estudos:panikkar:fe
FÉ
PANIKKAR, Raimon. Mito, fe y hermenéutica. Tradução: Germán Ancochea Soto. Barcelona: Herder, 2007.
O ESTADO DA QUESTÃO
-
A essência da fé reflete o aspecto humano que impulsiona para a plenitude, abrindo o homem à perfeição e ao seu destino, sem se reduzir à adesão a uma doutrina ou ética.
-
A fé é entendida como um ato que entreabre a possibilidade da perfeição, permitindo que se chegue a ser o que ainda não se é.
A tradição cristã expressa a prioridade da fé através do princípio “Crede ut intelligas” (Creia para compreender), que indica a sua necessidade para a própria existência.-
O jogo de palavras hebraico (ta’aminu / te’amenu) é significativo: “se não crerdes, não existireis”, mostrando a fé como fundamento real da existência humana.
-
O conceito hebraico “aman” (emet) indica firmeza e solidez, associando fé à consistência e subsistência.
-
Cita-se 2Crônicas XX,20: “Crede no Senhor vosso Deus e permanecereis firmes”, e a Vulgata: “Credite in Domino Deo vestro, et securi eritis”.
-
O conceito hebreu de fé é discutido com base em autores como Bouyer (1966), Herbert (1975) e Torrance (1956/57).
A experiência humana contemporânea demonstra que, privado da fé, o homem se desmorona, sendo incapaz de sustentar os conflitos internos e as tensões da vida comunitária.-
Fenomenologicamente, o homem é um ser “projetado” para funcionar no reino da fé, e a alienação dessa esfera leva à autodestruição.
O homem necessita de uma “seiva ôntica” para ser, e a fé é a “incógnita” que permite o reconhecimento do fundamento do seu ser, sem o qual não pode viver uma vida humana autêntica.-
Toda teologia usa argumentos análogos, como os hindus e budistas que afirmam que o homem empírico não é fundamento de si mesmo.
-
A fé torna manifesto o fundamento do ser, sendo essencial para uma existência autêntica.
A Bhagavad Gītā expressa que “o homem está feito pela fé: tal a fé, assim o homem”, indicando três tipos de fé correspondentes a três tipos humanos fundamentais.-
A referência ao conceito de śraddhā (fé) é mencionada como a condição teândrica essencial para a eficácia do sacrifício.
-
Cita-se um texto pouco conhecido do Krsna Yajurveda: “A fé envolve os Deuses, a fé envolve o universo inteiro…”
-
Menciona-se o capítulo VI do Tripurā-rahasya dedicado à fé: “…A fé é o último recurso do mundo inteiro…”
A tradição cristã medieval, com o “Crede ut intelligas”, não indicava apenas a prioridade ontológica da fé sobre a razão, mas intuía algo mais profundo.-
Citam-se diversas autoridades: Aristóteles (“Quem quiser compreender deve crer”), São Leão (“Se a fé não crê, o falar não explica”), Santo Agostinho (“Cree para entender: a fé precede, a inteligência vem depois”; “Creemos para conhecer, não conhecemos para crer”), Pedro (Sent. 24,3), Santo Anselmo (“não procuro entender para crer, mas creio para entender”), Tomás de Aquino (“mediante a fé se chega ao conhecimento, e não o inverso”), Hugo de São Vitor (“Creemos para saber; não conhecemos para crer”) e a Imitatio Christi (“Todo raciocínio e investigação natural devem seguir a fé, não precedê-la”).
“Crede ut sis” (Creia para poder ser)
-
A tese central é que se deve crer para poder ser, pois a fé é uma dimensão humana constitutiva, necessária para alcançar a plena humanidade e distinguir o homem dos outros seres.
-
A fé não é um privilégio ou monopólio de grupos, mas uma característica antropológica universal do ser humano completo.
-
A perda da fé é considerada, em certo sentido, contra natura, conforme a tradição tomista (Sum. Th. II-II, q.10, a.1 ad 1).
