1 Corpo e cidade
Peter Brown. The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity; Twentieth Anniversary Edition with a New Introduction (Columbia Classics in Religion)
1 O corpo e a cidade
(I) “UM BALUARTE DA CIDADE”
1. A fala de Tamíris contra Paulo, ao acusá-lo de desvirtuar o casamento e com ele a própria base da cidade, revela a tese central de que a procriação conjugal era tida como fundamento da continuidade social, pois dela dependiam as famílias, as aldeias, a cultura, o exército, os templos e toda a ordem civilizada.
2. A sociedade romana do século II vivia sob a ameaça constante da morte, com expectativa média de vida inferior a 25 anos e apenas quatro em cada cem homens ultrapassando os cinquenta, o que a tornava uma população roçada de perto pela morte e exigia dos cidadãos o dispêndio de energia na concepção e criação de filhos legítimos.
3. Fosse pela legislação de Augusto, que punia solteiros e recompensava famílias, fosse pelo peso incontestável do hábito, rapazes e moças eram discretamente mobilizados a usar seus corpos na procriação, com pressão inexorável sobre as mulheres jovens, que deviam gerar em média cinco filhos e casavam muitas vezes por volta dos quatorze anos.
4. Os habitantes de comunidades mediterrâneas como Selêucia e Icônio sabiam que a paisagem e as cidades podiam morrer por falta de homens e que dispunham de poucos recursos de continuidade mais fidedignos do que seus próprios corpos, de modo que a procriação pelo matrimônio, pelo coito e pela criação de filhos era o único meio de assegurar a ressurreição dos mortos.
5. Fora da cidade, as inscrições sepulcrais reiteravam aos vivos que a cadeia da vida humana não fora rompida pela morte, pois os mortos persistiam como exemplos de virtude e a eutaxia dos abastados seria reduplicada pelos vivos e passada adiante aos filhos, num mundo determinado a não admitir interrupção no fluxo sereno da vida civilizada.
6. Os solteiros continuavam a existir nos círculos da classe alta, e os filósofos individualistas tinham permissão de desfilar sua excentricidade sem herdeiros legítimos e até praticando abstinência vitalícia, mas até um filósofo podia ser desafiado a legar uma cópia de si mesmo à posteridade e a fazer de seu lar um bastião para a proteção da cidade.
7. As mulheres virgens integravam o panorama religioso atemporal do mundo clássico, e Sorano garantia que sua estranha castidade não lhes prejudicava a saúde, atribuindo eventuais dificuldades menstruais e o engrossamento do corpo à falta de exercício decorrente da vida confinada nos templos em que moravam como guardiãs perpétuas.
8. Muitas associações acumuladas em torno das sacerdotisas virgens pagãs vieram posteriormente a se reunir em torno das virgens cristãs, mas diferenças decisivas separam umas das outras, pois a mensagem das Vestais e das profetisas gregas era a de que seu estado tinha importância crucial para a comunidade precisamente por seu caráter anômalo, encaixando-se num espaço claramente demarcado da sociedade civil.
9. Apesar de eminentes e admiradas, tais virgens não representavam a natureza humana em seu apogeu, sua castidade não significava uma perfeição há muito perdida nem anunciava o fim dos tempos, e muitas sacerdotisas não escolhiam livremente a virgindade, sendo recrutadas pela cidade e votadas ao serviço dos deuses, como as Vestais, que podiam casar-se mais tarde e se destacavam como exceções que confirmavam a regra ao não se casarem antes dos trinta anos.
10. A presença, em algumas cidades, de um punhado de jovens escolhidas por outrem para renunciar ao casamento aguçava a consciência dos contemporâneos para o fato de que o casamento e o parto eram o destino incontestável de todas as outras mulheres, tratadas como damas logo após os quatorze anos e levadas a crer que nada lhes restava senão serem parceiras do leito dos homens.
11. Introduzir uma jovem na família e com ela conceber filhos acarretava problemas sobre os quais os pares e mentores letrados dos abastados se detiveram extensamente, e o exame do mundo do casamento e da sexualidade da classe alta à luz desse corpo prescritivo, embora exija cautela na reconstrução das realidades romanas, revela o que passava por desejável e por bom senso entre os abastados e mapeia os horizontes além dos quais os homens cultos não se dispunham a pensar.
12. No século II, os rapazes das classes privilegiadas cresciam olhando o mundo de uma posição de domínio incontestável sobre mulheres, escravos e bárbaros, e a polaridade entre eles e as mulheres era explicada como hierarquia natural, pois os médicos diziam que os homens eram fetos que haviam realizado seu potencial pleno ao reunir excedente decisivo de calor e espírito vital, provado pela ejaculação quente do sêmen.
13. As mulheres, em contraste, eram homens imperfeitos, pois o precioso calor vital não lhes chegara em quantidade suficiente no ventre, tornando-as mais flácidas, líquidas, frias e úmidas, e a menstruação mostrava que seus corpos não conseguiam queimar os excedentes pesados que se coagulavam dentro delas, excedentes justamente necessários para alimentar e conter a cálida semente masculina na geração de filhos.
14. Tais afirmativas feriam susceptibilidades modernas ao restringir as mulheres a um lugar inferior numa hierarquia natural irrefutável, mas no século II essa noção também foi explorada para submeter os próprios homens a um processo ininterrupto de aprimoramento, pois nem mesmo eles podiam ser inteiramente seguros de si, já que o calor, salvo se ativamente mobilizado, podia esfriar e aproximar o homem do estado da mulher.
15. No mundo romano, a aparência e o suposto caráter dos eunucos lembravam constantemente que o corpo masculino era assustadoramente plástico, e Galeno sugeria que a falta de calor desde a infância podia fazer o corpo masculino recair num estado de indiferenciação primária, de modo que todos os homens tremiam ante a iminência de se tornarem efeminados e tinham de se esforçar conscientemente para permanecer viris.
