MULTIPLICAREI TUAS PENAS…
LEGUM ALLEGORIAE. Excertos da tradução em espanhol de JOSÉ MARÍA TRIVIÑO
200. LXXI. “E disse à mulher: ‘Multiplicarei suas dores e seus lamentos’.” (Gênesis III, 16.) É próprio da mulher, ou seja, da sensibilidade, uma experiência, um sofrimento chamado “dor”. É que aquilo que nos proporciona prazer é também origem de dor; e, como nos deleitamos através dos sentidos, por força deles também sofremos. Mas, enquanto a inteligência nobre e pura sofre muito pouco, pois os sentidos muito pouco conseguem afetá-la, pelo contrário, não há limites para o sofrimento da inteligência insensata, que não possui nenhum antídoto na alma com o qual se defender das doenças que provêm dos sentidos e das coisas sensíveis.
201. Porque, de maneiras diferentes, recebem golpes o atleta e o servo: este, suportando submissa os maus-tratos e submetendo-se; o atleta, por outro lado, aguardando firme, opondo-se e rejeitando os golpes que vêm sobre ele. De uma maneira se rapa um homem e de outra se rapa um cordeiro; pois enquanto o cordeiro se limita a sofrer passivamente, no caso do homem, pelo contrário, há uma atividade recíproca, e pode-se dizer que ele corresponde ao que experimenta, adotando atitudes e posturas adequadas ao processo de ser rapado.
202. Bem, de maneira análoga, o homem que age irracionalmente suporta o outro como o escravo; e se submete às dores como a senhores insuportáveis, incapaz de enfrentá-las e sem poder extrair pensamentos viris e livres; por isso, uma multidão incontável de sentimentos de dor se derrama sobre ele através dos sentidos. Em contrapartida, como se fosse um atleta saindo com força e vigor ao encontro de todas as coisas penosas, o homem sábio as enfrenta de tal maneira que não é ferido por elas, mas olha para cada uma com absoluta indiferença; e com ardor juvenil parece-me pronunciar aquelas palavras da tragédia dirigidas à dor: “Queime-me, consuma minha carne, sature-se de mim bebendo meu sangue negro; porque as estrelas descerão abaixo da terra e a terra se elevará até o éter antes que uma palavra lisonjeira saia da minha boca.” 1)