A fé é um outro nome para a relação ontológica com o Absoluto (Deus, a Fonte), uma relação que caracteriza o homem e o liga ao fundamento de todas as coisas.-
A relação com “Deus” não é privada ou exclusivista, mas sim a relatividade radical e constitutiva de todas as coisas, uma relação de solidariedade com toda a realidade.
-
As “virtudes teologais” (Fé, Esperança, Amor) são também cosmológicas ou cosmoteândricas, ou seja, não são apenas verticais, mas também horizontais.
A fé liberta o homem de uma mera existência cósmica, fazendo nascer a liberdade a partir da abertura ou ruptura da dependência do reino dos objetos.-
Com essa liberdade, o homem é colocado no coração da relação pessoal trinitária, sendo integrado no livre jogo intradivino.
A tese de que a fé é dimensão antropológica não está ligada a nenhuma filosofia ou tradição religiosa determinada, pretendendo ser válida tanto para cristãos quanto para ateus.-
Toda terminologia é a objetivação de um sistema cultural, cabendo ao leitor traduzir as palavras para o seu próprio sistema de referência.
A tese tem consequências importantes, como fornecer a chave para o encontro entre as religiões, permitindo um diálogo religioso a nível de fé em vez de uma simples disputa racional.-
A fé como dimensão antropológica liberta a religião de aspectos exclusivistas, sectários e arcaicos, situando o encontro entre os povos em um plano plenamente humano.
A fé é o fundamento e a garantia das relações humanas, sendo uma condição para o amor e para uma existência plenamente humana, não podendo ser posta entre parênteses sem castrar e deformar o homem.-
Deixar a fé de lado condena ao solipsismo e destrói o fundamento da transcendência que permite ao homem “sair” de si mesmo e encontrar o próximo sem alienação.
-
Em um encontro humano, se a fé é deixada de lado, tanto o crente (ao excluir sua fé) quanto o não-crente (que não encontra o crente no mesmo plano) são prejudicados.
Por meio da fé, o crente comunica e fraterniza com o homem que se define como não-crente, enquanto sem ela a fraternidade humana se torna comunicação infrahumana ou artificiosa.-
A razão divide, decide e distingue, mas não une ao contrário da fé.
A filosofia “moderna” desde Descartes tentou fundar a humanidade e universalidade na razão, relegando a fé a um privilégio de uma minoria que separa os homens.-
A ideia de que “a religião divide os povos enquanto a razão os une” é uma tradução sociológica dessa atitude, onde a filosofia se opõe à teologia.
A evolução histórica recente, com guerras e fracassos do idealismo, colocou o homem em guarda contra o otimismo racionalista, fazendo suspeitar que “dois mais dois não são quatro” fora de uma esfera puramente abstrata.-
A realidade não pode ser manipulada de forma simplista, como no exemplo: o amor de uma mãe mais o amor a Deus não é o mesmo que o amor a um carro mais o amor a um jardim.
-
O argumento da “contaminação” da razão por desejos e paixões não convence, pois postula uma razão teórica infalível, mas praticamente impotente e inútil.
O ateísmo contemporâneo geralmente nega o objeto da fé religiosa, e um certo monopólio da fé por parte de alguns grupos pode ter tirado a possibilidade de crer.-
A faculdade de crer está oculta em numerosos seres humanos, como afirma Jaspers (1963).
A “perda da fé” e a “conversão” são problemas conectados, questionando se a fé se perde ou se o homem foge da luz, e se a conversão é uma mudança de fé ou uma redescoberta do que já se criava inadequadamente.-
Citam-se as crises de fé do pós-Vaticano II e os neo-marxistas, perguntando se perderam a identidade por não se alinharem mais às linhas ortodoxas.
-
Questiona-se se a conversão a outros credos religiosos implica necessariamente ruptura e alienação total do passado, levantando a necessidade de distinguir entre fé e crença.
OS TRÊS ASPECTOS DA FÉ
-
A teologia tradicional da fé insistiu no seu aspecto intelectual (assentimento a verdades) e no seu aspecto volitivo (liberdade), levando a duas concepções principais.