16. As personalidades de destaque das cidadezinhas do século II vigiavam umas às outras com olhar duro e penetrante, observando o andar, os ritmos da fala e a ressonância da voz dos homens, pois qualquer desses traços poderia trair a perda do ímpeto quente e resoluto, o esmorecimento do autodomínio e o relaxamento da severa elegância de gestos que fazia de um homem um senhor imperturbável de um mundo subjugado.
17. A manutenção de códigos exigentes de conduta não era questão banal para os homens do século II, pois as elites do mundo grego, encarregadas pelo governo romano de controlar suas próprias cidades, aprenderam a impor a seus pares e subalternos a delicada violência de um estilo de dominação autocontrolado e benevolente, cujas metas políticas e sociais eram a evitação da discórdia e o controle gentil mas firme da plebe.
18. Os homens enalteciam uns nos outros a delicadeza, a acessibilidade, o autocontrole e a compaixão, esperavam ser tratados com a mesma cortesia pelo imperador e estendiam essas virtudes a seus dependentes leais, devendo ser imparciais e humanos com os escravos, pais para os criados e à vontade com os concidadãos, até mesmo na escolha das amas-de-leite que enfaixavam os homenzinhos segundo o modelo grego.
19. Qualquer perturbação no teor estável do estilo de comando sobre os outros provocava aguda ansiedade, e a raiva, e não a paixão sexual, preocupava os mentores das classes altas, pois homens que patrocinavam a carnificina dos jogos de gladiadores e colaboravam com o sistema penal selvagem imposto às classes inferiores preocupavam-se em não permitir que explosões de ódio e crueldade irracional penetrassem em seu próprio trato com os dependentes.
20. O sistema escravagista assentava-se na força e na crueldade, mas a violência física direta dos senhores contra os escravos era frequentemente criticada, como mostra o pai de Galeno, que repreendia os homens que feriam um tendão ao atingir seus escravos nos dentes e que conhecia um proprietário de terras em Creta que, em outros aspectos estimável, atacava seus criados com mãos, pés, chicote ou qualquer pedaço de madeira à mão.
21. Galeno cedo aprendeu, em sua própria família, a não se surpreender com a antiga polaridade entre o autocontrole masculino e a violência convulsiva associada à falta efeminada de autoconfiança, pois seu pai fora o mais justo e bondoso dos homens, enquanto sua mãe era tão propensa à raiva que às vezes mordia suas servas.
22. As relações com os escravos eram quase invariavelmente eivadas de atrito, mas com as mulheres as coisas podiam ser diferentes, pois montar casa com uma jovem esposa era apresentado como exercício peculiarmente animador de controle suave e de eventual absorção de um outro inferior no mundo do marido, e os gregos desaprovavam os casamentos romanos entre crianças, com moças casando aos dezoito ou dezenove anos com rapazes cerca de cinco anos mais velhos.
23. Plutarco escreveu seus Preceitos conjugais para o casal grego Poliano e Eurídice por volta de 100 d.C., solucionando os problemas de hierarquia e união ao transformar o marido no mentor filosófico de sua noiva, advertindo que as mulheres eram criaturas intratáveis que, deixadas por sua conta, concebiam muitas ideias impróprias e desígnios e emoções vis.
24. Plutarco exortou o rapaz consciencioso a não desistir, pois Poliano poderia absorver Eurídice em seu próprio mundo circunspecto, fazendo-a comer com ele e seus amigos para que não aprendesse a se empanturrar sozinha, compartilhar os mesmos deuses em vez de se recolher aos poderes sussurrantes dos aposentos das mulheres e mesclar silenciosamente suas propriedades ao fundo comum.
25. Entrementes, Poliano praticaria a finura e estudaria a afabilidade no trato público com seus pares e subalternos, e o relacionamento com uma mulher era para ele um desafio maior justamente por não se dar no mundo rígido da vida pública, proporcionando-lhe o que de mais próximo poderia ter de uma amizade imotivada baseada em seu talento como guia moral de sua mulher.
26. Como resultado de seu tato e serena autoridade, Eurídice ficaria benevolentemente ligada a ele, assim como o corpo maleável dependia da alma onicontroladora e discreta, e essas mulheres podem ser vistas nos sarcófagos da Itália e da Ásia Menor dos séculos II e III, retratadas atentamente postadas diante do marido, que erguia a mão direita para afirmar uma tese e exibia na esquerda o pergaminho representativo da cultura literária superior em que fundamentava seu direito à franca dominação.
27. A mulher exibida nesses sarcófagos deixara de ser a criaturinha que o jovem fogoso deflorava inopinadamente em prol da geração de herdeiros, angariando da jovem esposa o ódio temeroso que se segue à compulsão antinatural, e não era deixada à mercê de seus próprios estratagemas nos aposentos das mulheres, mas fora arrastada pelo marido culto para o círculo encantado de uma excelência comum.
28. Alguns exemplos singularmente belos desses sarcófagos encontram-se no Museu Arqueológico de Konya, cidade natal da lendária Tecla, e não fosse pela intervenção dramática de Paulo, que usurpou o papel de mentor masculino da moça, Tecla poderia ter chegado a se sentar dessa maneira diante de Tamíris, irradiando a mensagem de uma ordem benigna que fluía do contexto doméstico para a esfera pública.
29. Um homem que houvesse harmonizado com elegância e autoridade sua vida doméstica seria digno de crédito para harmonizar o Estado, o foro e os amigos, e os Preceitos conjugais de Plutarco formaram um conjunto pomposo destinado a longo futuro na pregação cristã, mas a realidade do século II estava do seu lado, pois as oligarquias regionais eram estreitamente ligadas e as moças vinham da mesma classe dos rapazes, algumas sendo suas primas ou filhas e irmãs de amigos e aliados.
30. As moças cresciam junto aos rapazes em casas amplas nos anos relativamente livres que precediam a puberdade e ocasionalmente desfrutavam de namoros discretos com seus futuros maridos, e os romances da época exploravam com novo respeito o amor à primeira vista entre jovens, apresentando herói e heroína em provações dramáticas para preservar a castidade para um casamento predestinado, com a mensagem de que entre as classes superiores as almas nobres eram feitas umas para as outras.
