VIDE: conhecimento, gnostike, episteme, praxis, theoria
Para dar ao seu povo conhecimento (gnosis) da salvação, Na remissão dos seus pecados; (Lucas 1:77)
Ai de vós, doutores da lei, que tirastes a chave da ciência (gnosis); vós mesmos não entrastes, e impedistes os que entravam. (Lucas 11:52)
O profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência (gnosis) de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! (Romanos 11:33)
Para que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em amor, e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo, Em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência (gnosis). (Colossenses 2:2-3)
O termo gnosis, originário da filosofia grega, foi apropriado pelos primeiros cristãos com o sentido muito específico de uma forma de conhecimento interior — a raiz da palavra gnosis refere-se a um conhecimento por e através do noûs — e que se distingue das formas comuns de conhecimento ordinário — episteme.
CONHECIMENTO espiritual ou CIÊNCIA (gnosis): realização própria da operação do intelecto (distinta da operação discursiva da razão — dianoia) que, iluminada pela fé e pela ação da Graça, e na medida em que é purificada, penetra progressivamente, seja nas razões das coisas, seja no mistério de Deus, subindo os vários degraus do conhecimento espiritual (ver também discernimento), até alcançar a contemplação e a teologia. O termo assume nuances diversas, de acordo com os diferentes autores e períodos espirituais. Para ter uma visão geral da história do conhecimento no cristianismo, podem-se encontrar alguns capítulos claros e interessantes em L. Bouyer, Espiritualidade dos Padres II, Bolonha, Ed. Dehoniane, em particular nas páginas 79-143 e 332 e seguintes.
Gnosis, também enquanto movimento religioso emergindo nos primórdios do cristianismo, porém com manifestações no judaísmo que logo antecede o cristianismo e no hermetismo e na filosofia pagã que lhe sucede, o Gnosticismo vem sendo muito estudado nos últimos dois séculos, revelando uma concepção ímpar em termos cosmológicos, ontológicos e metafísicos, com uma terminologia própria, por vezes divergentes entre as correntes dentro do próprio movimento. Nesta página apresenta-se uma pequena amostra das definições de seus principais pesquisadores, assim como uma tentativa de identificar os termos e noções capitais para seu entendimento.
[…] Há algo em comum entre as antigas religiões mistéricas, que iniciam em um mistério, e as irmandades iniciáticas que, no seio das religiões reveladas, iniciam em uma gnosis. Mas seu estatuto difere. Nem o cristianismo nem o islamismo são, em sua constituição histórica oficial, religiões iniciáticas. No entanto, existe uma versão iniciática, uma gnosis do cristianismo e do islamismo. O que é preciso saber é em que medida os dogmas fundamentais de uma e de outra religião justificam ou negam, precisam ou contradizem a função da gnosis; ou seja, por exemplo, se o dogma oficial da Encarnação se solidariza com a consciência histórica, ou se a gnosis lhe confere seu verdadeiro sentido; se o profetismo essencial ao Islã exige uma gnosis, uma vez que a verdade do Livro revelado pressupõe uma hermenêutica profética, ou se a exclui. E uma questão prática também: seria necessário realizar um estudo comparativo aprofundado sobre o destino da gnosis no Islã e no Cristianismo. É sem dúvida possível imaginar um diálogo, na metahistória, entre os «Irmãos da Pureza», de Basora, movimento com ligações ismaelitas, e os Rosacruzes de Johann Valentino Andreae: eles teriam se entendido perfeitamente. Mas a pergunta permanece: houve no cristianismo um fenômeno comparável ao que a gnosis ismaelita representa para o Islã? Ou, a partir de quando isso se tornou impossível? Existiram no cristianismo espiritualistas comparáveis a um Ibn Arabi e que tenham exercido uma influência semelhante? Houve no cristianismo um fenômeno comparável, em extensão e profundidade, ao do sufismo? É ao sufismo iraniano que basicamente nos referimos aqui. É preciso ter cautela com as comparações precipitadas que possam ter sido feitas com o monaquismo cristão; ambos os fenômenos diferem profundamente. Pode-se pensar em uma Ordem Terceira ou em uma Loja, mas não é nem uma coisa nem outra. [Imaginação criadora…]
GARCÍA BAZÁN, Francisco. Gnosis: la esencia del dualismo gnóstico
O crente gnóstico é o que possui A Gnose. E a gnose é um conhecimento. Mas este conhecimento escapa às análise normais racionalistas. O correlato deste conhecimento é o Si mesmo: a intimidade infinita ou espiritual da pessoa, que é o verdadeiro e simples. Se conhece ao Si mesmo como objeto de conhecimento, mas o Si mesmo só é conhecível por ele mesmo; o Si mesmo, portanto, se autoconhece na gnose, é sujeito e objeto de conhecimento, porque é uma mesma coisa o que conhece e o conhecido, conhecer e conhecer-se. Para esclarecermos, não é que o homem seja o Si mesmo, ou que o mais aparente do que se pode chamar o homem, a unidade psicofísica, seja o Si mesmo, mas que este, segundo tais sentidos, é algo totalmente diferente do homem. Tampouco é correta a declaração inversa, a saber, que o Si mesmo seja o homem e que, portanto, ao conhecer-se o Si mesmo seja o homem o que se conhece a si mesmo. Não, o Si mesmo se conhece a si e esta autognose é a gnose. O homem, o repetimos, como o enfocam as ciências e como o tende a idealizar a antropologia