ESTADOS

René Guénon: O HOMEM SEU DEVIR SEGUNDO O VEDANTA

Deixando momentaneamente de lado o quarto estado, ao qual voltaremos mais tarde, diremos que os três primeiros são: o estado de vigília, que corresponde à manifestação grosseira; o estado de sono, que corresponde à manifestação sutil; e o sono profundo, que é o estado “causal” e informal. A esses três estados, acrescenta-se às vezes outro, o da morte, e ainda outro, o desvanecimento extático, considerado como intermediário (sandhya) entre o sono profundo e a morte, da mesma forma que o sono o é entre a vigília e o sono profundo. No entanto, esses dois últimos estados, em geral, não são enumerados separadamente, uma vez que não são essencialmente distintos do estado de sono profundo, estado extraindividual na realidade, como explicamos há pouco, e onde o ser entra igualmente na não-manifestação, ou pelo menos no informal, “ao retirar-se a alma viva (jivâtmâ) para o seio do Espírito Universal (atman) pela via que conduz ao próprio centro do ser, ali onde está a morada de Brahma”.

Para a descrição detalhada desses estados, basta remeter-nos ao texto da Mândukya Upanishad, cujo início já citamos anteriormente, com exceção, no entanto, de uma frase, a primeira de todas, que é esta: “Om, esta sílaba (akshara) é tudo o que existe; sua explicação segue”. O monossílabo sagrado Om, no qual se expressa a essência do Vêda, é considerado aqui como o símbolo ideográfico do atman; e, da mesma forma que esta sílaba, composta por três caracteres (mâtras, sendo esses caracteres a, u e m, dos quais os dois primeiros se contraem em o), possui quatro elementos, dos quais o quarto, que não é outro senão o próprio monossílabo considerado sinteticamente sob seu aspecto principal, é “não expresso” por um caractere (amâtra), uma vez que é anterior a toda distinção no “indissolúvel” (akshara), assim também o atman tem quatro condições (pâdas), das quais a quarta certamente não é nenhuma condição especial, mas sim o atman considerado em Si mesmo, de maneira absolutamente transcendente e independente de toda condição, e que, como tal, não é suscetível de nenhuma representação. Vamos agora expor sucessivamente o que se diz, no texto a que nos referimos, sobre cada uma dessas quatro condições do atman, partindo do último grau da manifestação e remontando até o estado supremo, total e incondicional.

Frithjof Schuon: O ESOTERISMO COMO PRINCÍPIO E COMO VIA

No Vedanta, Atma revela três grandes véus (ou “invólucros” = Koshas), que correspondem de modo analógico, se os prefigurarmos causativamente, aos estados de vigília, de sonho e de sono profundo. Esses véus ou estados são Vaishwânara, Taijâsa, Prajna: eles velam a Realidade incondicionada e inefável, Turtya, que no microcosmo humano será a Presença divina no fundo do coração. Esta realidade ou este quarto “estado” em sentido ascendente é o Superser, ou Atmâ em si; dele se diz que não é “nem manifesto (vyakta), nem não-manifesto (avyakta)”, e isso exige uma importante precisão, que aqui está.

Algumas considerações sobre a relação entre o estado de sonho e o estado de vigília se impõem aqui, pois alguns contestarão que a visão do sonho concerne ao ego do estado de vigília. Com efeito, alguns vedantistas modernos sustentam que os dois estados em questão não têm nenhuma relação um com o outro, que o ego do sonho não é de forma alguma o da vigília, que os dois estados constituem sistemas fechados e que é abusivo tomar a consciência desperta como ponto de referência em relação à consciência onírica e que, consequentemente, esta não é, de forma alguma, inferior ou menos real do que aquela.