscritos são cópias de traduções independentes para o copta sahídico a partir de exemplares gregos anteriores — uma versão mais curta e outra mais longa, ambas hoje perdidas.
    • As versões dos Códices II e IV são recensões coptas independentes de uma tradução copta anterior da versão grega longa original
    • As versões mais curtas do Códice III e do Códice de Berlim são traduções independentes de um único exemplar grego da versão mais curta
    • Mesmo o material comum às versões longa e curta representa um texto que passou por redação substancial e incorporou fontes separadas, tais como a teologia negativa introdutória — II 3, 17–33 — e um breve tratado dialogal sobre a salvação de vários tipos de almas — BG 64, 14–71, 2; II 25, 16–27, 30
    • As versões longas diferem das curtas principalmente pela inclusão da longa citação do Livro de Zoroastro — II 15, 29–19, 10 — e de um monólogo hímnico da Providência — Pronoia — como conclusão de toda a obra — II 30, 11–31, 25
  • O monólogo conclusivo da Providência — Pronoia parece ter servido como inspiração para a composição de um tratado setiano inteiro — as Três Formas do Primeiro Pensamento ou Protennoia Trimórfica —, permitindo conjecturar um processo de formação em etapas.
    • A recension mais curta do Livro Secreto de João — BG e NHC III —, incluindo o excurso sobre o destino de vários tipos de almas, surgiu por volta de 150 d.C. como diálogo entre Cristo ressuscitado e seu discípulo João, filho de Zebedeu
    • A versão mais longa dos Códices II e IV foi criada essencialmente pela adição da extensa angelologia — melothesia — do corpo material do Adão terreno — do Livro de Zoroastro, II 15, 29–19, 10 — e da inclusão do monólogo da Providência — Pronoia — ao final, provavelmente concluída no último quarto do século II
    • Pode-se também conjecturar uma versão ainda anterior, não dialogal, constituída pelo material teogônico e cosmológico comum ao Livro Secreto de João — BG 29, 18–44, 19; II 6, 10–14, 18 —, a Contra as Heresias 1.29 de Ireneu e as Três Formas do Primeiro Pensamento 38, 16–40, 22
  • O Livro Secreto contém ensinamentos secretos revelados por Cristo em uma aparição pós-ressurreição ao apóstolo João, filho de Zebedeu, constituindo assim uma continuação do Quarto Evangelho.
    • As referências veladas às muitas moradas da casa do Pai são agora descritas em detalhe, e a unidade entre o Pai e o Filho é esclarecida: Jesus é o Pai, a Mãe e o Filho
    • Em sua capacidade primordial como Mãe-Pai abençoado, Cristo já havia elevado a semente de Sete à casa de muitas moradas do Pai — os quatro éons eternos que ele mesmo havia preparado antes de este mundo existir
    • Em contraste com a parusia futura prevista por João 21 e pelas cartas joaninas, o Livro Secreto de João retrata essa parusia como ocorrendo logo após os eventos descritos no evangelho e, na prática, contesta o papel de liderança que João 21 atribui a Pedro, fazendo com que o Jesus pós-ascensão designe João como mestre dos demais discípulos
  • O extenso discurso de Cristo, pontuado por pedidos de esclarecimento de João, consiste em duas partes: um monólogo do Salvador sobre teogonia e cosmogonia, seguido de um diálogo sobre antropogonia e soteriologia.
    • Segundo Michael Waldstein, a primeira parte narra realidades e eventos anteriores ao Gênesis, sobre os quais Moisés não fornece informação, enquanto a segunda oferece uma releitura de Gênesis 1–7
    • Em relação com as tradições platônicas — especialmente o Timeu de Platão —, o deus criador judaico é cindido em um Deus superior de pura bondade, identificado pessoalmente como o Deus transcendente da teologia médio-platônica que reteve traços centrais do Deus de Israel, e um Deus inferior e maligno identificado com o Deus de Israel, mas retratado como uma paródia do demiurgo platônico
    • Na primeira parte, Cristo revela a natureza da divindade suprema — a tríade divina primordial: Pai, Mãe e Filho —; o âmbito divino trazido à existência por ela — o Todo ou Pleroma de luz organizado em Quatro Luminares: Harmozel, Oroiael, Daveithai e Eleleth —; e a relação desse âmbito com a ordem criada — como a criação, com suas falhas e imperfeições, originou-se através da queda de Sofia — Sabedoria — e da criação de um mundo inferior pelas mãos de seu filho mal-gerado, Ialdabaoth, e seus subordinados demoníacos
    • Essa parte conclui com a declaração arrogante de Ialdabaoth: “Sou um deus ciumento e não há outro deus além de mim” — II 13, 8–9 —, marcando a transição para a segunda parte
    • O caráter distintivamente setiano da obra reside na compreensão dos Quatro Luminares como as moradas éonicas respectivas do Adão arquetípico, de Sete, de sua semente primordial — as sete gerações setianas de Sete a Noé — e da progênie pós-diluviana de Sete
  • A segunda parte do Livro Secreto de João contém a explicação de Cristo sobre o verdadeiro significado de Gênesis 1–9, revelando como Ialdabaoth criou Adão como uma cópia inicialmente fraca — ainda não espiritual — da imagem do ser humano arquetípico projetada do mundo divino.
    • João formula a primeira de dez perguntas, introduzindo um elemento de diálogo ausente na primeira parte; o tema passa da teogonia e cosmogonia para a soteriologia e a antropogonia
    • A narrativa prossegue revelando como Adão adquiriu sua verdadeira natureza espiritual e foi iluminado pela Introspecção — Epinoia — na forma de Eva espiritual; como, ao comer da árvore do conhecimento, foi expulso do paraíso e gerou Sete
    • Após um breve diálogo sobre a salvação de vários tipos de almas e sobre a origem do espírito maligno, a revelação de Cristo conclui com a história da ulterior escravização da raça humana por Ialdabaoth — através da origem do destino, do dilúvio e da relação sexual entre os anjos e as mulheres humanas
    • O Salvador parte para o mundo éonico com o lembrete de que a salvação é certa, pois a Mãe divina já iluminou sua semente
  • No longo monólogo que conclui as versões mais longas do Livro Secreto de João — Códices II e IV —, a Providência — Pronoia — Barbelo narra em primeira pessoa suas três descidas salvíficas ao mundo das trevas para despertar sua “semente” do pesado sono induzido pelos poderes arcônticos e elevá-la à luz superna, selando-a com os “Cinco Selos”.
    • Vários tratados setianos apresentam esse ato final de libertação como um rito batismal — o Livro Santo do Grande Espírito Invisível, as Três Formas do Primeiro Pensamento, Melquisedeque, a Revelação de Adão, Zostrianos e talvez Marsanes —, geralmente chamado de Cinco Selos
    • A restauração final da progênie de Sete, que continua a viver na terra, será realizada nos últimos dias; seu advento é marcado pelo ato final de Barbelo de elevar sua semente, aparecendo em sua própria pessoa ou na de seu filho — o Verbo, o Autogênito, Sete, Cristo ou figuras similares — para revelar aos setianos dos últimos dias — isto é, aos leitores contemporâneos do Livro Secreto — o verdadeiro relato de suas origens e natureza espirituais

