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Verdade

CAPUTO, John D. TRUTH. The Search for Wisdom in the Postmodern Age. London: Penguin, 2013

Introdução

A verdade em trânsito

1. O deslocamento constante e banalizado da vida contemporânea, em que se vai a toda parte sentado em carros, trens e aviões, longe dos campos e oficinas que antes ficavam ao alcance dos pés, parece um fato inocente, mas acabou por precipitar uma verdadeira crise na compreensão da verdade.

2. Os filósofos de outrora, como Kant, que jamais deixou Königsberg, viviam presos ao próprio lugar e por isso tendiam a tomar os costumes locais como norma para o mundo inteiro, de modo que os padrões universais da Razão Pura do Iluminismo acabavam reduzidos ao europeu, e a pureza confundia-se com o fato de nunca ter encontrado ninguém diferente.

3. A possibilidade atual de estar quase em qualquer lugar a qualquer momento, por viagens velozes e pela mídia e pela internet que trazem o mundo até nós, consagra o ideal da mensagem instantânea, semelhante ao trânsito dos anjos mensageiros de Deus, e suscita a pergunta inquietante sobre o destino final dessa corrida e sobre como desembarcar dela.

4. Os sistemas modernos de transporte e de informação tornaram a vida muito mais pluralista e expuseram os povos uns aos outros, gerando ao mesmo tempo o ideal de culturas abertas e multicoloridas, conflitos sociais ligados à migração e à exploração global, a intuição cosmopolita de Kant e, no plano filosófico, uma vertigem diante da verdade que recebe o nome de pós-modernismo.

5. A cultura pós-moderna, globalizada, multicultural e tecnológica, desenvolve um senso aguçado da diferença, que ocupa o lugar antes reservado ao universal na modernidade iluminista, substituindo a imagem de um sistema unificado por um poder central pela de uma rede lateral sem centro nem fim, a regularidade matemática pelo caos ordenado, e encontrando eco até na física relativista e quântica e nos teoremas de Gödel.

6. Como modo de pensamento, o pós-moderno não é antimoderno nem nostálgico do pré-moderno, mas um estilo que prossegue o projeto da modernidade por outros meios, preferindo a flexibilidade às regras puras, as fronteiras porosas às categorias estanques, a incredulidade diante das metanarrativas às grandes histórias totalizantes, o singular ao universal, a exceção criativa à regra e o ceticismo saudável à certeza, como se vê na passagem do estruturalismo ao pós-estruturalismo no estudo da linguagem.

7. Diante da pergunta sobre a verdade, a postura pós-moderna tende a responder que tudo depende, admitindo muitas verdades conforme quem e onde se é, o que abre o risco do relativismo, segundo o qual nenhuma verdade vale mais que outra, risco reforçado por pensadores como Nietzsche, para quem a verdade é um conjunto de ficções e metáforas esquecidas, e Rorty, para quem ela é um elogio que fazemos a nós mesmos quando nossas crenças vão bem.

8. Os meios de transporte contemporâneos são ao mesmo tempo metáfora e parte real da vida pós-moderna, pois a possibilidade de ir a qualquer lugar sugere que qualquer coisa vale, e a condição de estar desenraizado e sempre em movimento lança em crise a ideia de verdades universalmente reconhecidas, num mundo cuja única universalidade parece ser a diversidade e no qual se pergunta sempre de que razão e de que nós se está falando.

9. O relativismo, ameaça própria do pós-modernismo, e o absolutismo, ameaça própria da modernidade, são igualmente becos sem saída, já que o absolutismo é uma chantagem intelectual que nos confunde com Deus e o relativismo é a falta de uma teoria da verdade que nos impede de declarar falsa qualquer coisa, seja uma conta errada, uma mentira ou a fraude contra idosos.

10. É preciso defender a plurivocidade, a ambiguidade e o caráter não programável da verdade sem renunciar ao direito de afirmar que certas coisas estão erradas, mantendo fidelidade às conquistas libertadoras do Iluminismo, mas exigindo um novo Iluminismo, esclarecido sobre si mesmo, que complique sua Luz Pura com sombras e nuances e reconheça que não existe a Verdade nem a Razão em maiúsculas, mas verdades no plural e boas e más razões.

11. Toda essa mobilidade produziu uma espécie de enjoo de movimento em relação à verdade, pois quanto mais se viaja mais o que antes parecia verdadeiro se revela provinciano e relativo ao lugar de origem, e com o tempo passou-se a compreender que tudo, absolutamente tudo, está sempre em movimento, numa trajetória que vai da física de Aristóteles à de Newton.

12. A vida sedentária de outrora fazia da Terra um chão firme no centro do universo, ao passo que hoje se sabe que, mesmo imóveis, viajamos na Nave Espacial Terra em torno do Sol, enquanto o horizonte cósmico se expande sem cessar e a física prevê um universo em fuga acelerada rumo a um estado final infinitamente dilatado, frio, escuro e morto.

