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Profecia
LES IDÉES PHILOSOPHIQUES ET RELIGIEUSES DE PHILON D'ALEXANDRIE. PARIS: LIBRAIBIE ALPHONSE PICARD & FILS, 1908
A PROFECIA E O ÊXTASE
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O valor das ideias religiosas de Filon baseia-se menos em argumentos dialéticos e mais no sentimento vívido e na experiência íntima dos fatos religiosos, sendo necessário reconstituir essa experiência a partir de fragmentos de confissão pessoal em sua obra.
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A obra de Filon, embora seja antes de tudo uma obra de exegese, contém relatos pessoais de inspiração, orações e efusões à divindade, ligando a exegese alegórica à efusão íntima.
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Dois fenômenos distintos da comunicação com Deus são identificados: a inspiração, na qual a alma recebe conhecimentos por meio do espírito divino, e o êxtase, onde o objeto de conhecimento é o próprio ser divino.
1. — A DIVINAÇÃO
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Filon rejeita deliberadamente a adivinhação indutiva ou artificial, considerando-a uma invenção humana, e aceita a adivinhação inspirada ou entusiástica, na qual a alma se comunica mais ou menos diretamente com Deus.
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A crítica de Filon à adivinhação indutiva é de ordem prática, visando afastar os homens dos erros dos adivinhos e conduzi-los ao profetismo judaico.
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Ele enumera várias espécies de adivinhação que condena, como a arte augural, o exame de prodígios, os arúspices, os purificadores, os encantadores, os sortilégios e a necromancia.
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A principal objeção de Filon à adivinhação indutiva é a instabilidade dos objetos sobre os quais ela se baseia, como os voos irregulares das aves e os cadáveres em decomposição.
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A teoria do milagre em Filon opõe o fato miraculoso não à verdadeira lei da natureza (idêntica à razão divina), mas às opiniões incertas (prováveis e verossímeis) pelas quais se crê apreender o curso da natureza.
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Filon aceita os prodígios e os milagres como parte da tradição judaica, embora os critique no Comentário Alegórico, tratando-os como mitos absurdos.
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A teoria do profeta em Filon não deriva do profetismo judaico, mas das ideias gregas e egípcias sobre a adivinhação intuitiva, que se divide em oráculos e sonhos.
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A classificação dos oráculos e dos sonhos em Filon corresponde à de Posidônio: oráculos/sonhos da face de Deus (ação divina apenas), oráculos/sonhos por demanda e resposta (colaboração de Deus e da alma), e oráculos/sonhos do êxtase (ação da alma sozinha).
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A inspiração da primeira classe é descrita como uma audição interior, onde o espírito é passivo e Deus fala diretamente à alma, formando um som ou voz no ar.
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A segunda classe de oráculos corresponde a um diálogo interior composto pelas demandas do homem e as respostas de Deus, um misto de ação humana e divina.
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A terceira classe, a do êxtase profético, é descrita como um estado de possessão divina no qual a reflexão (logismos) é suprimida, o profeta não reconhece o lugar, as pessoas nem a si mesmo, e a inteligência humana é substituída pelo espírito divino.
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O estado profético é preparado pela purificação da inteligência, que envolve suprimir as impressões sensíveis, buscar a solidão, o jejum e a abstinência, e enfraquecer os sentidos.
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A interpretação dos oráculos e dos sonhos, para Filon, não é uma técnica, mas um modo de divinação que requer uma inspiração de segundo grau, na qual ele próprio se apresenta como um inspirado capaz de penetrar os símbolos do mosaísmo.
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A interpretação alegórica dos sonhos em Filon utiliza procedimentos similares aos dos manuais de onirocritica da época, como a etimologia e a polissemia dos símbolos, mas ele a considera uma verdadeira inspiração.
2. — O ÊXTASE
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A ciência de Deus em Filon não é o resultado de um raciocínio lógico, mas de um desejo fervoroso, e consiste em uma visão intelectual imediata, distinta da demonstração e da conclusão por raciocínio.
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A demonstração da existência de Deus, de tipo estoico (pela comparação do mundo a uma cidade), é considerada um caminho inferior e distinto da intuição direta do Ser.
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A visão de Deus é descrita com metáforas de luz e iluminação, onde Deus é um clarão puro que ilumina a alma com seus raios inteligíveis, mas que, contemplado de perto, a ofusca e impede de ver.
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A dialética para alcançar Deus segue o modelo platônico (reminiscências do Banquete, da República e do Fedro), mas, diferentemente de Platão, não é uma dialética reflexiva, mas uma experiência marcada pela oscilação perpétua entre a unidade e a multiplicidade aparente (as potências).
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A influência estoica na teoria do conhecimento leva Filon a uma doutrina da incompreensibilidade de Deus, pois a alma tem uma capacidade limitada e não pode conter ou possuir a substância divina.
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Assim como a inteligência humana não pode compreender sua própria substância, ela também não pode compreender a substância de Deus, que permanece sempre a uma distância infinita.
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Para compreender Deus, seria necessário tornar-se Deus, pois apenas ele pode compreender a si mesmo.
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Apesar de afirmar a incompreensibilidade de Deus, Filon descreve um estado no qual a inteligência purificada se aproxima de Deus, metamorfoseando-se em um ser divino, embora não possa possuí-lo.
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A busca por Deus em Filon não é justificada pelo sucesso na apreensão de seu objeto, mas pelo próprio movimento perpétuo da alma que busca um objeto infinito, encontrando nessa busca um aguilhão que aquece seus desejos.
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A “ciência” de Deus não é um conhecimento intelectual de um objeto, mas uma experiência íntima da alma, descrita por sentimentos subjetivos como a paz, a satisfação plena e o desejo de permanência eterna nesse estado.
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A presença de Deus na alma não é uma forma de conhecimento, mas um sentimento de melhoria interior e de satisfação, que constitui a verdadeira imortalidade para a inteligência purificada.
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