Roberto Pla

===== ADÃO =====

Evangelho de Tomé - Logion 71

Para o autor deste tratado gnóstico, o Sono profundo de Adão, descrito em Gn 2,21 (veja também Paul Nothomb), explica a incapacidade da alma Adão) recém-criada para se dar conta de si por si mesma, quer dizer, relata a carência de reflexão da alma sobre si mesma, uma reflexão que aporte à consciência a luz de suas próprias percepções. A este sono profundo o denomina o gnóstico, “a embriaguez da obscuridade”.

Para conseguir o despertar de Adão, levou YHWH diante dele não o “osso dos ossos” (a costela = Eva ), com diz Gen 2,23, senão a “reflexão luminosa”. Esta, a reflexão, é a verdadeira “alma da alma”, se se atende ao significado da alegoria, que emprega o vocábulo “osso” = alma, no cântico e vaticínio de Adão (para a alegoria do osso, veja Clemente de Alexandria, Clemente Excertos Teodoto 63, 1ss).

Se diz que a reflexão luminosa correu o véu que estava sobre a inteligência de Adão, e em razão da luz que o aportava, denominou Adão (a Eva, a reflexão), a “mãe de todos os viventes”.

Graças à reflexão luminosa (Eva), descobriu Adão a existência do conhecimento e com ele viu a necessidade de comer o fruto aquela árvore para olhar com êxito ao céu em busca da perfeição.

Mas o autor gnóstico agrega: “Foi a serpente aquela que o ensinou a semeadura do desejo da impureza e a destruição”. Com isto se entende a dupla direção do caminho que foi aberto para Adão. O fruto da árvore, é com efeito, semente para a faculdade de conhecer.

  • A desnudez descoberta pelo homem e a mulher depois de ter comido da árvore, é desnudez de conhecimento e, por conseguinte, o desejo de obtê-lo. Não a desnudez do corpo como se costuma interpretar, senão da alma. O corpo, ou túnica de pele, que o gnóstico explica como feito de “sombria obscuridade” foi uma provisão posterior, de YHWH-Deus. O gnóstico afirma inclusive: “Pela árvore o instruiu para comer o conhecimento, para que pudesse recordar sua perfeição (original) já que seu defeito era a ignorância”.

Como obra da reflexão luminosa, o fruto abre o caminho até o perfeito, e como resultado da semeadura da serpente, é desejo da impureza e da destruição, quer dizer, “o desejo de todas as coisas do Cosmos.

Com isto se esclarece que a serpente genesíaca, é um do nomes designados pelo AT ao antimimo, o quinto membro da casa antropológica (vide Evangelho de Tomé - Logion 71). O outro nome usado em ambos testamentos, para o antimimo é, em consequência, o do “Adversário” (o Satanás) idêntico à Serpente antiga. Se se o chama de “Adversário”, é porque a consciência se o representa como seu eu, seu próprio “espírito”, mas não é isto realmente, senão somente um arremedo do Espírito de Deus: um Adversário de Deus erigido na consciência dos homens.

Com o Adão que comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal, pretende descrever o Gênesis ao homem capacitado para exercer sem limites sua faculdade de conhecer, mas o acesso ao conhecimento não é possível se o homem não é impulsionado antes pelo desejo de conhecer. Não há que esquecer que o desejo é a única potência volitiva de que dispõe o homem para se aproximar aos fins do conhecimento.

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