AMOR-PRÓPRIO

JEAN BORELLA — CARIDADE PROFANADA

Amar o próximo só pode, portanto, concretizar-se por meio da interiorização da proximidade. Para nos tornarmos os outros — o que, de certa forma, está implícito no Mandamento — “amarás o teu próximo como a ti mesmo” —, é preciso tornar-se outro além de si mesmo; ou seja, compreender que eu não sou eu. Vê-se, assim, como tudo o que dissemos sobre a antropologia cristã condiciona a verdadeira caridade; eu não sou eu porque o eu não é o eu.

De modo que o verdadeiro amor próprio implica uma conversão do amor natural de si mesmo ou amor-próprio. Poderia parecer paradoxal, de fato, apresentar a interiorização da dissemelhança como idêntica à interiorização da proximidade, uma vez que a dissemelhança é afastamento, e como se reduzisse, em última instância, ao amor próprio, quando parece ser o seu oposto. Mas a proximidade pressupõe a diferença, e o amor, que é desejo e busca da união, pressupõe a dualidade. É por não aceitar a distância interior que o amor de apropriação está impregnado de sofrimento, de remorso, de amargura e, finalmente, de ódio de si mesmo. O homem caído, pela coagulação do ego, está preso a si mesmo. Tendo perdido Deus, resta-lhe sua imperfeição. Renunciar a essa imperfeição, que constitui toda a sua realidade, é renunciar a tudo o que lhe resta de si mesmo. No entanto, incapaz de encontrar repouso em si mesmo e alegria em seu ego, ele disfarça essa vergonhosa paixão por si mesmo como punição e, assim, a justifica. Essa é a ilusão quase invencível do remorso. Visto que me conheço, me julgo e me acuso em minha insuportável imperfeição, estou justificado aos meus próprios olhos pelo desejo que tenho por ela. O pecado original, que é a queda do eu na psique, usurpando a função do anjo da guarda, nos institui guardiões de nós mesmos. O fundo do ego é o remorso da culpa ontológica. Arrepender-se é, de certa forma, imitar miseravelmente a perfeição que se tornou inacessível, por meio de um retorno amoroso à própria imperfeição. Guardião de mim mesmo, longe de me proteger e me guiar como o anjo da guarda, eu me torno meu próprio algoz para me punir e me justificar por não ser mais belo do que meu desejo. O homem passa assim sua vida: seu passado é um remorso, seu presente uma covardia, seu futuro uma ilusão. No remorso, ele toma como fim de seu desejo a imperfeição que existia no início; na covardia, ele se abandona e aceita sua feiura; na ilusão, ele espera, de forma inabalável, surpreender em si mesmo o desabrochar de uma perfeição impossível: e se, por acaso, eu me tornasse o que nunca serei?

Há um momento no amor em que o homem e a mulher devem estar nus um diante do outro. Sem dúvida, a nudez é coberta pelo desejo e, mais tarde, também pelo hábito. Mas essa nudez faz parte do destino do amor. Amar, comprometer-se com o destino do amor, é aceitar encontrar um dia a nudez. Ora, despir-se é também expor-se, oferecer-se tal como se é, em sua objetividade, e, portanto, de certa forma, renunciar a si mesmo, e nunca sabemos de antemão se nossa nudez será salva e revestida da graça do desejo. Há necessariamente na nudez um momento de sacrifício e, reciprocamente, a nudez, de uma forma ou de outra, faz parte integrante do sacrifício32.

Não pode ser de outra forma para o amor-próprio. É preciso, de certa forma, expor-se a si mesmo, renunciar à sua imperfeição, ou seja, aceitá-la como tal. O homem caído não tem mais nenhum “bem” além de sua queda. Por isso, recusa-se a separar-se dela e zela por ela com ciúme, mesmo que isso signifique acusar-se e condenar-se indefinidamente para justificar essa vigilância ciumenta. É isso o remorso, e é essa a sua ilusão. Não nos escondemos da dificuldade de nossa análise, mas ela decorre do fato de que o homem pensa espontaneamente em termos de ego. Renunciar à própria imperfeição nos parece, com demasiada facilidade, significar o desejo orgulhoso de uma perfeição inacessível, ou o efeito de uma consciência pouco exigente. Na realidade, em virtude da própria subjetividade ilusória do ego, renunciar à própria imperfeição e ver-se objetivamente como se é são as duas faces de uma mesma conversão. A humildade é, antes de tudo, objetividade. Ela não pode ser humilhação, mesmo e sobretudo quando somos nós mesmos que nos humilhamos.

Assim, é preciso despir-se de si mesmo, despojarse da vestimenta do ego, aceitar não mais se vigiar, perder-se de vista; e, sem dúvida, não podemos nos abandonar e virar as costas, para finalmente encarar o sol, sem estremecer e sem morrer, porque então não estamos mais lá para nos cobrir.