31. Uma vez casados, os cônjuges apareciam em público, pois a cidade precisava da riqueza de suas líderes e se dispunha a esbanjar honrarias públicas com as mulheres que agissem como benfeitoras da comunidade, e Artemidoro escreveu que era bom para as mulheres ricas e livres sonhar que guiavam uma carruagem pela cidade, pois isso significava sacerdócios respeitados, enquanto para as pobres essa exposição ao olhar público só poderia antever a prostituição.
32. Mais adiante na vida, o homem esperava encontrar na esposa aquilo que não podia esperar entre seus pares, a franqueza, pois a parrésia era um bem infinitamente raro e precioso obtido apenas do filósofo e da esposa, as duas figuras de autoridade à margem da vida política, e não se deve subestimar o quanto essa necessidade de intimidade pesava sobre os homens do mundo antigo.
33. Pretextato, pagão do século IV, escreveu sobre sua mulher Paulina que a ela podia confiar as profundezas mais recônditas de sua mente, unidos na confiança pelo conhecimento prolongado e pelas iniciações comuns dos deuses, num só laço de fé, um só coração e uma só mente, e quando Teodora censurou Justiniano por perder a calma durante a Revolta de Nika, sua frase decisiva foi proferida diante de todo o conselho de Estado, usando a parrésia, a liberdade privilegiada de fala de uma mulher romana para com seu marido.
34. Muitas dessas mulheres devem ter havido entre as oligarquias atarefadas do século II, casadas com maridos para quem a atividade política e cultural implicava viagens intermináveis aos centros de poder, sendo por eles encarregadas de administrar o império em miniatura das propriedades aristocráticas, como a mulher de Diogneto, que sonhou ter barba do lado direito do rosto e, enquanto o marido viajava pelo exterior, ficou na terra natal cuidando da casa dele.
35. A família nuclear, com a tendência a enfatizar os laços afetivos entre marido e mulher e entre pais e filhos, já era aspecto firmemente estabelecido da sociedade romana pelo menos no Ocidente, e o que torna significativo o século II é a frequência com que a harmonia doméstica associada à família nuclear era simbolicamente destacada como parte de um desejo público de enfatizar a harmonia desenvolta da ordem romana.
36. O imperador Marco Aurélio cunhou a efígie de sua mulher Faustina a Moça em moedas que traziam a palavra concordia, esperava-se que os jovens casais se reunissem para oferecer sacrifícios em homenagem à excepcional concórdia dos cônjuges imperiais, e os sarcófagos exibiam a carreira dos romanos eminentes através de cenas que ilustravam virtudes tradicionais, sendo o momento do matrimônio escolhido para representar a importantíssima virtude social e política da concordia.
37. Esperava-se que o próprio imperador irradiasse decoro conjugal, e nos discursos-padrão para ocasiões imperiais recomendava-se ao orador acrescentar que por causa do imperador os casamentos eram castos e os pais tinham prole legítima, e que da dama a quem admirou e amou ele fez também a compartilhadora de seu trono, ignorando a existência do restante da população feminina.
38. A visão romana do casamento como consenso livre entre marido e mulher fora aclamada como noção de notável potencial teórico para a expressão de um amor pleno e satisfatório, mas por volta do início da antiguidade recente o vasto peso do Império assegurou que o ideal romano da concórdia conjugal assumisse rigidez cristalina, apresentando o casal menos como par de amantes equivalentes do que como tranqüilizador microcosmo da ordem social.
(II) “UMA ESCOLA DE COMPORTAMENTO ORDEIRO”
1. Não importa o que fizessem na prática, não era fácil para esses homens articular por escrito suas experiências com a mulher, pois era difícil expressar como o ato do coito, em que fundamentavam suas esperanças de filhos bem nascidos, se encaixava em seu mundo ordeiramente arranjado, e Galeno admitia ser estranho que os deuses houvessem decidido manter a espécie humana por meio de um prazer tão aguçado e potencialmente antissocial.
2. Tampouco era possível contornar esse prazer, pois os doutos tratados da época cooperavam com antigas noções do senso comum ao dotar homens e mulheres da antiguidade recente de corpos totalmente diversos dos modernos, pequenos universos flamejantes por cujo coração, cérebro e veias pulsava o mesmo calor e espírito vital que refulgia nas estrelas, e fazer amor era levar o sangue à fervura enquanto o espírito vital percorria as veias, transformando o sangue na espuma esbranquiçada do sêmen.
3. Tratava-se de um processo em que o corpo como um todo, a cavidade cerebral, a medula espinhal, os rins e a parte inferior do intestino, era posto em movimento como num portentoso coro, sendo as zonas genitais simples pontos de passagem e válvulas de escape de uma caldeira humana, de modo que era o corpo inteiro, e não meramente a genitália, que possibilitava o orgasmo.
4. Tertuliano escreveu que num único impacto das duas partes toda a estrutura humana é abalada e borbulha de sêmen à medida que o humor úmido do corpo se une à substância quente do espírito, e naquela derradeira onda de deleite sente-se algo da própria alma sair de nós, e mesmo sendo criatura mais fria, por quem circulavam brumas úmidas, até a mulher tinha que dar tudo de si para que sua semente fosse liberada no ventre e acolhesse a de seu marido.
5. Também ela deveria experimentar, logo após a ejaculação masculina, uma sensação incomum e estremecedora, e dessa união poderiam provir filhos bem formados, de preferência um herdeiro masculino que se parecesse com ambos os pais, tal a profundidade de sua ligação no ato do amor, considerando-se totalmente apropriado que Vênus houvesse extraído seu nome da espuma cálida que banhava as praias do amor.
6. Em suma, o jovem casal era decididamente incentivado por seus doutos parentes mais velhos a ir para a cama com a mente repleta de fantasias de calor considerável, mas os médicos se apressavam a acrescentar uma advertência importante para o homem, pois o coito bem-sucedido era ato convulsivo que pouco diferia, em causas e efeitos físicos, de uma súbita explosão de raiva.