-
A primeira concepção identifica a fé com a ortodoxia (doutrina correta), correndo o risco do dogmatismo.
-
A segunda identifica a fé com a ortopoiesis (atitude e conteúdo moral), correndo o risco do moralismo.
-
Propõe-se, integrando as duas, o conceito de fé como ortopraxis, conectada ao ser humano visto como ato, assegurando a liberdade e reconectando a existência profunda com sua fonte.
a. Ortodoxia
-
O pressuposto do homem como “animal racional” fez da fé um problema quase exclusivamente intelectual, tendendo a considerar a verdadeira fé como sinônimo de ortodoxia.
-
A ortodoxia conecta a essência da fé com sua expressão conceitualmente “correta”, permitindo diferentes graus de adequação na formulação.
-
Conceitos como “fé errônea” ou “infidelidade” surgem para designar o que não é reconhecido como ortodoxo.
-
A formulação da doutrina é considerada intrínseca à fé, não se podendo ter fé sem aderir a uma doutrina determinada.
O pluralismo permitido pela ortodoxia é o da expressão multiforme da mesma e idêntica doutrina, não havendo espaço para expressões que representem doutrinas realmente diferentes de uma realidade omnitranscendente.-
A ortodoxia só tem sentido no contexto de uma cultura específica e homogênea, com um sistema de referências biunívoco entre realidade e expressão.
-
Em uma cultura restrita, o “herege” é considerado não só equivocado, mas também de má fé.
-
Dá-se o exemplo da atribuição de “substancialidade” à Divindade: negar esse atributo pode ser visto como negar o próprio Deus se substância for identificada com Ser e realidade.
A teologia monástica distingue entre o ato de fé e sua formulação conceitual, afirmando que a formulação não pode estar constitutivamente ligada ao conteúdo sem violar seu caráter transcendente.-
Cita-se o hino do Breviário Romano atribuído ao Papa São Gregório Magno: “A fé acrecente a luz…”.
-
Tomás de Aquino afirma que “o ato do crente, no entanto, não se refere ao enunciado, mas à realidade” (Sum. Th. II-II, q.1, a.2 ad 2).
-
A fé é um mistério “itinerante” (viator) que não pode ser imobilizado em formulações inalteráveis, embora necessite de um veículo intelectual ou sistema conceitual para se expressar.
Os “artigos de fé” possuem importância porque, embora nenhuma formulação seja exaustiva, nem toda fórmula é verdadeira, podendo alcançar maior ou menor perfeição intelectual.-
Tomás de Aquino cita Dionísio (Areopagita): “a fé se refere à verdade simples e sempiterna”, que é a Verdade primeira, objeto único e sumo de toda fé.
-
A ortodoxia defende os direitos do intelecto no “nexo” ontológico entre homem e Deus, mas o elemento intelectual não esgota a natureza da fé (ex.: “homem de boa fé”).
A teologia escolástica, ao defender a comunidade de fé entre homens e anjos e sublinhar o aspecto subjetivamente formal da fé, indica que a fé é única, embora suas traduções conceituais e manifestações vitais sejam múltiplas.-
A analogia do prisma de cristal que decompõe a luz em diferentes componentes é usada para exemplificar a unicidade da fé em meio à multiplicidade de suas expressões.
b. Ortopoiesis
-
A ortopoiesis, baseada nos conceitos aristotélicos de “poiesis” (ação que recai sobre o objeto externo) e “praxis” (ação que transforma o agente), enfatiza a necessidade de a fé ser vivida e confirmada pela ação.
-
A fé sem contato com a vida é morta (cf. Tiago II,17).
-
A conformação da existência humana pela fé é a condição necessária para a “reta ação”.
-
Cita-se São Gregório Magno: “quem deseja compreender as coisas ouvidas, se apresse a agir…”.
