Cartas
ZOLLA, Elémire. I mistici dell’Occidente. 1. In: Gli Adelphi. Nuova edizione riveduta, quarto edizione ed. Milano: Adelphi edizioni, 2013.
Consolos a um condenado, de uma carta a frei Raimundo de Cápua
[CCLXXIII] Fui visitar a quem sabeis: com isso recebeu tanto alívio e consolação, que se confessou e se preparou muito bem. E fez-me prometer pelo amor de Deus que, quando chegasse o momento do ajuste de contas, eu estaria com ele. Assim o prometi, e o fiz. A manhã antes da execução fui vê-lo, e recebeu grande consolação. Levei-o a ouvir missa, e recebeu a santa comunhão, a qual não havia recebido. Aquela vontade estava acordada e submetida à vontade de Deus: e só havia ficado nele um temor, o de não ser forte quando chegasse o momento. Mas a desmedida e ardente bondade de Deus o distraiu, criando-lhe tanto afeto e amor no desejo de Deus, que não sabia estar sem ele, dizendo: “Estai comigo e não me abandoneis. Assim não estarei senão bem; e morrerei contente”. E mantinha sua cabeça sobre meu peito. Então sentia eu júbilo e o odor de seu sangue; e não era sem o odor do meu, que desejo derramar pelo doce esposo Jesus. E, crescendo o desejo em minha alma, e sentindo seu temor, disse: “Consolai-vos, doce irmão meu; porque logo chegaremos às bodas. Vós ireis lavado no doce sangue do Filho de Deus, com o doce nome de Jesus, o qual não quero que se vos vá nunca da memória. Espero-vos no patíbulo”. Agora pensai, pai e filho, que seu coração perdeu então todo temor, e sua cara mudou de triste em alegre; e gozava, exultava, e dizia: “De onde me vem tanta graça, que a doçura de minha alma me espere no santo patíbulo?”. Vede que havia chegado a tanta luz, que chamava santo ao patíbulo! E dizia: “Irei todo alegre e forte; e parecer-me-ão mil anos o tempo que tarde em chegar, pensando que vós me esperais ali”. E dizia palavras tão doces da bondade de Deus, que fazia chorar.
Esperei-o, pois, no patíbulo; e esperei ali com contínua oração e presença de Maria e de Catarina virgem e mártir. Mas antes de chegar ao patíbulo, ajoelhei-me e estendi o pescoço sobre o bloco; mas não senti que eu tivesse pleno o afeto a mim mesma. Ali acima rezei, e roguei encarecidamente, e disse: “Maria!”, que eu queria a graça de saber dar-lhe, ao chegar o momento, luz e paz de coração, e depois vê-lo voltar ao seu fim. Encheu-se então minha alma tanto, que, ainda quando havia ali uma multidão do povo, não podia eu ver a criatura alguma, pela doce promessa que se me fez.
Depois chegou ele, como um cordeiro manso, e ao ver-me começou a rir; e quis que eu lhe fizesse o sinal da cruz. E recebido o sinal, disse eu: “Abaixo!, às bodas, doce irmão meu!, que logo estarás na vida perdurável”. Ajoelhou-se com grande mansidão; e eu lhe estendi o pescoço, e inclinei-me para baixo, e recordei-lhe o sangue do Cordeiro. Sua boca não dizia outra coisa que Jesus e Catarina. E enquanto assim dizia, recebi a cabeça em minhas mãos, pondo o olhar na divina bondade e dizendo: “Quero”.
Então via a Deus-e-Homem, como se visse a claridade do Sol; estava aberto, e recebia o sangue; em seu sangue, um fogo de desejo santo, dado e escondido em sua alma por graça; recebia no fogo de sua divina caridade. Depois que houve recebido o sangue e seu desejo, recebeu sua alma, à qual pôs no receptáculo aberto de seu costado, cheio de misericórdia: assim a Verdade primeira manifestava que só por graça e misericórdia o recebia, e não por nenhuma outra obra. Oh, quão doce e inestimável era de ver a bondade de Deus!, com quanta doçura e amor esperava a essa alma separada do corpo!; voltou seus olhos misericordiosos para ela, quando chegou a entrar dentro do costado banhado em seu sangue, o qual tinha valor pelo sangue do Filho de Deus. Assim foi recebido com potência por Deus (poderoso para poder fazê-lo); e o Filho, sabedoria Verbo encarnado, deu-lhe e fez-lhe participar do amor crucificado com o qual recebeu ele penosa e opróbria morte pela obediência que prestou ao Pai para utilidade da humana natureza e geração; e as mãos do Espírito Santo o encerravam dentro.
Mas ele fazia um doce ato de tirar mil corações. E não me maravilho disso, porque já provava a divina doçura. Voltou-se como faz a esposa quando chegou à porta de seu esposo, que volta o olhar e a cabeça para trás, fazendo uma inclinação a quem a acompanhou, e com esse gesto mostra sinais de agradecimento.
Uma vez que foi sepultado, minha alma descansou em paz e quietude, com tanto odor de sangue, que não podia eu resistir tirar-me o sangue dele que me havia caído em cima.
Ai de mim, mísera miserável!, não quero dizer mais. Permaneci em terra com grandíssima inveja. E parece-me que la primeira pedra está já posta. E por isso não vos maravilheis se não vos imponho outra coisa que ver-vos afogados no sangue e no fogo que derrama o costado do Filho de Deus. Agora, pois, não mais negligência, dulcíssimos filhos meus, pois o sangue começa a derramar-se, e a receber a vida. Doce Jesus, Jesus amor.