7. Tinha assustadora semelhança com a doença das quedas, pois o orgasmo era uma pequena epilepsia, e acaso a boca do epiléptico também não espumava com o mesmo sangue borbulhante e esbranquiçado do pênis, tratando-se de cavalheiros cujo andar devia ser compassado e cujos gestos controlados, aconselhados por Plutarco a se manterem sadios pela leitura em voz alta de declamações harmoniosamente compostas e a evitarem vociferações apaixonadas e convulsivas.
8. Não chega a surpreender que o jovem casal fosse incentivado a abordar essa que era a mais sagrada de todas as semeaduras com a devida circunspecção, pois o interesse pela conduta e a ciência médica convergiam na questão do coito, e o corpo fogoso era reservatório frágil do qual a energia vital podia vazar, com chamas que tinham de ser cuidadosamente represadas para durar.
9. Franzia-se o cenho ante a atividade sexual frequente, pois ela reduzia a fertilidade da semente masculina e, por conseguinte, a possibilidade de filhos por parte do pai, e a ejaculação promovia diminuição apreciável do calor que sustentava o ímpeto do homem viril, sendo a moral obsessivamente viril, voz corrente desde longa data no mundo greco-romano, corroborada pelos manuais médicos.
10. O apaixonado e o desmedidamente carinhoso não apenas soçobravam num estado suspeito de dependência em relação à mulher, como também, do ponto de vista fisiológico, sua perda progressiva de calor ameaçava torná-los efeminados, e uma poderosa fantasia de perda do espírito vital encontrava-se na raiz de muitas atitudes da antiguidade clássica perante o corpo masculino, dando à continência masculina embasamento sólido na sabedoria popular do mundo em que logo seria pregado o celibato cristão.
11. O homem mais viril era aquele que mais houvesse preservado seu espírito vital, ou seja, aquele que tivesse perdido pouco ou nenhum sêmen, daí a ambivalência que cercava a figura do eunuco pós-púbere, como os devotos autocastrados de Átis, pois longe de se desarticular num amorfismo pré-sexual como os castrados na meninice, o homem adulto que se tornava eunuco atando cuidadosamente seus testículos tornava-se um ásporos, um homem que não desperdiçava nenhum fogo vital com outrem.
12. Galeno julgava que, se os atletas olímpicos pudessem ser castrados de modo que suas reservas de calor não fossem prejudicadas pela operação, eles seriam mais fortes, e Sorano concordava que os homens que permanecem castos são mais fortes e melhores do que os outros e passam a vida com maior saúde.
13. Para conservar a voz masculina que Quintiliano gostava de ouvir ressoar pelos tribunais, forte, cheia, modulada e firme, o advogado diligente devia praticar, entre outras coisas, a abstinência sexual, e Artemidoro escreveu a propósito de um atleta que sonhou cortar seus órgãos genitais, cingir a cabeça e ser coroado vencedor, e enquanto permaneceu virgem sua carreira foi brilhante, mas tão logo começou a ter relações sexuais encerrou-a de maneira inglória.
14. Devemos tomar o cuidado de não concluir dessas advertências que os homens do século II eram acossados pelo medo do sexo, pois longe disso encaravam o coito como um dos muitos aspectos da vida que podiam submeter a seu controle mediante o bom senso e a educação, e tranquilos, bem treinados e bem nutridos, sabiam contrabalançar os riscos de suas descargas periódicas e prazerosas de espírito vital por meio de um regime criteriosamente escolhido de dietas e exercícios.
15. Ocasionalmente os médicos chegavam até a aconselhar a ejaculação para aliviar o corpo dos depósitos excessivos de sêmen que provocavam dores de cabeça e torpor, e os cavalheiros interessados em sua saúde faziam amor, escreveu Galeno, mesmo quando o ato não lhes proporcionava nenhum prazer especial, de modo que o coito era questão que o cavalheiro atento sentia poder controlar.
16. O casal era incentivado a crer que o próprio ato do coito, se realizado no estado de ânimo certo e com o decoro correto, teria efeito positivo sobre o caráter e o sexo do filho que dele adviria, e certamente que o descaso para com esse decoro poderia produzir descendência digna de vergonha e pena, e o mito do sexo eugênico, de ampla circulação embora com evidências predominantemente judaicas, dava ao jovem casal um mapa sexual assustadoramente ambíguo.
17. Esse mito implicava que a jovem esposa tinha que se empenhar conscientemente, como parceira voluntária, no ato do coito, com ânimo senão eufórico ao menos tranquilo no momento da concepção, e essa crença protegia a moça dos efeitos mais nocivos do coito brutal e insensível, pois somente os incultos, diziam os rabinos, deixavam de acalentar a mulher antes de tentar conceder um filho com ela.
18. Mas o mito eugênico também lhe impunha disciplina singularmente íntima e insinuante, pois, como parte mais fluida e lábil cuja semente provia o alimento úmido para a criança, era dever particular da mulher concentrar seus pensamentos durante o coito, e imagens e sentimentos inadequados naquele momento poderiam afetar o temperamento do filho de seu marido, de modo que frequentemente, quando a mulher se deita com o marido por necessidade enquanto seu coração está com o adúltero, o filho gerado nasce parecido com o adúltero.
19. O fato de esse elemento peculiarmente desagradável do folclore aprendido figurar num tratado gnóstico de orientação espiritual mostra quão difundidas e controladoras deviam ser essas crenças, e a noção do sexo eugênico comprometia tanto o homem quanto a mulher com códigos de decoro no leito conjugal que davam continuidade ao eu público.
20. A insistência estoica em que o coito só devia ocorrer de acordo com a natureza convergia com essa poderosa fantasia, pois para os estoicos o coito se dava apenas para gerar filhos, e o casal não deveria fazer amor apenas por prazer, até as posições adotadas deveriam ser unicamente as que facultassem à semente ser semeada com o melhor efeito possível, sendo todas as demais formas de fazer amor um tolma, constituindo atos gratuitos.