ingênua do crente comum, pode ser que experimente e que se conheça, até ignoramos que detalhes humanos, mas este conhecimento, embora o chamemos de seu eu, de sua intimidade ou de sua individualidade, é um conhecimento que tende a ver tudo o que se queira com as mais finas análises dos instrumentos sensoriais, psicológicos, racionais ou da imaginação reprodutora, mas que nada tem que ver com o conhecimento gnóstico. E porque a gnose tem este caráter peculiar que assinalamos, se diz que é revelação e não conhecimento, ou que é conhecimento revelado. Efetivamente, não existe possibilidade humana de aceitação, afetividade ou cognoscibilidade que possa alcançar a gnose. O auto-conhecimento de Si mesmo é extra e super-humano. É um conhecimento supra-consciente que depende de si, que nada tem que ver com o humano, que pertence a outra esfera de ser. O hiato que existe entre o Si mesmo e o homem é intransponível e por isso o pneuma se reconhece e este reconhecer-se é um ato autônomo para o qual a razão, o sentimento ou a vontade como faculdades psíquicas, resultam ineficazes. Por outro lado, tampouco é idêntico este conhecimento revelado à fé, embora esta se mova no âmbito espiritual; e será menos ainda quando a experiência da fé, fenômeno comum em nossos dias, tende a confundir-se com a crença e com a mesma linguagem religiosa que a gerou. Mas ambas experiências, embora diversas e hierarquicamente diferentes, podem aproximar-se, se se tem em conta que a fé é obra da graça e que esta possui uma autonomia própria que depende somente do sobrenatural. E se a revelação gnóstica se baseia na autognose, devemos afirmar também que sua forma de conhecimento há de ser imediata, direta ou intuitiva, alheia, portanto, à minguada forma racional dedutiva e muito mais à experiência e reunião de dados sensoriais. Neste mesmo plano gnoseológico, se a razão se mostra especialmente frutífera no âmbito judicativo e demonstrativo e se também colabora com os sentidos na esfera dos fatos e se nem a razão nem a experiência sensorial, podem dar conta da autognose, assim como o raciocínio é dedutivo e a experiência sensível é sensitiva, a intuição será espiritual e seu órgão correspondente será o noûs, no sentido gnoseológico, mas se alcançamos mais sua perspectiva ontológica o chamaremos pneuma, espírito, o Divino no homem, e em seu mais pleno sentido, Si mesmo, como a única verdadeira existência, ante cuja transparência o que chamamos de homem, obra de um não mitigado instinto anti-metafísico, é pura sombra e ilusão separadora. E esta é a completa segurança do gnóstico, o Si mesmo se descobriu e sua luz apartou sua ilusão, o que considerava humano. E claro que este conhecimento, autoconhecimento, ou reconhecimento, dada a vertente antropológica do Si mesmo, é salvador, pois conhecer-se é saber-se idêntico, experimentar a identificação entre o conhecido e o cognoscente e esta desvelação é reconhecimento da própria necessidade de manifestação do pneuma, rechaço de tudo o que oculta sua realidade e por isso salvação ou liberação, sinônimo de conhecimento, des-velação ou re-velação. Pelo contrário, manter-se oculto o Si mesmo nas sombras do humano significa condenar-se. Ocultação, desconhecimento ou ignorância tem o mesmo significado de condenação e fazem ao homem psíquico e carnal, não aberto e condenado, e por isso, com suas sombras.
Em síntese. A gnose própria do gnosticismo dado o explicado se resume nestes caracteres: autoconhecimento do Si mesmo como Plenitude e Absoluto, ou conhecimento pneumático revelado, intuitivo, salvador e esotérico.
A gnose se definiu assim como “conhecimento salvador” e só se fez desdobrar uma série de virtualidade descorrentes desta caracterização. Mas se compreende também que esta experiência, como o modo mais alto de sabedoria que se pode possuir, deverá encerrar em si quanto possa saber-se e dizer-se sobre a realidade e é isto que ficou desta maneira consignado nos mesmos documentos gnósticos:
Diz igualmente o Salvador a Tomé em outro dos manuscritos de Biblioteca de Nag Hammadi:
Talvez o documento gnóstico que revela com maior plasticidade a experiência e o conteúdo da gnose, seja o “Hino da Pérola”, conservado nos Atos de Tomé.
A gnose é uma experiência ou se refere a uma eventual experiência interior, destinada a transformar-se em uma estado imperdível, pelo qual no curso de uma iluminação que é regeneração e divinização, o homem se compreende em sua verdade, se rememora e toma consciência de si, ao mesmo tempo de sua natureza e de sua origem autênticas; por ela se conhece ou reconhece em Deus e se mostra a si mesmo como emanado de Deus e estranho ao mundo, adquirindo desta maneira, com a possessão de seu “eu” e de dua condição verdadeiros, a explicação de seu destino e a certeza definitiva de sua salvação, descobrindo-se como salvado — por direito e desde sempre — … (“Phénoménologie de la Gnose, Annuaire du Collège de France, 1953-1954)
A. Guillaumont (Le Gnostique. Sources chrétiennes. 1989) precisa na sua introdução à Evágrio que foi com Clemente de Alexandria que a palavra gnosis ganhou sua chancela cristã para designar, face àqueles que se diziam “gnósticos”, o “verdadeiro gnóstico”, ou seja, o cristão que pela prática das virtudes e o estudo de sua tradição, alcança um certo conhecimento espiritual que os simples fiéis não compartilham, pois ainda restritos ao domínio da fé.