13. Vivendo no interior de uma explosão iniciada há catorze bilhões de anos no Big Bang e destinada à dissipação entrópica, tudo se relativiza, de Königsberg à civilização e ao sistema solar, tornando-se fenômeno local e passageiro em escala cósmica, de modo que a Verdade se mostra efêmera como um lírio de um dia e todas as línguas e vidas parecem destinadas a ser línguas mortas e becos sem saída.

14. Para escapar ao pensamento paralisante dessa perspectiva cósmica e evitar tanto o absolutismo quanto o relativismo, vale o conselho de Lessing, que, se Deus lhe oferecesse a verdade na mão direita e a busca da verdade na esquerda, escolheria a esquerda, deixando a verdade absoluta a Deus e reservando para si a busca, escolha que à primeira vista parece absurda, como preferir viajar para sempre a chegar ao destino.

15. A imagem do corredor que recusa a carona oferecida por amigos esclarece o sentido de Lessing, pois na corrida o que importa é o próprio percurso e não o ponto de chegada, e assim também a verdade, ao menos para os seres finitos que precisam se mover no espaço e no tempo, assemelha-se mais a uma prática contínua do que a um lugar ao qual se chega.

16. Deus pode ser entendido como um limite ideal, o único ser que não precisa de transporte por estar em toda parte e conhecer tudo de uma só vez, ao passo que os mortais, sempre situados em uma língua, cultura, gênero e corpo, recebem as verdades uma a uma, sendo essa situação ao mesmo tempo limite e ângulo de entrada, perspectiva e interpretação, de modo que a tarefa humana diante da verdade é cultivar a arte da interpretação, a hermenêutica.

17. A hermenêutica, originalmente teológica e voltada à interpretação das Escrituras, tornou-se uma teoria geral segundo a qual toda verdade depende de interpretação, e esta decorre de estarmos situados num tempo e lugar com pressupostos herdados, condição acentuada pela avalanche de perspectivas trazida pelos meios de transporte e informação, o que faz da verdade pós-moderna uma questão de saber julgar e lidar com a diferença de modo criterioso.

18. A hermenêutica pressupõe verdades de diferentes tamanhos, tipos, níveis e finalidades conforme a situação interpretativa, e a lição de Lessing refere-se à verdade de longo prazo, na qual pesam mais a seriedade da busca, o esforço e o modo de proceder do que a conclusão, pois a jornada importa mais que o destino.

19. Como no longo prazo todos morrem, e certos destinos terminais são indesejáveis, cabe a criaturas finitas descobrir como verdades múltiplas e concorrentes podem coabitar pacificamente sem lançar tudo no caos, o que exige não agir como Deus nem reivindicar uma Grande Verdade capaz de intimidar todas as outras.

20. A hermenêutica é a arte de negociar múltiplas verdades finitas e minúsculas sem deixar entrar na sala um gorila de quatrocentos quilos, papel que antes do Iluminismo cabia à teologia e hoje cabe à ciência, cujo veredito tende a encerrar a conversa, razão pela qual é preciso enfrentar com ousadia tanto o mau uso de Deus pelos religiosos quanto o mau uso da física pelos iluministas, lembrando que até a Teoria de Tudo é apenas uma teoria entre outras.

21. Ciência e religião rivalizam pelo mesmo trono porque ambas postulam, para além do mundo cotidiano rico e ruidoso, um mundo verdadeiro revelado pela matemática ou pela Revelação, e a contribuição hermenêutica consiste em vigiar todo Discurso Hegemônico que pretenda saber tudo, reconhecendo que físicos e teólogos oferecem apenas ângulos e interpretações, das quais se precisa do maior número possível, sem ceder à sedução da Verdade maiúscula nem à ilusão de ditar à verdade o que fazer.

22. Uma teoria hermenêutica ou pós-moderna da verdade deve acompanhar o jogo caósmico de interpretações múltiplas que chegam da ciência, da ética, da política, da arte e da religião, como quem se esquiva de táxis no trânsito, cultivando uma sabedoria ágil que se move com o que se move, sob o lema mutatis mutandis, adequada a um mundo de mensagens instantâneas que voam como pequenos anjos e de viajantes apressados, sem nostalgia de um passado agrário em que se sonhava voar.

23. Talvez, como sugere Lessing, o que importa não seja o destino mas a qualidade da viagem, e talvez a própria viagem seja o destino.

24. A trajetória proposta é uma visita guiada pelos três grandes modelos de verdade, a ideia pré-moderna de que Deus é a verdade, a ideia moderna de que a Razão julga o que é verdadeiro e a ideia pós-moderna da verdade como acontecimento, em que nem Deus nem a Razão ocupam lugar privilegiado, percurso que termina com uma pergunta e não com uma resposta, sem reembolso do bilhete.

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