21. Os filósofos encaravam essas outras formas como arrepiantes afirmações de uma liberdade arbitrária dos seres humanos de fazerem o que lhes aprouvesse com seus próprios corpos, e a adoção de uma multiplicidade de posições sexuais era forma de ter relações ilícitas aos olhos da grande Mãe da humanidade, a Natureza, pois os homens inventavam outras posições como resultado da lascívia, da licenciosidade e da embriaguez.
22. As atitudes estoicas diante do coito conjugal ignoravam deliberadamente a possibilidade da satisfação erótica, fixando os olhos nos gestos graves e resolutos do homem público, e até o quarto conjugal devia ser uma escola de comportamento ordeiro, não se permitindo que os corpos da elite provocassem sequer um torvelinho casual na correnteza solene que fluía de geração para geração através do leito conjugal.
23. Apesar de suas limitações óbvias, os dados examinados dão pouca sustentação à ideia romântica e difundida de que o mundo romano pré-cristão era um ensolarado Éden do não recalcado, e menos lícito ainda é explicar e por conseguinte desculpar a austeridade da ética sexual cristã e a novidade da ênfase cristã na renúncia sexual plena como se fossem mera reação compreensível, embora excessiva, à devassidão que teria imperado entre as classes cultas do Império.
24. O que se tem, ao contrário, é um Império cuja tônica fora estabelecida desde longa data por pessoas austeras e cuidadosas, cujos mentores escreveram extensamente sobre a mulher, o casamento e até as relações sexuais com a finalidade de encontrar um modo de permitir aos membros da classe superior pensar em voz alta, entre seus pares, sobre as ponderáveis questões do poder, da ordem conveniente e da serena continuidade.
25. As classes dominantes não tinham nenhuma intenção de afrouxar as rédeas de um mundo por elas encarado com tão inflexível certeza, e a instabilidade do século III trouxe poucas alterações nesse aspecto, apenas fortalecendo sua decisão de se apegarem à autodisciplina e de manterem os símbolos de ordem pública que se haviam destacado em dias mais pacíficos.
26. A severitas, austeridade masculina e inflexível que poucas concessões fazia às mulheres ou ao prazer, era a moeda corrente do discurso público no século III, e a conversão de Constantino ao cristianismo simplesmente tornou irrevogável o enrijecimento do ânimo público, pois fossem pagãs ou cristãs, as classes dominantes dos últimos séculos do Império pautavam-se por códigos de continência sexual e decoro público que lhes aprazia pensar como continuação da austeridade viril da Roma arcaica.
27. A tolerância sexual estava fora de questão no âmbito público, e em meados do século IV o imperador Joviano, apesar de cristão convicto, foi indevidamente afeito à bebida e às mulheres, mas esses eram erros que ele certamente teria corrigido em consideração à dignidade imperial, como observou um pagão contemporâneo, e um exercício escolar de latim da mesma época, da Gália, fornece a fala de um pai cujo filho se desonrara por se conduzir mal num banquete, advertindo que aquele que orienta outrem deve saber como se conter e que o rapaz incorrera em profunda vergonha.
28. O pai do rapaz não precisava ser cristão para insistir em que seu filho se portasse em público com uma retidão puritana que mais se aproximava da adotada pelos homens dos modernos países muçulmanos fundamentalistas do que das fantasias românticas modernas sobre um Império Romano decadente, mas esses códigos não se aplicavam a todos, pois mesmo entre as elites eram uma questão de escolha.
29. Afinal, era perfeitamente possível dominar sua região, gerar filhos bem formados e baixar ao túmulo com reputação de imperturbável harmonia conjugal sem encher a cabeça de tantas antiqualhas eruditas, e algumas restrições que passaram a ser defendidas nos círculos cristãos incidiam com brandura sobre os homens da classe alta, pois o grego ou o romano abastados eram senhores de escravos e possuíam o corpo de seus criados de ambos os sexos.
30. Dentro dos muros de uma imensa casa cheia de meandros e de jovens servos sobre os quais o amo tinha domínio supremo, a fidelidade à esposa ficava como opção pessoal, e a despeito das leis rigorosas que puniam as mulheres casadas pelo adultério, a infidelidade dos maridos não acarretava nenhuma punição legal e trazia muito pouca desaprovação moral, considerando-se suficiente restringir a fidelidade aos muros em redor da casa e não atá-la ao próprio leito conjugal.
31. O marido não era estimulado a viver nos prostíbulos, constituir família separada ou introduzir novas mulheres em casa, mas a infidelidade com as criadas era uma coisa que algumas pessoas consideravam perfeitamente não censurável, já que se considerava que todo senhor detém o poder de usar seus servos como quiser.
32. Os líderes da igreja cristã da antiguidade recente acompanharam os filósofos na condenação da anomalia do padrão duplo romano, que castigava a mulher por adultério enquanto aceitava a infidelidade no marido, mas o clero se revelou tão despreparado quanto os filósofos para derrubar a instituição da escravidão doméstica e, por sua hesitação diante dessa questão, condenou-se desde o começo a uma respeitável ineficácia no tocante à fidelidade conjugal.
33. A maior parte dos casos de infidelidade assumia a forma de deitar com as próprias escravas, sendo simplesmente uma afirmação, entre tantas outras, do poder do senhor sobre o corpo de seus dependentes, e meio milênio depois que Musônio Rufo condenou os maridos infiéis, os pátios da igreja de Arles ainda ressoavam com as gargalhadas dos filhos de uma aristocracia cristã que se gabava de suas investidas sexuais contra as criadinhas.
34. Os autores do século II formulavam seus preceitos em termos universais, mas na realidade escreviam para uns poucos privilegiados, e os códigos de conduta sexual descritos eram valorizados pelos beneficiários da orientação moral por serem considerados congruentes com o refinamento e o autocontrole que distinguiam os bem-nascidos de seus inferiores desregrados, não tendo essas regras elevadas de excelência de ser compartilhadas com outrem.