A ortopoiesis tem seu lugar na concepção global da fé, mas a relação não é reversível: um comportamento moral negativo pode ser um obstáculo, mas uma vida eticamente irrepreensível não equivale a uma vida de fé.-
Reduzir a fé à ortopoiesis destruiria o fundamento da religião, que visa mais que um simples “perfeccionismo”.
-
Seguindo a diatribe agostiniana, as virtudes dos pagãos não são “splendida vitia” (esplêndidos vícios), mas não se pode negar a diferença.
Assim como há pluralismo doutrinal, há também um pluralismo ético, pois a fé pode se manifestar em comportamentos éticos diferentes, permitindo compreender outras religiões e culturas.-
O pluralismo ético não implica anarquia moral, mas para comparar comportamentos éticos diferentes é necessário subir “ainda mais acima”.
c. Ortopraxis
-
A ortopraxis aponta para uma fonte mais profunda do que a inteligência e a vontade: o próprio ser do homem como ato, onde sua atividade é principalmente praxis (transformação interna) e não simples poiesis (construção externa).
-
O homem é um ator que se põe em cena através de seu agere, e a ortopraxis representa o horizonte da ação sagrada que todas as religiões reconhecem.
-
Mediante a fé (ortopraxis) o homem chega a ser ele mesmo, é salvo, alcança a plenitude, a libertação ou seu fim último.
As religiões visam salvar o homem, abrindo-lhe a via para a plenitude do ser, seja esta interpretada como visão intelectual (aspecto doutrinal) ou recompensa pela conduta moral (valores práticos).-
A ortopraxis ilumina o fato que precede toda doutrina e comportamento: o homem deve conseguir seu objetivo e sua plenitude.
-
Termos como “salvação”, “libertação”, “objetivo”, “plenitude” não têm necessariamente um conteúdo específico ou religioso.
A ortopraxis é a atividade humana que modifica não só a existência exterior, mas também a dimensão interna da vida, sendo a atividade salvífica por excelência que realiza a potencialidade do ser humano.-
Cita-se Gautama: “Aplique-se com dedicação na sua salvação”.
-
O conceito de praxis não deve ser confundido com a praxis mesma, pois o conceito representa “alguma coisa” dentro de um determinado sistema de referência.
-
Se o fim do homem é tornar-se Deus, ele é feito divino pela ortopraxis; se a plenitude é contribuir para a sociedade futura, a ortopraxis são as ações que favorecem essa contribuição.
O conceito de ortopraxis exclui a possibilidade de interpretar as ações equivocadas apenas em termos de doutrina ou moralidade.-
Toda ação que leva o homem à sua realização concreta é autêntica praxis ou via de salvação.
Pode existir uma pseudo-praxis, uma ação que não constrói o homem, e ele se arrisca ao fracasso na construção do seu próprio destino, podendo não alcançar o seu “ser”.-
Santo Tomás de Aquino afirma que Deus ama os pecadores por sua natureza, mas enquanto pecadores “não são” (ab esse deficiunt), e isso não provém de Deus (Sum. Th. I, q.20, a.2 ad4).
-
O “inferno” na concepção medieval é visto como uma incapacidade de chegar a ser, um aborto da “vida eterna”.
-
O homem que não alcança seu destino demonstra que “não tinha ser”, pois somos apenas na medida em que seremos (conceito de ser contingente desenvolvido por Panikkar, 1972a).
Um problema importante é a interpretação da ortopraxis como heteropraxis (ato salvífico que vem de fora) ou autopraxis (salvação que vem de dentro).-
Certo tipo de budismo e existencialismo contemporâneo exemplificam a autopraxis, enquanto as interpretações tradicionais das religiões demonstram principalmente a heteropraxis.
-
Uma compreensão mais profunda da pessoa (em antítese ao indivíduo) poderia oferecer uma nova solução para este problema “crônico”.
-
Cita-se o Evangelho de Tomás 22 sobre a entrada no Reino: “Quando fizeres dos dois um… então entrarás”.
estudos/panikkar/fe.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
-
-
-