35. Daí as flagrantes incoerências da época, para as quais os polemizadores e pregadores cristãos chamaram a atenção constantemente, pois os homens que queriam erigir em torno de si e de suas mulheres uma carapaça de rigor moral estavam perfeitamente dispostos a estabelecer sua posição nas cidades por meio de grandes momentos de libertinagem nos jogos públicos, nos quais a crueldade e o prazer erótico eram considerados bastante normais.
36. Também nesse aspecto a conversão de Constantino nada significou, pois ainda no século VI as altas personalidades de Gerasa orgulhavam-se de manter um festival aquático em que equipes de moças nuas se exibiam diante do que era então uma plebe totalmente cristã, tratando-se, segundo diziam, de um espetáculo sumamente agradável, e os corpos dessas mulheres pouco importavam.
37. Enquanto as esposas dos taberneiros eram julgadas suficientemente honradas para ser passíveis de acusações de adultério por parte dos maridos caso tivessem relações sexuais com clientes de passagem, não era isso o que acontecia com as criadas que serviam à mesa, pois das mulheres a quem a lei se aplica deve-se esperar a castidade, mas estão livres do rigor do processo legal as moças cuja vida indigna as coloca aquém da observância da lei, tais são as palavras públicas de Constantino, o primeiro imperador cristão.
38. Tudo isso constitui um mundo conhecido a partir de um ponto de vista decididamente masculino, e havia muitas coisas no mundo que os gregos e romanos instruídos não queriam ver ou articular, pois o ideal requintado da harmonia conjugal desconhecia deliberadamente o sofrimento, a dor e a doença associados ao parto, visando a absorver o casamento na ordem maior da cidade.
39. No entanto, na obstinada batalha que a cidade travava com a morte, as mulheres na casa dos vinte anos combatiam na linha de frente, e muitos homens cedo aprenderam a chorar sua dor, como mostra o epitáfio de Probina, que concebeu a afeição mas teve o horror como único filho, e Quintiliano, que perdeu sua mulher quando ela contava dezoito anos e já lhe dera dois filhos, sentiu sua morte como a perda não apenas de uma esposa, mas de uma filha.
40. Coube aos tratados cristãos sobre a virgindade falar em público sobre o estado físico das mulheres casadas, sobre seus riscos no parto, a dor em seus seios durante a amamentação, sua exposição às infecções infantis, a terrível vergonha da infertilidade e a humilhação de serem substituídas pelas criadas na afeição dos maridos, e tudo isso elas suportam sem ver a hora de terminar sua labuta, sendo que se não se tivessem casado seriam abençoadas ainda que não houvesse nenhum Reino dos Céus para recebê-las.
41. Esse é um vislumbre da imensa dor que qualquer sociedade subdesenvolvida deposita no corpo de suas mulheres férteis, e muito embora possuíssem tradição médica sofisticada e se dispusessem a praticar a contracepção e o aborto, as classes dominantes do Império Romano pouco podiam fazer para aliviar o sofrimento e a morte em suas esposas.
42. Quanto ao clero cristão, a maioria se dispunha tão pouco a romper com a instituição do casamento quanto se dispusera a contemplar a abolição da escravidão doméstica, e como os moralistas pagãos a cujas ideias faziam eco, os autores cristãos contentavam-se basicamente em atenuar os aspectos mais mortificantes da vida conjugal, e quando falavam com maior fervor sobre os males do casamento, não era às esposas que se dirigiam, mas às jovens não casadas, pouco fazendo as exortações cristãs à virgindade pela redução do sofrimento daquelas que já se haviam comprometido com a geração de filhos.
(III) “BARRO HABILMENTE MISTURADO”
1. É impossível resumir num apanhado tão sucinto, e a partir de tais documentos, o tom moral de uma sociedade tão vasta, diversificada e pouco conhecida em sua vida cotidiana quanto o Império Romano em seu auge, pois se aborda uma sociedade entre cujas classes superiores algumas áreas de extremo rigor coexistiram com áreas marcadas por uma graça, uma tolerância e uma despretensão que desapareceram da Bizâncio medieval e do Ocidente católico.
2. Essa justaposição singular de severidade e tolerância fazia sentido para os pagãos pensantes em termos de uma imagem da pessoa humana baseada no que melhor se chamaria de dualismo benevolente, pois a alma deparava com o corpo como o outro inferior ao eu, e o corpo era tão diferente da alma e tão intratável quanto as mulheres, os escravos e a plebe obscura e irrequieta das cidades, sem que nem mesmo os deuses pudessem alterar esse fato.
3. Que diz Zeus? Epíteto, fora isso possível, eu teria feito esse reles corpo, essa tua pequena propriedade, livre e desembaraçado, mas nas circunstâncias, e que isso não te escape, esse corpo não te pertence, mas é apenas barro habilmente misturado, um barro a que a idade, a doença e a morte se agarravam inexoravelmente, e ao final de tão prolongada dor o melhor para a alma era ir-se embora, talvez rumo às estrelas, purgada do corpo, com a carne adoecida enfim separada da mente.
4. Contudo, a alma fora enviada dos céus, durante algum tempo, para atuar como administradora da província murmurejante e fértil do corpo, e a relação que o homem culto mantinha com seu corpo era de interesse benevolente, pois seu domínio exigia uma sprezzatura requintada e as necessidades físicas não podiam ser tiranicamente subjugadas por um controle excessivamente meticuloso e rígido.
5. A alma tinha de aprender a exercer uma violência branda sobre o corpo, tal como o marido treinava sua jovem esposa, penetrando em seus sentimentos e ligando-se a ele pela boa vontade, e a simbiose genuína do corpo e da alma era a meta da medicina e da exortação filosófica, não se devendo permitir que o corpo impusesse suas necessidades à mente tranquila, sendo preciso mantê-lo bem ajustado segundo suas próprias leis intrínsecas.
6. A mente, por sua vez, devia aprimorar-se constantemente para que, por fraqueza e insegurança, não viesse a participar da labilidade da carne, e o homem indevidamente preocupado com seu corpo era uma visão indigna, pois gastar tempo com muitos exercícios, muita comida e bebida, muita evacuação dos intestinos e muita copulação era, pura e simplesmente, um sinal de falta de refinamento, e partindo de um grego bem-nascido nenhum juízo poderia ser mais esmagador do que esse.
7. Mas o asceta exibicionista era igualmente desagradável, e o rapaz podia optar por não ter relacionamentos amorosos antes do casamento, mas não devia tornar-se ofensivo ou recriminador para com os que assim se gratificavam, nem fazer menções frequentes ao fato de que ele mesmo não se satisfazia.
8. O corpo tinha um lugar legítimo na imensa cadeia de seres que ligava o homem aos deuses e às feras, elevando-se em direção à alma como a crista mais alta de uma onda oscilante vinda do poderoso oceano de uma Natureza eterna, e nem mesmo a terra obscura que dava e reclamava o corpo era neutra, sendo lícito chamá-la divina, presença majestosa a palpitar eternamente com a nova vida.
9. Os homens com que se depara na literatura do século II ainda pertenciam ao universo dinâmico do politeísmo clássico mais recente, sabiam ter sido ligados pela astúcia dos deuses ao mundo animal, sentiam pulsar no corpo o mesmo espírito flamejante que todos os anos cobria as colinas de cordeiros recém-nascidos e amadurecia as plantações num jogo amoroso sazonal, enquanto a brisa da primavera envolvia as espigas férteis.
10. Acima deles o mesmo fogo brilhava nas estrelas tremeluzentes, e seu corpo e seus impulsos sexuais participavam diretamente da perpetuidade inabalável de um universo imenso pelo qual os deuses brincavam exuberantemente.
11. Como coisa do mundo natural, esperava-se que o corpo falasse de suas necessidades num tom ancestral e autoritário, e só era prudente dar-lhe ouvidos vez por outra, pois a tolerância que se estendeu ao corpo no final da era clássica baseou-se no sentimento de que a antítese do mundo animal, a cidade, era tão forte que, uma vez formuladas, as exigências da sociedade eram inexoráveis.
12. A família e a cidade determinavam em que grau os resultados da ligação do corpo com o mundo natural seriam aceitáveis na sociedade organizada, e o simples fato do nascimento físico não fazia de uma criança romana uma pessoa, pois o pai tinha de erguê-la do chão, e caso contrário aquele feixezinho de matéria provida de alma, tão feto quanto se ainda estivesse no ventre materno, teria de esperar até que outros o recolhessem de algum lugar fora da casa paterna.
13. O feto podia ser abortado no ventre e ainda poderia morrer se ninguém o apanhasse e o tornasse parte de sua família, caso fosse abandonado num lugar público para ser pleiteado pelos passantes, e os rapazes se achavam numa situação análoga, ainda que menos perigosa, pois a natureza lhes tornava o corpo diferente do das crianças muito antes de eles serem úteis à cidade.
14. A primeira ejaculação do menino era celebrada por sua família nos festejos da Liberalia, em 17 de março, e durante alguns anos ele ficava livre para fazer brotar o crescimento da classe, e os calores inquietantes da adolescência, ou os humores úmidos remanescentes que se traíam na voz oscilante, tinham que se extinguir um pouco antes de o rapaz poder assumir o rígido papel de dignitário civil, sendo esse o período do ludus.
15. A própria natureza desenvolve o desejo do mancebo, e quando esses desejos irrompem de tal maneira que não perturbam a vida de ninguém e não abalam nenhum lar pelo adultério, são em geral encarados como não problemáticos e tolerados, e a convocação da cidade vinha bem cedo, só os homens fracos, dentre eles os grandes poetas eróticos da Roma de Augusto, demoravam a responder à intimação do dever através do abandono da vida dos enamorados.
16. Finalmente, tendo atendido ao prazer, que ele afinal se conclame outra vez à ação, aos afazeres da casa, ao foro e ao serviço do Estado, e até mesmo Marco Aurélio, modelo de sobriedade pública, cedeu a paixões eróticas pelo breve lapso de tempo indispensável, e embora fosse homem de grande austeridade, de modo algum se considerava comprometido com a abstinência sexual perpétua, passando a velhice com uma concubina, filha de um administrador de bens de sua primeira mulher, para não impor aos filhos uma madrasta.
17. A mocinha era amiúde tratada de maneira similarmente descontraída, e sendo criatura lábil demais para que lhe fossem permitidos os períodos de liberdade sexual assegurados aos rapazes e tolerados até nos maridos, a família tinha de guardá-la cuidadosamente, mas a integridade física de seu corpo ainda não se havia transformado no pesado símbolo que hoje se associa às sociedades cristãs do Mediterrâneo.
18. A perda da virgindade pela donzela era simplesmente um mau agouro para sua conduta futura, e a moça que já houvesse desfrutado de amores furtivos poderia fazer a mesma coisa ao se casar, não sendo uma moça bem criada, e vindo de um autor do século II, não era necessário juízo mais severo.
19. O efeito desse dualismo benevolente foi fazer com que as atitudes do fim da antiguidade clássica para com o corpo se afigurassem profundamente estranhas aos olhos cristãos posteriores e, portanto, aos observadores modernos do mundo antigo, pois no mundo pagão do século II concedia-se grau acentuado de tolerância aos homens tanto na questão do homossexualismo quanto em seus casos amorosos antes e fora do casamento.
20. Mas enfatizar apenas esse fato é banalizar o sentido das modificações ocorridas nos séculos posteriores, e não basta falar da ascensão do cristianismo no mundo romano simplesmente em termos da passagem de uma sociedade menos repressiva para outra mais repressiva, pois o que estava em jogo era uma mudança sutil na percepção do próprio corpo, e os homens e mulheres dos séculos subsequentes não apenas foram cercados por um conjunto diferente e mais rigoroso de proibições, mas também passaram a ver seus próprios corpos sob um prisma diferente.
21. Vista através da lente do cristianismo plenamente elaborado do início da Idade Média, a imagem do corpo das pessoas do século II parecia estranhamente indistinta, turvada por uma sensualidade difusa, e faltava ao desejo sexual o toque distintivo que ele logo adquiriria nos círculos cristãos, pois nenhuma necessidade isolada de gratificação sensual era focalizada com mais nitidez do que outra, nenhuma era considerada como tendo raízes particularmente profundas ou sendo excepcionalmente reveladora da fragilidade humana, e tampouco qualquer desejo era destacado como singularmente digno de reprovação.
22. O desejo sexual em si não era problemático, constituía uma reação previsível à beleza física, e sua satisfação era aceita como uma ocasião que trazia intenso prazer físico, sendo seguro deixar a critério da cidade julgar as consequências adicionais de se haver cedido ao doce prazer das coisas de Vênus, e o fato de os homens poderem sentir desejo de acariciar e penetrar outros homens bonitos causava aos gregos, pelo menos, pouca surpresa.
23. O que se julgava com rigor era o fato de que a busca do prazer podia levar alguns homens ao desejo de desempenhar o papel feminino, oferecendo-se para serem penetrados por seus amantes, comportamento que intrigava os médicos e era chocante para a maioria das pessoas, pois nenhum homem livre deveria permitir-se ficar tão enfraquecido pelo desejo a ponto de se deixar desviar da hierarquia ferozmente mantida que situava todos os homens livres, em todos os seus procedimentos, acima das mulheres e dos escravos.
24. O que à primeira vista poderia parecer tolerância revela, na verdade, a abrangência dos códigos adotados pelas elites, que abarcavam a totalidade do corpo do homem público, e como era compreensível que fizessem ricos, perpetuamente expostos ao olhar público, exercendo sobre outrem o poder de vida e integridade, e íntimos de figuras capazes de exercer tamanho poder sobre eles próprios, os notáveis da cidade consideravam a raiva, a crueldade irracional, o fisicalismo exuberante e ameaçador do glutão e a selvageria extravagante do bêbado temas muito mais dignos de interesse do que a amena paixão do desejo.
25. Era a essas paixões que os moralistas dedicavam sua mais circunspecta atenção, e onde os pagãos do século II diferiam mais profundamente das visões que já haviam começado a circular nos meios cristãos era em sua avaliação dos horizontes de possibilidade do próprio corpo, pois como matéria potencialmente amorfa e eterna, o corpo mal se mantinha unido, durante a breve duração da vida, pela alma vigorosa do homem bem-nascido.
26. Era tão pequena a possibilidade de mudança de sua matéria sólida quanto era impossível ao mármore cristalino de uma estátua bem talhada e primorosamente polida desabrochar magicamente, em suas profundezas, numa substância mais requintada e maleável, e tal como a sociedade, o corpo existia para ser administrado, e não modificado, mas houve quem começasse a discordar dessa opinião.
27. Escrevendo no final do século I, Clemente de Alexandria, um cristão que conhecia bem os autores pagãos, resumiu com admirável clareza e justeza a essência das expectativas do corpo que vinham sendo descritas, pois os filósofos pagãos, como ele sabia, adotavam uma imagem austera da pessoa, segundo a qual o ideal humano da continência ensina a resistir à paixão para que não nos tornemos subservientes a ela e a treinar os instintos para que busquem metas racionais, mas os cristãos, acrescentou ele, iam mais longe, pois seu ideal era não experimentar desejo algum.
28. Moisés ficara no Sinai por quarenta dias, um homem transfigurado pela presença próxima de Deus, e durante todo esse tempo as necessidades do corpo silenciaram nele, e pela Encarnação de Cristo o Deus Supremo estendera a possibilidade de tornar até mesmo o corpo passível de transformação, e ao admitir essa possibilidade, Clemente deixou implícito que o meio estável postulado pelo pensamento pagão, um corpo intratável e uma ordem social adaptada a suas necessidades inalteráveis, poderia romper com seus antigos liames.
29. A renúncia sexual poderia levar o cristão a transformar o corpo e, transformando o corpo, a romper com a disciplina discreta da antiga cidade, e Clemente foi um moderado entre os cristãos, mais próximo de Plutarco, Musônio Rufo e dos médicos de sua época do que de muitos de seus correligionários.
30. Em pequeninos grupos espalhados por toda a região oriental do Mediterrâneo, outros cristãos haviam-se apoderado do corpo, estabelecendo-o como marco palpável do fim dos tempos atuais, e acreditavam que o próprio universo se estilhaçara com a ascensão de Cristo da sepultura, de modo que, renunciando a toda e qualquer atividade sexual, o corpo humano poderia participar da vitória de Cristo e reverter o inexorável.
31. O corpo poderia livrar-se do jugo do mundo animal, e recusando-se a agir com base nos impulsos juvenis do desejo, os cristãos poderiam pôr termo ao casamento e ao parto, e terminado o casamento, a imensa trama da sociedade organizada ruiria como um castelo de areia tocado pela torrente oceânica do Messias.
32. Eram essas as opiniões de contemporâneos exatos de Galeno e Marco Aurélio, e suas implicações dificilmente poderiam ser mais estarrecedoras para as elites pagãs de Roma e do Egeu, e mais propensas a aborrecer o chefe de família médio de qualquer comunidade do Mediterrâneo ou do Oriente Próximo.
33. No século subsequente à morte de Jesus de Nazaré, a questão da renúncia sexual passou a ser elaborada nos círculos cristãos como uma alternativa drástica à ordem moral e social que parecia tão segura e tão disposta a discorrer sobre seus valores fundamentais em tratados, em obras de medicina e nas pedras quentes de tantos monumentos em tantas cidadezinhas, e para compreender a emergência dessa alternativa, deve-se agora voltar-se para o mundo sumamente diferente do judaísmo, para a Palestina de Jesus e para os dilemas das comunidades fundadas por S. Paulo em muitas das principais cidades do mundo greco-romano.
